Artigos dos bispos

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Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)

Todos os anos, ao celebrarmos Santa Ana e São Joaquim, pais da Virgem Maria e avós de Jesus segundo a antiga tradição cristã, testemunhada também em escritos apócrifos, a Igreja nos convida também a celebrar o Dia dos Avós. Não se trata apenas de uma homenagem afetiva, mas do reconhecimento de uma vocação preciosa na vida das famílias, da Igreja e da sociedade. 

Na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, o Papa Francisco recorda que os idosos são a memória viva de um povo e de uma família. Eles não representam apenas o passado, com sua presença, suas histórias e seus testemunhos, ajudam a iluminar o presente e a preparar o futuro. Sem raízes, não há frutos; sem memória, não há identidade. Por isso, afirma que “a atenção aos avós faz a diferença na qualidade humana de uma sociedade”. 

Os avós ocupam um lugar singular na transmissão da fé. Muitas pessoas aprenderam as primeiras orações no colo da avó ou receberam do avô os exemplos mais simples e profundos da confiança em Deus. Antes mesmo das palavras da catequese, foi muitas vezes o testemunho silencioso dos mais velhos que relevou a beleza de uma vida sustentada pela fé. Com eles, aprendemos o valor da honestidade, da solidariedade, do trabalho, da perseverança e da esperança. 

A própria história da salvação revela a importância das gerações. Deus estabeleceu alianças que atravessam séculos, famílias e povos. A fé bíblica nunca é vivida de forma isolada; ela é transmitida de pais para filhos e de avós para netos. O que Ana e Joaquim representam para Maria, e o que Maria representa para Jesus, recorda-nos que Deus gosta de agir por meio dos vínculos familiares e da humilde continuidade entre as gerações. 

Nos últimos anos, o Papa Francisco insistiu repetidamente que um povo que abandona seus idosos perde a própria memória. Os avós são guardiões de histórias, valores e experiências que nenhuma tecnologia pode substituir. Eles carregam as marcas das lutas enfrentadas, das crises superadas e das graças recebidas. Sua autoridade não nasce do poder, mas da fidelidade; não vem da imposição, mas de uma vida atravessada pelo tempo, pelo sofrimento e pela esperança. 

O Papa Leão XIV também tem retomado esse horizonte, recordando a importância de cultivar a esperança entre as gerações. Uma sociedade verdadeiramente humana não se constrói apenas pela inovação, mas também pela sabedoria acumulada. Os jovens trazem o vigor dos sonhos; os idosos oferecem a profundidade da experiência. Quando essas riquezas se encontram, nasce uma cultura capaz de olhar para o futuro sem perder suas raízes. 

Num mundo marcado pela rapidez, pela impaciência e pela cultura do descartável, os avós nos recordam que a vida amadurece lentamente. São como árvores antigas, cujas raízes profundas sustentam a terra: talvez não cresçam em altura, mas continuam oferecendo sombra, abrigo e frutos de sabedoria a todos os que se aproximam. 

Celebrar os avós é agradecer a Deus por aqueles que mantêm acesa a chama da memória, da fé e da esperança. É reconhecer que cada família possui um tesouro precioso em seus idosos. É também o renovar o compromisso de não os deixar entregues à solidão, ao esquecimento ou à indiferença. 

Uma sociedade será tanto mais humana quanto mais souber acolher, escutar e honrar aqueles que lhe transmitiram a vida, a história e a fé. Ao aproximarmos jovens e idosos, não preservamos apenas as lembranças do passado: abrimos caminhos para que a esperança continue sendo transmitida de geração em geração. 

 

Dom Vilson Dias de Oliveira
Bispo Emérito de Limeira (SP)

A cada ano, a Santa Sé, na pessoa do Santo Padre o Papa Leão XIV, apresenta ao mundo uma mensagem para o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, celebrado em 26 de julho, quando se recorda os avós de Jesus, Joaquim e Ana, pais de Maria Santíssima. Este ano, centrada na promessa divina de preservação e memória, com o lema «Eu nunca te esquecerei», a mensagem ganha contornos inéditos quando confrontada com o perfil dos avós do século XXI.

Longe do estereótipo tradicional da figura de cabelos brancos na cadeira de balanço, tricotando ou contando histórias de tempos remotos, os novos avós são homens e mulheres hiperconectados, inseridos no mercado de trabalho, praticantes de atividades físicas e com rotinas sociais intensas. Muitos, inclusive, rejeitam o próprio rótulo de “avô” ou “avó”, enxergando no termo uma associação imediata à caducidade ou a um envelhecimento que não sentem ou não recusam sentir. Como, então, a palavra da Igreja sobre o esquecimento e a solidão pode dialogar com uma geração que parece estar no auge de sua produtividade e jovialidade?

O receio de ser chamado de “vovô” ou “vovó” reflete uma dor cultural mais profunda: o pavor de ser empurrado para a margem. Em uma cultura que hipervaloriza a juventude estética e funcional, aceitar o título de avô é, para muitos, aceitar a entrada na “fase do esquecimento”. O Papa Leão XIV, que inclusive é conhecido por cultivar hobbies esportivos, dialoga com esse fenômeno ao desarmar a equação que iguala envelhecer a perder o valor. Razão para tal é o fato de que a dignidade não depende da estampa de juventude. A fé cristã lembra que a dignidade humana não se esvai com a chegada das rugas, mas tampouco precisa ser mascarada por uma busca obsessiva pela juventude eterna.

