O Jejum e a Quaresma

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro, RJ

 

Uma das práticas recomendadas para a quaresma é o jejum. Esta é uma tradição da penitência cristã, especialmente neste tempo especial da Quaresma.

O jejum convida o homem a regular a função humana que constitui uma memória concreta de sua origem cósmica: a função da alimentação. Na verdade, o ser humano não pode sobreviver e se desenvolver de forma harmoniosa se não for alimentado com moderação.

         Encontrar o equilíbrio na forma de se alimentar, de cuidar de si exteriormente, é também uma forma de cuidar da vida interior, este dom precioso de Deus.

Ao propor o jejum no tempo quaresmal, a Igreja dá provas de grande sabedoria, pois faz com que todo cristão verifique a relação entre seu corpo, suas necessidades corretamente compreendidas e o sentido geral da vida e seus verdadeiros valores, com um sentimento de alegria, e de serenidade.

         O jejum, finalmente, enfraquece o poder da nossa violência humana e social, nos desarma e representa uma grande oportunidade para o crescimento; por outro lado, expressa a condição de nosso espírito, a bondade a fome e a sede de vida eterna.

O Papa Francisco no final de sua mensagem para a Quaresma, nos exortou a participarmos da iniciativa de “24 Horas para o Senhor”, que nos convida a celebrar o sacramento da reconciliação em um contexto de permanente adoração eucarística.

O Jejum, é um sacrifício voluntário, dando-se algo enquanto legítimo, tendo cumprido os deveres de justiça e caridade evangélica.  Porém, o jejum apresenta diferentes motivações, e esta devem nortear a vida e vocação do batizado; a educação da vontade, a partilha do sofrimento de Jesus, a penitência por seus pecados, e também, a caridade, e a esmola.

O Jejum, também, é uma crítica aos excessos da nossa sociedade de consumo em que estamos envolvidos, sim, é uma crítica dos nossos excessos, tantas vezes somos mergulhados no exagero demasiado, esquecemos do essencial, pois a maioria dos seres humanos nesta terra ainda em situações de miséria abandono e opressão, alguns até morrem de fome.

 O jejum, é uma atitude que nos ajuda a entender aqueles que passam por dificuldades materiais, e assim nos solidarizarmos com eles. Nós cristãos não jejuamos para cumprir preceitos ou tradições, simplesmente. Jejuamos também para sermos mais solidários e fraternos com os nosso irmãos e irmãs necessitados.

Esse itinerário de quarenta dias levando ao Tríduo Pascal, memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor, constitui o coração do mistério da Salvação.

         Quaresma acompanhando das práticas penitencias, como o jejum, é um tempo de mudança interior e de arrependimento.  Jejum, oração e esmola são os sinais, ou melhor, as práticas fundamentais para viver este tempo da Quaresma.

Jejum significa abstinência de comida, mas inclui outras formas de privação para uma vida mais sóbria.  Não é simplesmente privar-se da carne ou da alimentação, pode-se também fazer o jejum de outras práticas exageradas do cotidiano.

Quando atribuímos mais tempo a escuta de Deus e do outro, ao invés de utilizar demasiado as redes sociais, quando olhamos nos olhos das pessoas quando lhe dirigimos a palavra, quando somos capazes de cumprimentar quem quer que seja, ao encontrar pelo caminho, enfim, são tantas as maneiras de viver o jejum proposto.

O Papa Francisco em sua mensagem para a Quaresma, diz que o jejum  “representa uma oportunidade importante para o crescimento, porque nos permite experimentar o que sentem aqueles que não têm sequer as necessidades básicas e nos faz  estar mais atentos a Deus e ao próximo,” (https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2019-02/papa-francisco-mensagem-quaresma-2019.html, último acesso em 02 de março de 2019) desperta em nós a vontade de obedecer a Deus, o único que Satisfaça a nossa fome, diz o Papa.

A Quaresma é um tempo privilegiado para a caridade. São João Crisóstomo exorta: “Embeleze sua casa de modéstia e humildade com a prática caridade, assim, prepare para o Senhor um lar digno, assim o receba em um esplêndido palácio”.

Segundo nos ensina São Leão Magno em um de seus sermões Quaresmais: “Cada cristão é chamado a fazer o jejum em todos os momentos, na Quaresma devem praticá-lo com maior cuidado e dedicação e não consiste apenas em abstinência de comida, mas também e sobretudo dos pecados”.

Então, para esses jejuns obedientes e sagrados, nenhum trabalho pode ser mais proveitosamente associado com a caridade, que sob o nome único de “misericórdia” abrange muitas boas obras de caridade evangélica.

Assim, o jejum torna-se santo pelas virtudes que o acompanham, sobretudo pela caridade, por todo gesto de generosidade que dá aos pobres e necessitados, o fruto de uma privação.

Não é por acaso que, nas Dioceses, paróquias, e comunidades, na Quaresma se propõe de forma concreta o gesto de fraternidade e de caridade, a Igreja promove a “Campanha da Fraternidade” para incentivar os fiéis na pratica da penitência de forma envolvente e comunitária.

Portanto, assumamos o compromisso com as práticas penitencias da Quaresma, e pelo jejum em especial, sejamos capazes de oferecer mais alento humano e espiritual aos nossos irmãos e irmãs que muitas vezes não tem nem se quer o necessário para viver dignamente.

O Senhor nos ajude a percorrer este itinerário Espiritual, em preparação à Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, com renovado ardor espiritual na busca pela conversão sincera.  E nunca devemos esquecer, que o exercício da caridade cristã nos liberta da ganância e nos ajuda a descobrir que o outro é nosso irmão.

 

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