Artigos dos bispos

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Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)

 

O mundo dos esportes mobiliza, de modo impressionante e singular, mentes e corações, com a paixão que toca o mais fundo da alma. Assim, nestas últimas semanas, vive-se a Copa do Mundo de futebol, com suas luzes e sombras que podem se tornar lições indispensáveis. Ultrapassa-se os limites dos campos de disputa futebolística para alcançar culturas, proporcionando análises que revelam escolhas, oportunidades, forças e fragilidades. A paixão pelo esporte, com estádios repletos, desdobra-se em um olhar analítico e crítico, como tem acontecido especialmente nestes dias após a eliminação da seleção brasileira. São variados os tipos de análise e mesmo os mais curtos, ao modo “tiktok”, podem levar a aprendizados, essenciais para conquistar posturas cidadãs mais adequadas, capazes de contribuir com o crescimento da nação.  

A competição esportiva, mesmo sem alcançar a totalidade da população brasileira, resgatou, pelas cores verde e amarelo, o sentido de pertencimento a uma nação, pátria amada e idolatrada, para além de usurpações partidárias e excludentes. Percebe-se, assim, que há urgência em investir, sempre mais, na consolidação desse sentido de pertencimento, vencendo interesses mesquinhos ditados pela força diabólica do dinheiro. Uma força que ameaça o bem comum, alimenta a desigualdade social, com uma pequena parcela da população muito rica, enquanto significativo número de pessoas enfrenta a extrema pobreza. O domínio do dinheiro contamina até mesmo o âmbito esportivo, alimentando um imaginário e narrativas que restringem a competição em campo à lógica do enriquecimento. Rifa-se o amor à pátria, com reflexos percebidos em apatias dentro do campo. Consequentemente, talentos seduzidos pela ambição desmedida por dinheiro se enfraquecem e perdem a “garra” necessária para alcançar as vitórias no esporte.   

Para além do direito à remuneração condizente com as relações econômicas inerentes ao esporte, é preciso priorizar o desempenho essencial para alcançar êxito e evitar certas frustrações. Dentro desse domínio do dinheiro que distorce mentalidades, inclui-se a dominação patológica e sedutora dos esquemas de apostas, ameaça à construção de uma sociedade solidária e igualitária. Nesse contexto esportivo tão tristemente obscurecido por interesses pouco nobres, brilharam fortemente aqueles que estabeleceram um contraponto e lutaram com galhardia, sem fama, sem somas bilionárias, mas alavancados por um sentido de respeito à sua nação. Um desempenho esportivo que sinaliza para as potencialidades que agigantam nações, mesmo aquelas pequeninas.  Performances que deveriam mexer com os brios de quem é “gigante pela própria natureza”, mas carece de agigantar-se a partir de uma política exercida com autoridade moral, alicerçada no sentido genuíno de justiça. Um jeito nobre de se exercer o poder, que não se restrinja aos interesses cartoriais, e efetivamente busque consolidar significativos resultados, mais igualdade social. Trata-se de exigência para evitar manipulações espúrias que distorcem instituições e, também, o mundo dos esportes. 

Se não houver mais investimento em um modo novo de agir, prevalecerão, entre outros males, os autoritarismos sustentados pela subserviência interesseira e escrava do dinheiro. Uma submissão que produz fragilidades que alargam o tempo de jejum das vitórias, não somente no campo, também em desempenhos políticos e cidadãos.  Urge-se a recuperação do sentido de pertença e de responsabilidade social, inclusive no mundo dos esportes, para inspirar e impulsionar desenvolvimento integral, com a construção de novos cenários, a partir de um sentido nobre de cidadania. Os fracassos esportivos remetem também à escassez de líderes. O esporte e outros campos da vida sofrem com aqueles que se dedicam a falatórios e a populismos, uma presença fragilizada, sem potencial para inspirar nobres valores, motivar as pessoas a melhorar, cada vez mais, a ter “garra” e competência, condições essenciais para lutar e reagir, mudando cenários de derrota para alcançar vitórias.  

É preciso incomodar-se com o despreparo que campeia em muitos setores e gera desperdício de recursos, inclusive de muitos talentos com potencial para escrever uma história nova e oferecer respostas adequadas a muitos desafios. A busca pelo exercício de um adequado desempenho, com investimentos em permanente qualificação, precisa se consolidar como um valor social, para que as pessoas não se achem as únicas capazes de exercer cargos e responsabilidades. Neste momento frustrante da eliminação da seleção brasileira de futebol, deve-se vislumbrar oportunidade de mudanças, refletindo sobre opiniões diversas e críticas, mesmo as mais dolorosas. Assim, é possível evitar novos fracassos, em diferentes campos, inclusive aqueles que impedem a nação de alcançar suas vitórias, condizentes com suas potencialidades, com a grandeza de suas riquezas, em reverência aos seus valores históricos e culturais que a enobrecem.    

