Oscar Romero, bispo e mártir

Há precisamente 30 anos, no dia 24 de março de 1980, era assassinado, em El Salva-dor, Dom Oscar Romero, arcebispo da capital do país. Nascido a 15 de agosto de 1917, recebeu a ordenação sacerdotal com 24 anos, aos 4 de abril de 1941. 29 anos depois, no dia 25 de abril de 1970, foi nomeado bispo auxiliar de San Salvador e, a 3 de fevereiro de 1977, arcebispo da mesma cidade.

Pelo que então se propagou, sua escolha deveu-se mais a seu conservadorismo que a seus dotes pessoais e pastorais. Contudo, ao verificar a injustiça e a opressão que amorda-çavam a população, em pouco tempo sua fidelidade ao Evangelho o levou a mudar radi-calmente de posição. Apesar de adepto da não-violência, começou a denunciar, em suas homilias dominicais, as numerosas violações dos direitos humanos perpetradas pelo gover-no, e a manifestar publicamente sua solidariedade às vítimas da violência política e policial, que levou à morte, em poucos anos, 75.000 pessoas.

No dia 26 de fevereiro deste ano, em visita oficial a El Salvador, o Presidente Lula depositou uma oferenda de flores no túmulo do arcebispo, declarando: «Algo que é sagra-do, e que os assassinos não se deram conta, é que nós, os cristãos, permanecemos em outro mundo, em outra vida. Nossas ideias continuam caminhando pelos continentes, passeando na mente das pessoas».

Para melhor conhecer a grandeza espiritual e moral de Dom Oscar, transcrevemos breves tópicos de alguns de seus pronunciamentos feitos nos três anos de arcebispado.

No dia 6 de novembro de 1977, explicou o que entendia por cristianismo: «Eu gosta-ria de gravar no coração de cada um esta idéia: o cristianismo não é um conjunto de ver-dades para acreditar, de leis para cumprir ou de proibições! Se assim fosse, ele se tornaria repugnante. O cristianismo é uma Pessoa que nos ama e que pede o nosso amor. O cristia-nismo é Jesus Cristo, é o Evangelho».

Um mês após, a 4 de dezembro, voltava à carga com o mesmo vigor: «Uma religião de missa dominical e de semanas injustas não agrada ao Deus da vida. Uma religião de muita reza, mas de hipocrisia no coração, não é cristã. Uma Igreja que se acomoda para estar em paz, para ter muito dinheiro, muitas comodidades, sem se importar com os clamores das injustiças, não é a verdadeira Igreja de Cristo».

A cada ano que passava, a sua profecia se tornava mais incisiva. No dia 11 de maio de 1978, fazendo eco às palavras de Dom Helder Câmara: «Se damos uma esmola aos pobres, somos considerados bons cristãos; mas se defendemos seus direitos e sua dignidade, somos taxados de comunistas» –, Dom Oscar retrucava a seus acusadores: «Podem chamar-nos de loucos, subversivos e comunistas, mas nada fazemos senão anunciar o testemunho revolu-cionário das bem-aventuranças, que proclamam felizes os pobres, os sedentos de justiça e os que sofrem».

A última homilia de 1979 foi pronunciada na noite do Natal: «Devemos buscar o Me-nino Jesus não nas imagens bonitas de nossos presépios, mas entre as crianças desnutridas que foram dormir esta noite sem ter o que comer».

Dado o clima de repressão existente no país, Dom Oscar acabou sendo uma pessoa incômoda para o governo. Foi assim que, apenas três anos depois de ter assumido a arqui-diocese, acabou assassinado no dia 24 de março de 1980, enquanto celebrava a santa missa. Sua morte provocou uma onda de protestos e de pressões internacionais, que aceleraram o fim da ditadura. O Papa João Paulo II declarou-o “Servo de Deus” e Bento XVI foi solici-tado a apressar o seu processo de beatificação.

Poucos dias antes de sua morte, o bispo e mártir pronunciou uma homilia que pode ser vista como a síntese de sua vida: «Fui frequentemente ameaçado de morte. Como cristão, não acredito na morte, mas na ressurreição. Se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho. Digo isso com grande humildade, sem nenhuma vanglória. Como pastor, sou obrigado, por mandato divino, a dar minha vida por aqueles que amo, que são todos os salvadorenhos, inclusive aqueles que me assassinarem. Se chegarem a cumprir as ameaças, desde já ofereço a Deus o meu sangue pela redenção e ressurreição de El Salvador. O mar-tírio é uma graça de Deus, que não julgo merecer. Se me matarem, perdoo e abençoo a quem o fizer. Contudo, estarão perdendo o seu tempo: um arcebispo morrerá, mas a Igreja de Deus, que é o povo, nunca perecerá!».

Dom Redovino Rizzardo

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