O Rompimento dos valores humanos

Dom Pedro Cunha Cruz
Bispo da Campanha (MG)

 

Há exatamente um ano, eu escrevia um artigo sobre o “desafio do desenvolvimento humano integral”, inspirado em uma conferência de um economista australiano, cujo tema foi: “O capitalismo clientelista. Ineficiente, corrupto e iníquo”. No referido artigo, tratei do desenvolvimento humano integral como uma escolha de todos os cristãos. Mas, sabemos que o capitalismo clientelista torna-se um grande desafio para atingirmos tal desenvolvimento, pois é injusto e ineficiente, além de trazer benefício apenas para um pequeno grupo, aumentando o quadro de desigualdade e pobreza. Aqui, não poucas vezes, o mercado político e o sucesso econômico vem apoiados em privilégios individuais. Isto explica o “casamento” entre empresas e políticos. A proibição de financiamento de empresas às campanhas políticas já foi um grande avanço para nossa democracia. Mas, infelizmente, ainda vivemos em uma cultura corrupta, que parece ter se familiarizado com esta prática. O episódio de Brumadinho-MG, além de chocar todo o país com o dano à natureza e, sobretudo, com a perda de centenas de vidas humanas, reflete a força de um corporativismo baseado no lucro, onde a economia está no centro de tudo; corroborando com a crise do antropocentrismo moderno e suas consequências, bem destacado pelo Papa Francisco na Encíclica “Laudato Sì”. As questões relacionadas com o meio ambiente e com o desenvolvimento econômico têm sido abordadas amplamente pela Igreja nas diversas campanhas sociais; elas exigem uma atenção especial às políticas nacional e local. O Santo Padre na referida Encíclica diz: “Os limites que uma sociedade sã, madura e soberana deve impor têm a ver com previsão e precaução, regulamentações adequadas, vigilância sobre a aplicação das normas, contraste da corrupção, ações de controle operacional sobre o aparecimento de efeitos não desejados dos processos de produção, e oportuna intervenção perante riscos incertos ou potenciais” (Laudato Sì, n. 177).

Diante de um episódio como o da barragem de Brumadinho-MG, deveríamos nos colocar algumas perguntas pertinentes: qual o valor da vida humana e da dignidade de cada pessoa em nosso país? Em uma cultura onde tudo é “líquido” ou fugaz, será que deixamos escapar questões tão essenciais para a pessoa na sua integridade? Será que o indiferentismo e o individualismo nos ofuscaram tanto, a ponto de não nos permitirmos mais ver o “homem como a medida de todas as coisas”? Não podemos simplesmente repetir que falta vontade política em nosso país; disso somos todos cônscios. A grandeza política se faz quando em momentos difíceis como este, surgem os grandes  princípios pautados no bem comum. Não faltam projetos de leis que, como sabemos, encontram-se engavetados em nosso Congresso. Talvez falte da parte dos cidadãos uma pressão que leve a uma decisão política, pois “se os cidadãos não controlam o poder político – nacional, regional e municipal -, também não é possível combater os danos ambientais” (Laudato Sì, n. 179)

A tragédia da Vale deixará uma marca em todos nós; mas deixará também uma lição, a de que a ecologia ambiental e ecologia humana são inseparáveis. A ética exerce um papel unificador entre elas. Os direitos fundamentais e inalienáveis de cada ser humano, nenhuma barragem pode dissolver. Toda sociedade tem obrigação de defendê-los e promovê-los. A conscientização de todos e o diálogo para novas políticas sobre o meio ambiente, serão sempre o princípio e a meta para que novos episódios não ocorram mais.

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