Projeto brasileiro de apoio a moradores de rua é apresentado em simpósio de jovens no Vaticano

Um projeto de assistência a pessoas que vivem na rua, em Recife (PE), foi apresentado no final de semana, entre 12 e 15 de outubro, durante o IV Simpósio Juvenil promovido pela Pontifícia Academia das Ciências Sociais, no Vaticano. O fundador da Comunidade dos Viventes, fez a apresentação do trabalho nordestino:

Bom dia a todos e a todas.

Antes de tudo, gostaria de expressar a minha alegria em poder participar, novamente, desse simpósio tão importante quanto necessário: reunir jovens do mundo inteiro que se dedicam a construir um mundo mais solidário nesses tempos difíceis, é urgente! Venho, hoje, dar uma notícia. Como alguns de vocês se recordam, no ano passado, eu vim apresentar a ideia de uma Casa que atendesse pessoas que moram nas ruas. Aquilo que era somente uma ideia tornou-se realidade.

Há três meses, nós abrimos a Casa Vincular, um espaço que atende, diariamente, pessoas que moram nas ruas da cidade de onde eu venho, no Brasil, um lugar marcado por uma grave desigualdade social. Todos os dias, recebemos pessoas que se tornam, pouco a pouco, invisíveis para a maior parte da sociedade.

Pessoas como dona Maria, de 70 anos. Ela decidiu ir morar nas ruas depois que o seu filho se envolveu com drogas e passou a agredi-la. Com medo de que ele fosse vítima da violência dos traficantes e para não se desentender com o filho, a mãe preferiu ir morar nas ruas.

Pessoas como Sabrina que por causa de sua orientação sexual, foi expulsa de casa pelos pais e hoje precisa se prostituir para poder comer.

Pessoas como Tomás, de 20 anos, que mendiga um sabonete para tomar banho alguns dias da semana.

Essas pessoas, todos os dias, estão mergulhadas na invisibilidade, vítimas de um mundo veloz e competitivo incapaz de parar e dar respostas concretas a essas necessidades. Daí porque a Casa Vincular se tornou uma necessidade inegociável e urgente. Porque no meu País, e talvez em muitos dos seus países, cresce o número de pessoas abandonadas, pobres, sem condições para criarem um futuro digno. Infelizmente, a produção de riquezas cresce, mas ela não está sendo dividida de forma equilibrada.

Como foi possível tornar a Casa Vincular uma realidade? E como fazer para que este tipo de experiência seja multiplicado, talvez, em seus países?

Primeiro: reunindo um grupo de pessoas interessadas em transformar o mundo. Sim! Transformar o mundo. Com os jovens, ou nós apresentamos ideais grandes e metas altas, ou eles não se movem. Se nós queremos mobilizar os jovens para serem protagonistas não podemos negociar nos sonhos. Porém, ao mesmo tempo, é importante fazer com que esses jovens se comprometam e levem a sério aquilo que fazem. Depois de sonhar, sentar e colocar metas claras e objetivas para serem cumpridas reunindo o poder público e privado, os meios de comunicação e a opinião pública para nos ajudarem a reunir o dinheiro necessário. E nós conseguimos. Nós, no Brasil, conseguimos. Em pouco mais de quatro meses arrecadamos o que era necessário para começar e manter a casa por quatro meses. Hoje, a Casa Vincular atende, diariamente, em média, 50 pessoas que moram nas ruas ou estão em grave vulnerabilidade social: desempregados, viciados em drogas, pessoas em conflito com a lei, crianças doentes, idosos abandonados. Além do almoço que é servido, eles são convidados a tomar banho, um serviço básico, mas essencial.

Nossas próximas metas são duas. A primeira: oferecer atendimento multidisciplinar em saúde. A segunda: oferecer cursos e oficinas de capacitação profissional para jovens e adultos para que eles sejam inseridos no mercado de trabalho e atividades para que as crianças saiam das ruas e não sejam aliciadas pelo crime. Para que isso seja possível, a Casa necessita de um recurso mensal de 22 mil reais, algo em torno de 7 mil dólares. Gostaria da ajuda de vocês, se possível, para juntos conseguirmos esta quantia.

