Natal: A encarnação do Verbo segundo São Leão Magno

Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)

Como é importante refletir sobre o Natal, mas sobretudo colocar-se numa atitude de adoração à encarnação que celebramos pois este ultrapassa a nossa mente e o coração. São Leão Magno, Papa do século V, teve presentes no mistério da encarnação, as duas naturezas que se uniram em Jesus. Meditemos um terceiro sermão dele, feitas nas celebrações eucarísticas para o povo de Deus.

  1. Luz visível

A luz visível, cujo nascimento é o Salvador da humanidade, trouxe alegria eterna aos corações puros. De um lado vemos neste nascimento o mistério segundo o qual o Filho de Deus é co-eterno com o Pai, e de outro lado ao seu nascimento na humanidade, o Verbo se fez carne. O Filho de Deus, igual ao Pai e tendo dele a mesma natureza, sendo Criador e Senhor do Universo, no curso dos tempos como Ele mesmo dispôs, escolheu esse dia para nascer da bem-aventurada Virgem Maria em vista da salvação do ser humano e do mundo. A virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamarão de Emanuel, cujo significado é: Deus está conosco (cfr. Is 7,14). Por esse admirável nascimento, a Virgem Maria pôs no mundo uma única pessoa, verdadeiramente humana e verdadeiramente divina, sendo um só e mesmo Filho que, enquanto verdadeiro homem é igual a nós em tudo menos o pecado, e enquanto verdadeiro Deus é igual ao Pai em tudo.

  1. Superação do arianismo: a sua humanidade e a sua divindade

A doutrina ariana negava a divindade do Verbo de Deus. Por isso o Concílio de Nicéia (325) afirmou que o Filho de Deus tem a mesma substancia do Pai e é Deus como o Pai é Deus, é Deus como o Espírito Santo é Deus. São Leão Magno foi nesta mesma direção ao criticar o arianismo afirmando que o Filho de Deus tem a mesma glória e é da mesma substância do Pai. O Papa afirmava que eles deveriam ter presente a palavra de Jesus que diz: O Pai e Eu somos um. Ele foi servo de todos, e é também na condição de Deus, antes dos séculos, igual ao Pai. Quando Ele se abaixou na humanidade, Ele se tornou filho de mulher e sujeito à Lei, mas em sua majestade divina, permanece o Verbo de Deus, pelo qual as coisas foram feitas. Cada natureza conserva o que lhe é próprio, sem diminuição, pois a condição de Deus não suprimiu a condição de servo e a condição de servo não diminuiu a condição de Deus. Na natureza completa e perfeita de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, todo no que lhe pertence e é nosso, menos é claro o pecado. Nele não há nada de pecado: Ele não fez parte em nossas faltas, de modo que elevou a humanidade até Deus,  não diminuindo a sua divindade.

  1. A realidade da redenção

Era preciso que o Senhor Jesus Cristo descesse até nós para nos dar a redenção dos pecados, porque não podíamos subir até Ele. A nossa natureza não podia ser restaurada seja pelo ensinamento da Lei ou pelas exortações dos profetas; era preciso que às instruções morais se juntasse a realidade da redenção, e a que a nossa origem renascesse com novos começos. Por isso à reconciliação humana com Deus era necessário que fosse oferecida uma vitima, e que ela fosse de nossa raça, mas isenta de nossa corrupção. Desta forma, o Plano de Deus era de apagar o pecado do mundo pelo nascimento, pela paixão, morte, ressurreição de Jesus Cristo e se estenderia a todas as gerações e a todos os séculos.

  1. Demora da Encarnação do Verbo

Algumas pessoas dos primeiros séculos se perguntavam por que houve a demora da encarnação do Verbo de Deus, criticando os planos divinos, alegando retardamento do nascimento do Senhor. O Papa São Leão Magno respondeu a essas pessoas, afirmando que o plano divino da salvação é dado em todos os tempos. Deus sempre veio ao encontro dos seres humanos. Mas teve um tempo que a salvação ocorreu e esta foi dada para todos os tempos na pessoa de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus na carne. Este mistério é envolto de grande amor, e, enche o universo inteiro. Ele é tão poderoso, também em seus sinais precursores, que aqueles que acreditaram quando Ele era prometido, não foram menos beneficiados do que aqueles que o receberam quando Ele foi dado e nós o acolhamos em nossos corações e em nossas vidas para amá-lo e adorá-lo sobre todas as coisas. Todas as pessoas foram beneficiadas pela presença do Verbo de Deus na carne.

  1. Celebração do Natal

É preciso celebrar o nascimento do Senhor com uma alegria imensa que não é contida pelas palavras. É preciso discernir, graças à luz do Espírito Santo, quem é aquele que nos recebeu em sua vida e que nós recebemos a Ele em nós, pois como o Senhor Jesus se tornou carne nossa, nascendo, e nós nos tornamos corpo dele, sempre numa linha do renascimento da vida. Desta forma somos membros de Cristo e templos do Espírito Santo. Em sua grande misericórdia, o Senhor tem o poder de apagar nossos pecados e de completar seus dons em nós.

Conclusão

São Leão Magno alude ao Natal na perspectiva da encarnação do Verbo como unidade da Pessoa do Verbo de Deus nas duas naturezas, humana e divina, e ao mesmo tempo como realização das promessas de Deus para todos os tempos e a todos os povos, porque foram beneficiadas pelo dom da Salvação de Deus para nós. Vivamos o natal na família, na comunidade e na sociedade.

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