Paulo, um evangelizador em contínua e profunda conversão

Ao celebrar dois mil anos do nascimento do Apóstolo Paulo, reconhecemos com mais consciência a importância de sua atuação missionária nas origens do cristianismo e a luz que nos vem do seu testemunho de viver sempre aberto ao Espírito. Nascido em Tarso, capital da Cilícia, Paulo foi criado dentro das exigências da Lei de Deus e da memória histórica do seu povo. Ele mesmo afirma que “progredia no judaísmo mais do que muitos compatriotas da sua idade, distinguindo-se no zelo pelas tradições dos seus antepassados” (Gl 1,14). Foi no seio da sua família e na escola judaica da sinagoga que Paulo adquiriu esses conhecimentos. Quando completou sua formação em Tarso, Paulo foi para Jerusalém e especializou-se no judaísmo, tendo como orientador o ilustre Rabi Gamaliel (cf. At 22,3).

Depois da morte e ressurreição de Jesus, formam-se as primeiras comunidades cristãs em Jerusalém e surge um conflito entre cristãos hebreus e helenistas (cf. At 6,1). Paulo passa a perseguir quem seguia o “caminho”, desviando-se das normas judaicas. A afirmação de que um crucificado era o Messias prometido, o Ungido de Deus, escandalizava os judeus que consideravam maldito quem fosse pendurado num madeiro (cf. Dt 21,22-23). Além disso, no discurso de Estêvão (cf. At 7,2-53) transparece a postura de judeus da diáspora que relativizam o templo de Jerusalém e os sacrifícios.

Paulo se coloca então a serviço do sinédrio para ir a Damasco e “trazer presos a Jerusalém os que lá encontrasse pertencendo ao caminho, fossem homens ou mulheres” (At 9,2). Estando em viagem, teve um inesperado e luminoso encontro com Jesus Ressuscitado que o enviou a evangelizar os gentios (cf. At 9,3-18; Gl 1,16). Paulo deixa-se tocar por este encontro e, após sua conversão, o zeloso e apaixonado judeu transformou-se no líder de um movimento que anunciava a morte e ressurreição de Jesus também aos pagãos. Nessa época, o cristianismo era ainda um movimento de abertura dentro do judaísmo, comunicado a partir das sinagogas.

Da mesma maneira como viveu sua juventude como um judeu apaixonado pela Lei, Paulo entrega-se à nova vocação que recebeu de Deus, em Cristo Jesus (cf. Fl 3,14; 1Cor 9,25). Não se limitou a ser um simples participante da comunidade nova que se formava, mas tornou-se um audacioso e convicto evangelizador, indo pregar nas sinagogas da Arábia (cf. Gl 1,17) (por volta de 32-35 d.C). Só voltou de lá porque estourou uma guerra entre nabateus e galileus e teve que fugir para não ser preso (cf. 2Cor 11,32-33). Voltando para Antioquia da Síria, Paulo visita Jerusalém durante quinze dias (cf. Gl 1,18) e passa a viajar pelas grandes cidades da Ásia Menor, Grécia e Macedônia anunciando o evangelho de Jesus.

Acontece, então, outra profunda conversão na vida de Paulo. Em Atenas, percorrendo a cidade e observando seus monumentos, “Paulo discutia em praça pública com aqueles que ia encontrando e anunciava-lhes Jesus e Anástasis, isto é, Ressurreição” (At 17,17-18). Convidado pelos filósofos, Paulo prepara com muito cuidado um discurso, usando as regras da retórica, preocupado em impressionar os gregos com sua sabedoria (cf. At 17,22-31). Mas, em seu discurso Paulo não pronuncia o nome de Jesus nem fala da Cruz. Fala somente da Anástasis, isto é, da Ressurreição. Para a cultura platônica dos gregos, a Ressurreição era um absurdo. Por isso, quando ouviram falar da ressurreição, disseram-lhe: “Até logo! Nós ouviremos você falar disso em outra ocasião!” (At 17,32). Pouca gente se converteu (cf. At 17,34).

