Artigos dos bispos

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

 

A Campanha da Fraternidade deste ano (CF/2026) nos convida a driblar nossas tendências de fechamento e individualismo. É um percurso de conversão, com apelos para a abertura dos corações, das mentes e das consciências, muitas vezes endurecidos, bem como das estruturas sociais, muitas vezes injustas. Somos chamados a refletir sobre os graves desafios da moradia diante da triste realidade que enfrentamos. À luz do lema: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), esta importante Campanha nos ajuda a  buscar inspiração para articular soluções concretas na busca de superação desses desafios. 

O Texto-base da CF/2026 nos apresenta elementos concretos da dura realidade da moradia. Só a população em situação de rua no Brasil, sem moradia, soma 327,9 mil pessoas, segundo o relatório da Universidade Federal de Minas Gerais. Cerca de 6.215.313 famílias – não pessoas – vivem sem moradia própria: vivem de aluguel, de favor, em albergues, asilos, em galpões improvisados. Outro dado assustador é que 26 milhões de famílias brasileiras moram em situação inadequada. Nesse caso, são casas sem saneamento básico, com estruturas precárias, superlotadas ou sem segurança. 

A situação preocupante que envolve a moradia não é somente fenômeno das megalópoles, com suas inúmeras favelas, viadutos, marquises. Pequenas cidades do interior também vivem os desafios da moradia, nas periferias, mocambos e escombros… Mesmo na zona rural, os desafios são enormes! Há casas mal construídas, vulneráveis às intempéries e sem nenhuma segurança. Seus moradores as foram construindo à medida do possível, quase sempre sem recursos suficientes para realizar o sonho da moradia digna, restringindo-se a uma proteção mínima. 

Com toda a Igreja no Brasil, cantamos o hino da Campanha da Fraternidade. Tivemos oportunidade para refletir as palavras deste hino? Observe o/a caríssimo/a leitor/a a profundidade destas palavras que ecoam em nossas igrejas e encontros: “No caminho da vida sofrida/ Há irmãos sem abrigo, sem chão/ Na calçada, no bairro, na espera/ Brota o grito, o clamor do irmão/ Mas o Verbo se fez moradia/ No presépio da simplicidade/ Vem morar com o pobre sofrido/ Transformando a dor em bondade!// Ele veio morar entre nós/ Deus conosco em cada irmão!/ Por um lar de amor e justiça/ Nosso canto as nações ouvirão”. 

Somos chamados, como seguidores do Crucificado-ressuscitado, a contemplar a sua Via Crucis que teima em repetir-se em meio a nós. Cada triste realidade, que diz respeito aos dramas da moradia hoje, é um  quadro da Via-Sacra que vai se repetindo. Podemos ouvir o eco das palavras do Evangelho, a partir do quadro do Juízo universal: “…eu era forasteiro e me recebestes em casa… Quando foi te vimos forasteiro e te recebemos em casa?… Então o Rei lhes responderá: em verdade, vos digo: todas as vezes que fizestes a um desses mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,35c.38a.40).  

Na dramática realidade da moradia,  Jesus continua sendo martirizado. Somos, assim, chamados a descer da cruz os crucificados deste momento da história. Isso pode ser traduzido como trabalhar por políticas públicas que garantam moradia digna para todos, seja construindo mais casas, seja melhorando as condições das moradias precárias, onde faltam banheiro, quartos para os filhos e repartições suficientes para todos da família, garantindo a dignidade do lar como lugar existencial de interação e de harmonia. 

Além da luta por políticas públicas, é preciso deixar-se questionar, embalados por uma antiga e bela canção: “Para mim a chuva no telhado/ É cantiga de ninar/ Mas o pobre meu irmão/ Para ele a chuva fria/ Vai entrando em seu barraco/ E faz lama pelo chão/ Como posso/ Ter sono sossegado/ Se no dia que passou/ Os meus braços eu cruzei?// Como posso ser feliz/ Se ao pobre meu irmão/ Eu fechei meu coração/ Meu amor eu recusei?” (Balada da caridade, Ir. Irene & Ir. Rita). Trata-se de um amor- compaixão, uma atitude concreta. Há iniciativas simples de pessoas simples, que se unem para realizar grandes coisas: melhorar as condições de moradia de tantas famílias, contando com a solidariedade de irmãos e irmãs. Quanta ação concreta em mutirão já foi realizada nesse sentido! Muitas coisas podem continuar sendo feitas a partir de iniciativas simples, pessoais e comunitárias. Vamos lá? 

