O coração do padre

Aconteceu neste inverno: um jovem foi de madrugada visitar a namorada. Como o termômetro marcava seis (6) graus negativos; observei: jovem, você estraga sua saúde, pois é frio demais para ir de moto às montanhas. E o jovem: “Esta frio aí fora, mas aqui dentro (batendo no peito) está calor”!

Lembrei-me da reação dos discípulos de Emaús, com os quais Jesus ressuscitado caminhou e partiu o pão: “Não se abrasava nosso coração enquanto nos falava pelo caminho e nos explicava a Escritura”? (Lc 24,32).

Acompanhei muitos jovens no discernimento vocacional. Entre dúvidas e preces, de repente chega a opção: “Aqui estou, Senhor”. E tranqüilamente se prostra diante do altar, disponível para o ministério, participando do sacerdócio de Cristo. Será que é isto que o Cura d’Ars queria dizer quando afirmou: “O sacerdócio é o amor do coração de Jesus”?

O salmista exprime a mesma realidade interior assim: “O Senhor é a porção da minha herança… minha herança é magnífica” (Sl 16, 5-6).

O Apóstolo Paulo lembra ao jovem Timóteo que não basta optar, mas é preciso estar vigilante: “Não descuides teu carisma pessoal, que te foi concedido por indicação profética, quando os anciãos te impunham as mãos”. E continua: “Vigia tua pessoa e teu ensinamento e sê constante” (1Tim 4,14-16).

O padre está a serviço do povo, a exemplo de Cristo, pastor do rebanho. Certo dia vi a cena seguinte: Uma jovem senhora visitava com freqüência um seminarista inteligente e cheio de saúde. Ela insistiu que um homem precisa de esposa e filhos. O moço escancarou a janela do quarto, apontou para as vilas pobres perto do seminário e disse: “Eis minha esposa e meus filhos”.

Quando o coração se abrasa de amor por Deus e pelo povo, o padre perde o medo e joga sua vida pela causa. De fora pode parecer imprudência. Mas é ardor destemido, fruto do amor. Conheci esta intrepidez no jovem Padre Josimo, abatido covardemente na região do Tocantins, porque apoiava o direito dos despossuídos à terra. Assim também vejo o heróico Padre Gisley, empenhado em denunciar o assassinato de milhares de jovens. Foi emboscado e morto na periferia de Brasília. Bem disse Paulo a Timóteo: “O espírito que Deus nos deu não é de covardia, mas de força, amor e sobriedade” (2Tim 1,7).

Escutei um padre falar às lideranças: “Hoje um padre não sustenta sua vida de consagrado sem a amizade dos paroquianos”. Portanto, haja apoio humano e oração pelos padres. Parabéns aos padres pelo Dia do Padre.

Dom Aloísio Sinésio Bohn

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