PAULO – evangelizador nos dias de hoje

Neste Ano Paulino, tanta coisa está sendo escrita sobre São Paulo. Os pontos de partida na reflexão sobre o Apóstolo podem ser diferentes. Deixando os aspectos doutrinais, quero responder a esta pergunta: Se Paulo vivesse hoje, o que faria? O que ensinaria para nós? Como se comportaria diante da pós- modernidade?

Esclareço logo que a minha leitura é pastoral, sendo um bispo que vive no meio do seu povo: 22 anos no Brasil, dos quais 19 no Mato Grosso do Sul. Sempre me identifiquei com o trabalho pastoral em paróquia. Antes de ser bispo, sempre fui pároco e, também, em 8 anos de episcopado, na diocese de Coxim, por falta de padres, fui obrigado a acompanhar de perto várias paróquias.

I – Paulo no mundo de hoje

Um dos aspectos, que a humanidade está vivendo nos dias de hoje, é o medo sobre o futuro. A situação econômica deixa todo mundo nervoso, a situação ecológica assusta, e o problema maior é a falta de valores. Uma reflexão superficial nos apresenta este quadro:

Situação econômica

A falência de vários Bancos no 1° mundo manifesta a fraqueza do sistema monetário. A crise, pela interdependência existente no mundo de hoje, afeta todos. No Brasil, alguns falam que vamos ver os efeitos desta crise no 2° semestre de 2009. O medo diante desta situação é normal.

Situação ecológica

O desmatamento na Amazônia, o aquecimento global, a camada de ozônio, o desgelo são alguns dos fenômenos que inquietam a humanidade hoje. Fala-se do desaparecimento de várias cidades situadas no litoral. Enchentes, furacões, desmoronamentos, terremotos também assustam.

Falta de valores

Não só os valores relativos às culturas dos povos, mas também os perenes e universais hoje parecem não existir mais. Respeito pela vida – família – ajuda ao irmão – projeto de vida – capacidade de sacrifício: parecem realidades do passado. Estas palavras são substituídas por: ‘vale tudo’, ‘tanto faz’, ‘é bom o que eu gosto’, ‘aproveita do momento presente’ etc….

II – Diante deste quadro, o que diria ou faria São Paulo?

Atuação

Antes de tudo, é bom lembrar a sua atuação naquela época. Ele foi plenamente inserido nos povos com quem viveu: o povo judeu, os povos pagãos da Ásia Menor, o povo romano. Ele fazia questão de se sustentar com o trabalho das próprias mãos. Tinha orgulho de ser ‘cidadão romano’. Nunca escondeu ser fariseu, observante da Lei judaica e perseguidor dos cristãos.

Isso, para nós, poderia significar um convite a sermos inseridos na história do nosso povo, a compartilhar as alegrias e os sofrimentos dele, a compreender e respeitar atitudes diferentes das nossas, a não julgar ou – pior – condenar o ‘diferente’.

É a famosa ‘inculturação’, da qual todos falam, mas que é difícil concretizar. Eu experimentei pessoalmente a dificuldade de me inserir numa cultura diferente da minha, e ainda tenho dificuldade. A tentação contínua é fazer comparações e fazer da própria cultura a medida de julgamento de tudo.

Ensinamento

1° – Partir de Cristo

“Que ninguém vos faça prisioneiros de teorias e conversas sem fundamento, conforme tradições humanas, segundo os elementos do cosmo, e não segundo Cristo” (Cl 2,8).

Isso significa partir de Cristo, como nos alertou João Paulo II, ao início do 3° milênio. Fazer de Cristo o centro da vida e da ação, ser de verdade discípulo dele para anunciá-lo com alegria a todos, para que todos nele tenham vida e vida em abundância. Partindo de Cristo, não precisa um programa pastoral novo: “o programa já existe, é o mesmo de sempre, expresso no Evangelho e na Tradição viva. Concentra-se no próprio Cristo” (NMI, 29).

2° – Santidade

“A vontade de Deus é que sejais santos” (1Ts 4,3).

O maior testemunho que os cristãos podem dar no 3° milênio é a santidade, santidade que- ao mesmo tempo – é dom e dever (NMI, 30).

3° – A Cruz

Cristo Jesus “humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,8).

Hoje em dia há muitos falsos profetas. Foi inventada a teologia da prosperidade. Todos querem pular a cruz, o sofrimento. Estamos esquecendo que – seguindo o caminho do Mestre – sem cruz não tem salvação; que podemos chegar à luz, só passando através da cruz.

4° – A Família

“Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25).

Num período, onde o valor ‘família’ está fora de moda, Paulo mostra o modelo de todo tipo de amor, também daquele que une duas pessoas nos laços matrimoniais: o amor de Jesus, que se entrega plenamente para a sua Igreja. Assim é superada a concepção do amor possessivo, egoísta. Hoje, partindo desta idéia, tem que educar ao verdadeiro valor do amor, para superar todas as dificuldades que se encontram na vida matrimonial.

Bento XVI, na mensagem do Dia Mundial da Paz deste ano, convida a educar “para uma sexualidade plenamente respeitadora da dignidade da pessoa” (n.4).

5° – A Unidade

“Uns dizem: ‘Eu sou de Paulo!’. E outros: ‘Eu sou de Apolo!’. E outros mais: ‘Eu sou de Pedro!’. Outros ainda: ‘Eu sou de Cristo!’. Será que Cristo está dividido?” (1Cor 1,12-13).

É o grave problema da unidade, externa e interna, na Igreja. Já as divisões históricas, operadas no cristianismo ao longo dos séculos, são um escândalo para a humanidade. A isso tem que acrescentar o que acontece mesmo dentro da nossa Igreja católica: divisões entre movimentos, entre uma pastoral e outra, procura de privilégios, querer ser melhores que os outros, caminhar por conta própria, sem o devido respeito da pastoral de conjunto etc…

Se Paulo estivesse hoje no meio de nós, não repetiria as mesmas coisas que dizia aos Coríntios?

Ao término destas pequenas e simples reflexões, queria pedir ao grande Apóstolo que nos encha do seu espírito missionário (“Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho”) para que todos cheguem ao conhecimento de Cristo, Caminho, Verdade e Vida e, assim, sejam salvos.

Dom Antonino Migliore
Bispo de Coxim – MS

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