Viver juntos

Dom Edney Gouvêa Mattoso
Bispo de Nova Friburgo (RJ)

Caros amigos, a esperança de um país onde o respeito, a paz e a justiça sejam o sustento das relações pessoais e sociais está presente no coração de todo brasileiro e brasileira. Contudo, a realidade que nos cerca nos faz desacreditar que seja possível alcançar o cumprimento deste sonho.

Surgem muitos teóricos que se apresentam como capazes de resolver todas as questões provenientes da complexa realidade em que vivemos. Estes acabam por converterem-se em ideólogos, fechados em si mesmos, incapazes de olhar ao redor e acolher opiniões de terceiros.

Infelizmente, esta forma de pensar tem contagiado até o mais íntimo de nossa sociedade. As pessoas, voltadas para os seus próprios interesses, veem nos outros uma ameaça ao seu bem estar e um empecilho para realização de seus projetos. É evidente a crise no conceito de família humana e, por conseguinte, a desconstrução do sentimento de pertença.

A medida que cresce a preocupação com a realização dos sonhos e projetos pessoais, decresce o interesse pelo que é comum, pelo que é de todos. Esta forma de viver e de se relacionar opõe-se à ordem do Evangelho de amar-nos uns aos outros como o próprio Cristo nos amou (cf. Jo 13,34).

O Santo Padre em discurso aos participantes do Congresso realizado em comemoração aos 50 anos da encíclica Populorum Progressio esclarece que “todos têm uma contribuição a oferecer para o conjunto da sociedade, todos possuem uma peculiaridade que pode servir para o viver juntos, ninguém está isento de contribuir com algo para o bem de todos. Isto é um dever e, ao mesmo tempo, um direito. É o princípio da subsidiariedade que garante a necessidade da contribuição por parte de todos, quer como indivíduos quer como grupos, se quisermos criar uma convivência humana aberta a todos” (Papa Francisco, 04 abr. 17).

Para que este princípio possa acontecer, é preciso que os indivíduos não só estejam dispostos a oferecer contribuições para o desenvolvimento da sociedade, mas, sobretudo, devem ser receptivos às opiniões e propostas alheias.

Se faz necessário retomar as tradições pátrias e a consciência de que somos parte da família humana, irmãos em Cristo (cf. Mt 23,8). O pensamento pós-moderno age intencionalmente na desconstrução dos valores culturais, morais e éticos, sufocando valores essenciais da vida social.

O primeiro passo para a construção de uma nação mais justa e fraterna é cuidar para que a educação não seja um serviço prestado à dominação ideológica e ao controle do pensamento social, alienador dos indivíduos. Ela deve assumir o lugar que lhe compete na base da construção do futuro do país.

O Papa Francisco lembra que somos filhos de uma época que exalta tanto o indivíduo que acaba por transformá-lo em uma ilha. Adverte ainda que existem muitas visões ideológicas e poderes políticos que esmagam a pessoa, massificando-a e privando sua liberdade. E conclui dizendo que “o eu e a comunidade não são concorrentes entre si, mas o eu só poderá amadurecer na presença de relacionamentos interpessoais autênticos, e a comunidade só será geradora quando o forem todos e cada um dos seus componentes” (Papa Francisco, 04 abr. 17).

A transformação começará quando a fraternidade e a corresponsabilidade forem imperantes no tecido social. É preciso aprender a viver juntos, e isto se dará efetivamente na educação para os valores essenciais da família, que constitui a primeira célula da sociedade.

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04/06/2018
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