Natal, o nascimento da vida

Dom Filippo Santoro

É de todas as religiões a exigência que o divino se manifeste; é também próprio do coração do homem que o Mistério último da vida se revele e ilumine os enigmas que se escondem em cada pessoa que vem ao mundo. E isso porque o coração humano deseja o infinito, quer encontrá-lo, mas não apenas com a ponta da inteligência, quer vê-lo, quer abraçá-lo. Desde o antigo Oriente e o mundo clássico da Grécia e de Roma se esperava a epifania da divindade na vida humana, mas a realidade da “encarnação” permanecia desconhecida; a mesma coisa acontecia com os “avatara” do hinduismo. Nestas visões falta o fato que a divindade assuma a natureza e a condição humana; isso é um “unicum” do cristianismo.

Afirmava o filosofo Ludwig Wittgenstein no seu Diário Filosófico: “O cristianismo não é uma doutrina, uma teoria daquilo que foi e que será na alma humana, mas é a descrição de um evento real na vida do homem”. Como nos diz o Evangelho de São João: “O Verbo se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14).  O significado do mundo não permaneceu distante, mas mostrou o seu rosto em Jesus, em Belém. De Maria nasce a luz e a esperança do mundo. Uma criança nos oferece o abraço de Deus.

Diz o escritor italiano Giovanni Testori numa obra chamada “A majestade da vida”: “ O Natal é o nascimento absoluto que reflete, assume, ilumina, e redime, abençoa e consagra todos os nascimentos da antes e depois. Cada homem que vem à luz repete o milagre do Natal de Cristo. Porque é Deus que quer aquela vida. Cada um desses nascimentos foi o motivo que o levou desde sempre a encarnar-se.

Celebramos também este ano o Natal como a festa da vida, que se tornou possível pelo nascimento de Jesus. Por isso (como já afirmamos com os Bispos do Leste 1 em ocasião das eleições presidenciais) renovamos a defesa da vida contra o aborto e todas as formas que atentam contra ela: exploração e mercado de menores, eutanásia e qualquer forma de manipulação genética.  Defendemos a vida para todos, em particular para os mais pobres, em todos os aspectos: educação, moradia, trabalho, segurança desde a infância até a velhice. Também consideramos, como afirma Bento XVI no seu ultimo livro ”Luz do mundo”, um grave atentado à vida a produção e o consumo das drogas: “O Ocidente tem uma terrível responsabilidade: precisa de drogas e assim cria paises que lhe fornecem aquilo que os levará à destruição. È uma estranha forma de felicidade que não consegue ficar satisfeita e se refugia no paraíso do diabo e destrói completamente o humano. Mas o homem aspira a uma felicidade sem fim, quer ir além de todo limite, anseia o infinito. Somos chamados a viver de uma forma que mostre que o infinito que o homem precisa só pode vir de Deus; que ele é a nossa primeira necessidade para enfrentar as tribulações do nosso tempo” (Edição italiana pp. 94- 95).

Neste mês de dezembro tivemos momentos bonitos da afirmação da vida; um foi a apresentação do Coral Integração que, no âmbito da programação Natal de Luz 2010, mostrou na Igreja do Rosário o canto natalino de 17 corais da cidade de Petrópolis. Na casa de Deus, dedicada a Nossa Senhora do Rosário, se reuniram cantores de todas as idades, condições sociais, níveis culturais e religiosos, unidos na espera do Senhor e no canto de amor à vida. Um raro espetáculo de beleza e de solidariedade que honra a cidade de Petrópolis.

O outro evento, histórico no seu valor, foi a reinauguração do órgão da Catedral São Pedro de Alcântara. Com uma solene liturgia e com um magnífico concerto do Maestro Marco Aurélio Lischt, a majestade do som do órgão voltou a ser ouvida elevando os ânimos ao mistério do Altíssimo. Foi um momento de fé, de arte, de cultura, de povo que viu a catedral lotada e em festa ouvido de novo o órgão construído em 1937 por Guilherme Berger. Nesta iniciativa da Diocese de Petrópolis, foi decisiva a colaboração das autoridades públicas: do Governador Sergio Cabral, do Senador Dornelles, do então Ministro da Cultura Gilberto Gil, dos Prefeitos, antes Bontempo e agora Paulo Mustrangi com suas secretarias, da família dos organeiros Rigatto e dos assessores da Mitra Diocesana que, instigados pelo Bispo, corriam atrás do dinheiro que muitas vezes ficava encalhado. Preferimos conduzir toas as negociações diretamente como Diocese, sem intermediários, para pagar somente os custos efetivos, sem aumentar os gastos públicos. Temos agora neste órgão um dom extraordinário para a beleza do serviço litúrgico, para a arte e para a educação cultural e espiritual do nosso povo.

Com este órgão, renasce uma parte da vida de Petrópolis que na sua história imperial sempre valorizou a fé e a cultura. Que este Santo Natal seja para todos um momento de vida no encontro com o Filho de Deus que vem abraçar as nossa famílias e reacender a esperança.

Feliz Natal para todos.

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