É importante dizer que a Casa Vincular é um desdobramento da Comunidade dos Viventes, uma instituição católica que reúne centenas de pessoas no Brasil, principalmente jovens. Sim! A fé deve ser traduzida em gestos concretos e é fundamental, nesses tempos de fundamentalismos, ensinar os jovens que a fé, se verdadeira, seja ela qual for, nunca é instrumento de intolerância, ódio ou guerra. Mas, ao contrário, a fé nos ensina a dialogar com aqueles que pensam diferentemente de nós, além de nos ajudar a construir um mundo mais fraterno.

As religiões são uma das organizações, no mundo, que mais possuem a capacidade de mobilizar as pessoas. Não podemos negligenciar essa força se queremos fazer os jovens construírem um mundo solidário. Você, jovem, que está me escutando agora e professa uma fé, você tem uma responsabilidade. Unamo-nos! É possível mudar a situação dessas pessoas. É possível, necessário e inadiável. Não podemos nos acostumar com seres humanos que se tornam invisíveis, mera paisagem em nossas cidades. Eles estão perto das nossas casas, pedindo dinheiro no trânsito, dormindo debaixo de viadutos, competindo com os animais pelo lixo. Cabe a cada um de nós tirá-los da invisibilidade e nutrir esperança neles. Ajuda-los a sonhar novamente com uma nova história.

Nós, jovens, temos um papel fundamental nisso! Como é possível que a nossa criatividade esteja criando as mais avançadas tecnologias, mas se acostume com a fome, a solidão e a miséria de tantos. Não podemos e eu sei: não queremos. Eu acredito que a nossa geração pode e deve recuperar a capacidade de sonhar e realizar um mundo mais justo, solidário e fraterno.

Ninguém pode ser invisível! Ninguém pode ser invisível! Repito: ninguém pode ser invisível! Só haverá futuro se for assim e esse futuro começa agora em mim e em vocês! Façamos a nossa escolha e façamos hoje!

Muito obrigado.

Nesta segunda-feira, 16 de outubro, por e-mail, Gabriel Marquim respondeu a três perguntas da Assessoria de Imprensa da CNBB:

  1. Como seu projeto foi acolhido na reunião do IV Simpósio Juvenil organizado este final de semana, no Vaticano, pela Pontifícia Academia das Ciências Sociais?

    Pela segunda vez, eu participei do Vatican Youth Symposium, um evento realizado há quatro anos pela ONU e pelo Vaticano. No ano passado, eu apresentei a ideia da Casa Vincular. Este ano, pude mostrar os três primeiros meses de funcionamento da Casa. De fato, a acolhida dos delegados internacionais foi acima da expectativa. Muitos deles vieram conversar comigo, pedindo mais detalhes e abertos a possíveis parcerias, o que é muito interessante para nós. Também o representante da ONU me procurou, elogiando a dedicação e o profissionalismo do projeto.

  2. Qual a ligação do projeto com a arquidiocese de Recife?                                                                                      A Casa Vincular é um trabalho do Projeto Vincular que, por sua vez, é um apostolado da Comunidade dos Viventes, uma organização católica que reúne centenas de jovens no Brasil, em sete cidades. Nesse sentido, o projeto é acompanhado de perto pela Arquidiocese de Olinda e Recife, que incentiva o nosso trabalho e ajuda com parcerias. Nossa arquidiocese, por sua própria história, sempre esteve ligada à questão social como um desdobramento da fé.

 

  1. Qual a grande mensagem para a juventude do Brasil que se pode dar com o trabalho que vocês fazem?                                                                                                                                                                                          A mensagem que se pode ter a partir do Projeto Vincular e da Comunidade dos Viventes é que a fé pode, e até deve, ter uma incidência concreta na vida das pessoas, especialmente na vida dos mais necessitados. Além disso, nossa experiência mostra que os jovens podem construir coisas grandes se eles se unem e promovem o bem de todos.
Share This