Semana Santa: “Aonde vais, Senhor?”

Conhecemos a lenda do Quo vadis. Em Roma, ao início do cristianismo, iniciou-se grande perseguição de Nero. O apóstolo Pedro, pressionado por seus irmãos cristãos, procura afastar-se da cidade. Enquanto foge para o sul, ao longo da via Ápia, encontra Jesus que vai em direção oposta. Pergunta-lhe Pedro: “Aonde vais, Senhor?” Jesus responde: “Vou a Roma para morrer de novo”. Pedro compreende, volta atrás e sofre o martírio por Cristo, morrendo crucificado, segundo a tradição, com a cabeça para baixo.

A história do Quo vadis se repete também hoje. Jesus vem para sofrer e morrer de novo em toda cidade e lugar onde está em ato a perseguição, o perigo, a morte, especialmente em nossos dias, com o desprezo da verdadeira dignidade da pessoa humana, a banalidade da vida humana, a perseguição dos seres humanos ainda no ventre materno, a discriminação de pessoas segundo a sua situação de humilhação e esquecimento, a tentativa de criar um sistema de amordaçamento dos que pensam o contrário e até com a perseguição. Mas Deus não se esquece e suscita ainda discípulos e discípulas corajosos que não fogem, que estão presentes, mesmo sofrendo perseguições abertas ou camufladas.

A história do Quo vadis tem um sentido também para cada um de nós. Quando Jesus iniciou sua última viagem para Jerusalém que se concluiria com a morte, um dos apóstolos disse aos outros que estavam titubeantes: “Vamos também nós morrer com ele” (João 11, 16). Com esse sentimento no coração  todo verdadeiro homem de fé deveria iniciar a semana santa.

Hoje entramos na Semana Santa. O domingo é rico de significados e memórias: recordamos o mistério de Cristo nosso salvador, e aprofundamos o sentido do nosso ser cristão. A celebração de hoje traz um duplo título: Domingo de Ramos e Domingo da Paixão do Senhor.

Os Ramos constituem o aspecto mais vistoso e sugestivo do acontecimento: recordamos o ingresso triunfal de Jesus em Jerusalém. Os ramos de oliveiras abençoados pelo celebrante, antes da procissão, são sinais de vitória e levamos um depois para nossa casa, em recordação de Cristo vencedor da morte. O Papa João Paulo II aí se inspirou para proclamar a Jornada mundial da Juventude.

A proclamação da Paixão no lugar do costumeiro trecho do evangelho quase sempre breve, hoje será lida por inteiro a narração da morte do Senhor Jesus, como nos é descrito pelo evangelista Marco 14, 1-15,47.

É um drama que podemos imaginar subdivido em cinco momentos: 1. A hora da traição: Os chefes dos sacerdotes se colocam de acordo com Judas para lhes entregar o Senhor Jesus. 2. A hora da amizade: Jesus recolhido com os apóstolos no Cenáculo cumpre o rito da Páscoa, parte com eles o pão, e se dá a seus amigos no sacramento da Eucaristia que institui. 3. A hora da angústia: Jesus se retira para o Horto das Oliveiras e conhece a solidão, a prisão, a fuga dos seus amigos; 4. A hora do julgamento: Jesus é processado pelo sumo sacerdote e por Pilatos; é renegado por Pedro e escarnecido pelos soldados. Marcos põe em relevo a traição de Pedro. Ela foi anunciada por Jesus na última ceia: “Hoje mesmo, nesta noite, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes”. Depois descreve em todo o seu humilhante desenvolvimento, na voz de Pedro: “Não sei e não compreendo o que queres dizer… Não conheço o homem que vós quereis dizer!”.

Esta insistência é significativa, porque Marco era uma espécie de secretário de Pedro e escreveu o seu evangelho colocando juntas as recordações e as informações que lhe vieram exatamente por ele. Foi, portanto, Pedro mesmo que divulgou a história de sua traição.

5. A hora da crucifixão e morte. Com o grito: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” Assim, não há dor em nossa vida, que Jesus não tenha condividido conosco. Sabemos que o Senhor morreu por cada um de nós.

Ao término da leitura da Paixão, o relato evangélico não termina aí. Seguirá um último momento: A hora da ressurreição. Nós a celebraremos no domingo próximo, na solenidade da Páscoa.

Neste ano, teremos ao longo da Semana Santa, além da liturgia normal, uma programação de encenações artísticas dos momentos centrais da celebração, sob a coordenação da Pascom da Arquidiocese de Salvador.

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