Quanto “vale”? “Vale” nada!

Dom Luiz Gonzaga Fechio
Bispo de Amparo (SP)

No domingo, 10 de fevereiro, tive a oportunidade de celebrar a santa missa, às 10h, com o povo muito religioso de Brumadinho, cidade mineira de menos de 40 mil habitantes, conhecida nacional e internacionalmente a partir do dia 25 de janeiro, por uma inesquecível tragédia que, a bem da verdade, a meu ver, trazendo aqui a palavra que usei várias vezes, principalmente nas celebrações, merece ser considerada como uma verdadeira desgraça, com todo o peso negativo que o vocábulo pode significar.

Tal experiência teve um significado mais forte ainda pelo fato dessa cidade fazer parte de uma região da Arquidiocese de Belo Horizonte na qual tive a gratificante experiência de exercer meu serviço de bispo auxiliar durante os cinco primeiros anos deste ministério, antes de ser designado como atual bispo de Amparo.

Embora aquele momento tenha sido vivenciado com grande tristeza, foi uma agraciada ocasião para rever e se solidarizar com pessoas tão queridas, unidas em notável comunhão de fé, sob a orientação espiritual do dedicado Pe. Renê Lopes, pároco da Paróquia São Sebastião, a mais referencial na cidade, com o qual experienciei a satisfação de realizar essa eucaristia, ainda mais por ser o mesmo padre que lidera tal comunidade já antes de acontecer minha transferência.

Em meio a um clima permeado de tanta desolação, como, de certa forma, não poderia ser diferente, a Palavra de Deus, particularmente o evangelho daquele domingo nos propôs a maravilhosa meditação de Lc 5,1-11, do qual conhecemos a belíssima expressão “faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca”, quando Jesus desafia o apóstolo Pedro a vencer o cansaço e o desânimo de uma pesca totalmente infrutífera ao longo de toda a noite anterior. “Avançar para águas mais profundas”, como é uma tradução mais simples da que está citada no texto bíblico, faz-nos recordar o quanto podemos discorrer sobre uma realidade que tanto nos requer renovada esperança e consequente disposição para retomar uma atividade, um caminho, ou até um sentido de vida que se faz tão exigente e necessário.

Quando pensamos em nossa identidade cristã, procurando responder a pergunta “o que é ser cristão” ou “qual o modo de seguir Jesus”, percebemos que o Evangelho esclarece que precisamos escutar a proposta do Mestre, fazer o que Ele diz, cumprir as suas orientações, lançar as redes. Não faltarão momentos nos quais as palavras de Jesus parecerão ilógicas, incoerentes e talvez até ridículas, mas é necessário confiar incondicionalmente e entregar-se em suas mãos. A locução “pescador de homens” que Jesus usa para confirmar a missão de Pedro faz nos refletir a concepção de “mar” na interpretação judaica: era a morada dos monstros, onde residiam os espíritos e as forças demoníacas que procuravam roubar a vida e a felicidade do ser humano. “Pescar homens”, como foi a missão dos apóstolos, é também a de todo cristão e cristã consciente que deve continuar a obra libertadora de Jesus em favor da vida humana, procurando libertar a pessoa de tudo o que ameaça matá-la afogada no mar, – e, evidentemente, cabe dizer, – na lama da opressão, do egoísmo, da dor, do medo…

O nome da Companhia Mineradora, que jamais poderá deixar de ser considerada a verdadeira responsável por esta abominável calamidade, faz-nos lembrar os diversos sentidos do substantivo “valor” ou do verbo “valer”, e questionar séria e incansavelmente: quanto “vale”, de fato, a vida de centenas de irmãos e irmãs, ou mesmo que fosse apenas de uma pessoa, diante de um conceito de “progresso” ou “desenvolvimento” pelo qual só se enxerga o $? A resposta é triste e, mais que isso, terrível, porém inegável: “vale” nada!

 

 

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