Artigos dos bispos

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Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

Celebramos no próximo dia 09 de junho, terça-feira, a festa de São José de Anchieta, o santo que foi catequista, fundador, educador e grande missionário – apóstolo do Brasil – aqui em terras brasileiras. Ele teve uma importância muito grande aqui no Brasil logo após o descobrimento, catequizando os indígenas e levando adiante a Palavra de Deus. José de Anchieta pertencia à Ordem dos Jesuítas, a Companhia de Jesus fundada por Santo Inácio de Loyola, e que depois, com seu confrade Manoel da Nóbrega, ajudou a fundar a cidade de São Paulo.

Ele é considerado o missionário do Brasil e mais um santo brasileiro, embora não tenha nascido no Brasil, mas viveu boa parte de sua vida aqui como missionário. Podemos afirmar ainda que Anchieta pode ser o apóstolo Paulo de seu tempo, anunciando o “querigma”, ou seja, Jesus Cristo morto e ressuscitado, para diversas pessoas, para que se convertessem e acreditassem em Jesus, e, a partir de então, fossem batizadas.

São José de Anchieta demorou um pouco para ser canonizado e declarado santo pela Igreja. Ficou um bom tempo como beato e foi proclamado santo pelo Papa Francisco, em 03 de abril de 2014. Mesmo demorando um bom tempo para ser declarado santo, Anchieta sempre foi popularmente bastante cultuado aqui no Brasil e um exemplo para os evangelizadores e catequistas. Que possamos nos inspirar no exemplo de São José de Anchieta e, sem medo, anunciar o Evangelho.

Do mesmo modo que Jesus enviou os discípulos para a missão, soprando sobre eles o Espírito Santo, o Senhor nos envia hoje para sermos mensageiros do Evangelho, portadores da Boa-Nova. Precisamos ser uma Igreja em saída e ir ao encontro dos irmãos e anunciar o Evangelho a quem precisa. Temos que estar abertos à ação do Espírito Santo, a exemplo de Anchieta, que com certeza se fez dócil ao Espírito Santo e abraçou a missão.

A cada ano celebramos com alegria a festa de São José de Anchieta e peçamos a intercessão dele junto a Deus para que não faltem pessoas dispostas a abraçar a missão de serem catequistas em nossas comunidades e ensinar às crianças e aos jovens o amor por Jesus. Rezemos também para que não faltem pessoas dispostas a anunciar a Palavra de Deus e serem missionárias.

O trabalho de evangelização de Anchieta se deu sobretudo com os indígenas, conforme dissemos. Ele viveu quarenta e três anos no Brasil e ajudou na fundação de escolas, igrejas e cidades importantes. A evangelização dos indígenas, inclusive, iniciou com o descobrimento do Brasil, em 1500. Os jesuítas foram chegando à nossa terra e começou a evangelização daqueles que aqui viviam.

São José de Anchieta ingressou na Universidade de Coimbra para estudar Letras e Filosofia. Foi na universidade que ele teve o primeiro contato com a Companhia de Jesus e com o testemunho de São Francisco Xavier. Quando Anchieta estava com dezessete anos, fez uma promessa diante da imagem de Nossa Senhora de abandonar tudo e servir a Deus.

Anchieta entra para a Companhia de Jesus em 1551. Após um período de noviciado exigente e, mesmo com a saúde frágil, fez os seus votos de pobreza, castidade e obediência, em 1553. Nesse mesmo ano, foi enviado ao Brasil e, chegando à Terra de Santa Cruz, começou a evangelizar. Anchieta era fiel à doutrina e à sua Ordem, e, acima de tudo, era fiel ao Espírito Santo. São José de Anchieta tornou-se, além de catequista, dramaturgo, poeta, gramático, linguista e historiador. Vale ressaltar que ele é o autor da primeira gramática brasileira.

