Povos de vida coletiva são os que mais preservam o meio ambiente, afirma antropólogo

O antropólogo e professor na Universidade Federal da Amazônia, Alfredo Wagner, afirmou que os povos de forma de vida coletiva como os indígenas, quilombolas,

quebradeiras de coco, ribeirinhos, peconheiros, piaçabeiros, ciganos são os que mais preservam o meio ambiente. “As empresas mineradoras são as que mais estragam o meio ambiente”, disse Wagner.

O antropólogo participou ontem do painel “Territorialidade e Populações tradicionais no Brasil”, promovido pela Tenda Ir. Dorothy, no Fórum Social Mundial. O painel foi organizado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Wagner é responsável pela pesquisa de mapeamento social das novas identidades coletivas que está sendo feita pela UFAM. De acordo com o professor, a pesquisa procura saber como esses povos vivem e como fazem para defender seus direitos, sua etnia e seu território.

A procuradora da república, Débora Duprat, mostrou a diferença entre terra e território. “Território é espaço de acolhimento, terra, de beligerência”, disse. Segundo afirmou, o território está fora do conceito político, econômico e jurídico.

“Está fora do conceito político porque, em questão de direitos humanos, a maioria não pode decidir pela minoria”, explicou. “Está fora também do conceito econômico porque as terras não podem ser alienadas e do jurídico porque o direito fundamental não pode ser restringido por nenhuma lei”, completou.

Duprat mostrou-se preocupada com a ação do judiciário nestas questões. “O judiciário trata os territórios como se fossem terras privadas”, observou, apontando, como exemplo, as 18 condicionantes que o STF está colocando no julgamento da homologação das terras indígenas Raposa Serra do Sol.

Indígenas

O líder indígena Dionito José Macuxi, de Roraima, explicou a importância da terra para os povos indígenas e protestou contra o julgamento da Terra Indígena Raposa Serra do Sol pelo Supremo Tribunal Federal. “A terra está sendo julgada no STF como se os índios fossem bandidos”, reclamou. Ele rebateu, também, os que contestam a demarcação das terras indígenas. “Com relógio ou sem relógio, eu sou índio, mas sem a terra, deixo de ser índio”, destacou.

Dionito ressaltou a presença e o apoio da Igreja Católica à causa dos indígenas. “Somente a Igreja Católica ajudou o índio a reconhecer sua cultura e não arredou o pé um só minuto”, disse.

O presidente do CIMI, dom Erwin Krautler, também defendeu o direito à terra dos indígenas. “Os índios têm direito às suas terras ancestrais. Isso está garantido na Constituição Federal, no artigo 231”, disse dom Erwin.

O bispo condenou as “falácias” que são divulgadas em relação às terras indígenas. “Muitos dizem: ‘é muita terra para pouco índio’. Isso é uma falácia. Para eles, a terra é mãe, e não se parte a mãe ao meio”. Outra falácia, segundo dom Erwin, é a afirmação de que a demarcação das terras indígenas coloca em risco a soberania nacional. “Isso é uma mentira. As terras indígenas nunca deixaram de ser brasileiras”.

Quilombolas

Do Maranhão vieram as experiências dos Quilombolas e das Quebradeiras de Coco. A ex-vereadora Eunice contou sua luta pelo reconhecimento do território Quilombola onde mora. Por causa de sua militância, sofreu ameaças, mas afirma que não tem medo. “Quem tem consciência, não tem medo”, diz com convicção. Com muita consciência política, é contra o agronegócio. “Esses projetos de agronegócio não trazem vida para ninguém”.

Quebradeiras de Coco

Maria Alaídes é líder das Quebradeiras de Coco Babaçu no interior do Maranhão. Ela explicou a organização e a resistência das mulheres na preservação de seu trabalho por causa do latifúndio na região. “Tivemos que enfrentar a polícia para preservar o babaçual. Houve muito sangue derramado”, recorda.

Sua militância a levou ao engajamento político e foi vereadora em seu município durante dois mandatos. Na Câmara Municipal, conseguiu a aprovação da Lei Babaçu Livre que considera a atividade das Quebradeiras de Coco como extrativista.

Já Maria de Jesus, ou simplesmente Dijé, como faz questão de ser chamada, arrancou aplausos da assembléia ao falar de sua participação na organização das Quebradeiras de Coco. “Estou com 58 anos e pensava: ‘quando minha filha caçula tiver 15 anos, já não precisarei mais lutar por esta causa’. Mas vi que agora é que minha luta começou”, disse entusiasmada.

“Nós (Quebradeiras de Coco) temos três identidades: somos mulher, somos negras, mas precisamos descontruir o conceito de negritude imposto pela escola, e temos uma profissão: somos quebradeiras de coco”, afirmou orgulhosa.

Sobre a dificuldade de conseguir e manter as terras de babaçu, Dijé não vacila. “Precisamos de terra para viver, ninguém vive no ar”. Os enfrentamentos pela conquista deste direito também foi ressaltado por Dijé. “Antes, eles mandavam a polícia porque era a ditadura, agora é porque vivemos numa falsa democracia”, disse sob os aplausos entusiasmados da assembléia.

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