Teologia da libertação ou do conflito?

Por graça de Deus, recebi a ordenação presbiteral em meados de 1967, ano em que, na Igreja, desabrochavam dois “frutos do Espírito”: a Renovação Carismática Católica e a Te-ologia da Libertação. Se, numa avaliação superficial e apressada, podem parecer distantes e antagônicas, na realidade, ambas surgiram para concretizar o Concílio Vaticano II, que de-sejava uma Igreja mais próxima dos anseios e da realidade do povo.

Deixo para outras cátedras se posicionarem sobre a Renovação Carismática Católica. Quanto à Teologia da Libertação, faço minhas as palavras de Walter Altmann, Presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e membro do Comitê Central do Con-selho Mundial das Igrejas. Com rara perspicácia, o renomado Pastor evidencia os aspectos fundamentais da autêntica Teologia da Libertação: «Desde a queda do Muro de Berlim, muitos críticos se precipitaram a declarar a morte da Teologia da Libertação. A maioria o fez porque viu nela apenas uma apologia do socialismo de caduco estilo soviético. No en-tanto, esse atestado de óbito parece ter sido emitido prematuramente. Se é certo que os teólogos da libertação – alguns mais do que outros – utilizaram categorias marxistas para a análise socioeconômica e para a crítica dos males do capitalismo, o marxismo nunca foi o elemento central da teologia da libertação. Nela, o central é a empatia com os pobres e com sua luta pela justiça, inspirada pela vida e pelos ensinamentos de Jesus. O fundamento espiritual e a motivação da Teologia da Libertação radicam no encontro – que muda a vida – com Cristo como libertador, e com nosso próximo necessitado, cujo sofrimento não é uni-camente fruto do destino, mas resultado da opressão e das injustiças sistemáticas que podem ser superadas através da ação transformadora».

Não parece necessário acrescentar mais nada, pois, como dizia há muitos anos o então Cardeal Ratzinger, a «libertação é uma das mensagens centrais da Revelação». Mas, já que toda medalha tem duas faces, em minha carta pastoral “A Graça do Jubileu”, escrita em 2006, tentei descobrir por que a Teologia da Libertação encontrou tanta resistência em al-guns setores da opinião pública: «Não é nenhuma novidade dizer que a Igreja Católica não é mais a mesma depois da teologia da libertação, que veio para ficar, questionar e renovar.

Contudo, a meu ver, a teologia da libertação não atingiu plenamente os seus objetivos. E por quê? Em parte, porque se transformou numa ideologia, identificando-se com deter-minados paradigmas políticos que pareciam a encarnação do Reino de Deus na sociedade; e, em parte, porque nem sempre conseguiu libertar os próprios libertadores, de modo que, não poucas vezes, era difícil distinguir os opressores dos oprimidos. Talvez, sem o saber, ela se demonstrou um tanto pelagiana ao pretender renovar a sociedade com ideais mara-vilhosos, mas alicerçada em forças meramente humanas. O social ameaçou prevalecer sobre o ético. A vida particular de quem lutava por uma nova ordem das coisas ficava em segundo plano».

Além de ao pelagianismo, algumas correntes da Teologia da Libertação pagaram tri-buto a uma visão dualista da história, ao fazerem sua, e não apenas subliminarmente, a luta de classes do marxismo, transformando-a numa espécie de teologia do conflito. Dividindo a sociedade em categorias contrastantes, elas ressuscitaram o velho maniqueísmo, para quem o mundo é dominado por duas entidades antagônicas, o Bem e o Mal, sustentadas por uma guerra constante entre si. Nesta visão, o Bem seria constituído pelos oprimidos e o Mal pe-los opressores.

No dia 5 de dezembro de 2009, falando a um grupo de bispos brasileiros, Bento XVI se referiu a essa herança que, não poucas vezes, atingiu até mesmo as Comunidades Eclesi-ais de Base, filhas primogênitas da Teologia da Libertação: «As suas seqüelas, mais ou me-nos visíveis, feitas de rebelião, divisão, dissenso, ofensa e anarquia, se fazem ainda sentir, criando nas comunidades diocesanas um grande sofrimento e uma grave perda de forças vivas». Era o que reconhecia, há anos, também o Cardeal Carlos Maria Martini, apesar das simpatias que nutria pela Teologia da Libertação: «Não basta deplorar e denunciar os males de nosso mundo. Nem basta falar de justiça, de deveres, de bem comum, de projetos pastorais, de exigências evangélicas. Precisamos falar de tudo isso, mas com um coração cheio de amor compassivo, fazendo a experiência da caridade que dá com alegria e suscita entusiasmo. Precisamos irradiar a beleza daquilo que é verdadeiro e justo na vida, pois só essa beleza arrebata realmente os corações e os volta para Deus».

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