Este momento pede um “renascer das cinzas”, dos resultados ruins no mundo esportivo à reação para se conseguir um Estado mais eficiente, capaz de servir ao conjunto da nação, garantindo um contexto social mais igualitário. Um grande movimento para se conquistar representação política com autoridade, contracenando com instituições educacionais e culturais para renovar a cultura brasileira, na riqueza de sua pluralidade, contemplando valores morais e religiosos. Assim, reverter a irônica contagem de fracassos – aqueles que levam a eliminações consecutivas em Copas do Mundo de futebol e a tantas outras derrotas, em outros campos.  As lições da derrota, se aprendidas, podem inspirar seriedade, qualificação, colocando o Brasil nos trilhos de novas conquistas, com um novo rosto, que reflita o desenvolvimento integral e a fraternidade solidária. 

 

Dom Itacir Brassiani 
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)

Está no evangelho segundo Lucas (15,1-7): “Haverá mais alegria no céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”. É como o caso de um pastor dedicado: ele deixa as 99 ovelhas no campo e vai atrás de uma que se perdeu. E, quando a encontra, toma ela no colo, volta para casa e reúne os vizinhos para festejar e participar da sua alegria. Será que 1 vale mais que 99? 

Está no evangelho segundo João (6,1-13). Uma multidão segue Jesus na travessia do mar para escutá-lo. Vendo toda aquela gente, Jesus pergunta aos discípulos como alimentá-la. Eles fazem um rápido orçamento e concluem que custaria a renda de sete meses. Mas, com cinco pães e dois peixes que lhe são entregues, cinco mil cidadãos se alimentam o quanto querem, e a sobra enche doze cestos. Será que essa divisão é possível? 

Está no evangelho segundo Mateus (20,1-16). Alguns assalariados começam a trabalhar para o mesmo patrão bem cedo, outros às nove horas, ao meio-dia e à tarde. Todos recebem o mesmo valor como pagamento: o necessário para viver um dia. Os primeiros murmuraram porque foram igualados aos últimos. Mas o patrão responde que a justiça considera a necessidade e não o mérito. Será que Jesus desconhece as leis? 

Está em todos os evangelhos: “Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos”; “o primeiro e maior é o último e aquele que serve” (cf. Lc 13,30; 22,26; Mc 10,31.43; Mt 19,30; 20,16; 23,11; Jo 13,14). Isso é estranho, pois os primeiros sempre são os vencedores e bem-sucedidos, e os perdedores, condenados a servir e se submeter, são os imprestáveis. Será que Jesus não conhece os valores que garantem a ordem social? 

Jesus não ignora o funcionamento das religiões e das instituições. Mas ele as critica com radicalidade, e propõe outra escala de valores e outros paradigmas de justiça. Não o representam as igrejas e comunidades que se fecham como gueto dos 99 justos, como seita que reúne os cidadãos mais honrados, ou as sociedades que premiam os vencedores por terem mérito e punem os empobrecidos porque os consideram fracassados. 

Edifiquemos comunidades eclesiais que se alegram com cada pessoa que é protegida e supera a vulnerabilidade, porque “todas as vidas importam”. Elaboremos arcabouços legais que deem prioridade aos setores sociais que pagam com uma vida precária o desenvolvimento do país. E trabalhemos sem tréguas por estruturas econômicas e judiciais que assegurem a todos os cidadãos as condições básicas para uma vida digna. 

 

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

Estamos em tempo de férias escolares. Algumas escolas já iniciaram o período de férias nesta semana, sobretudo as particulares, enquanto as redes municipais e estaduais entrarão em férias nos inícios de julho de 2026. Soma-se a isso o clima da Copa do Mundo, que envolve a todos e contribui para esse ambiente de descanso e lazer. 

O período de férias no meio do ano dura, em média, cerca de um mês, diferentemente das férias de fim de ano, que se estendem por aproximadamente dois meses. Essas férias do meio do ano servem para dar um respiro, fazer uma pausa e restaurar as forças para o segundo semestre que se aproxima. 

Nesse período de férias escolares das crianças, muitos pais também aproveitam para tirar férias juntamente com os filhos. Realizam passeios, visitam parentes e viajam. Muitas vezes, os pais dividem as férias ao longo do ano para aproveitar um tempo com os filhos em julho e em janeiro, sobretudo quando eles ainda são pequenos. 

É claro que nós, como cristãos católicos, tiramos férias da escola, do trabalho e de outros afazeres, mas não podemos tirar férias de Deus. Ou seja, devemos preservar, ao menos, a participação na Santa Missa dominical, que é um preceito para nós, católicos. Além disso, mesmo estando de férias, devemos procurar reservar alguns momentos do dia para a oração, pedindo e agradecendo ao Senhor, inclusive pela oportunidade de descansar e estar com a família. 

Se forem viajar para o interior, para outro local do Estado do Rio de Janeiro ou mesmo para outra região do país, procurem informar-se com vizinhos, parentes ou conhecidos sobre onde há uma Igreja Católica, para que, ao menos aos domingos, possam participar da Santa Missa. Os pais são os primeiros catequistas dos filhos, e a família é a Igreja doméstica. Por isso, cabe aos pais transmitir aos filhos os verdadeiros valores, sobretudo aqueles relacionados à fé. Os filhos seguirão o exemplo dos pais. Ao verem os pais rezando e participando da Missa, mesmo durante uma viagem, terão maior facilidade para fazer o mesmo no futuro. 