Quando um homem ou uma mulher nega sua condição de avô ou avó para fugir do estigma da velhice, ambos correm o risco de se esquecer do seu papel insubstituível na vida dos netos e das gerações que os seguem. Desde aí, podemos notar um paradoxo silencioso na vida dos novos avós. Por estarem em plena atividade muitos vivem uma rotina tão fragmentada quanto a de seus filhos. Aqui, a reflexão sobre o esquecimento ganha duas vias opostas: o esquecimento sofrido e o esquecimento praticado.

Mesmo ativos, estes avós podem ser “esquecidos” emocionalmente pela família, que assume que eles não precisam de ajuda ou que estão sempre muito ocupados para estar com os netos. Por outro lado, pressionados pelo estilo de vida moderno, os próprios avós correm o risco de “esquecer” a doação gratuita de tempo, priorizando compromissos absortos em detrimento da presença afetuosa na vida dos netos. Neste sentido, a mensagem pontifícia atua como um convite ao reequilíbrio: a modernidade e a independência não devem anular a ternura do convívio inter-geracional.

Os avós de hoje possuem uma oportunidade histórica. Por dominarem a linguagem do presente, a tecnologia, a dinâmica das redes e os novos arranjos sociais, eles têm a capacidade singular de se conectar com a linguagem dos netos, mantendo-se ao mesmo tempo como âncoras de valores éticos e afeto seguro. Vista desta maneira, a avoidade é um presente, não um rótulo de finitude. Ser avô ou avó não significa estar no “fim da linha”, mas sim ter a oportunidade de amar de um jeito novo, com mais maturidade, menos afoiteza. Ao interagir com os netos, seja jogando um videogame, praticando um esporte ou conversando com empatia sobre os dilemas atuais, os avós modernos estão garantindo que, quando o tempo avançar e a fragilidade física chegar, eles serão lembrados não como figuras distantes, mas como companheiros para a vida.

O apelo do Santo Padre para não esquecer os idosos conversa com os novos avós não para enquadrá-los em um molde antigo, mas para convocá-los a uma missão viva. Seja usando tênis de corrida ou jeans, chamem-se de “vovô”, “vovó”, “nono”, “nona”, pelo próprio nome ou por um apelido carinhoso, o que importa para

a teologia do cuidado é o vínculo. A promessa divina de jamais esquecer cada um de nós ganha corpo quando essa nova geração de avós decide usar sua energia, modernidade e vitalidade para ser, na vida dos netos, a presença inesquecível de um amor que acolhe, ensina e permanece.

Deixemos, portanto, investidas pejorativas em torno aos avós, e favoreçamos aos avós de nossos tempos um espaço real de escuta, reconhecimento e acolhida, respeitando e reconhecendo o valor e o mérito da ancianidade, sua distinção, mas sem fazer desta um nicho empoeirado onde só cabe uma avoidade obsoleta, vazia e quase insignificante. Que possamos nos atualizar como sociedade e seguir vendo nos nossos avós, pessoas de expertise capazes de nos situar no imenso emaranhado do mundo atual, cujo horizonte anseia pelo brilho incomparável daqueles que estão mais adiantados nesta caminhada sempre nova, caminhada dura, mas sempre bela, que se renova e se perpetua, mostrando que jamais o ciclo termina, antes se aprimora, se reinicia.

Dom Carmo João Rhoden
Bispo Emérito de Taubaté (SP)

 

 

Dia dos Avós 26/07/26 (Mt 13, 44-52)

Texto referencial: “Compreendestes tudo isso? Eles responderam “sim” então Jesus acrescentou: ‘Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”. (Mt 13, 51-52)

Tendo o domingo, dia 26/07 dos dias dos santos São Joaquim e Sant’Ana, não podemos, nem devemos esquecermos de nossos queridos avós. No passado cuidaram de seus filhos, agora, muitas vezes ainda dos netos. Mostram assim sua experiencia, o afeto pela vida e pela família. São geralmente, uma grande benção, mormente, para os lares cristãos.

Os tempos, no entanto, mudaram. E como! O que vemos hoje em dia, nem sempre, é confortador. Exagerando, talvez, um pouco, podemos afirmar e muitos casais colocam suas crianças (filhos) nas creches e os idosos (pais ou avós) nos asilos, ou casas de repouso… não seria as vezes eufemismo? Na Europa, vi muito desta realidade. Não faltam aos idosos coisas, como tv e assistência social, mas não poucas vezes o essencial: carinho e gratidão dos filhos e netos, lhes chega a faltar. Esquecem-se de que um dia serão ou menos poderão ser idosos também. Aliás, o mundo está envelhecendo, ou melhor se tornando idoso, ancião. Os países europeus que o digam.

Precisamos de novos Joaquins e Sat’Anas hoje. Aliás, urgentemente. 3.1 Os que estão a caminho precisam aprender a envelhecer, ou tornar-se anciãos. Isso é necessário e arte também, quando não até virtude.

Parabéns avós, muitos e belos anos de vida com saúde e alegria, no aconchego das famílias, que ajudaram a formar. Que então aos já “experientes” na caminhada da vida não lhes falte o sorriso das crianças, o idealismo dos adolescentes e jovens, nem a proteção dos defensores de seus direitos ou a proteção dos encarregados de suas necessidades.

Possam então todas as crianças e adolescentes terem – mesmo sendo muito diferente nossos tempos – avós como São Joaquim e Sant’Ana. Haveria então menos uso de drogas nas ruas, quando não nas escolas, e mais participação responsável na vida das comunidades. Parabéns, avós!