Artigos dos bispos

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Dom Pedro Carlos Cipollini
Bispo de Santo André (SP)

 

Cresce em nossa sociedade as agressões às mulheres e aumenta o feminicídio. O que está acontecendo? Na verdade isto não é algo novo, vem de longe. Acontece que, devido aos meios de comunicação e o crescimento da consciência sobre os direitos humanos, os casos aparecem mais, e se tornou visível o quanto a dignidade da mulher é espezinhada. Na verdade a questão de fundo é esta: a dignidade da mulher. 

As agressões às mulheres se dão de forma variada e múltipla em todas as sociedades de nosso tempo. Vai desde a discriminação social, cárcere privado, salários desiguais para o mesmo serviço desempenhado por elas e os homens, humilhações de todo tipo, agressões físicas, assassinatos e todos os vícios que o machismo exacerbado, presente nas diversas culturas, externam de múltiplas formas. Isto apesar de se reconhecer como óbvio que, “todos são iguais perante a Lei” 

Um dos sinais dos tempos apontados por São João XXIII é a nova condição da mulher na sociedade. A mulher torna-se cada vez mais consciente da sua própria dignidade humana, recusa-se a ser tratada como objeto ou instrumento, reivindica direitos e deveres de acordo com sua dignidade de pessoa, tanto na vida familiar como na sociedade. A causa de gênero é permeada por barreiras da tradição, historicamente construídas em culturas patriarcais e regimes feudais, que precisam ser rompidas. 

A Bíblia nos atesta que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança (Gn 1,27  ), mas por muitos séculos a sociedade interpretou este texto como sendo o homem a imagem de Deus. E a mulher, sua imagem “só pela metade” ou seja, só quando ela se torna mãe e transmite a vida. No mais seria a culpada de todas as desgraças da humanidade, porque Eva ouviu a serpente e levou a humanidade ao pecado. Como se Adão também não tivesse aderido á serpente e pecado igualmente. 

Muitas mulheres padecem condições de exclusão e abandono vivendo em situações muito duras, especialmente quando são abandonadas com os filhos pelos seus maridos ou companheiros. Na maioria dos lares brasileiros, em especial nos mais pobres, são as mulheres que sustentam a vida e criam os filhos. Entre elas encontramos os mais admiráveis gestos de heroísmo cotidiano na defesa e cuidado da fragilidade. São mensageiras de Deus como a samaritana que após seu encontro com Jesus tornou-se missionária, chamando pessoas para escutá-lo (cf. Jo 4,39). 

Jesus valorizou as mulheres e respeitou sua dignidade para espanto de uma cultura machista e patriarcal, como aquela na qual viveu. São múltiplos os episódios que atestam isto. Inclusive muitas mulheres o seguiam e ajudavam no seu ministério (cf. Lc 8,1-3) e ele retribuiu, fazendo de Maria Madalena a “apóstola dos apóstolos”, pois foi a ela que Jesus ressuscitado encarregou de levar a boa notícia aos apóstolos (cf. Jo 20,17). 

A máxima valorização da mulher foi operada por Deus na história, pela escolha de Maria de Nazaré, para ser a mãe de Jesus, o Filho de Deus, conforme relatam os Evangelhos. No rosto de Maria encontramos a ternura e o amor de Deus. Ela se compromete com a história humana, observa com sabedoria a realidade e com sua voz profética, convida a um estilo de vida compartilhada e solidária. 

A mulher precisa ocupar mais espaço na sociedade em especial na política. O gênio feminino que se caracteriza pelo cuidado da vida, é necessário em todas as  expressões da vida social. Em especial no âmbito do trabalho, e nos vários lugares onde se tomam decisões  importantes, tanto nas estruturas sociais como na própria Igreja. Neste sentido o Papa Francisco e o papa Leão XIV, fizeram  nomeações significativas de mulheres, para cargos importantes no governo da Igreja. Já tendo o papa São João Paulo II escrito uma Carta Apostólica sobre a dignidade e vocação da mulher em 1988 (Mulieris dignitatem). 

Em meio ao machismo geral, exacerbado pelo racionalismo econômico,  existem exceções admiráveis como o filósofo Kant que escreveu: “A sabedoria das mulheres não é raciocinar, é sentir”, já antevendo o que hoje se chama “inteligência emocional”,  que faz tanta falta em nossos relacionamentos.  

 

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba (MG) 

Para a Igreja, o povo brasileiro precisa participar, com mais consciência, nas eleições de 2026. É compromisso da política promover a justa ordem do Estado e da sociedade. Não significa substituir o compromisso do Estado na organização da política e nem a ter sob suas mãos. A Igreja quer oferecer a sua contribuição com a formação ética e critérios de coerência nas decisões do cidadão.

Não podemos perder de vista a importância da ética política e administrativa. O que está em jogo é a defesa da dignidade humana e da vida das pessoas. A ação política deve promover a paz e a solidariedade. Isto será possível se todos contribuírem com a campanha contra a corrupção eleitoral. Campanha desleal, compra de votos, com uso da máquina pública, é imoral e contra a ética.

