Paz no trânsito

Dom Aldo Pagotto

Arcebispo Metropolitano da Paraíba

A cada ano, a data de 24 de janeiro marcará o transcurso das vítimas no trânsito em João Pessoa, por irresponsabilidade dos que insistem em provocar delitos de incalculáveis consequências. Com pesar celebramos a memória da inesquecível promotora do MP, Fátima Lopes, bem como de membros da família Ramalho, Carvalho e tantas outras, barbaramente penalizadas com sentença de morte pela imprudência dos algozes do trânsito.

O consumo de bebida alcoólica e o de outras drogas tornam-se práticas rotineiras. Autoridades fazem vista grossa ao evidente êxito da “lei seca”, hoje desmoralizada pela chantagem de empresários e comerciantes do ramo altamente lucrativo. Até nos postos de combustível está uma das maiores contribuições para o recrudescimento da violência no trânsito.

Faz-se corpo mole diante das desgraças previstas e anunciadas. Como se não bastasse, agora ressurgiram as motos “cinquentinhas” sem que seus condutores recebam orientações, cumpram com regulamentos que, aliás, existem? Sem placa, sem segurança, serpenteiam em trânsito tresloucado. Adolescentes fazem malabarismos “para se mostrar”, curtindo numa boa.

As cidades grandes possuem legislação proibitiva do consumo ou venda de bebida. A lei, porém, não pegou. No Brasil é assim! Segundo o Ministério da Saúde o álcool é considerado grave problema para a saúde pública porque representa a iniciação para outras drogas, chamadas ilícitas. O consumo de bebida alcoólica, facilmente encontrada nos postos de abastecimento, além de incentivar motoristas alcoolizados no volante, favorece o envolvimento de menores com outras drogas.

Em estudos aplicados nas quatro maiores capitais do Brasil, a ABDetran (Associação Brasileira dos Departamentos de Trânsito) constatou: 61% das vítimas de trânsito apontaram a presença de álcool no sangue (alcoolemia). Nosso País constata por ano 35 mil pessoas vitimadas por morte, em acidentes de trânsito. A principal causa de morte entre jovens de 15 aos 24 anos está relacionada com o álcool e outras drogas.

Segundo trabalhos científicos da Associação Brasileira de Psiquiatria, o álcool é responsável por 60% dos acidentes de trânsito. Essa evidência transparece em 70% dos laudos cadavéricos das mortes violentas. O índice supera as mortes causadas pelas doenças cardiovasculares e neoplásicas.

Nossa sugestão para os governos estadual e municipais da Paraíba é a organização de fórum permanente para a reeducação do povo, orientando-o segundo as leis de direito e de fato, proibindo o consumo de bebidas alcoólicas no espaço físico dos postos, lojas de conveniência e similares. Inclua-se no fórum a questão nojenta da poluição sonora que azucrina o sistema nervoso de qualquer pessoa de bom senso.

A lei é feita para salvaguardar o bem comum. Sua aplicação efetiva depende de fiscalização do poder público e da colaboração de todos nós que acreditamos na vida, que é dom sagrado dado por Deus! O povo agradece as medidas de superação dessa forma de violência tão acirrada pelos que teimam em se impor com a força da deseducação e da grana.

A autoestima do povo paraibano depende também da qualidade de vida recuperada. Que todas as formas de violência sejam ao menos reduzidas, senão erradicadas de vez. De fato, a paz no trânsito depende de todos e de cada um de nós, construindo a cultura de paz.

O recado final é a tarefa que nos incumbe pela construção da vida e da concidadania. Nada supera o valor da vida. Interesses puramente lucrativos dos “donos do pedaço” não podem prevalecer sobre o maior de todos os interesses humanos: a incomparável dignidade da vida vivida na paz; consigo mesmo, com os outros, com a sociedade e com Deus.

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