Organizações católicas buscam fortalecer acolhida e integração de venezuelanos no Brasil

“O principal responsável pela crise que estamos passando é o governo nacional, por colocar seu projeto político à frente de qualquer outra consideração, inclusive humanitária, por sua política financeira equivocada, por seu desprezo pela atividade produtiva e pela propriedade privada, por sua constante atitude de colocar obstáculos no caminho daqueles que estão dispostos a resolver algum aspecto do problema atual. O governo aparece diante do país como vítima da gestão externa e interna. Isso nada mais é do que a confissão de incapacidade de administrar o país. Você não pode fingir para resolver a situação de uma economia falida com medidas de emergência, como sacos de alimentos e bônus”, essa é a contundente denúncia publicada no último dia 11 de julho, pelos bispos da Venezuela, após a 110ª Assembleia Ordinária Plenária do Episcopado Venezuelano.

É diante desse cenário de crise, que também a Igreja no Brasil tem se mobilizado com iniciativas que estão nascendo em Roraima, principal porta de entrada para os venezuelanos que chegam ao Brasil. “Há muitos sinais de vida e de acolhida que nos deixam emocionados e edificados na relação entre brasileiros e venezuelanos, diante do crescente número de pessoas que chegam as cidades de Roraima fugindo, especialmente, da escassez de alimentos e medicamentos na Venezuela”, disse o bispo da diocese de Roraima, Dom Mário Antônio, em sua apresentação durante a Oficina de Planejamento para Integração das ações com pessoas imigrantes. A iniciativa foi articulada pela Cáritas Brasileira e todo o conjunto das organizações e pastorais da Igreja que atuam junto a imigrantes e refugiados, e foi realizada em Brasília, entre os dias 9 e 10 de julho.

Estratégias solidárias – A Oficina possibilitou que o grupo compartilhasse experiências, desafios e possibilidades e, juntos, pudessem mapear realidades de urgência e traçar estratégias coletivas que fortaleçam o acolhimento e gerem resultados positivos como a garantia de proteção e integração das pessoas que estão em situação de migração e refúgio no Brasil e, de modo especial, neste momento, em Roraima. “A questão migratória na fronteira Brasil-Venezuela mudou a nossa maneira de viver, a nossa maneira de rezar, a nossa maneira de fazer caridade. E como a população tem lidado com isso? A população, seja ela de brasileiros ou venezuelanos, tem lidado com desconforto, com irritação, isso porque, por exemplo, os imigrantes venezuelanos conseguem um prato de comida, alguns itens de emergência, mas estão há meses sem trabalho, não conseguem se estabelecer no Brasil, não conseguem enviar dinheiro para os parentes que permanecem na Venezuela e nem trazê-los para cá. E para os brasileiros também não é fácil porque, com essa realidade, o que já nos faltava na saúde e na educação, agora falta um pouco mais”, desabafou dom Mário Antônio, que convive diariamente com as urgências humanas e pastorais de venezuelanos e brasileiros na região de fronteiras.

Atualmente a inflação na Venezuela encontra-se em 2.500%, cenário que aprofunda a crise política e econômica no país e vai continuar empurrando a população venezuelana para outros países de fronteira. Segundo a coordenadora da Pastoral do Migrante, irmã Valdiza Carvalho, atualmente em Roraima, os venezuelanos já representam 10% da população. Nesse contexto de crescimento populacional, não há um horizonte animador nem mesmo para a questão da acolhida, entre os abrigos em Boa Vista e Pacaraima a situação fica cada dia mais difícil por não haver capacidade de abrigamento para todos os imigrantes, e nem as condições necessárias para que os abrigados refaçam a vida no Brasil.

País em diáspora – O fenômeno dos deslocamentos de venezuelanos para diversos países de fronteira também foi destacado na declaração publicada pelos bispos da Venezuela: “A Venezuela vem se tornando um país em diáspora. Mãos que construíram e produziram, mentes que investigavam e ensinavam, estão migrando para outros países. A emigração produz situações dramáticas: a dura luta para fazer um lugar em um país estranho, a possibilidade de cair no vício ou na prostituição, ou nas mãos de redes que exploram seus pares, o estigma da rejeição, a tristeza daqueles que ficam aqui, o retorno em situação de fracasso daqueles que não encontraram onde ficar. Muitas dessas situações encontraram alívio generoso nas Igrejas irmãs dos países vizinhos, que estendem as mãos aos nossos compatriotas, aos quais agradecemos sinceramente. Se fosse oferecido ao venezuelano alguma esperança para o futuro, ele não precisaria emigrar. A Venezuela aguarda o retorno de seus filhos para retomar o caminho do progresso saudável”, diz a exortação dos bispos.

