Quaresma: o dinheiro não é nosso Deus

Com a quarta feira de cinzas, iniciamos o tempo litúrgico da Quaresma, que nos prepara para a celebração da Páscoa, a festa principal da Liturgia e o mistério central de nossa fé: Mistério redentor da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, mediante o qual a humanidade alcança o perdão, é reconciliada com Deus e recebe a vida nova no Espírito Santo. A celebração do “Mistério Pascal”, sobretudo no Sagrado Tríduo Pascal,  é precedida por este “tempo favorável”, especialmente propício para nos voltarmos para Deus com renovada atenção e empenho. Na bênção das cinzas já aparece indicado o sentido deste tempo: é um caminho, cuja meta está mais adiante; os fiéis são estimulados e conduzidos para que, “prosseguindo na observância da Quaresma, possam celebrar o Mistério Pascal do vosso Filho”.

Nossa experiência humana mostra que somos pecadores, frágeis criaturas, sujeitas a frequentes desvios e quedas no caminho; somos tentados a esquecer Deus, a nos deixarmos levar pela “soberba da vida”, que coloca Deus de lado e nos leva a pautar nossa existência sem Deus. A solicitação tentadora de Adão e Eva no paraíso continua sempre atual: “Sereis como deuses”. Esta é a grande tentação do homem: Não reconhecer sua relação intrínseca com Deus, pretender viver sem Ele e até colocar-se no lugar de Deus. A revelação bíblica e nossa fé cristã ensinam que Deus não aceita a idolatria e condena a atitude soberba do homem; mas, ao mesmo tempo, é compassivo e misericordioso com o pecador arrependido, que se volta com atitude contrita para Ele.

Por isso, desde o primeiro dia da Quaresma, a Igreja chama à conversão, o que significa, literalmente, a voltar-se novamente para Deus; chama também à penitência e à renovada adesão a Jesus Cristo e seu Evangelho, como sinais da conversão sincera. A imposição das cinzas é acompanhada com as palavras – “convertei-vos e crede no Evangelho”: É Jesus Cristo que nos mostra o caminho para Deus e nos põe em comunhão com Ele. A conversão conta com a graça de Deus mas também supõe nosso esforço de superação da auto-suficiência, mediante a penitência, o conformação de nossa vida com a Palavra de Deus (obediência filial a Deus), o arrependimento dos pecados e o reconhecimento humilde da misericórdia de Deus. Todos esses passos aparecem bem na parábola do “filho pródigo”.

Neste ano, a Campanha da Fraternidade nos convida a aprofundar, durante a Quaresma, o tema – “economia e vida”, e o lema – “vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). A situação social e econômica do nosso tempo desafia a nós, cristãos, como a todas as pessoas, a se colocarem seriamente o problema: Se as atividades econômicas pessoais, da sociedade como um todo e as do Estado estão, de fato, a serviço da fraternidade e da vida, ou estão sendo campo de profundas injustiças, de dor e de morte? De fato, essas atividades, muitas vezes, tornam difícil e até sufocam a vida de tantas pessoas, amplas camadas sociais e de inteiros povos, que continuam na pobreza, à margem do desenvolvimento verdadeiro e privados dos bens necessários à vida digna. Sobre isso também tratou o papa Bento XVI na sua recente e importante encíclica social Caritas in veritate (A Caridade na Verdade).

O lema da Campanha coloca o dedo na ferida: A avareza, que é a busca ávida dos bens desta vida, como se eles fossem o objetivo último do viver humano, leva o homem a passar por cima de tudo para obter e possuir esses bens. É Jesus quem diz: “não podeis servir a Deus e ao dinheiro”, qualificando o apego avarento às riquezas como uma idolatria, incompatível com o primeiro mandamento da lei de Deus: “Adorarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua inteligência, e somente a Ele servirás”. De fato, se não cuidamos, os bens deste mundo, numa palavra, o dinheiro, podem tomar tanto as nossas atenções, nossos esforços e nosso tempo, que se transformam em verdadeiros “senhores” nossos. Passamos a viver em função deles e tudo por eles sacrificamos; até Deus fica em segundo plano, pois esses tirânicos “senhores” requerem toda nossa dedicação. Podem fazer-nos abandonar os mandamentos de Deus, para seguir as suas exigências e a sua lógica. E aí acontecem os pactos com práticas desonestas e com  injustiças nas relações econômicas e com a insensibilidade diante da dignidade e dos direitos do próximo. As conseqüências são a corrupção dos costumes, as injustiças econômicas, comerciais e sociais, a miséria, o sofrimento de muitas pessoas e, finalmente, a morte. Os ídolos exigem holocaustos e vítimas…

A vida econômica da sociedade, que envolve o trabalho, a produção, a distribuição, o consumo e a posse de bens, deveria ser o espaço privilegiado para a construção de verdadeiras relações de solidariedade e fraternidade entre as pessoas, grupos e povos; mas não é o que sempre acontece. A Campanha da Fraternidade nos convida a um sério exercício de conversão da vida pessoal e social, no tocante às atividades e às relações econômicas, para serem mais conformes ao desígnio de Deus sobre o homem e sobre o mundo.

Card. Dom Odilo P. Scherer

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