São os pais os principais responsáveis por transmitir a fé aos filhos. Eles não aprenderão os fundamentos da vida cristã na escola, na rua ou em qualquer outro ambiente, mas, antes de tudo, em casa e, consequentemente, na Igreja. Por isso, não tiramos férias de Jesus nem da Igreja; tiramos férias da escola e do trabalho. Não nos esqueçamos de Deus, pois Ele nunca se esquece de nós nem tira férias do cuidado por cada um de seus filhos. 

Algumas famílias optam por não viajar, seja por questões econômicas, seja por comodidade. Nesses casos, procurem participar da Santa Missa, especialmente aos domingos, em sua comunidade. Ao longo da semana, enquanto estiverem de férias, reservem um tempo para rezar o terço, meditar a Palavra de Deus e partilhar um pouco da vida com os filhos, netos ou afilhados, já que durante o restante do ano a rotina costuma ser muito corrida. Aproveitem também para desligar a televisão, o rádio e o celular por alguns instantes, fazendo silêncio para escutar a voz do Senhor. 

Muitas vezes, nas férias, preferimos acordar mais tarde, sobretudo as crianças. Passamos mais tempo diante da televisão, do celular, do videogame ou do computador. Também aproveitamos para organizar a casa, arrumar armários ou realizar tarefas que não conseguimos fazer durante o ano. No entanto, não nos esqueçamos de reservar, entre uma atividade e outra, entre um programa de televisão e outro ou entre um momento e outro no celular, alguns minutos para rezar e agradecer a Deus. Quem sabe seja também uma oportunidade para participar da Santa Missa durante a semana, e não apenas aos domingos. Talvez pela manhã, quando as crianças acordarem, ou à tarde, após o almoço, seja possível reservar um tempo para a oração. É justamente colocando Deus também no período de férias que pedimos a sua bênção sobre o segundo semestre que se aproxima. 

Agindo dessa forma, daremos um novo significado às nossas férias e às férias de nossa família, vivendo-as verdadeiramente como cristãos. Será também uma oportunidade de tornar as crianças pequenas missionárias. Quando retornarem às aulas, poderão contar aos colegas que, além dos passeios e momentos de lazer, também rezavam em família, meditavam a Palavra de Deus e participavam da Santa Missa. Assim, poderão incentivar outras crianças a fazerem o mesmo. 

Inclusive os diáconos, padres, seminaristas, religiosos e religiosas que tiram férias em julho ou em janeiro podem, naturalmente, viajar, descansar e estar com suas famílias, mas sem se esquecer de Deus e da oração. Para os religiosos, a participação na Santa Missa é diária, assim como os demais momentos de oração, como as Laudes, as Vésperas e a meditação da Palavra de Deus. Normalmente, iniciam o dia rezando as Laudes e participando ou celebrando a Santa Missa, aproveitando depois o restante do dia para o descanso, sem deixar de concluir a jornada com a oração das Vésperas. Portanto, como já dissemos, nunca tiramos férias de Deus, mas apenas das demais obrigações, pois é Ele quem conduz também o nosso descanso. 

Os religiosos conhecem bem as suas obrigações, mesmo durante as férias. Desde o seminário, os seminaristas aprendem a importância da oração e que ela jamais deve ser deixada de lado, mesmo nos períodos de descanso. Após a ordenação diaconal e, posteriormente, a sacerdotal, esse compromisso permanece. A celebração diária da Santa Missa continua sendo parte essencial da vida do sacerdote, inclusive durante as férias. 

Infelizmente, nos dias de hoje, percebemos que existem dificuldades cada vez maiores para tratar da religião em alguns ambientes escolares. Entretanto, é plenamente possível ensinar em casa aos filhos a importância da fé e da vivência católica. Eles poderão testemunhar esses valores também entre os colegas quando retornarem das férias. Se ensinarmos nossos filhos e netos a cultivarem o gosto pela oração, eles não desejarão rezar apenas durante as férias, mas pedirão, ao longo de todo o ano, que pais e avós interrompam por alguns instantes suas atividades para rezarem juntos. 

Portanto, meus irmãos, aproveitemos as férias para descansar e renovar as forças para o semestre que se aproxima. Mas que sejam férias verdadeiramente cristãs, nas quais, além do descanso, não nos esqueçamos da oração. Lembremo-nos sempre de que Deus nunca tira férias de nós; por isso, também não devemos tirar férias d’Ele. Aproveitemos esse tempo para aprofundar a nossa fé, ler algum documento da Igreja e, se as crianças frequentam a catequese, revisar com elas aquilo que aprenderam ao longo do semestre. Também seria muito proveitoso separar alguns filmes sobre a vida dos santos para que toda a família possa assisti-los reunida. Nada é melhor do que colocar, no centro das férias, o crescimento espiritual das famílias, especialmente das crianças.