O Gigante da Pregação Apostólica

Quando a comunidade cristã primitiva estava crescendo, pouco tempo depois da morte e ressurreição de seu fundador, Jesus de Nazaré, havia um homem ardentemente zeloso pela sua crença religiosa. Chamava-se Paulo de Tarso, defensor ferrenho e intransigente da pureza de sua religião, o judaísmo, no qual ele se aprofundava mais do que qualquer outro judeu piedoso de sua raça, “distinguindo-se no zelo pelas tradições paternas” (Gl 1,14).

Na expressão de Daniel Rops, eleito para a Academia francesa em 1955, ele era “possuído de uma fúria estranha, desse fanatismo religioso e dessa inquieta convicção de estar na posse da verdade que introduzem no coração humano tanto azedume e tanta violência…” No entanto, ele era apenas um homem como tantos outros de seu tempo e de sua época, mergulhado nas controvérsias do quotidiano e profundamente preocupado, também, com as questões mais prementes da vida religiosa. No auge de sua própria “ignorância” – como ele mesmo reconhece mais tarde –, perseguia, implacavelmente, os adeptos do “Caminho”, “respirando ainda ameaças de morte contra os discípulos do Senhor” (At 9,1). Mas, uma “Luz o derrubou na estrada” de Damasco: “Saulo, Saulo por que me persegues?” (At 9,1-18).

É, pois, com esta pergunta inesperada do Ressuscitado – enquanto sua visão é inundada por uma claridade ofuscante –, que começa o drama espiritual do gigante da pregação apostólica que vai levar aos quatro cantos do mundo de então a mensagem salvadora que, paradoxalmente, é apresentada como a “palavra da cruz” (1Cor 1,18). E esta “palavra da cruz” marcará a sua vida, definitivamente, até o fim da sua existência, quando pagará com o preço do sangue derramado o valor de sua conversão, porquanto foi o próprio Senhor quem disse a Ananias, amedrontado com a fama de perseguidor de Saulo, : “Eu mesmo lhe mostrarei quanto lhe é preciso sofrer em favor de meu nome…” (At 9,16). Sua vida não teve mais sossego!!! Tocado por uma graça especial de Cristo, que o chamou como a um abortivo, “o menor dos Apóstolos”, Saulo que será Paulo, deixa-se transformar radicalmente. Ele arriscou tudo pelo Cristo. O convertido não prega a si mesmo, “mas a Cristo Jesus”, de modo que todos “vejam brilhar a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2Cor 4,4-5), cujo conteúdo teológico podemos beber no grande legado espiritual de sua conversão e de sua vida, encontrado no texto sagrado de suas cartas.

Sofrer pelo Cristo deve ser a glória do cristão convicto! Contudo, este não é um apostolado fácil. O cardeal Van Thuan, com quem Cristo quis dividir o “cálice amargo”, e que passou treze anos na prisão, nove dos quais na solitária, disse, com razão, que nós gostamos de ver e admirar os estigmas nos santos, mas recusamos os que Cristo, paulatinamente, tenta imprimir no nosso próprio coração… Mas, como Paulo, ele foi capaz de aprender e aceitar que “a cruz é a primeira letra do alfabeto de Deus”. Talvez, o alfabeto mais difícil de aprender. Na verdade, como escreveu ainda Daniel Rops, “os problemas que o [os] atenazaram são os mesmos que eternamente nos dilaceram. E quando ouvimos a menor de suas palavras, reconhecemos nela esse tom de confidência inesquecível que só alcançam aqueles que arriscam tudo…”

Que a coragem dos santos, fiéis seguidores de Jesus, até assinalarem sua vida com o martírio de sangue, qual testemunho eloqüente de um amor que sobrevive à própria morte, ajude-nos a arrancar de nós mesmos, com a graça de Cristo, a ousadia determinante da verdadeira e autêntica conversão.

Pe. Gilvan Rodrigues dos Santos
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma
Pároco da Paróquia Jesus Ressuscitado em Aracaju

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10/07/2017

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