Vamos eleger o Presidente da República, Governadores dos Estados, representantes do povo nas Assembleias Legislativas, em âmbito estadual e federal. Os eleitos, deverão dar os destinos necessários para o país. Isto exige de todos nós responsabilidade. Sintamos o peso da frase popular: “O voto não tem preço, ele tem consequências”, que podem ser danosas para todo o povo brasileiro.

Não devemos colocar em jogo as esperanças. Somos desafiados pelos inúmeros escândalos públicos. Assim entendemos as palavras do Papa Bento XVI, na Encíclica “Deus é Caridade”, onde ele fala da questão política na aplicação do amor cristão. Para o seu entender, faz parte da vida do cristão a militância política. Ele tem o dever de trabalhar por uma ordem justa na sociedade.

O cristão deve assumir função legislativa para promover o bem comum. A Igreja não assume opções partidárias, mas procura formar as consciências. Ela não deve colocar-se no lugar do Estado e nem ficar à margem da luta pela justiça. Em outras palavras, é o Estado quem deve organizar a política e não a Igreja. Por causa disto, o voto deve ser dado com discernimento responsável.

Temos hoje os grandes desafios provocados pela adoção de políticas geridas por um sistema capitalista neoliberal. A sociedade sempre sofre as consequências dessa realidade. Daí vem a violência, o crime organizado, a exclusão social etc. Somente um quadro político sadio e responsável poderá trazer esperança de mudança para criar uma realidade benéfica, autêntica e democrática ao país.

 

Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)

Todos os anos, ao celebrarmos Santa Ana e São Joaquim, pais da Virgem Maria e avós de Jesus segundo a antiga tradição cristã, testemunhada também em escritos apócrifos, a Igreja nos convida também a celebrar o Dia dos Avós. Não se trata apenas de uma homenagem afetiva, mas do reconhecimento de uma vocação preciosa na vida das famílias, da Igreja e da sociedade. 

Na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, o Papa Francisco recorda que os idosos são a memória viva de um povo e de uma família. Eles não representam apenas o passado, com sua presença, suas histórias e seus testemunhos, ajudam a iluminar o presente e a preparar o futuro. Sem raízes, não há frutos; sem memória, não há identidade. Por isso, afirma que “a atenção aos avós faz a diferença na qualidade humana de uma sociedade”. 

Os avós ocupam um lugar singular na transmissão da fé. Muitas pessoas aprenderam as primeiras orações no colo da avó ou receberam do avô os exemplos mais simples e profundos da confiança em Deus. Antes mesmo das palavras da catequese, foi muitas vezes o testemunho silencioso dos mais velhos que relevou a beleza de uma vida sustentada pela fé. Com eles, aprendemos o valor da honestidade, da solidariedade, do trabalho, da perseverança e da esperança. 

A própria história da salvação revela a importância das gerações. Deus estabeleceu alianças que atravessam séculos, famílias e povos. A fé bíblica nunca é vivida de forma isolada; ela é transmitida de pais para filhos e de avós para netos. O que Ana e Joaquim representam para Maria, e o que Maria representa para Jesus, recorda-nos que Deus gosta de agir por meio dos vínculos familiares e da humilde continuidade entre as gerações. 

Nos últimos anos, o Papa Francisco insistiu repetidamente que um povo que abandona seus idosos perde a própria memória. Os avós são guardiões de histórias, valores e experiências que nenhuma tecnologia pode substituir. Eles carregam as marcas das lutas enfrentadas, das crises superadas e das graças recebidas. Sua autoridade não nasce do poder, mas da fidelidade; não vem da imposição, mas de uma vida atravessada pelo tempo, pelo sofrimento e pela esperança. 

O Papa Leão XIV também tem retomado esse horizonte, recordando a importância de cultivar a esperança entre as gerações. Uma sociedade verdadeiramente humana não se constrói apenas pela inovação, mas também pela sabedoria acumulada. Os jovens trazem o vigor dos sonhos; os idosos oferecem a profundidade da experiência. Quando essas riquezas se encontram, nasce uma cultura capaz de olhar para o futuro sem perder suas raízes. 

Num mundo marcado pela rapidez, pela impaciência e pela cultura do descartável, os avós nos recordam que a vida amadurece lentamente. São como árvores antigas, cujas raízes profundas sustentam a terra: talvez não cresçam em altura, mas continuam oferecendo sombra, abrigo e frutos de sabedoria a todos os que se aproximam. 

Celebrar os avós é agradecer a Deus por aqueles que mantêm acesa a chama da memória, da fé e da esperança. É reconhecer que cada família possui um tesouro precioso em seus idosos. É também o renovar o compromisso de não os deixar entregues à solidão, ao esquecimento ou à indiferença. 

Uma sociedade será tanto mais humana quanto mais souber acolher, escutar e honrar aqueles que lhe transmitiram a vida, a história e a fé. Ao aproximarmos jovens e idosos, não preservamos apenas as lembranças do passado: abrimos caminhos para que a esperança continue sendo transmitida de geração em geração.