“O Poder gera insensibilidade”

Não sei se, nesta época após o Carnaval, quando as notícias, que chamam a atenção dos cidadãos, versam apenas sobre os desfiles carnavalescos, as fantasias, os blocos etc., uma reflexão séria pode merecer alguma atenção. Assim mesmo, arrisco.

Li nestes dias a frase – “O poder gera insensibilidade” – num ótimo e longo artigo de uma revista de 2007 no qual o autor analisa o assim chamado Estado Democrático. O autor do artigo procura provar – e o faz com êxito – o infeliz divórcio entre o poder, de um lado, e o povo do outro, o que constitui uma das contradições da Democracia.

Quando vi no Jornal Nacional, dias atrás, a notícia de que a Câmara dos Deputados estava tentando elevar seus salários de mais de vinte mil reais para vinte e sete mil, cheguei à conclusão de que de fato o poder gera insensibilidade. Num país em que o salário mínimo não chega a quinhentos reais, querer aumentar o ganho de quem recebe quarenta e três vezes mais que o assalariado do mínimo é grossíssima insensibilidade. De fato o poder corrompe e insensibiliza.

Nem vale apelar para o fato de que já existe atualmente uma verba de representação de quinze mil reais, que seria substituída pelo aumento. Isto é insensibilidade dos que foram eleitos para se dedicarem ao bem do povo que os elegeu.

Se não se tomar cuidado, em todos os níveis do poder – nacional, estadual, municipal – os governantes se tornam insensíveis às verdadeiras e reais necessidades da população. Os casos são reais e fáceis de constatar.

Há pois, para todos os que são eleitos para o bem dos que os elegeram, o perigo do divórcio entre o poder e o povo, fazendo das promessas pré-eleitorais uma piada de mau gosto, cujo resultado é igual a zero.

Eleitores, que somos, deveríamos entrar em contato com os que elegemos para a Municipalidade, o Estado e a Nação para cobrar deles a necessária presença no encaminhamento das soluções dos problemas que afligem o povo. Embora seja mais fácil perceber as falhas na cidade, porque estamos mais próximos dos problemas dela – como asfalto, assistência, saúde etc. – não nos podemos desinteressar das deficiências nos deveres do Estado e da Nação.

Pode ser – como o poder gera insensibilidade – que não tenhamos ouvidos que nos ouçam nas alturas em que se colocam os que elegemos, como soe acontecer. Mas, como eleitores, marquemo-los para que nunca mais recebam a nossa simpatia e o nosso voto. De fato, o poder castra a sensibilidade.

Dom Benedicto de Ulhôa Vieira

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