Vou voltar para o meu pai

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro, RJ

Estamos no IV Domingo da Quaresma, chamado de Domingo “Laetare”. “Laetare”– alegra-te, em latim. Na antífona de entrada do Missal Romano, está escrito, para a Missa deste hoje: “Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós, que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações”. São palavras do Profeta Isaías, no capítulo 66. Tão oportuno este convite à alegria a esta altura da Quaresma. Pensando nos nossos pecados, pensando nos pecados de tantos na Igreja, pensando em tantas de nossas infidelidades e em tantos escândalos que nos cortam o coração, vem-nos a tentação do desânimo, de pensar até que a graça de Deus não é forte o bastante para debelar o mal que se incrusta no nosso coração e no coração do mundo.

          O Senhor nos convida à alegria; convida a Igreja, nova e eterna Jerusalém, à alegria, convida-nos a nós, que amamos a Mãe católica –  tão sofrida pelas fraquezas de seus filhos –, convida-nos a nós à alegria: “Reuni-vos, vós todos que a amais; vós, que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações”. Que consolações são essas, irmãos? Que consolações são as da Igreja entre tanta desolação? Eis quais são: aquelas que vêm do Senhor que é fiel, que se entregou por nós, que amou a sua Igreja e nela permanece sempre com invencível fidelidade! E todo aquele que se une ao Senhor e nele permanece pode experimentar tal consolação.

Este quarto domingo da quaresma, o Domingo Laetare, o domingo da alegria, a liturgia mesmo no tempo da quaresma, já vai nos introduzindo na alegria da Páscoa ao nos presentear como reflexão o amor misericordioso de Deus. Estamos no final do mês de março. Tivemos nos dias 29 e 30 (sexta e sábado) as 24 horas para o Senhor, iniciativa do Papa Francisco para que algumas Igrejas estivessem abertas por 24 horas, para louvor, confissões e celebrações: uma ótima oportunidade para que as pessoas fizessem a experiência da reconciliação com Deus. Além disso temos em todas as paróquias os “mutirões” de confissões durante este privilegiado tempo. O Papa Francisco, ao falar da quaresma como tempo favorável para experimentar e contemplar o rosto misericordioso de Deus, assim diz:O mistério da misericórdia divina desvenda-se no decurso da história da aliança entre Deus e o seu povo Israel. Na realidade, Deus mostra-Se sempre rico de misericórdia, pronto em qualquer circunstância a derramar sobre o seu povo uma ternura e uma compaixão viscerais, sobretudo nos momentos mais dramáticos quando a infidelidade quebra o vínculo do Pacto e se requer que a aliança seja ratificada de maneira mais estável na justiça e na verdade. Encontramo-nos aqui perante um verdadeiro e próprio drama de amor, no qual Deus desempenha o papel de pai e marido traído, enquanto Israel desempenha o de filho/filha e esposa infiéis. São precisamente as imagens familiares – como no caso de Oseias (cf. Os 1-2) – que melhor exprimem até que ponto Deus quer ligar-Se ao seu povo”.

Tal experiência da misericórdia vai se mostrar de forma mais palpável ao escutarmos a palavra de Deus presente da Liturgia, e de forma mais concreta na proclamação da impactante parábola do Pai Misericordioso, um ponto culminante desta liturgia.

Na primeira leitura deste quarto domingo da Quaresma (Js 5, 9a. 10-12), vemos narrados as consequências do cumprimento das promessas de Deus. O relato apresenta a narrativa da primeira celebração da Páscoa em terra prometida. Os israelitas puderam utilizar os cereais produzidos nesta região para a confecção dos pães ázimos e, a partir deste momento, em que já eram capazes de alimentar-se com a produção agrícola da terra, o maná, o alimento com que Deus tinha sustentado a peregrinação do povo no deserto, desapareceu. Deus não teve inconveniente em alimentar abundantemente seu povo durante anos no deserto quando foi necessária esta proteção especial. No entanto, agora podem se alimentar com meios ordinários, esforçando-se no cultivo da terra. Esse alimentar-se dos frutos da terra continua sendo uma forma do cuidado de Deus para com seu povo, pois só podem gozar desta porque Ele tirou de cima deles o opróbrio do Egito.

A oração apresentada como resposta a esse relato (Sl 33 (34), 2-3.4-5.6-7 [R/.9ª])) que é feito um convite a provar e ver a bondade do Senhor. O salmista começa expressando seu propósito de louvar o Senhor e convida os humildes a fazerem o mesmo. O restante do salmo apresenta os motivos para continuar seu louvor. A motivação principal será o reconhecimento de que Deus não é um deus indiferente à realidade concreta do seu povo. Deus vela pelos seus com amor ciumento.

