O Mistério de um Amor Incondicional

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

Nós vos adoramos Santíssimo Senhor Jesus Cristo que por vossa Santa Cruz redimistes o Mundo inteiro. Sexta-feira Santa! Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O Senhor viveu dias de solidão, de angústia, dor e tormento, sentiu-se traído, abandoando, e esquecido pelos seus amigos, em tudo, Ele aceitou assumir a nossa condição humana, exceto no pecado. “Eloi, Eloi, lamá sabactani”, Meu Deus, por que me abandonaste?’ (cf Mc 15,34).

Celebramos Jesus Cristo, o nosso Salvador, que nos salvou com o dom da sua vida entregue, doada por um amor incondicional. A Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo é o símbolo da nossa vitória.

Para aqueles que estavam com Ele no momento de sua agonia, Jesus, nazareno, o rei dos judeus, não pediu praticamente nada; o único pedido era poder satisfazer sua sede. Deram-lhe uma esponja com vinagre.

Hoje Cristo tem sede de nossa sede; Ele tem sede de serenidade, de saúde física e moral, de harmonia em nossas famílias, de ar e ambiente puro e saudável, de trabalho honesto para todos os homens e mulheres de nosso tempo que vivem sem dignidade, a margem da sociedade.

Hoje Cristo tem sede de nossa sede; Ele nos chama a conversão, nos convida a viver em   fraternidade sincera junto aos nossos pastores, em comunhão eclesial nas paróquias e comunidades, o Senhor nos convida a viver e assumir o ministério da caridade, e cultivar com ardor a paixão pelo Evangelho da Cruz e da Ressurreição.

Cristo nunca nos deixará órfãos, esquecido, ou abandonado, somos aqueles por quem Ele deu a vida; e desde que Ele aceitou assumir e compartilhar nossas dores e angustias humana, nossa fome e sede diária, estamos certos de que ele também saciará nossa sede de vida eterna, pois vivemos na esperança de um dia estarmos juntos face a face com Ele na plenitude da vida que jamais findará.

A celebração que estamos vivenciando neste dia sagrado da memória da Paixão e Morte de Nosso Senhor, expressa bem o sentido e a atitude dos fieis cristãos nesta Sexta-feira Santa, sobre tudo, nossa gratidão ao Senhor por tão grande amor por todos nós, sem distinção.

Somente um amor grande e incondicional sem limites, é capaz de dar a própria vida pelos seus, sem esperar nada em troca, sem querer recompensa, é um amor gratuito. Jamais conseguiremos mensurar tamanho amor, o amor de Nosso Senhor por cada um de nós.

Nossa celebração abriu-se com o gesto da prostração vivida em silêncio. Este gesto quer nos lembrar que para nos abrirmos para o verdadeiro significado da morte de Jesus, temos a necessidade de adorar e reverenciar através do silêncio interior.

A história da Paixão e Morte de Jesus, como bem sabemos, continua nos Evangelhos, na história da ressurreição, é o tesouro mais precioso guardado no coração da cristandade através da comunidade cristã desde o início da fé apostólica.

Não é coincidência que a história da paixão ocupa, em todos os quatro evangelhos, um lugar especial. Mas não é difícil entender o porquê. A paixão foi vista, desde o início, como o momento privilegiado da manifestação do amor de Deus.

Dada a importância deste grande acontecimento na história da Salvação, nos diz o Evangelista, “tendo amado os seus, que estavam no mundo amou-os até o fim”, (cf Jo 13,1), não significa simplesmente que o fim chegou, mas que Jesus levou ao limite extremo de sua doação.

O Filho de Deus não poderia fazer um gesto mais cheio de amor do que isso. Nada poderia revelar mais sobre o amor do Pai. A história de amor entre Deus e a humanidade alcança seu cume aqui. Eis o mistério mais sublime, mais sagrado da história.

É por isso que a Liturgia não nos faz viver esta celebração como um luto, mas como uma contemplação serena, comovida e grata do amor de Deus.

Depois de ouvir o relato da paixão, nossa celebração continuará com uma grande invocação pelas necessidades da Igreja e do Mundo. Esta é a oração universal, nós então rezaremos pela Igreja, por seus pastores, pelos cristãos, pelos catecúmenos, e os irmãos crentes de outras religiões, e não-crentes, rezaremos pelo mundo inteiro.

O amor revelado através da Paixão e Morte de nosso Senhor Jesus Cristo nos impele a implorar que ela frutifique em nossa vida, o amor e a caridade, na Igreja e no mundo.

Finalmente comunhão, com o Pão Eucarístico consagrado na Missa de ontem à noite, em memória da Sagrada Ceia do Senhor, Cristo nos unirá profundamente a nós em um amor sem limites.

Estejamos abertos e disponíveis de coração, para que esta celebração litúrgica possa entrar em nossa vida, consolá-la, alimentá-lo, sustentar a nossa fé, e aumentar a nossa alegria de sermos redimidos, nos tornar mais firmes e encoraja-nos para corresponder ao amor de Deus, no amor aos irmãos e irmãs.

O evento pascal da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus é o centro da fé cristã. A fé que salva está ligada ao Ressuscitado, mas deve passar pelo Calvário. A cruz é a porta que leva à Ressurreição.

A palavra de Deus nos ajuda a entender o significado do sofrimento. De fato, o sofrimento de Cristo ilumina nosso sofrimento, tornando-o digno de um acesso especial ao reino dos céus.

Se a vida é colorida com o sangue da cruz, não podemos deixar de aceitar este desafio que nos leva a caminhar com Cristo, no caminho da dor, que é o caminho da libertação.

Os cristãos de todos os tempos sempre contemplaram esta história de dor e amor com gratidão e emoção, ou melhor, a viver no seguimento radical de Jesus através da conversão.

Jesus Crucificado é a pessoa diante da qual só há que se ajoelhar, pedir perdão, agradecer-lhe pelo que fez por nós no mistério da dor, mas também no mistério da vida doada, e da alegria.

O apóstolo Paulo nos lembra dessas atitudes do coração e do intelecto, em sua carta aos filipenses o Apostolo lembra que “Cristo, embora na condição de Deus humilhou-se ao tornar-se obediente até a morte e à morte na cruz, exaltou-o e deu-lhe o nome que está acima de cada nome, de modo que em nome de Jesus todo joelho se dobra nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua proclama: “Jesus Cristo é Senhor!”, para a glória de Deus o pai “(Fl 2,6-11).

A Semana Santa é um tempo de graça excepcional; é a celebração e atualização da maior história já narrada, a de um Deus, o Deus dos cristãos que tanto amou o mundo que deu e continua a dar seu Filho como propiciação, como redenção, como o sacramento universal de salvação e misericórdia.

E é precisamente através da liturgia da Igreja, nas esplêndidas e ricas celebrações da Semana Santa, o lugar onde se pode viver e receber graças abundantes. Dito de outra forma; se desconsiderarmos, se não participarmos das celebrações litúrgicas desses dias sagrados, perderemos o melhor deles, sua essência, seu coração, seu principal dom.

Isto implica um dever, confere um direito, o de participar nas celebrações da Semana Santa. Este não é simplesmente um momento do ano litúrgico, mas é a fonte de todas as outras celebrações do ano litúrgico, porque todas elas remetem e remetem ao momento do grande mistério pascal.

De fato, a morte morreu, a maldição foi cancelada, a escravidão do diabo foi suprimida. Deus se reconciliou com os homens, o céu se tornou penetrável, os homens com anjos se uniram, as coisas que estavam distantes foram unidas, a barreira foi removida.

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