Paulo sofreu ao experimentar esse fracasso! Havia preparado com muita consciência e dedicação seu discurso. A elite de Atenas reuniu-se no areópago para ouvi-lo, cheia de curiosidade! Mas, quase ninguém quis levar em conta a mensagem do evangelho que ele veio trazer aos gregos! Abatido, Paulo saiu de Atenas e foi para Corinto (cf. 1Cor 2,1-5). Lá, junto de Áquila e Priscila (cf. At 18,1-3) ele toma um tempo para aprofundar o que havia acontecido. Descobre que não se pode falar de Ressurreição sem falar da Cruz e que a Cruz não tem lógica, nem existem discursos capazes de explicá-la! (cf. 1Cor 1,18-25). Desde então, centraliza sua pregação no Messias Crucificado e na maneira como Jesus anunciava a Boa Notícia do Reino, com exemplos do cotidiano das comunidades que viviam no interior da Palestina.

Ora, Paulo era da cidade e havia convivido com uma grande diversidade cultural em Tarso. Usando linguagem simples, com exemplos tirados da vida nas cidades helenistas, como o da construção civil (cf. 1Cor 3,10-17); dos jogos olímpicos (cf. 1Cor 9,24-27); da compra e resgate dos escravos no mercado (cf. 1Cor 6,20; 7,23; Gl 3,13-14), etc. Paulo passa a anunciar a Boa Nova de Jesus sem usar os recursos da oratória (cf. 1Cor 2,4). Além disso, aproxima-se dos pobres. Faz-se um deles, trabalhando com as próprias mãos (cf. 1Cor 4,12; At 18,3), o que era inaceitável para a elite grega.

Mas, há ainda uma outra grande conversão que pode ser percebida na vida de Paulo. A partir da formação que recebeu desde a infância, e da cultura das pessoas que participavam das comunidades helenistas, Paulo pede que “as mulheres fiquem caladas nas assembléias, pois não lhes é permitido tomar a palavra. Devem ficar submissas como diz a Lei” (1Cor 14,34). Esta era a visão da maioria das pessoas naquela época. Pensavam que a mulher era inferior ao homem e que, por isso, devia ser-lhe submissa. Mas, quando Paulo chegou a Filipos, foi ao encontro das mulheres que se reuniam aos sábados na beira do rio para rezar (cf. At 16,13). Entre elas estava Lídia, que se converteu com toda a sua casa (cf. At 16,15), local onde começou a comunidade cristã de Filipos (cf. At 16,40). Além disso, quando lemos o capítulo 16 da carta aos romanos, escrita por Paulo cerca de dois anos mais tarde, encontramos muitos nomes de mulheres que ele cita com reconhecimento e carinho pela contribuição que elas deram no anúncio do evangelho (cf. Rom 16,1-16). Esta longa referência a mulheres e homens mostra o relacionamento de Paulo com suas companheiras e companheiros de missão. Entre ele e elas existe uma relação de igualdade, afeto e respeito.

Paulo insiste na Boa Nova da igualdade entre todas as pessoas que seguem Jesus. Sejam escravos ou livres, mulheres ou homens, judeus ou gentios, todos têm a mesma dignidade e foram batizados em um mesmo Espírito (cf. Gl 3,26-28; 1Cor 12,13; Fm 15-16). Esta relação nova caracteriza o discipulado de Jesus e sinaliza para a presença do Reino de Deus no mundo. Paulo resgata as relações de igualdade entre participantes das comunidades cristãs, porque elas mostram, de maneira convincente, como o Reino de Deus está acontecendo na história.

No contexto atual em que a complexidade das grandes metrópoles desafia nossa capacidade de evangelização, precisamos resgatar não somente a metodologia usada por Paulo para anunciar o Evangelho nas grandes cidades da sua época. Necessitamos de uma entrega apaixonada no anúncio do Reino, deixando-nos mover pelos acontecimentos, para viver em um contínuo processo de conversão.  Olhando para o testemunho de Paulo, aprender que a missão precisa ser realizada através de um afetuoso e efetivo trabalho de equipe, em contínua comunicação e articulação, superando todo tipo de preconceito.

Ir. Mercedes Lopes, mjc

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