Papa Francisco e as Vocações

Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira
Prelazia de Itacoatiara – Amazonas

Em setembro próximo, de 05 a 08, acontecerá o IV Congresso Vocacional do Brasil. Vamos neste artigo, a partir das mensagens do Papa Francisco para o Dia Mundial de Orações pelas Vocações, que se realiza cada ano no quarto domingo da Páscoa, destacar alguns pontos de seu pensamento sobre as Vocações.

Deus é a origem das Vocações

Na mensagem de 2014 o Papa Francisco declara: “Jesus afirma que ‘a messe é grande’. Quem trabalhou para que houvesse tal resultado? A resposta é uma só: Deus. Evidentemente, o campo de que fala Jesus é a humanidade, somos nós”. Esta verdade é fundamentada nos relatos de vocação na Bíblia. Sempre é Deus que toma a iniciativa, o chamado é dEle. Basta recordar aqui alguns destes relatos: Abrão (Gn 12, 1-4); Samuel (1Sm 3, 1-10); Isaías 6, 8; Maria (Lc 1, 26-38); Apóstolos (Mt 4, 18-22); Paulo (At 22, 6-10).

Se é verdade que Deus quando chama nunca nos abandona, na realização do seu projeto sobre nós, é verdade, também, que Ele conta com a nossa adesão e a nossa colaboração. Isto aparece de forma muito evidente nos relatos bíblicos de vocação: Abrão partiu, Samuel coloca-se à escuta, Isaías se disponibiliza para ser enviado, Maria aceita ser a mãe do Filho de Deus, os Apóstolos abandonam os barcos de pesca e seguem Jesus, Paulo coloca-se à disposição perguntando o que devo fazer?

Vocação êxodo de si mesmo

O Papa Francisco em 2014 afirma que “toda a vocação exige sempre um êxodo de si mesmo para centrar a própria existência em Cristo e no seu Evangelho… é necessário superar os modos de pensar e de agir que não estão conformes com a vontade de Deus”. Em 2015 ele nos lembra que “na raiz de cada vocação cristã, há este movimento fundamental da experiência de fé: crer significa deixar-se a si mesmo, sair da comodidade e rigidez do próprio eu para centrar a nossa vida em Jesus Cristo”.

Isto faz-nos recordar o que Jesus disse aos discípulos e a todos que queriam lhe seguir: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!” (Mc 8, 34). De fato, não podemos ser cristão, ser Igreja, viver uma vocação específica (leigo, consagrado, ministro ordenado, missionário) se não colocamos em primeiro lugar em nossas vida a vontade de Deus, como Jesus fez (Jo 4, 34: “o meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou”) e nos ensinou a fazer (Mt 6, 10: “venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade, como no céu, assim, também, na terra).

O Papa Francisco na mensagem de 2015 nos alerta que “esta ‘saída’ não deve ser entendida como um desprezo da própria vida, do próprio sentir, da própria humanidade; pelo contrário, quem se põe a caminho no seguimento de Cristo encontra a vida em abundância, colocando tudo de si à disposição de Deus e do seu Reino”.

Quem se coloca a caminho com Jesus Cristo e assume sua vocação tem que viver como Ele viveu, sentir o que Ele sentiu e fazer como Ele fez. No contexto da última ceia, ao lavar os pés dos apóstolos, Jesus disse: “Dei-vos o exemplo, para que façais assim como eu fiz para vós” (Jo 13, 15). Neste sentido, o Papa Francisco, na Mensagem de 2017, ensina-nos que “o discípulo não recebe o dom do amor de Deus para sua consolação privada…  não é chamado a ocupar-se de si mesmo nem a cuidar dos interesses duma empresa; simplesmente é tocado e transformado pela alegria de se sentir amado por Deus e não pode guardar esta experiência apenas para si mesmo”.

Nenhuma vocação nasce por si, nem vive para si

No nosso trabalho de orientação vocacional é muito importante lembrarmos deste alerta do Papa Francisco, de que a vocação não é para a pessoa que foi chamada, não é para benefício próprio, para promover-se, para exaltar-se. Vocação é verdadeiramente serviço. Vocação é o dom do Espírito para o bem comum, como nos ensina Paulo: “A cada um é dado a manifestação do Espírito, em vista do bem de todos” (1Cor 12, 7).

Na mensagem de 2017, o Papa Francisco afirma, que o Evangelho “convida-nos a rejeitar a idolatria do sucesso e do poder, a preocupação excessiva pelas estruturas e uma certa ânsia que obedece mais a um espírito de conquista que de serviço”.

Em 2014, o Papa Francisco nos ensina que “a vocação brota do coração de Deus e germina na terra boa do povo fiel, na experiência do amor fraterno… Isto significa, por vezes, ir contra a corrente e implica encontrar, também, obstáculos, fora e dentro de nós”.

“Ir contra a corrente” significa que temos de lutar contra o pensamento da sociedade pós-moderna, que nos impulsiona para viver o individualismo, o egocentrismo em detrimento dos interesses coletivos, comunitários. Ir “contra a corrente” significa viver o amor, a partilha, a solidariedade, o serviço, a valorização da comunidade, a defesa da vida.

A Igreja: onde a vocação germina, cresce e dá fruto

Na mensagem de 2016, o Papa Francisco nos lembra que “Deus chama-nos a fazer parte da Igreja e, depois dum certo amadurecimento nela, dá-nos uma vocação específica.” As vocações existem por chamado de Deus, na Igreja e para a Igreja cumprir a missão recebida de Jesus (cf. Mt 28, 18-20). Aqui temos bem presente no pensamento do Papa Francisco, a dimensão missionária de toda vocação. Ele afirma na mensagem de 2016: “ninguém é chamado exclusivamente para uma determinada região, nem para um grupo ou movimento eclesial, mas para a Igreja e para o mundo”.

Em 2017 o Papa Francisco disse: “O compromisso missionário não é algo que vem acrescentar-se à vida cristã como se fosse um ornamento, mas, pelo contrário, situa-se no âmago da própria fé”.

Serviço vocacional: responsabilidade de todos

Na mensagem de 2016, o Papa Francisco exorta “todos os fiéis a assumirem as suas responsabilidades no cuidado e discernimento vocacionais”. O serviço de suscitar, despertar e acompanhar as vocações na Igreja e para a Igreja, é um serviço fundamental e indispensável, pois sem vocações a Igreja morre, faltarão os “trabalhadores da Messe”, no dizer de Jesus (cf. Mt 9, 38).

Esta missão da Igreja de fazer germinar as vocações concretiza-se através: da oração perseverante pelas vocações; da ação educativa; do acompanhamento daqueles e daquelas que sentem o chamado de Deus; de uma cuidadosa seleção dos candidatos ao ministério ordenado e à vida consagrada (cf. Mensagem de 2016).

Se todos somos responsáveis, o Papa Francisco, na mensagem de 2016, afirma que os Presbíteros devem considerar o cuidado pastoral das vocações como uma dimensão fundamental do seu ministério. 

Propor aos jovens o seguimento de Cristo

O Papa Francisco na mensagem de 2017 nos faz uma boa provocação, quando diz: “é possível ainda hoje voltar a encontrar o ardor do anúncio e propor, sobretudo aos jovens, o seguimento de Cristo… os nossos jovens têm o desejo de descobrir o fascínio sempre atual da figura de Jesus, de deixar-se interpelar e provocar pelas suas palavras e gestos e, enfim, sonhar – graças a Ele – com uma vida plenamente humana, feliz de gastar-se no amor”.

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