O Padroeiro da Cidade e a Paz

Dom Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

O padroeiro da cidade e da Arquidiocese do Rio de Janeiro nasceu em Narbona, então pertencente ao Império Romano, particularmente situada no sul da França, antiga Província das Gálias. Quando Sebastião era ainda pequeno, sua família mudou-se para a cidade de Milão, um pouco mais próxima de Roma, que era a capital do Império. Ali morreu seu pai, ficando o menino entregue aos cuidados maternos.

Os cristãos eram perseguidos como inimigos do Império Romano pelo fato de não adorarem os deuses pagãos. Todos os que adotassem o caminho cristão seriam aprisionados e lhes eram confiscados os seus bens. Nesse cenário, a mãe de Sebastião, sendo cristã, transmitiu ao filho o dom da fé cristã, incutindo nele os valores do Evangelho de Jesus Cristo. Ela lhe transmitiu uma fé viva e verdadeira, que o comprometia em tudo e sempre.

No contexto das perseguições das autoridades do Império Romano, no ano de 303, para com os cristãos, Sebastião, oficial do Império Romano, sempre tomava a defesa de seus irmãos na fé.  Desde o ano 63, quando Nero era imperador romano, os cristãos foram quase ininterruptamente perseguidos. De tempos em tempos, um imperador declarava o extermínio sumário dos cristãos. Cada um deles decretava uma perseguição mais feroz do que outra. A perseguição a que nos referimos, iniciou-se precisamente no dia 23 de fevereiro de 303 e foi ordenada pelo imperador Diocleciano, com o seguinte decreto: “Sejam invadidas e demolidas todas as Igrejas! Sejam aprisionados todos os cristãos! Corte-se a cabeça de quem se reunir para celebrar o culto! Sejam torturados os suspeitos de serem cristãos! Queimem-se os livros sagrados em praças públicas! Os bens da Igreja sejam confiscados e vendidos em leilão!” Essa perseguição atroz ocorreu por três anos e meio.

Sebastião, logo que chegou a Roma, foi promovido a oficial do Exército Romano, dando-lhe a patente de comandante dos pretorianos, guardas-pessoais do Imperador. Nesse período São Sebastião trabalhava na corte. Enquanto isso ajudava seus irmãos na fé, encorajando-os a perseverar diante das dificuldades, sendo por isso chamado de “auxílio dos cristãos”.

Sebastião instruía muitas pessoas no cárcere acerca das verdades da fé e da necessidade de na paz testemunhar Jesus Cristo. Muitos companheiros que Sebastião tinha instruído e convertidos à fé cristã iam sendo descobertos, presos e mortos. A primeira foi Zoe, esposa do carcereiro. Foi surpreendida e presa quando rezava no túmulo dos Apóstolos Pedro e Paulo. Recusando prestar culto aos deuses romanos pagãos, foi queimada e suas cinzas foram jogadas no rio Tibre, em Roma.

Diante de tanto sangue e perseguição, São Sebastião ensinou que a perseverança é a palavra fundamental, reveladora do segredo e do sucesso de quem segue a Cristo e que não teme o martírio. Os católicos redobravam, na perseguição, suas orações e jejuns, pedindo a Deus que os fortalecesse para o combate e mantivesse viva a convicção de que Deus é quem dá a perseverança, e a vitória é que dá a paz de consciência e de vida para quem O segue.

São Sebastião, depois de um certo tempo, foi denunciado de ser cristão ao Prefeito de Roma e ao Imperador, e a sua liberdade representava um perigo à ordem estatal.

Sebastião se apresenta diante do imperador, que o interroga. Diante dos presentes estupefatos, confessa sua fé e diz resolutamente ser cristão. O imperador logo o acusa de traidor. Sebastião lembra que esta acusação é uma absurda mentira, pois até agora tem cumprido fielmente seu dever para com a Pátria e o imperador, protegendo-lhe a vida em muitas circunstâncias.

Em vista da confissão de São Sebastião, o imperador ordenou que o amarrassem a uma árvore, num bosque dedicado ao deus Apolo. Que o crivassem de flechas, mas não atingissem seus órgãos vitais, para que morresse lentamente. Assim foi feito! Com a perda de sangue e a quantidade de feridas, Sebastião desmaiou. Julgando-o morto, os flecheiros retiraram-se. Muitos cristãos, discípulos de Jesus pela catequese de Sebastião, que haviam preparado o necessário para o enterro, foram buscar o corpo. Qual não foi a surpresa daqueles cristãos quando perceberam que Sebastião respirava ainda. Estava vivo! Levaram-no à casa da matrona Irene, esposa do mártir Caustulo e, com muito cuidado, foram curando-lhe as feridas.

