O meu Deus é um Deus ferido

João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo de Montes Claros

 

Esse é o título de um belíssimo livro de autoria do Pe. Tomás Halík, traduzido em Portugal, no ano de 2015, por Artur Morão e publicado pelas Paulinas Editora. A tradução brasileira foi mais fiel ao título original, traduzido por Markus Hediger e publicado pela Editora Vozes em 2016: “Toque as feridas: sobre sofrimento, confiança e a arte da transformação”. A edição portuguesa chegou em minhas mãos por primeiro. Tinha lido do mesmo autor o livro “Paciência com Deus”, também numa edição portuguesa.

Pe. Tomás Halík nasceu em Praga, no ano de 1948. Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Charles de Praga, estudou clandestinamente teologia e foi perseguido, durante a ocupação comunista, como inimigo do regime. Ainda na clandestinidade, foi ordenado presbítero em 1978, tendo sido um dos mais próximos assessores do cardeal Tomásek, um dos ícones da chamada “Igreja do silêncio”. Com o fim do regime comunista, foi conselheiro do presidente Václav Havel. Mais tarde, foi secretário geral da Conferência Episcopal Checa. Várias de suas obras já estão publicadas no Brasil.

O título “O meu Deus é um Deus ferido” chamou, imediatamente, minha atenção. Deparei-me com um autor de enorme envergadura espiritual, humana e cristã. A origem dessa sua obra é a vivência de uma forte experiência com o sofrimento. Numa celebração eucarística, em visita à Índia, Pe. Tomás proclamou o trecho do evangelho de São João onde se narra a aparição de Jesus ressuscitado a Tomé. À tarde, seu anfitrião o levou ao lugar onde o apóstolo Tomé, segundo a lenda, foi torturado até à morte, e depois a um orfanato católico, vizinho poucos metros.

É preciso escutar seu relato: “Em berços, que mais faziam lembrar gaiolas de aves, jaziam criancinhas abandonadas com barrigas inchadas pela fome, pequenos esqueletos, revestidos apenas de uma pele negra, muitas vezes inflamada; nos corredores, que pareciam intermináveis, miravam-me, em toda a parte, os seus olhos febris e estendiam-me as palmas das mãos cor-de-rosa. O ar cortou-me a respiração, no meio do fedor e do choro senti um mal-estar psíquico, físico e moral; vi-me sufocado e tolhido por um sentimento de impotência e de intensa vergonha […]. Mas justamente naquele momento irrompeu em mim, vinda das profundezas, a frase: “Toca nas chagas!” E ainda: “Chega cá o teu dedo! Olha as minhas mãos e estende a tua e põe-na no meu lado.”  De repente, abriu-se de novo a história do apóstolo Tomé, tirado do Evangelho de João, que eu lera, na missa da manhã, junto do túmulo do “padroeiro dos céticos”. Jesus identificou-se com todos os pequeninos e com os que sofrem – assim todas as feridas dolorosas, todo o sofrimento do mundo e da humanidade, são as “chagas de Cristo”. Crer em Cristo, poder dizer “meu Senhor e meu Deus”, só posso fazê-lo se tocar nestas feridas, de que também o nosso mundo está, hoje, cheio.”

A leitura dessa obra nos faz meditar sobre o mistério do sofrimento de Deus. De um Deus que se deixou ferir e se identificar com a humanidade em suas dores. A fé cristã é única a apontar para o mistério da cruz como mistério redentor. “Fomos curados por suas chagas” (53,5). O nosso Deus é um Deus ferido e se deixa tocar nas feridas humanas.

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