O que teriam dito meu pai e minha mãe

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

As anedotas sobre a vida do Papa João XXIII são muitas. Uma delas é sobre o diálogo que se deu entre o Papa e o seu secretário, após a solene coroação na Basílica de São Pedro. O Papa já estava nos seus aposentos e caminhava para frente e para trás com uma mão no bolso e a outra contando as contas do terço. Andava pensativo e cabisbaixo. Vendo isto, o secretário se preocupou e perguntou:

– O que o senhor tem? Não está passando bem?
– Não, estou bem, meu filho, estou só um pouco triste, de verdade, um pouco triste, respondeu o Papa.
– Mas por que, santidade? – retrucou o secretário – Não deve; olhe pela janela, que dia magnífico, que alegria, que triunfo da fé!
– E o Santo Padre respondeu: tudo isso é muito grande para mim, é rico demais, é luxuoso demais. Acredite, quando me carregaram naquela cadeira, me senti humilhado: sim, foi para mim uma humilhação ver-me levantado tão alto! Olhei no meio do povo e pensei o que teriam dito de mim meu pai e minha mãe se tivessem me visto naquela situação.  Essas palavras do Papa João XXIII são um grande exemplo de humildade.

Ele sabia muito bem que não podia confundir a responsabilidade do cargo que estava ocupando com a sua pobre realidade humana. A lembrança das suas humildes origens, dos pais e dos irmãos camponeses, sempre o acompanhou. Em nenhum momento, nem na hora da coroação, pensou em se considerar superior aos outros. Ao contrário, ficou triste por tanta imerecida exaltação. Nem o canto “Tu és Pedro!” mudou a consciência dele.

É verdade que não podemos ler o evangelho deste domingo como um simples relato, mas devemos entendê-lo muito mais como uma declaração de fé por parte de João Batista e, mais ainda, por parte do autor do quarto evangelho. Contudo podemos imaginar o que deve ter pensado Jesus ao ouvir dizer: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. O que devem ter pensado as pessoas ouvindo o testemunho de João: “este é o Filho de Deus”? A resposta talvez esteja nas palavras do hino que encontramos na carta aos Filipenses (2,6-8): “Ele, existindo em forma divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano. E encontrado em aspecto humano, humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte – e morte de cruz!” Se houve exaltação na pessoa e na missão de Jesus foi pela sua obediência e o seu sacrifício, oferecendo sua vida na cruz.

Essa é a razão pela qual a Liturgia coloca esta página do Evangelho no início deste tempo, que chamamos comum, e que separa o tempo do Natal do tempo da Quaresma. O Menino que contemplamos no Presépio, visitado e adorado pelos Magos é sim o Filho de Deus, agora presente na história humana, tendo assumido a nossa natureza limitada no tempo e no espaço. O “Verbo” que era Deus, desde sempre, nada perdeu da sua divindade, mas aceitou a natureza humana para ser “aquele que tira o pecado do mundo”. Dessa vez Deus Pai, não falou e nem agiu mais por intermédio de alguém, mas pelo seu próprio Filho (cfr. Hebreus 1,1-6; segunda leitura da Missa do Dia de Natal). Sei que estou dizendo coisas difíceis para muitos que não estão acostumados, mas a dificuldade em entender não está somente nas afirmações da nossa fé; está, antes, em admitir a própria “encarnação”, o rebaixamento ou humilhação do Filho de Deus ao assumir a natureza humana em Jesus. Nós vivemos num tempo onde a humildade é considerada um defeito mais que uma virtude. Quantos de nós nos consideramos superiores aos outros, simplesmente pelo cargo que ocupamos, pelo dinheiro que temos ou pela simples incapacidade de reconhecermos as nossas limitações e os nossos defeitos. Não é questão de auto-estima ou de algo parecido, infelizmente é questão de orgulho. O eterno orgulho humano que se aninha em cada um de nós e que transforma a nossa convivência em disputa pelo poder, em luta para aparecer, em frustrações por não conseguirmos ser sempre os primeiros.

Jesus é e sempre será, para quem acredita, o nosso salvador. Não por imposição, por esmagar os inimigos, mas por amá-los até o fim; a todos: amigos e inimigos. No Calvário os que tinham assistido à morte de Jesus como a um espetáculo, voltam batendo o peito. Se foi vitória, foi da humildade e do amor. É bom começar o novo ano com mais simplicidade e modéstia. Precisamos de projetos de paz e não de orgulho.

O Papa João XXIII sabia muito bem que se, naquele dia, ele estava sendo carregado nos ombros dos outros era porque estava começando a carregar também uma cruz muito pesada: a responsabilidade de manter a Igreja unida e fiel. Não o aguardava a soberba, mas o sacrifício.

Escreva um Comentário

Ver todos os Comentários

Seu endereço de email não será publicado. Também outros dados não serão compartilhados com a terceira pessoa. Campos obrigatórios marcados como * *

Share This