Em janeiro de 1554, ele participou da missa da inauguração do Colégio São Paulo de Piratininga, e assim surgiu a cidade de São Paulo, e o local da inauguração ficou conhecido até os dias de hoje como “Pátio do Colégio”. A partir da fundação da cidade de São Paulo, Anchieta e seus companheiros iniciaram a sua missão na cidade. Um grande companheiro de missão de Anchieta era o padre Manoel da Nóbrega. Por isso, temos muito a agradecer a Anchieta, Manoel da Nóbrega e seus companheiros, pois foram apóstolos incansáveis que levavam a Palavra de Deus aos diversos cantos do nosso país.

Entre as características da evangelização de Anchieta e seus companheiros está a catequese, ou seja, eles anunciavam a pessoa de Jesus Cristo aos indígenas e aquilo que continha a Palavra de Deus. Eles testemunhavam os preceitos cristãos, mas sempre respeitando a cultura local. Do mesmo modo que os demais jesuítas, Anchieta se opunha fortemente aos abusos dos portugueses contra os povos indígenas. Anchieta e seus companheiros defendiam o povo indígena e respeitavam a sua cultura. Até porque quem chegou aqui depois foram os portugueses e, em seguida, os jesuítas, ou seja, os indígenas já viviam aqui; por isso, tinha que se respeitar o modo como eles viviam. Anchieta e seus companheiros respeitavam; o que eles faziam era evangelizar e catequizar os indígenas para que conhecessem melhor a Deus, mas sem deixar de lado a cultura. Essa atitude de Anchieta é louvável e é um ensinamento para nós, pois devemos agir dessa maneira: não devemos impor nossa cultura e a maneira de pensar para ninguém, mas nos habituarmos à cultura local.

Por volta do ano de 1563, com o apoio dos franceses, a tribo dos tamoios se rebelou contra a colonização portuguesa. Anchieta e Manoel da Nóbre ga resolveram viajar para ajudar a conter a revolta. Eles foram até a aldeia de Iperoig, que nos dias de hoje é Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. Anchieta se ofereceu como refém e Manoel da Nóbrega foi buscar as tratativas de paz. Anchieta permaneceu no cativeiro por cinco meses e fez uma promessa a Nossa Senhora que lhe escreveria um poema em sua homenagem. Com versos escritos na areia, deu vida ao poema em honra à Virgem Maria. Com isso, vemos que Anchieta e Manoel da Nóbrega foram grandes defensores dos indígenas.

No ano de 1566, Anchieta foi ordenado sacerdote. Três anos após a sua ordenação, fundou o povoado de Reritiba, no Espírito Santo. Em 1577, foi nomeado provincial da Ordem dos Jesuítas no Brasil, função que desempenhou muito bem até 1585. Em 1595, Anchieta retirou-se para Reritiba e ali permaneceu até o seu falecimento, aos 63 anos de idade, em 09 de junho de 1597.

José de Anchieta, desde muito jovem, gostava de escrever poemas e era um amante da arte. Tinha até o apelido de “canarinho”, dado por seus companheiros, devido ao gosto em declamar poesias. Escreveu diversos autos e poemas sobre a vida de Cristo.

Apesar de tudo isso que relatamos sobre a vida de Anchieta, o decreto de sua canonização só foi escrito 417 anos depois de sua morte em 2014, pelo Papa Francisco, em Roma. No relatório final para a aprovação de sua canonização, havia o registro de 5.350 histórias de pessoas que alcançaram graças rezando a São José de Anchieta.

José de Anchieta é considerado o “Apóstolo do Brasil”, mesmo antes de sua beatificação e posterior canonização. Ele foi beatificado pelo Papa João Paulo II, em 22 de junho de 1980, e canonizado em 03 de abril de 2014, através de um decreto assinado pelo Papa Francisco.

Celebremos com alegria a festa de São José de Anchieta na terça-feira, dia 09 de junho, e peçamos a intercessão do santo para que tenhamos o mesmo ardor missionário que ele tinha.

