Para servir e não para ser servido

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

Jesus aproveita todas as ocasiões para formar os seus discípulos, oferecendo-lhes tudo o que era necessário para sua vida e para todas as gerações de cristãos, inclusive a nossa. No Evangelho de São Marcos, há dois capítulos (Marcos 9-10) que podem ser considerados um treinamento itinerante a respeito do Reino de Deus, e são estes textos que providencialmente iluminam a vida da Igreja neste período. Neste final de semana, celebra-se a Jornada Missionária Mundial, com a qual o ardor pelo anúncio do Evangelho deve crescer em nós, no espírito de serviço a todos, oferecendo à humanidade o que existe de melhor, o Nome de Jesus Cristo, com sua graça e a Salvação. E o Papa propõe justamente a força da juventude como referência de nossa responsabilidade missionária: “Juntamente com os jovens, levemos o Evangelho a todos”.

Jesus está a caminho de Jerusalém (Mc 10,1.17.32). Na estrada, apresenta a maravilhosa e exigente vocação ao matrimônio (Mc 10,2-12), reconhece o valor das crianças no Reino de Deus (Mc 10,13-16), indica o risco das riquezas (Mc 10,17-31) e apresenta o grande desafio que é o exercício do poder. Mais adiante, chegará a Jericó, cidade de má fama, onde se conclui a descrição a respeito do verdadeiro discípulo (Mc 10,46-52), para depois concluir sua viagem a Jerusalém.

Poder, cada um tem um pouco, nem que seja o círculo mais restrito de seu espaço pessoal e o domínio sobre as próprias coisas. Poder têm o pai ou a mãe sobre a prole, este destinado a proporcionar os caminhos mais adequados da formação dos filhos a eles confiados. Poder pode ter um responsável ou um chefe uma seção no trabalho, ou os profissionais nas diversas áreas, com a competência que lhes cabe. Muito poder é entregue a quem se elege para um cargo político! No entanto, em nenhum caso o poder pode ser encarado de forma absoluta, também porque todos necessitam da ajuda dos outros, de uma forma ou de outra.

Jesus Cristo é Deus e Homem verdadeiro, e escolheu vir para servir e não para ser servido. Veio compartilhar a vida dos mais pobres, escolheu apóstolos e discípulos entre gente carregada de limitações. A força que manifestou de forma mais evidente foi o perdão e a misericórdia, abrindo espaços para o acolhimento de todos, de forma que enfermos, pecadores e pecadoras, pessoas marginalizadas, todos, todos se sentissem acolhidos. Sendo igual a Deus, não se apegou a esta igualdade, mas assumiu a forma de servo, obediente até a morte, e morte de cruz (Cf. Fl 2,1-11). E nós o reconhecemos como Senhor e a ele atribuímos toda a honra, o poder e a glória!

Os discípulos de Jesus, começando por Tiago e João, justamente seus amigos mais próximos, já que os dois estiveram, junto com Pedro, muito perto de Jesus em ocasiões decisivas, refletem no pedido apresentado ao Senhor a mentalidade corrente a respeito do Reino que aguardavam: “Aproximaram-se de Jesus e lhe disseram: ‘Mestre, queremos que faças por nós o que te vamos pedir’. Ele perguntou: ‘Que quereis que eu vos faça?’ Responderam: ‘Permite que nos sentemos, na tua glória, um à tua direita e o outro à tua esquerda!’ Jesus lhes disse: ‘Não sabeis o que estais pedindo. Podeis beber o cálice que eu vou beber? Ou ser batizados com o batismo com que eu vou ser batizado?’ Responderam: ‘Podemos’. Jesus então lhes disse: Sim, do cálice que eu vou beber, bebereis, com o batismo com que eu vou ser batizado, sereis batizados. Mas o sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não depende de mim; é para aqueles para quem foi preparado’” (Mc 10, 35-40). Jesus inverte todas as suas pretensões, para que, a partir deles e por todo o tempo da vida da Igreja, o caminho seja o do amor e do serviço. Os outros discípulos tinham intenções semelhantes e foram corrigidos com firmeza e amor pelo Senhor. O futuro lhes mostrou o quanto o sangue derramado dos que foram colunas da fé significou no seguimento estrito do Senhor.

Serve quem toma a iniciativa de ir ao encontro dos outros, reconhecendo como maior justamente como maior a outra pessoa. Servo é aquele que começa pelas coisas mais simples, sem considerar mais importantes quaisquer tarefas, fazendo com perfeição desde as tarefas domésticas ou os serviços braçais até as mais especializadas atividades decorrentes dos avanços da ciência e da tecnologia. Servo é quem procura fazer bem todas as coisas, sem preguiça ou relaxamento, e ao mesmo tempo sem agitação. Assim, qualquer um pode rezar como uma camponesa de Madagascar: “Senhor, dono das panelas e das marmitas! Não posso ser a santa que medida aos vossos pés. Não posso bordar toalhas para o vosso altar. Então, que eu seja santa ao pé do meu fogão. Que o vosso amor esquente a chama que eu acendi e faça calar minha vontade de gemer a minha miséria. Eu tenho as mãos de Marta, mas quero também ter a alma de Maria. Quando eu lavar o chão, lava, Senhor, os meus pecados. Quando eu puser na mesa a comida, come também, Senhor, junto conosco. É ao meu Senhor que eu sirvo, servindo minha família”. (Cf. “As mais belas orações de todos os tempos”, Editora José Olímpio, 1970, página 138)

O caminho do serviço, a ser percorrido por todos os cristãos, pede criatividade e capacidade inventiva, num exercício contínuo de encontrar novas saídas para os problemas e soluções mais adequadas para os desafios que se apresentam. Quem fez a opção pelo caminho do serviço descobre como sobrenaturais todos os passos a serem dados no cotidiano.

O quadro social e político em que nos encontramos atualmente pode ser iluminado pelas provocações da Palavra de Deus. Estarão os eleitos ou pretendentes a cargos conscientes de seu lugar na sociedade? A luta do poder tem sido marcada pela busca do bem comum? E as muitas promessas que todos temos ouvido resultarão em maior dignidade para a população, especialmente para os mais pobres e sofredores? Não é difícil perceber o quanto estamos ainda distantes dos ideais do Evangelho. Ainda que nem todos os procurem, cabe-nos fermentar a sociedade com seus valores, purificando nosso modo de agir, para contribuir para o aperfeiçoamento da sociedade.

A poucos dias do segundo turno de eleições federais e estaduais, Deus nos conceda a lucidez necessária para fazer as difíceis escolhas que se abrem no horizonte, pedindo-lhe ainda que os que vierem assumir cargos sejam de alguma forma tocados pela graça do Senhor e também pelo exemplo, a coragem e a participação dos cristãos.

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