Natal “por dentro”

Dom Luiz Gonzaga Fechio
Bispo da Diocese de Amparo (SP)

Se a palavra “Natal” nos remete a “nascimento”, este termo, por sua vez, nos leva a pensar, necessariamente, na chegada de uma nova vida. Todo ser humano tem o “seu” natal, no dia da celebração ou da comemoração da sua vida, quando, após o tempo da gestação, chegou, definitivamente, para iniciar sua jornada neste mundo, como alguém único(a), e não mais um(a), simplesmente.

No entanto, o Natal não é a partir da minha ou da sua vida, nem de alguém daqueles e daquelas que já fizeram sua experiência de vida ou ainda o farão, por mais fama que tenham, segundo a atribuição da sociedade. Obviamente, não há nenhuma novidade nestas minhas palavras, porém, a lembrança do óbvio nos possibilita refletir alguns desdobramentos de tal constatação, na realidade cotidiana atual.

Sendo perfeitamente conhecido que Natal é nascimento do Menino Jesus, o final deste ano que a bondade de Deus está nos concedendo viver, se assim acreditamos, não pode ser apenas mais um, acrescentado aos anteriores, meramente,

Jesus nasceu e sua vida é um dado histórico que não pode ser negado, ainda que um ateu não o aceite. A questão não é aceitar este fato, tão somente, até mesmo porque ele se deu a mais de 2000 anos, e, num primeiro momento, isto não justificaria um interesse especial.

Jesus nasceu, mas ninguém sabe como constava com precisão tal acontecimento em sua “certidão de nascimento”, nem seria contemplado querendo satisfazer uma curiosidade de reportagem jornalística. Por mais histórico e extraordinário que tenha sido este fato, situado num determinado tempo cronológico e específico lugar, o Natal não existe para uma lembrança do passado, ainda que esta recordação seja com boas intenções. Poderíamos, ainda, destacar a importância deste nascimento pelo marco que ele representa, numa referência de classificação do tempo, antes e depois de Cristo.

A extraordinariedade maior, no entanto, deve ser buscada no efeito renovador, transformador, sempre novo, que este nascimento possibilita causar em cada pessoa, e, para isso, é necessário que a nossa liberdade permita, pois Deus não deseja forçar nada, impor-se, mas propõe-se, esperando uma acolhida. A espera do nascimento de um bebê acontece, geralmente, num clima de expectativa, alegria e esperança para a chegada de alguém que é diferente de toda pessoa que já existiu, existe ou existirá. Infelizmente, por diversas situações específicas que não cabe elencarmos aqui e que não podem ser atribuídas como vontade de Deus, como muitas vezes se faz sem melhor reflexão, este clima não se torna possível com certa naturalidade, mas tal constatação não significa que aquela verdade não esteja valendo.

Quando alguém aniversaria, saudamos, parabenizamos, cumprimentando a pessoa e, de acordo com a circunstância, oferecemos-lhe um presente ou algo que expresse o nosso carinho por ela. O Natal novamente está sendo proposto a cada um de nós, na oportunidade que Deus está nos oferecendo mais um ano, para voltarmo-nos mais atentamente ao aniversariante pelo qual esta grande festa recebeu o nome “Natal”. Se “Natal” é uma palavra que não tem como não ser relacionada a uma pessoa específica, independentemente do credo que se professa, ou até nenhum, não deveríamos entrar no ano novo sem contemplar mais atentamente esta pessoa.

Contemplar é um verbo muito sério, quanto à atitude que nos é proposta, pois não se trata apenas de enxergar com natural capacidade ocular, e sim, como costumamos dizer, quando queremos realçar o alcance da visão, ver com “profundidade”. Que pena, quando o alcance chega somente a “um palmo do nariz”, mesmo que seja diante do presépio! Não basta e não adianta arrumar ou fazer a montagem das peças, gastar belas palavras nas mensagens orais ou escritas, trocar todos os possíveis presentes, sem contar a exagerada comilança. Minha intenção não é desprezar agressivamente estes hábitos. Não é este o sentido, aqui, a não ser numa circunstância de notável desequilíbrio. No entanto, como bem sabemos, tudo isto passa, e mesmo que seja prática repetida por muitos anos e propicie certa satisfação, não assegura a experiência de uma alegria que só é possível ser vivenciada quando se prepara e se oferta todo o ambiente do que acima foi descrito a partir “de dentro”. Esta expressão me faz lembrar um pensamento, acompanhado ou não de alguma imagem ou desenho, que muitos, como eu, receberam e talvez enviaram nas redes sociais, particularmente no whatsapp, pensamento, a meu ver, que se encaixa entre aqueles sobre os quais comentamos assim: “diz tudo em poucas palavras”. A mensagem é esta: “Comece de novo. Por onde? Por dentro”.

“Qual” Natal pretendo viver, a partir das minhas convicções que, certamente, expressam meu modo de ser, e que, consequentemente, irei propor como modelo aos que estiverem ao meu redor? Qual é o lugar que atribuo a Jesus, nesta opção? Conforme a decisão, inevitavelmente explicitada na multiplicidade de pequenos gestos, ao longo de cada dia do novo ano, estarei exteriorizando o autêntico Natal, ou seja, o Natal “por dentro”, ou, tristemente, um natal qualquer…

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