Tempo da Quaresma

Na próxima Quarta-feira de Cinzas estaremos iniciando com toda a Igreja o grande momento da Quaresma – tempo de conversão e de retomada de nossa vida batismal.

As cinzas são um sinal já existente no Antigo Testamento que significa o arrependimento pelo mal cometido e o desejo de mudança. Elas são feitas pela queima dos ramos bentos na Semana Santa do ano anterior. Recordam-nos, portanto, a necessidade de conversão para testemunharmos Jesus Cristo como Senhor e Salvador de nossa vida.

Iniciamos com um dia de jejum e abstinência. Diz o diretório litúrgico: “a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa, memória da Paixão e Morte de Cristo, são dias de jejum e abstinência. A abstinência pode ser substituída pelos próprios fiéis por outra prática de penitência, caridade ou piedade, particularmente pela participação nesses dias na Sagrada Liturgia”.

Nesse sentido vemos que o espírito que a Igreja deseja neste tempo é de verdadeira conversão onde o jejum, a oração e a esmola sejam sinais de uma mudança interior – de uma verdadeira conversão – e não apenas de formalidades a serem cumpridas.

Ainda sobre este assunto é bom lembrar que a abstinência (não comer carne) é somente para os maiores de catorze anos, e o jejum está restrito aos maiores de 18 anos, até os sessenta anos começados.  O Canon 1252 do Código de Direito Canônico lembra também que o clima não pode ser apenas formal, mas ter um coração aberto, pois aconselha tanto aos pastores como aos pais que eduquem os filhos que não estão “obrigados” à lei do jejum e da abstinência, em razão da pouca idade, que tenham alguns sinais próprios para eles e sejam formados para o genuíno sentido desta penitência.

É importante lembrar que está muito longe a famosa questão que sempre ocorre nesta época do ano aqui em Belém, quando o preço do pescado sobe devido a um maior consumo: se se pode substituir o tipo de abstinência. Como vimos pelo enunciado da Igreja, está muito claro que a “abstinência pode ser substituída pelos próprios fieis”, e o importante é que entrem neste tempo de conversão e penitência com o coração contrito e tendo alguma prática externa que ajude nessa caminhada de conversão.

A Igreja ainda nos lembra nesta área de aceitação da Palavra de Deus, que nos leve a verdadeira conversão, que esse clima de busca de santidade deve ser sempre e não apenas durante a Quaresma, embora esta receba um valor especial nesse sentido. “No Brasil, toda sexta-feira do ano é dia de penitência, a não ser que coincida com solenidade do calendário litúrgico”. É óbvio que a escolha recaia sobre a sexta-feira devido à recordação do dia da morte de Cristo na Cruz. “Os féis nesse dia se abstenham de carne ou outro alimento, ou pratiquem alguma forma de penitência, principalmente obra de caridade ou exercício de piedade”.

Portanto, o que vemos é a necessidade de vivermos uma vida de contínua e sincera conversão, ajudados pela oração, jejum, esmola, como bem nos lembrará a liturgia da Quarta-feira de Cinzas. Eis o tempo favorável!

Outro sinal importante neste tempo será a celebração penitencial ou confissão. Estamos procurando renovar a nossa vida cristã e batismal durante esses abençoados quarenta dias, que tornam presentes tanto os quarenta dias de Jesus no deserto como os quarenta anos que o povo de Deus passou a caminho da terra prometida, e tantos outros sinais que aparecem com o número quarenta. É o momento de aprofundarmos o encontro com Deus, deixando muita coisa supérflua e nos fixando naquilo que é essencial para termos ainda mais tempo para a “Lectio Divina”, participação na comunidade, oração na comunidade e pessoal.

Alem do mais, a Quaresma é acompanhada, no Brasil, pela Campanha da Fraternidade, da qual já falamos em outros artigos, que versará sobre a Segurança Pública. Mas também aí caberá um gesto concreto. O dinheiro que economizaremos durante a Quaresma devido ao jejum e abstinência deverá ser entregue como fruto de nossa penitência na coleta da solidariedade, no Domingo de Ramos. A porcentagem desse dinheiro que ficará em nossa Arquidiocese, neste ano, será entregue à comunidade que cuida do atendimento e recuperação dos drogados em nome da Arquidiocese, na casa que fica em Benevides. É claro que será como um Davi contra Golias, pois o que se arrecada não tem comparação com o que a indústria da droga movimenta para conquistar adictos, mas sempre será um sinal de um carinho especial que toda uma Igreja faz como fruto de um tempo de penitência.

Neste ano não nos contentaremos apenas com um gesto concreto! Teremos outro mais teórico, que será a elaboração de um projeto de estado a curto, médio e longo prazo, contemplando o como podemos chegar a alguns passos, em todas as áreas de nossa convivência, que nos leve a uma sociedade mais solidária e que viva em paz. Esse projeto deverá ser acolhido por toda a comunidade e será apresentado a todas as nossas autoridades responsáveis pelo nosso município e estado e em todos os poderes constituídos. Assim, iremos sonhando com mudanças que nos ajudem nesta caminhada de construção de uma nova sociedade.

A abertura popular da Campanha da Fraternidade, no próximo domingo, às 08:30h, na Praça Amazonas, junto ao “São José Liberto”, nos recorda que se foi possível transformar um local marcado e violento com a prisão que ali havia em um local que trabalha as jóias da região amazônica, portanto, em um pólo joalheiro, será que não podemos colaborar para transformar nossas vidas de tantas violências e maldades em uma vida bela e valiosa como as jóias? Após a missa iremos em caminhada pela paz e justiça até a Praça Batista Campos manifestando esse nosso compromisso.

Que o Senhor nos ilumine com o seu Espírito Santo e nos ajude a vivermos uma Santa Quaresma!

Dom Orani João Tempesta

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