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ)

 

 

Dentro das indicações pastorais sobre o caminho da Ecologia Integral, as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB, o item “h” , propõe intensificar ações educativas e comunitárias ligadas a  Campanha do Junho Verde que promovida pela nossa Conferência inspirou a lei 14.393/2022, incentivando mutirões ecológicos e momentos de sensibilização e conscientização sobre a Laudato Si e ações de reflorestamento e de limpeza urbana, e rural. Certamente num ano de eleições nacionais está agenda tem que iluminar o discernimento a respeito dos candidatos que se apresentam para cargos executivos e legislativos.  

Esquecer ou negar a grave crise de paradigma civilizatório e humanitário que estamos vivendo será suicida, ouvir o grito da Terra, da água, das criaturas e conhecer com humildade as práticas do bem viver e do bem conviver e cuidar a Criação dos povos originários da Abya Yala nome coletivo dado pelo povo Kuma a todos esses povos e que significa terra madura, terra viva e que floresce, torna-se cada vez mais urgente e necessário.  

Continuar com o estilo de dominação predadora, mercantil e degradante é optar pela autodestruição.  

Votar ou respaldar políticos que não dão a mínima, debocham ou no máximo prometem pífias medidas compensatórias de replantio de árvores é endossar o nosso futuro de refugiados climáticos, de carência de água potável, de alimentação tóxica e insegurança total de moradia.  

Aqueles políticos que pensam na terra só como mercadoria e lucro, estão impedindo o florescimento e existência da vida humana e planetária.  Escolhamos pessoas não apenas honestas e íntegras, mas profetas e artesãos da vida, que ponham sempre as pessoas e a terra em primeiro lugar.  

Não basta crescimento econômico ou desenvolvimento senão se torna sustentável e harmonioso, um planeta onde caibam todos/as como dizia Eduardo Galeano. Finalmente e não menos importante é saber que não existirá paz, se não pactuamos uma aliança de vida como fez Noé com Deus para proteger a toda Criação.  

Hoje não teremos uma nova arca para nos salvar, precisamos sim de nos convertermos em jardineiros e cuidadores da nossa Mãe Terra, também escolhendo bem os nossos representantes, e acompanhando sempre seus projetos, para não só protelar a desastre, mas sermos capazes com a inspiração do Sopro da Vida o Espírito Santo, renovar profundamente a face da Terra. Deus seja louvado! 

 

 

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

 

 

Maria, Mãe de Jesus, e Antônio de Lisboa: dois corações abertos à Palavra

A liturgia do dia 13 de junho nos coloca diante de dois testemunhos que se iluminam mutuamente. Celebramos o Imaculado Coração de Maria, aquele coração que, como nos diz o Evangelho de Lucas, “conservava todas estas coisas” (Lc 2,51). E celebramos também Santo Antônio de Lisboa, o pregador que transformou a Palavra guardada em Palavra proclamada. Maria guarda. Antônio anuncia. E entre os dois, há uma continuidade que não é coincidência: é o Espírito que age.

O Evangelho de hoje – Lc 2,41-52 – nos apresenta uma cena familiar e ao mesmo tempo desconcertante. José e Maria perdem Jesus durante três dias. Quando o encontram no Templo, sentado entre os mestres, a resposta do menino os deixa sem compreensão: “Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” (Lc 2,49). A reação de Maria não é de orgulho nem de escândalo. É de silêncio interior. Ela “conservava no coração todas estas coisas.”

Guardar no coração não é esquecer. É deixar amadurecer. É ter a humildade de reconhecer que nem tudo se compreende de imediato, mas que Deus está agindo, mesmo quando a situação parece fugir ao controle.

Antônio aprendeu com Maria a guardar antes de proclamar. Fernando, que mais tarde tomaria o nome de Antônio, passou anos em silêncio. Primeiro nos agostinianos de São Vicente, depois em Coimbra, onde por oito anos se dedicou ao estudo das Escrituras e da teologia. Eram anos de formação, de escuta, de guardar. Como Maria, ele deixou a Palavra habitar nele antes de sair a proclamá-la.