A luta das mais de 20 organizações ligadas as Igrejas que atuam em Boa Vista e Pacaraima, o desafio é realizar uma incidência integrada, de forma a se fazer ouvir pelas instâncias governamentais que investem nos abrigos, mas viram as costas para as milhares de pessoas que estão pelas ruas ou vivendo precariamente em casas alugadas e outras formas de abrigamento. A maior parte dos benefícios oferecidos pelos poderes públicos é destinada aos imigrantes que estão nos abrigos, por isso, as iniciativas desses grupos e, especialmente das organizações católicas, tentam estender a mão para os que não conseguem lugar nos abrigos.

Levantamento da raiz dos problemas. Foto: Cáritas Brasileira

Desafio da integração – Numa rápida apresentação, irmã Valdiza e dom Mário destacaram que, por exemplo, no abrigo do bairro Pintolândia, em Boa Vista, há 717 abrigados, quando a sua capacidade é para o acolhimento de 370 pessoas, no abrigo Janokoida, de Pacaraima há 511 abrigados quando a sua capacidade máxima é para 350 pessoas. Os diversos serviços pastorais e organizações que hoje atuam em Boa Vista e em Pacaraima percebem que aumentou o número de pessoas que chegam ao Brasil com doenças graves, como o câncer, porque já não encontram tratamento na Venezuela. Essas realidades desafiam ainda mais a capacidade de acolhida, assistência e integração dos que chegam e dos que já estão no Brasil.

Em uma breve visita ao grupo, o secretário geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, destacou a gravidade da questão migratória. “Não podemos esquecer que a questão da imigração tem se tornado quase uma calamidade, não para nós no Brasil, é claro, a questão de Roraima é muito difícil, mas a situação mundial está ficando insuportável. Basta verificar quantas pessoas já perderam a vida no mar Mediterrâneo. Quanto a nós, no Brasil, é bom que tenhamos a sensibilidade humana e cristã para a acolhida, é necessário que nos preocupemos não apenas com o abrigamento, mas também com a cidadania, ou seja, que os imigrantes possam participar da nossa vida social, que tem haver com o acesso a documentação pessoal necessária, ao trabalho e à inserção em uma comunidade de fé”, destacou dom Leonardo.

Marco de resultados – Entre as sugestões levantadas pelos participantes da Oficina, para uma ação bem articulada entre as organizações e pastorais, destacaram-se o mapeamento do território marcado pela questão migratória e seus sujeitos, a criação de uma metodologia para atuação conjunta em campo, a articulação com outras instituições para a construção de tecnologias sociais que contribuam na superação da desnutrição infantil, a articulação entre instituições religiosas brasileiras e venezuelanas, a identificação das necessidades dos moradores de Pacaraima e Boa Vista, a realização de campanhas de conscientização e educação para a população em geral sobre a questão migratória, e uma articulação entre as instâncias da Igreja do Brasil e da Venezuela.

As organizações e pastorais vão seguir articulados com a meta de promover o que metodologicamente denominam como Marco de Resultados, cuja meta é o fortalecer o acolhimento e as ações de integração, para o atendimento de homens, mulheres, crianças, jovens e grupos étnicos vindos da Venezuela em situação de vulnerabilidade social no Brasil.

Formado por cerca de 20 pessoas, o grupo tinha representantes da Comissão Episcopal Pastoral Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano (CEPEETH) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Setor Mobilidade Humana da CNBB, Cáritas Brasileira, Pastoral do Migrante, Instituto de Migrações e Direito Humanos (IMDH), Conferência dos Religiosos dos Brasil (CRB), União Marista do Brasil (UMBRASIL), Serviço Jesuíta a Migrantes e Refúgio (SJMR), Diocese de Roraima, e Cáritas Arquidiocesana de Manaus.

Por Jucelene Rocha – Rede de Comunicadores/as da Cáritas Brasileira

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