O mito de sísifo

Dom Aloísio A. Dilli
Bispo de Santa Cruz do Sul

 

Estimados diocesanos. Nos anos ‘70, durante os estudos de Filosofia, lemos o livro do existencialista Albert Camus: A Peste. Usando o antigo mito de Sísifo, o autor descreveu a estória de uma aldeia argelina, atingida pela peste bubônica que levaria a maior parte das pessoas, senão todas, à morte; mas mesmo assim era preciso lutar contra o mal que ceifava vidas sem parar. O livro foi motivado pela segunda Guerra Mundial e suas conseqüências, servindo como metáfora para questões surgidas após o conflito.

Trata-se de um romance que coloca o homem frente à situação-limite que mais o aflige: a morte. Não tanto como resultado do ciclo normal da existência, mas a morte trágica, dolorosa, com sofrimento; identificada como um capricho cruel que surge de repente, impondo um fim gradual, pavoroso, absurdo; sequer admitindo esperança de alteração do quadro. Na época, outros autores existencialistas alimentaram a mesma crise filosófico-existencial, como Jean Paul Sartre, considerando a vida um absurdo caminhar para o nada, para o vazio, para a morte, portanto, “uma paixão inútil”.

Mas o que mesmo significa o mito de Sísifo? Os povos antigos gostavam de usar comparações, estórias, mitos, para ensinar. A mitologia grega conta que Sísifo, por amar a vida e menosprezar os deuses e a morte, foi condenado a realizar um trabalho inútil e sem esperança, por toda a eternidade. Devia empurrar, sem descanso, enorme pedra na direção do alto de uma montanha, ciente de que não alcançaria o objetivo, pois ela rolaria abaixo novamente para que o absurdo herói mitológico descesse em seguida até a planície e empurrasse mais uma vez a enorme pedra para o alto, e assim continuar numa repetição monótona e interminável através dos tempos. O inferno de Sísifo era a trágica condenação de estar realizando algo, sem esperança e que a nada levaria.

Se a segundo Guerra Mundial, retratada simbolicamente por Camus na peste da aldeia argelina, dizimara absurdamente milhões de vidas humanas, surgiria talvez a mais inquietante pergunta do século vinte ou de toda história da humanidade: Qual é mesmo o sentido da vida, se tudo acaba na morte, tantas vezes trágica e absurda? Não seríamos também nós Sísifos a tentar rolar todos os dias uma enorme pedra na direção do topo de uma montanha para depois despencar, ladeira abaixo, e ser empurrada novamente, sem sucesso, já previsto, no dia seguinte? Não estaríamos empenhados num grande esforço, num grande sacrifício que poderia não estar levando a nada como o sisifismo da mitologia ou à “paixão inútil” de Sartre?

Para nós cristãos, alimentados pela fé, mesmo cientes do caminhar para a morte física, que um dia nos visitará, há uma nova luz em meio ao pensar trágico dos filósofos existencialistas ateus, pois se não havia possibilidade de salvação para a pessoa humana, por si mesma, o próprio Deus, em sua misericórdia (=Deus colocou seu coração junto à nossa miséria), por Jesus Cristo, assumiu nossa condição humana e a redimiu, rolando definitivamente a pedra de Sísifo ao topo da montanha, pela cruz do calvário, dando esperança e sentido à vida, até ao sofrido rolar da pedra, e ensinando a dar-nos as mãos para fazê-lo juntos, em comunhão fraterna e unidos a Ele. Pela morte e ressurreição, Jesus Cristo veio redimir nossa condição humana trágica e abriu as portas da eternidade, dando novo sentido para a vida, alimentando-a com a dimensão da esperança e da alegria. Com Ele e os irmãos conseguiremos rolar a pedra ao topo da montanha.

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