Um olhar sobre a cidade

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém do Pará

“Jesus caminhava à frente dos discípulos, subindo para Jerusalém. Quando se aproximou de Betfagé e Betânia, perto do monte chamado das Oliveiras, enviou dois de seus discípulos, dizendo: ‘Ide ao povoado ali na frente. Logo na entrada encontrareis um jumentinho amarrado, no qual ninguém nunca montou. Desamarrai-o e trazei-o aqui’. Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, começou a chorar. E disse: ‘Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, está escondido aos teus olhos!’ Quando chegou perto da descida do Monte das Oliveiras, a multidão dos discípulos, aos gritos e cheia de alegria, começou a louvar a Deus por todos os milagres que tinham visto. Todos exclamavam: ‘Bendito o Rei, que vem em nome do Senhor!’” (Lc 19,28-30.41-42.37-38) De propósito fazemos agora uma leitura de textos dessa forma, para envolver-nos no contraste encontrado por Jesus ao entrar na cidade de Jerusalém, quando justamente este Evangelista organiza de forma muito adequada a viagem de Jesus a caminho de Jerusalém (Cf. Lc 17,11).

A cidade de Jerusalém tem uma vocação de santidade! Por ocasião da recente visita ao Reino de Marrocos, Sua Santidade Papa Francisco e Sua Majestade o Rei Mohammed VI, reconhecendo a singularidade e sacralidade de Jerusalém e tendo a peito o seu significado espiritual e a sua vocação peculiar de Cidade da Paz, compartilharam o apelo seguinte: “Consideramos importante preservar a Cidade Santa de Jerusalém patrimônio comum da humanidade e, sobretudo para os fiéis das três religiões monoteístas, como lugar de encontro e símbolo de convivência pacífica, na qual se cultivam o respeito mútuo e o diálogo. Com esta finalidade, devem ser mantidos e fomentados o caráter específico multirreligioso, a dimensão espiritual e a identidade cultural peculiar de Jerusalém. Em consequência, almejamos que sejam garantidos, na Cidade Santa, a plena liberdade de acesso aos fiéis das três religiões monoteístas e o direito de cada uma exercer o seu próprio culto, de modo que se eleve por parte dos seus fiéis, em Jerusalém oração a Deus, Criador de todos, por um futuro de paz e fraternidade sobre a terra”.

A cidade de Jerusalém pululava de gente para as festas pascais, quando Jesus dela se aproximou para a semana decisiva. A tensão em torno dele era crescente e envolvia a muitos, com componentes políticos e religiosos, uma combinação perigosa que deu os resultados que sabemos. Entretanto, também sabemos que quem foi cercado por um verdadeiro tribunal tornou-se, no trono da Cruz, o grande juiz dos vivos e dos mortos.

A cidade de Jerusalém trazia consigo a expectativa na vinda e manifestação messiânica, cultivada nos séculos. Tinha esta urbe suas qualidades e seus vícios. Chamada a ser polo para o qual deveria convergir a certeza da intervenção de Deus em favor de seu povo, povo pequeno e frágil, mas povo chamado a uma vocação única de ser luz para as nações. Após os acontecimentos pascais da Morte e Ressurreição de Jesus, sabemos o quanto a Jerusalém da terra ficou distante daquilo que a Escritura nos faz chamar de Jerusalém do alto. A cidade, com suas fortalezas imaginadas como inexpugnáveis, ruiu e ficou destruída. Hoje, o Muro das Lamentações, lugar sagrado de oração para os judeus, é a memória de todo o desejo de que esta cidade seja ainda sinal de vida e esperança.

As cidades de hoje têm muito do mistério de Jerusalém. As nossas cidades, como Belém e as outras de nossa Arquidiocese, trazem consigo suas alegrias e suas mazelas, mas também a súplica de um olhar e de uma entrada solene de Jesus!

Podemos escolher o ângulo mais adequado, olhando nossa Belém a partir de nossas águas ou de nossos arranha-céus, de nossas baixadas ou de nosso trabalho, das áreas vermelhas (quase todos o são!) ou de nossas avenidas e parques, do alto de nossas mangueias ou de nossas valas, com nosso lixo ou com nossa precária organização urbana. Nosso olhar honesto leva a identificar o mistério do pecado e da maldade, conduzindo-nos muitas vezes a chorar sobre a cidade, lamentando pela pouca consciência cidadã que graça em todos os recantos. De qualquer parte surja o clamor pela presença de Jesus!

Outro olhar nos leva a identificar as pessoas que aqui vivem e labutam. A cada dia, aos Bispos, a quem cabe uma visão ampla e vigilante das situações, segundo a etimologia da palavra, não passa desapercebido que aqui, no mistério da cidade, o que o Apóstolo São Pedro identificou: “Sois a gente escolhida, o sacerdócio régio, a nação santa, o povo que ele adquiriu, a fim de que proclameis os grandes feitos daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa. Vós sois aqueles que antes não eram povo, agora, porém, são povo de Deus; os que não eram objeto de misericórdia, agora, porém, alcançaram misericórdia” (1 Pd 2,9-10). Nossas cidades são habitadas por muita gente boa, trabalhadora, esforçada e santa! E são muito mais numerosas estas pessoas do que aquelas que se deixam envolver pela maldade! Sobre esta cidade podemos cantar, com um hino da liturgia: “Vejo a multidão em vestes brancas, caminhando alegre, jubilosa, é a aclamação de todo o povo que Jesus é seu Senhor. Também estaremos nós, um dia, assim regenerados pelo amor! Nesta esperança viveremos, somos a família dos cristãos, nossa lei é sempre o amor! Povo que caminha rumo à pátria, a nova cidadela dos cristãos, passos firmes, muita fé nos olhos, muito amor carrega, são irmãos, nossa lei é sempre o amor” (Cf. Missa Nova Jerusalém – Padre José Cândido da Silva).

Queremos acolher Jesus, no mistério da cidade, como a população magnífica e contraditória de Jerusalém. Somos chamados a misturar as lágrimas do choro com aquelas que nascem da emoção pela chegada do Senhor. Nenhuma rua e nenhum recanto de cada coração se oponha à entrada gloriosa de Jesus. Todos são chamados a repetir, elevando os ramos de sua fé: “Bendito o que vem em nome do Senhor!”

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