O Texto-base da CF/2026 nos convoca a agir concretamente diante da dramática realidade da moradia em nosso país, à luz esperançosa da profecia de Isaías: “Vou criar novos céus e nova terra! (…) Construirão casas, e nelas habitarão; plantarão vinhas, e comerão seus frutos. Não edificarão para que outro more; nem plantarão para que outro coma” (Is 65,17a.21-22a). As propostas de ação concreta são apresentadas em quatro dimensões: ação comunitária, ação eclesial, ação educativa e ação sociopolítica. E o documento, no seu último parágrafo (nº 182) nos envia em missão: 

“A nossa fé nos garante que o Reino já é dado em graça, mas só acontecerá se for construído, e esta construção tem um processo histórico, que exige a intervenção prática dos cristãos. Então, mãos à obra! É o Senhor quem nos envia, nos sustenta e nos conduz. Interceda por nós a Virgem Maria, e sua sagrada família, peregrina, refugiada, marginal e sem-teto”. Há muito o que ser feito. É preciso assumir nossa missão diante dos desafios da triste realidade, sabendo que não estamos sozinhos, pois “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)

 

Moradia digna, relevante tema social, é também importante na pauta da fé. A sociedade, seus segmentos e representantes têm obrigações prioritárias diante de realidade desafiadora: o déficit de moradia digna na sociedade brasileira. São obrigações legais e morais, pois dizem respeito ao cuidado com o ser humano e o respeito à sua dignidade. Justamente por se tratar de um tema caro à dignidade humana, a moradia digna é também pauta da fé. O déficit habitacional afronta diretamente a sacralidade de cada pessoa. O compromisso cristão de contribuir para que a sociedade supere esse déficit vem da direção preciosa indicada por Jesus, em uma das máximas do Sermão da Montanha, narrado pelo Evangelista Mateus, ao indicar um caminho de conversão e de qualificação da vida. O Mestre orienta seus discípulos a se dedicarem à oração, ao jejum e à esmola – compreendida como gesto de misericórdia e de caridade dedicado ao semelhante. Não basta, pois, orar e jejuar, desconsiderando ou adiando os gestos de misericórdia. O caminho de conversão indicado por Jesus está na força e na fecundidade da tríade: com a oração e o jejum, é preciso também adentrar nos sofrimentos e nas necessidades do próximo.  

Conversão inclui a disposição corajosa para a oferta de si, participando do sofrimento de irmãos e irmãs. Nessa perspectiva, ao considerar o quadro amplo e complexo da realidade social, com suas muitas necessidades e desafios, a Igreja Católica no Brasil, a partir da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), convida a sociedade a viver a Campanha da Fraternidade. São muitos irmãos e irmãs feridos na sua dignidade, com condições de moradia precárias, indignas. Tratar essa realidade de sofrimento é também compromisso de fé. Assim, no itinerário próprio do tempo da Quaresma, que convoca, de modo especial, ao exercício da caridade fraterna, solidarizar-se com aqueles que não têm habitação digna é gesto cristão de partilhar a dor dos sem-casa, dos que moram em condições precárias. A partir dessa partilha, é possível ajudar quem é desrespeitado em seus direitos fundamentais, em sua dignidade.  

São muitas as feridas e pesos sobre os ombros dos que vivem indigna e inadequadamente. Neste ano, a Igreja do Brasil propõe iluminar a realidade da conversão, apelo quaresmal que vem da Palavra de Deus, da força envolvente das celebrações litúrgicas e dos atos de piedade, pela consideração e compromisso com a realidade sofrida dos sem moradia digna. O convite evidente é o de ser solidário pela caridade, ajudando a construir respostas concretas às necessidades emergenciais. Trata-se de compromisso de fé que contempla o engajamento cidadão para ajudar a construir políticas públicas capazes de efetivar mudanças urgentes na sociedade brasileira, pela superação do déficit habitacional, das discriminações, das ofensas e de tudo mais que fere a dignidade humana. A realidade da moradia é, pois, um desafio humano, social e interpelação que vem da fé.  

Importante deixar-se iluminar por reflexões que promovam o conhecimento sobre a realidade da mordia no contexto brasileiro, para se sensibilizar. Esse conhecimento tem um farol iluminador: a verdade de fé que Jesus veio morar entre nós. Sua condição de nascer sem um lugar vincula-se à sua casa em Nazaré, onde, na presença de Maria e José, cresceu em graça e sabedoria. A casa é referência de dignidade e oportunidades para o crescimento humano e espiritual. Essa consideração sobre o significado da casa converte-se em compromisso vivo e iluminador da fé na tradição da Igreja: há uma dimensão social da fé, diante da necessidade dos pobres, inclusive daqueles que sofrem por não ter moradia digna. A Igreja, assim, busca contribuir para mostrar que a falta de moradia não é apenas um problema individual, mas grave ferida social que merece ser adequadamente tratada. Esse tratamento, para efetivamente desencadear mudanças, precisa ser impulsionado pela escuta dos clamores dos pobres. O adequado reconhecimento de que a promoção do direito à moradia integra a pauta da fé possa impulsionar o compromisso cidadão de ajudar a sociedade brasileira a mudar seu rosto sofrido. Assim se vive a fé de modo autêntico, exerce-se a cidadania qualificadamente, assumindo e efetivando o apelo quaresmal.  

