Romaria com os “pés no chão”

Dom Luiz Gonzaga Fechio
Bispo de Amparo

 

“Terra, Trabalho e Direitos”. “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça” (Mt 5,6).

 

Com este tema e lema, respectivamente, aconteceu, no domingo 22 de julho, a 19ª Romaria da Terra e das Águas do Estado de São Paulo, Regional Sul 1 da CNBB, na Diocese de Amparo, município de Mogi Mirim, com a organização liderada pela Comissão Pastoral da Terra.

Pela primeira vez tive a oportunidade de participar, com cerca de 200 irmãos e irmãs de algumas das 42 (arqui)dioceses que compõem o Regional. Num primeiro momento, não parece ser um número expressivo, considerando o tamanho e a quantidade das Igrejas Particulares do Estado, mas a experiência enriquece e fortalece o seguimento a Jesus, de cada pessoa que se apresenta com a abertura de coração de um(a) romeiro(a).

“Romaria” é um termo associado, geralmente, a grandes templos, santuários e basílicas, muitas vezes envolvendo o turismo, como uma expressão religiosa relacionada a uma devoção. A Romaria da Terra e das Águas, que acontece nos Regionais da CNBB e em muitas dioceses, enquanto evento mais específico, tem a importância de chamar a atenção à necessidade de nos colocarmos com os pés na estrada, observando melhor, refletindo e rezando, a realidade política, econômica e social que nos envolve. Ao dar ênfase a estes aspectos, pode parecer não combinar, aos olhos de muitos, chamar “romaria” a tal acontecimento. No entanto, colocar-se como romeiro(a) nesta situação particular é considerar que não podemos peregrinar, com um sentido verdadeiramente cristão, sem deixarmos de considerar, com senso crítico, à luz da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja, as decisões e os fatos que sempre são motivo de grandes preocupações, no que diz respeito à dignidade da pessoa humana.

Infelizmente, não há como não reconhecer que a violação à dignidade está cada vez mais acentuada em nossa nação, pois é nítido que ela não é para todos, conforme verificamos no noticiário cotidiano e, facilmente, presenciamos à nossa volta, com grande proximidade. Porém, se por um lado, tal constatação é uma evidência, por outro, assistimos uma apatia que parece justificar-se na “normalidade” do dia a dia, justamente porque vai se tornando realidade comum.

A Romaria da Terra e das Águas não tem apenas um nome “sui generis”. Ela é singular, de fato, quando enxergamos sempre mais gritante a necessidade de uma abordagem que vai além, ou seja, que capta, à sua volta, com amplitude, todo o contexto que incide diretamente em nossa vida e na de nosso próximo, ao considerarmos tudo o que se faz no cuidado delicado e dedicado ou na agressão animalesca – infelizmente, do animal “racional” – à grande Casa Comum.

Em 2011, com a Campanha da Fraternidade “Fraternidade e a vida no Planeta”, aprofundamos o significado da citação bíblica de Rm 8,20-22: “a criação alimenta a esperança de ser, ela também, liberta da escravidão da corrupção, para participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus. Até agora, toda a criação geme e sofre dores de parto”.

A Romaria da Terra e das Águas, em sintonia com o fecundo pontificado de Francisco, particularmente na extraordinária encíclica “Laudato Si’” (24/05/2015), faz eco – ainda que sejam poucas vozes – a esse incessante gemido na vida de milhões de brasileiros que não têm um lugar adequado nesta grande Casa. Com o lema do evangelho segundo Mt 5,6, nas Bem-Aventuranças, a Romaria deste ano, no Estado de São Paulo, recordou-nos, com pertinência, a mais nova exortação apostólica do Papa Francisco, “Gaudete Et Exsultate”, quando sinalizou, com determinação, que santidade é “buscar a justiça com fome e sede” (77-79).

 

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