Isaías – Is 61,9-11 – já anunciava essa lógica quando dizia: “Assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Senhor Deus fará germinar a justiça” (Is 61,11). A semente precisa do solo. A Palavra precisa de um coração que a acolha. Maria foi esse solo. Antônio também foi. Não é por acaso que o dom de Antônio como pregador se revelou justamente quando ele não havia se preparado para falar. Em Forlì, em setembro de 1222, ninguém queria improvisar o sermão. Antônio tomou a palavra, e o que saiu não era improviso: era o fruto de anos de silêncio, de oração, de meditação. O coração cheio transborda. Quem guarda bem, anuncia com verdade.

A fé sem caridade é uma fé morta, Bento XVI, ao citar Antônio, nos deixou uma frase que resume toda a espiritualidade deste santo: “A caridade é a alma da fé, torna-a viva; sem amor, a fé morre.” Essa sentença não é apenas uma bela imagem. É um diagnóstico e um programa de vida.

Maria viveu isso de forma radical. Ela não apenas acreditou no anjo. Ela foi à casa de Isabel. Ela ficou ao pé da cruz. Ela estava no cenáculo no dia de Pentecostes. O coração imaculado de Maria não é um coração fechado em si mesmo. É um coração que ama, que serve, que acompanha.

Antônio também não ficou fechado em suas celas de estudo. Ele foi ao povo. Ele atendeu confissões por horas a fio. Ele enfrentou heresias não com arrogância, mas com a força de quem conhece a verdade e a ama. A multidão que se reunia em torno dele em Pádua não era atraída por um acadêmico frio, mas por um homem que tinha o coração cheio de Deus e de compaixão pelas pessoas.

O cântico de Ana, que hoje rezamos no Salmo, proclama que “o Senhor ergue do pó o homem fraco, do lixo ele retira o indigente, para fazê-los assentar-se com os nobres” (1Sm 2,8). Esse é o Deus de Maria. Esse é o Deus de Antônio. Um Deus que não despreza os pequenos, mas os levanta. Uma fé que não se fecha na doutrina, mas que desce até o chão onde as pessoas vivem e sofrem.

Caminhar no Senhor com o coração aberto. Irmãos e irmãs, o que estes dois testemunhos nos pedem hoje? Primeiro, que aprendamos a guardar. Nem tudo precisa ser respondido de imediato. Nem toda dúvida precisa ser resolvida na hora. Maria nos ensina que há uma sabedoria no silêncio interior, no deixar que Deus trabalhe dentro de nós antes de sairmos a agir.

Segundo, que o que guardamos precisa um dia ser dado. Antônio passou anos em formação, mas chegou o momento em que a Palavra guardada precisava ser proclamada. O coração que guarda não é um cofre. É um jardim, como diz Isaías. O jardim existe para dar fruto.

Terceiro, que a caridade é o critério de tudo. A fé que não se torna amor ao próximo, atenção ao fraco, presença junto ao que sofre, não é ainda a fé plena que o Evangelho propõe. Maria foi ao encontro de Isabel. Antônio foi ao encontro dos pecadores. Nós somos chamados ao encontro de quem está ao nosso redor.

Hoje, 13 de junho, dia em que Antônio exalou o último suspiro murmurando “Eu vejo o meu Senhor”, a Igreja nos convida a olhar para esses dois corações: o de Maria, que guardou, e o de Antônio, que proclamou. E nos pergunta: o que você tem guardado no coração? E o que você tem feito com isso?

Que o Senhor nos conceda corações como o de Maria: capazes de guardar com fidelidade. E corações como o de Antônio: capazes de dar o que receberam, com caridade, com coragem e com alegria. Caminhai no Senhor.