 

Dom Antônio de Assis Ribeiro
Bispo de Macapá (AP)

 

 

“São José, proteja nossas Casas, abençoe nossos Lares!” 

As palavras “casas” e “lares” no tema da Festividade de São José de Macapá, neste ano, fazem referência à sintonia com o tema da Campanha da Fraternidade 2026: Fraternidade e Moradia.   

No Evangelho de Mateus, José é apresentado como um forte protetor da família e, consequentemente, zeloso cuidador do lar da Sagrada Família de Nazaré.  

O texto base da CF nos recorda que o Brasil tem um grande déficit habitacional, mas ao mesmo tempo, ficamos chocados com o alto índice de violência familiar. Isso significa que não nos basta termos assegurada a boa casa para morar, mas é urgente a conversão das moradias em autênticos lares.  

O processo de transformação da estrutura habitacional num lar, pressupõe um sério investimento na promoção das relações humanas. Não basta que os governos cubram os déficits habitacionais construindo enormes condomínios, mas é imprescindível que se leve em conta, a permanente necessidade do investimento na educação moral para que, desde cedo, cada cidadão possa assimilar valores éticos, tais como o amor, a justiça, a verdade, a paz, a solidariedade, o respeito, a honestidade. São aspirações universais que evidenciam a consciência da beleza da dignidade humana e nos capacitam para a serena e pacífica convivência respeitosa.  

Isso deve começar na família! Ela é a primeira instituição promotora dos valores humanos e do exercício das virtudes. Todavia, só acontece na estrutura habitacional, quando ela se torna um lar. Assim como a casa, também o lar é uma construção que exige vontade, decisão, consciência do sentido da vida e da beleza da família. Em primeiro lugar a promoção do lar depende de pais sensíveis, educadores, afetivos e capazes de testemunhar um alto nível de relacionamento entre si, que educam seus filhos com seus bons exemplos de afeto, escuta, carinho, cuidado, perdão, delicadeza. Todos foram corresponsáveis por essa tarefa na família de Nazaré! Era nesse ambiente que o menino Jesus crescia integralmente (cf. Lc 2,52). 

O tema da festividade de São José deste ano é uma prece, que pede a Deus, por intercessão do esposo de Maria, que Deus proteja as nossas casas, o lugar onde habitamos e abençoe os nossos lares. Diante de tantas más notícias sobre a questão habitacional, como desabamentos, enchentes, incêndios, arrombamentos, invasões, suplicamos a intercessão de São José para que nossas moradias sejam protegidas e mais seguras, uma vez que milhões de pessoas no Brasil vivem em situação de vulnerabilidade habitacional. 

Queremos também que São José abençoe os nossos lares. Se a casa é uma estrutura física, o lar é constituído pela relação das pessoas que vivem debaixo do mesmo teto. Infelizmente nem sempre todas as moradias, constituem um harmonioso lar. O lar é o bem-estar das relações entre as pessoas que vivem juntas.  

São José, com seu profundo senso de justiça (cf. Mt 1,19), capacidade de discernimento (cf. Mt 1,20) e oração, nos educa para a obediência a vontade de Deus (cf. Mt 1,15). Ele que foi o primeiro a se preocupar para que um estábulo de animais fosse transformado em moradia, também é o mesmo que intercede a Deus para que em nossa sociedade, toda moradia, em todos os contextos, haja um verdadeiro lar, onde as pessoas, sejam sensíveis, se queiram bem, se acolham, se respeitem, se perdoem, cuidem umas das outras; onde as pessoas se exercitem na paciência, na solidariedade, no diálogo.  

O espírito de iniciativa de José em prol da defesa da sua família (cf. Mt 2,13-21) e a serena correspondência de Maria, nos indicam que só teremos verdadeiros lares onde houver senso de corresponsabilidade, unidade, prontidão e delicadeza entre todos os membros da família. Somos todos corresponsáveis pela qualificação das relações dentro da família. 

José nos educa para a serenidade da relação com os outros nos momentos turbulentos (cf. Mt 2,14), assim reagiu quando percebeu que sua família estava ameaçada; imediatamente, de noite levantou-se e buscou um lugar seguro para viver (cf. Mt 2,14-21). São José nos educa para a preventividade e para a firmeza de ânimo nos momentos de crise para que não caiamos no desespero e nem no desânimo quando somos ameaçados.  

São José, reconhecemos a necessidade de termos boas moradias e de pacíficos lares, por isso, considerando o clima de vulnerabilidade e de ameaças em que vivemos, te suplicamos com fé: “proteja nossas Casas, abençoe nossos lares!”. Amém!