“O que era para mim ganho, considerei como perda por causa de Cristo…” (Fl 3,7)

O Ano Paulino se apresenta como um excelente favor à Igreja para que ela se volte com maior atenção à pessoa do grande apóstolo que foi Paulo. Muito já se escreveu acerca de seu pensamento teológico, ou a respeito de suas peripécias e estratégias missionárias, ou também no que toca ao seu relacionamento com os outros apóstolos. E é preciso que se continue a fazer. Isso é missão e tarefa dos exegetas e teólogos.

Mas em contextos de celebração do bimilenário do nascimento do apóstolo, é urgente que os “discípulos e missionários” de hoje se deixem inspirar decisivamente por aquelas experiências pessoais de discipulado, que conferiram um novo sentido à vida deste “hebreu, filho de hebreus”, que gozava de cidadania romana. Afinal, em tempos em que os cristãos se vêem enredados pelo “medíocre pragmatismo da vida quotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando…” (Ratzinger, 1996), afigura-se muito significativo que nos deixemos modelar por vivências bíblicas singulares e verazes de discipulado.

Ademais, é preciso ter bem presente o que enfatiza o Documento de Aparecida, assumindo palavras do Papa Bento XVI: “Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou por uma grande idéia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva” (DA 12). Parece interessante, pois, que lancemos um olhar ao “novo horizonte” que se descortinou para Paulo, a partir do seu encontro com uma Pessoa, Jesus Cristo.

A despeito das poucas linhas deste artigo, é melhor deixar o próprio Paulo falar. Entre muitos textos possíveis, impressiona aquele de Fl 3,7: “ Mas o que era para mim ganho, considerei como perda por causa de Cristo”. Estamos em uma unidade literária na qual o Apóstolo fala em primeira pessoa; o tom é autobiográfico. O judeu de muitas e insignes distinções, algumas recebidas desde sua origem étnica e familiar, outras conquistadas por méritos pessoais (cf. 3,4-6), testemunha com todas as letras que seu encontro com Jesus Cristo, nas proximidades de Damasco (cf. At 9,1-18), marcou o início de uma redefinição absoluta de sua vida. Tudo passou a ter outro sentido. Alterou-se completamente sua escala de valores.

A maneira como o próprio Paulo, no versículo em causa, se refere à sua mudança de vida é muito ilustrativa. A expressão aqui traduzida sob a forma “por causa de Cristo” é rara no seu epistolário. E quando a emprega, o apóstolo pretende indicar o caráter paradoxal da ação. Ou seja, quando algo se realizou “por causa de Cristo” trata-se de uma realidade extraordinária, de alcance revolucionário, um evento de pura graça, cuja grandeza é maior do que a capacidade humana de compreensão. É sob este formato que ele quer interpretar o que lhe sucedera no caminho de Damasco.

Mas ao evento de graça há que dar uma resposta. E todos nós sabemos com que inteireza fez de sua vida um dom, desde quando fora “alcançado por Jesus Cristo” (3,12). Ao dizer “considerei como perda”, ele deixa entrever o caráter de decisão, de determinação pessoal. Em Damasco fora escolhido. A partir de então ele escolheu. Aos cristãos de Filipos comenta esta sua experiência não por simples recordação. Mais que isso, pretende que aquele acontecimento tenha um sentido de exemplaridade. Assim como tem bem presente em sua memória afetiva o encontro com o Senhor, que para ele teve um caráter fundante, da mesma forma pretende que seus irmãos de Filipos, alcançados que foram por Jesus Cristo, mediante o ministério de Paulo, conservem e respondam decididamente àquela experiência fundante de encontro com o Senhor. Também para os filipenses o encontro com Jesus Cristo não se tratava, inicialmente, de uma “decisão ética ou uma grande idéia, mas de um acontecimento, de um encontro com uma Pessoa”.

Parece importante atinar para a linguagem empregada por Paulo. Sua experiência pessoal de encontro com o Senhor, e a incidência desta sobre sua vida e seu futuro, recebeu melhor evidência na polarização ganho/perda. Para o apóstolo o “acontecimento” de Damasco não desencadeou apenas uma “melhora” relativa no âmbito dos comportamentos ou das opções. Não foi apenas deixar de lado algumas coisas. Os valores fundamentais de sua vida passaram a ter um outro fundamento. Para Paulo o encontro com Jesus, quando correspondido, comporta também perdas. E é esta “consciência corajosa” que ele propõe aos seus leitores. Para tornar-se discípulo de Jesus não se pode renunciar à “perda”. No caso de Paulo até mesmo o que antes era tido por santo (Lei judaica) tornou-se insignificante se “comparado com o bem supremo que é o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor” (3,8).

D. José Antonio Peruzzo
Bispo de Palmas/Francisco Beltrão-PR

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