Recuperado de suas feridas, São Sebastião resolveu continuar dando testemunho de Cristo. O imperador romano, no dia 20 de janeiro, consagrado à divindade do imperador, saiu em grande cortejo de seu palácio e dirigiu-se ao templo do deus Hércules, onde seriam oferecidos os sacrifícios de costume. Estando cercado pelos sacerdotes pagãos e pelos homens mais nobres do Império, foi anunciada uma audiência pública. Quem desejasse pedir alguma graça ou apresentar alguma queixa poderia fazê-lo nesta ocasião, diante do soberano. O Soldado Sebastião, com toda a dignidade que sempre o distinguiu e cheio do Espírito Santo, apresentou-se diante do imperador e reprovou-lhe o comportamento em relação à Igreja. Reprovou-lhe as injustiças, a falta de liberdade e a perseguição aos cristãos. O imperador ficou estarrecido ao reconhecer naquela pálida figura a pessoa de seu antigo oficial, que julgava morto. Tomado de ódio, ordenou aos guardas que o executassem ali, em sua presença e na presença de todos. Ele mesmo queria ter a certeza de sua morte. Os guardas do imperador investiram contra Sebastião e o moeram de pancadas com cassetetes e com os cabos de ferro de suas lanças, até que Sebastião não desse mais sinal de vida. O imperador ordenou, então, que o cadáver do ex-oficial que julgava traidor fosse jogado no esgoto da cidade e, assim, seria apagada para sempre a sua memória.

Ao refletir sobre a vida de nosso Padroeiro, patrono contra a fome, a peste e a guerra, a Arquidiocese escolheu, para este ano de 2011, aprofundar na trezena em honra de São Sebastião o tema retirado de uma das invocações de sua ladainha: mensageiro da Paz. Que nosso Padroeiro inspire cristãos que levem a Paz de Cristo para a nossa cidade e para a nossa Arquidiocese. A paz que é tão necessária para todos!

O Papa Bento XVI escreveu na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini que: o “Anúncio da Palavra de Deus, reconciliação e paz entre os povos: Dentre os numerosos âmbitos de compromisso, o Sínodo recomendou vivamente a promoção da reconciliação e da paz. No contexto atual, é grande a necessidade de descobrir a Palavra de Deus como fonte de reconciliação e de paz, porque nela Deus reconcilia em Si todas as coisas (cf. 2 Cor 5, 18-20; Ef 1, 10): Cristo «é a nossa paz» (Ef 2, 14), Aquele que derruba os muros de divisão. Muitos

testemunhos no Sínodo comprovaram os graves e sangrentos conflitos e as tensões presentes no nosso planeta. Às vezes tais hostilidades parecem assumir o aspecto de conflito inter-religioso. Quero uma vez mais reafirmar que a religião nunca pode justificar a intolerância ou as guerras. Não se pode usar a violência em nome de Deus![334] Toda a religião devia impelir para um uso correto da razão e promover valores éticos que edifiquem a convivência civil. Fiéis à obra de reconciliação realizada por Deus em Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, os católicos e todos os homens de boa vontade empenhem-se por dar exemplos de reconciliação para se construir uma sociedade justa e pacífica.[335] Nunca esqueçamos que «onde as palavras humanas se tornam impotentes, porque prevalece o trágico clamor da violência e das armas, a força profética da Palavra de Deus não esmorece e repete-nos que a paz é possível e que devemos, nós mesmos, ser instrumentos de reconciliação e de paz»”(Cf. Verbum Domini 102).

Relembro, ainda, a solicitude do Santo Padre Bento XVI que, através do seu Secretário de Estado, o Eminentíssimo Cardeal Tarcisio Bertone, enviou à nossa cidade uma bênção de Paz para que as guerras e os ódios cedam lugar ao diálogo e à construção de uma civilização de amor. Ainda, em 28 de dezembro passado, para gáudio e alegria de nossa Arquidiocese, o Santo Padre, na pessoa de Dom Lorenzo Baldisseri, seu Núncio Apostólico, visitou o Complexo do Alemão levando o anúncio de paz, mas aquela Paz que somente Jesus pode dar e oferecer.

Que nas solenidades do dia 20 de janeiro, o nosso padroeiro, São Sebastião, nos ensine que diante dos “imperadores” de hoje e das intolerâncias contemporâneas, como a guerra urbana, a disputa de poder e a inveja, cedam lugar à construção de uma sociedade sem barreiras, sem muros, com diálogo e na busca da promoção da paz. A paz é possível em nossa cidade! Que o exemplo de São Sebastião, que retribuiu a agressão com o testemunho cristão, nos ajude a vivenciar e a proclamar a Paz.

Que São Sebastião nos ensine a vivenciar novos tempos de solidariedade, partilha e perdão e nos inspire a sermos mensageiros da paz de Cristo no Rio de Janeiro! Assim esperamos e que assim seja!

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