A segunda leitura (2 Cor 5, 17-21) é um belo convite à reconciliação e a sermos nova criatura, pois nos anuncia temas muito recorrentes e pertinentes neste tempo quaresmal: a vida nova e o ministério da reconciliação. Deus nos reconcilia consigo por meio de sua misericórdia e faz do homem novo embaixador desta misericórdia para com todos os homens. Deus reconciliou os homens consigo por meio de Jesus Cristo quem carregou sobre si nossos pecados e morreu por todos os homens. São Leão Magno afirma: “Tudo o que fez e ensinou o Filho de Deus para a reconciliação do mundo, não o conhecemos somente pela história de suas ações passadas, mas o experimentamos também pela eficácia do que Ele realiza no presente. A Igreja faltaria no cumprimento de uma missão indispensável se não pronunciasse, com clareza e firmeza, a tempo e a ‘destempo’, a palavra da reconciliação e não oferecesse ao mundo o dom da reconciliação”.

         Quanto ao Evangelho (Lc 15,1-3.11-32), chama-nos atenção hoje a parábola do filho pródigo. Recordemos como Lucas começa: “Naquele tempo, os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para escutá-lo. Os fariseus, porém, e os escribas criticavam Jesus. ‘Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles’”. Então: de um lado, os pecadores, miseráveis sem esperança ante Deus e ante os homens, que, agora, cheios de esperança nova e alegria, aproximam-se de Jesus, que se mostra tão misericordioso e compassivo. Do outro lado, os homens praticantes, que sentem como que ciúme e recriminam duramente a Jesus! É para estes que Jesus conta a parábola, para explicar-lhes que o seu modo de agir, ao receber os pecadores, é o modo de agir de Deus. Todas as ações e palavras de Jesus manifestam a misericórdia que Deus tem como todos os homens. Lucas trata com detalhe a temática da misericórdia de Deus, de tal forma que seu evangelho é chamado de Evangelho da Misericórdia. Todas as ações e palavras de Jesus manifestam a misericórdia que Deus tem como todos os homens. Lucas trata com detalhe a temática da misericórdia de Deus, de tal forma que seu evangelho é chamado de Evangelho da Misericórdia.

Este capítulo quinze do Evangelho segundo São Lucas com as três parábolas chamadas “da misericórdia”: a ovelha perdida, a moeda perdida e o filho perdido nos ajuda a entrarmos ainda mais neste tempo de conversão quaresmal. Tudo perdido! Mas, se invertemos o quadro temos o bom pastor que busca a ovelha, a boa mulher que busca a sua moeda e o bom pai que espera e ama o seu filho pródigo. A perícope deste domingo, porém, se concentra na parábola do Pai misericordioso.

Esta conhecida parábola é uma das três parábolas em que Jesus descreve a infinita e paternal misericórdia de Deus, seu cuidado para com todos os homens e alegria pela conversão do pecador. A reflexão sobre esses ensinamentos é fonte de grande confiança para todos nós. Santa Teresinha do Menino Jesus, diante desta admirável realidade do cuidado de Deus, assim dizia: “Que doce alegria pensar que Deus é justo, ou seja, que tem em conta nossas debilidades, que conhece perfeitamente a fragilidade de nossa natureza! De que então terei medo? Deus infinitamente justo quer perdoou com tanta bondade os pecados do filho pródigo não se mostrará também justo comigo, que estou sempre com ele?”

         A lógica do Evangelho é diferente da lógica humana! Sem contrapor a justiça à misericórdia, a parábola nos apresenta um pai que não é o comum dos pais desta terra, mas o pai só pode ser Deus. Deus nos perdoa com misericórdia! Isso sim é motivo de grande alegria! Ele é o nosso Pai, cheio de amor para conosco. Nós, culpados e pecadores, cheios de boas intenções e, também, cheio de intenções distorcidas e más ações, somos os queridos de Deus. Já está justificada a nossa alegria para todo o dia de hoje: Deus é Pai! Eu sou seu filho! Deus é muito bom e os sacerdotes no Sacramento da Penitência têm o Coração de Deus e, por isso, compreendem sempre.

Também o filho mais velho é chamado à conversão, e a parábola foi contado por Jesus justamente para aqueles que O recriminavam por acolher os pecadores. Comenta ainda São João Paulo II: “Todo homem é também o irmão mais velho. O egoísmo o faz ser ciumento, endurece seu coração, o cega e o faz fechar-se aos outros e a Deus. A bondade e a misericórdia de Deus o irritam e o chateiam; a felicidade pelo irmão encontrado tem para ele um sabor amargo. Nesse aspecto, ele também tem a necessidade de se converter.”

Este tempo de quaresma é o tempo de ainda hoje experimentar a realidade da salvação oferecida gratuitamente e generosamente pelo Pai. Todos temos a oportunidade de voltar para a casa do Pai. Neste quarto domingo da quaresma bendizemos a Deus por esses dons da reconciliação da misericórdia e da graça. Que procuremos nossas paróquias e os lugares onde possamos renovar nossa vida em Cristo através do sacramento da reconciliação. A beleza da misericórdia de Deus nos faça também cada vez mais fraternos e esperançosos ao lidar com nossos irmãos. Ninguém está perdido, todos podem voltar para a casa do pai.

Será um momento especial de oração e de preparação mais próxima, dentro da alegria com a chegada da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, de vivermos intensamente estes dias no Senhor, para o Senhor e pelo Senhor, conformando nossa vida de santidade com o Senhor Jesus. Vamos confessar, viver uma vida renovada e vamos rezar para que Deus nos ajude a testemunhá-lo com maior entusiasmo.

 

 

 

 

 

 

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