Assembleia reuniu 400 catequistas indígenas na na terra indígena Raposa Serra do Sol (RR)

Em sintonia com o Sínodo para a Amazônia, a Igreja em Roraima caminha de mãos dadas com as comunidades indígenas na missão de anunciar o Reino de Deus na história de resistência e compromisso de fé.

A Terra Indígena Raposa Serra do Sol (TI RSS) no Estado de Roraima, norte do Brasil é habitada por mais de 20 mil indígenas Macuxi, Wapichana, Taurepang, Ingaricó e Patamona. A população vem crescendo organizada em mais de 200 aldeias ou comunidades nas regiões de Surumu, Serras, Baixo Cotingo e Raposa.

Dom Mário Antônio da Silva. bispo de Roraima

A evangelização nas comunidades tem a participação ativa dos catequistas e lideranças. Em sintonia com o Sínodo para a Amazônia, com o objetivo de unificar a caminhada e refletir sobre o processo de iniciação à vida cristã, cerca de 400 catequistas das quatro regiões da TI RSS estiveram reunidos, nos dias 24 a 28 de janeiro 2019, na comunidade do Barro em Surumu, para a IV Assembleia.

“Iniciação à Vida Cristã na perspectiva do Sínodo e da REPAM” foi o tema central do encontro que contou com a presença do bispo de Roraima, dom Mário Antônio da Silva, entre outros convidados.  “Nossas alegrias são muitas e, dentre elas, destaco a atuação dos catequistas, tanto dos veteranos como dos novos catequistas, numa integração de geração que vive o Evangelho”, apontou dom Mario. Conforme o bispo, a iniciativa é fruto de uma alegria muito grande, especialmente por contar com a presença de muitos jovens, que já vivenciam a catequese em suas comunidades e lares.

Jerônimo Carneiro de Oliveira, coordenador da Assembleia

No entanto, dom Mario chama a atenção para o fato de que a Iniciação à Vida Cristã seja um processo permanente, celebrativo e vivencial à luz de tudo aquilo que os povos indígenas vivem.  “Ao mesmo tempo preocupamo-nos que a catequese seja algo que motive e una as comunidades para a luta por seus direitos, a luta pela terra, a defesa da saúde e da dignidade em prol de todas as comunidades indígenas e, ao mesmo tempo, que seja algo que possa gerar neles um entusiasmo de poder viver o evangelho integrados como verdadeiros cristãos em nossa diocese de Roraima”, salientou.

O professor e catequista Jerônimo Carneiro de Oliveira, coordenador da Assembleia destacou a importância do encontro. “Essa IV Assembleia tem uma grande importância porque envolve os catequistas, a liturgia e a juventude que faz parte dessa vida. É com eles que nós contamos e nos fortalecemos e, assim, com o apoio da missão da diocese de Roraima podemos envolver todo esse povo, toda a comunidade (…)”, disse.

Valorização das línguas indígenas

Padre Ronaldo B. MacDonell, linguista canadense, da Sociedade Missionária de Vida Apostólica (SOMIVA)

Uma das preocupações é iniciar as novas gerações na fé cristã por meio de uma catequese inculturada que inclua a valorização e o uso das línguas indígenas. O padre Ronaldo B. MacDonell, linguista canadense, da Sociedade Missionária de Vida Apostólica (SOMIVA), coordena o projeto de resgate e valorização da língua macuxi por meio de estudos, publicações e seminários nas comunidades. “Um dos temas que foi discutido muito na Assembleia foi o da valorização da língua macuxi, que como muitas outras línguas indígenas no Brasil é ameaçada, então os catequistas sobretudo os veteranos estão muito preocupados e estamos trabalhando a revitalização linguística”, apontou.

Presentes na região desde 1948, em 1971 os missionários da Consolata fizeram a opção pelos indígenas e em 1972 passaram viver nas comunidades ao lado do povo. Ao longo dos anos, “o Plano de Deus sobre nós” orientou a ação evangelizadora integrando fé e vida onde a libertação da terra era o objetivo principal. Hoje acompanham os povos indígenas sete missionários da Consolata: os padres africanos Philip Njoroge Njuma, James Murimi Njimia, Joseph Musito, Jean-Claude Bafutanga, Joseph Mugerwa, Gabriel Ochieng; e o experiente irmão italiano Francisco Bruno. Atuam na área também, três missionárias da Consolata: as Irmãs Maria Thereza Thukani, Kibinesh Amanuel e Alda Raffaela.

Padre Joseph Mugerwa acompanha de perto as comunidades e destaca a unidade no processo de Iniciação à Vida Cristã. “Essa Assembleia une os catequistas da Raposa Serra do Sol para a gente refletir sobre algum tema, escolhido pelos catequistas, para ser debatido. É uma forma de formação e também fazer uma coisa única”, disse.

A programação da Assembleia incluiu reflexões sobre o Sínodo para a Amazônia e a REPAM, a conjuntura do governo atual e as possíveis ameaças aos direitos dos povos indígenas. Luiz Ventura, Leigo Missionário de Consolata e coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em Roraima, recorda as principais demandas dos povos indígenas na atual conjuntura:  1. Proteção dos direitos indígenas previstos na Constituição Brasileira; 2. Demarcação das Terras Indígenas; 3. Garantia dos direitos humanos e combate à violência contra indígena; 4. Reconhecimento dos povos originários e de sua cultura ancestral; 5. Contra a transferência da Funai para o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos; 6. Contra a transferência da demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura. 

Essas reivindicações fazem parte da Campanha nacional “Sangue Indígena, Nenhuma Gota a Mais!”

Resistência e compromisso

A TI RSS tem 1,7 milhão de hectares e foi homologada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2005, após 34 anos de luta que custou a vida de 21 indígenas e representou uma aula de resistência.

Foi exatamente na Missão Surumu que em 1977, uma centena de indígenas e aliados estavam reunidos, numa das primeiras assembleias, quando baixou a repressão militar. Mas eles não se intimidaram. Dispersaram para continuar a Assembleia em outro lugar. Foi o início da resistência e busca de autonomia do movimento indígena. Talvez por isso que, em 2005, essa Missão teve a igreja, a escola e o Centro de Saúde queimados em um dos tantos ataques a mando dos fazendeiros.

O marco histórico da luta foi o compromisso “Ou Vai ou Racha” quando os indígenas, em 26 de abril de 1977, reunidos em Maturuca, aldeia a 320 quilômetros de Boa Vista, resolveram dizer “não à bebida alcoólica e sim à comunidade”, iniciando o processo de organização que culminou com a criação do Conselho Indígena de Roraima (CIR).

Por padre Jaime C. Patias, Conselheiro Geral para América    

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