Artigos dos bispos

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Dom Itacir Brassiani
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)

No último domingo, as comunidades cristãs leram e meditaram a parábola do semeador (Mateus 13,1-9). Nela Jesus compara o anúncio e a fecundidade do Reino de Deus com um agricultor generoso e confiante, que não poupa suas sementes. Ele está disposto a correr o risco de que 75% delas não cheguem a produzir frutos maduros. Ele sabe que se 25% delas completarem o ciclo, compensarão o trabalho e as sementes perdidas. 

É importante não esquecer que a parábola se refere ao Reino de Deus, os Novos Céus e a Nova Terra onde habitam a justiça e a fraternidade. A semente não é ruim nem desprezível, e mesmo que três quartos dos esforços dispendidos para que germinem, floresçam e frutifiquem se percam, o semeador não se sente frustrado. “Põe a semente na terra, não será em vão! Não te preocupe a colheita: plantas para o irmão”. 

No próximo domingo, ouviremos mais três parábolas que nos ajudam a compreender outros aspectos do dinamismo do Reino de Deus (c. Mateus 13,24-43). Entre elas está aquela do grão de mostarda (v. 31-22). “Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”. Que ninguém duvide da força escondida na pequenez da semente!  

Não é segredo para ninguém que o mundo ocidental vive uma crise de esperança. Parece que as grandes utopias perderam crédito ou desapareceram. Os líderes ou ídolos que nos entusiasmaram continuam os mesmos ou morreram de overdose. As próprias comunidades cristãs, se não desconfiam da força do Evangelho do Reino, reduzem a semeadura ao campo das almas, dos cultos e atos de devoção, ou dos costumes e da moral sexual e familiar. Esses terrenos são suficientes? 

O que acontece quando o Evangelho do Reino de Deus não tem crédito nem entre aqueles que nele professam uma fé pública, ou quando é sequestrado por mentalidades tacanhas, por medos arcanos ou por interesses institucionais? Acaba germinando e se manifestando em outros terrenos, alheios ou contrários às instituições, igrejas e religiões. São os terrenos que as receberam em tempos remotos e as conservaram invisíveis. Quando o tempo se faz propício, a germinação acontece. 

Quando os cristãos europeus se agarraram às decadentes monarquias absolutistas, o Evangelho do Reino de Deus reapareceu em dialeto político e revolucionário, como reivindicação de liberdade, igualdade e fraternidade. Quando a globalização se apresentava como o melhor dos mundos possíveis e seduzia muitos povos, a semente do Reino germinou como contestação social e anúncio de que um outro mundo é possível. E quando a violência se dirige contra negros e mulheres, o Evangelho do Reino reaparece como humanismo radical, afirmando que todas as vidas importam 

 

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN) 

 

A proposta da civilização do amor ocupa o centro do capítulo conclusivo da Encíclica Magnifica Humanitas. Para o Papa Leão XIV, ela não é uma utopia ingênua, mas o caminho mais realista para preservar a humanidade numa época marcada pela inteligência artificial, pela polarização, pela cultura da força e pela normalização da guerra (cf. MH, 185-187; 210). 

A expressão foi cunhada por São Paulo VI durante a Guerra Fria e é retomada por Leão XIV para responder aos desafios da era digital. O Papa observa que, embora as novas tecnologias tenham aproximado pessoas e acelerado a comunicação, elas não tornaram a humanidade automaticamente mais fraterna. Ao contrário, a crescente interdependência exige transformar a simples conexão tecnológica em verdadeira solidariedade entre os povos (cf. MH, 186-187). 

Mas o que significa construir uma civilização do amor? Segundo o Papa, significa fazer da caridade o princípio inspirador da vida social. O amor não pode permanecer apenas como virtude privada; deve dar origem a estruturas de justiça, inspirar a política, a economia, a cultura e promover a fraternidade, reconhecendo cada pessoa e cada povo como parceiros na construção do bem comum. Assim, a convivência deixa de ser mera coexistência de interesses para tornar-se autêntica comunhão (cf. MH, 186-187). 

Essa proposta não é idealismo ingênuo. Leão XIV afirma que a verdadeira ingenuidade consiste em acreditar que a paz poderá ser garantida indefinidamente pelas armas, pela lógica da força ou pela superioridade tecnológica. A cultura do poder normaliza a guerra, enfraquece o direito internacional, alimenta a corrida armamentista e reduz as vítimas a simples números (cf. MH, 188-205). Em contraste, a paz é fruto da justiça e da caridade e permanece sempre uma possibilidade real (cf. MH, 205; 210). 

Para concretizar esse projeto, o Santo Padre apresenta cinco atitudes fundamentais. A primeira é desarmar as palavras, combatendo o ódio, a mentira e a polarização, porque a paz começa na maneira de falar e comunicar (cf. MH, 214). A segunda é construir a paz na justiça, já que não existe paz verdadeira sem respeito aos direitos e à dignidade humana (cf. MH, 215). A terceira consiste em assumir o olhar das vítimas, colocando no centro o sofrimento das pessoas atingidas pela guerra e pela violência (cf. MH, 216-217). A quarta é cultivar um saudável realismo, que rejeita tanto a ingenuidade quanto o cinismo e busca soluções concretas para prevenir conflitos (cf. MH, 218). Finalmente, Leão XIV convida a revitalizar o diálogo e o multilateralismo, fortalecendo a diplomacia, as negociações e as instituições internacionais como caminhos permanentes para a paz (cf. MH, 219-226). 

A civilização do amor nasce da fidelidade às pequenas escolhas de cada dia: dizer a verdade, promover a justiça, respeitar a dignidade de cada pessoa, colocar a tecnologia a serviço da vida, educar para a paz e cultivar a esperança. Como o grão de mostarda do Evangelho, ela cresce silenciosamente, mas transforma a história (cf. MH, 210-213). 

Ao concluir a Encíclica, Leão XIV recorda que a paz é dom de Deus, mas também responsabilidade humana. O grande desafio do nosso tempo é fazer com que o extraordinário progresso tecnológico seja acompanhado por um progresso ainda maior na fraternidade, na justiça e no amor (cf. MH, 228). 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)

 

Aproxima-se o término da Copa do Mundo de futebol masculino, considerada a maior Copa de todos os tempos, com acontecimentos, reações e posturas que revelam lições. Um evento de especial destaque pelo número de seleções que reuniu, por sua realização em três países diferentes, ainda pelo expressivo número de torcedores e grande movimentação financeira, envolvendo o turismo, a economia e o mundo da comunicação. As repercussões desse torneio merecem reflexão, para bem aproveitar as lições que podem ajudar a civilização contemporânea a tornar-se mais justa e pacífica. Há de se dar devida atenção às denúncias de racismo, um mal que se camufla, de modo perverso, fazendo-se presente mundo afora. Entre as vítimas estão, inclusive, estrelas de destacadas seleções. Esse mal tem lugar, até mesmo, em regiões onde há ilusório pluralismo racial. Expressa-se na arrogância de torcidas, com refrões cantados nas arquibancadas que merecem adequada avaliação, juízos e providências cabíveis.  

Na contramão de todo preconceito, nos cenários da Copa brilharam nações pequenas e empobrecidas, com populações que, muitas vezes, são discriminadas. Seleções que, a partir de seu desempenho, demonstraram o vigor e a seriedade com que suas nações constroem suas vidas, mesmo vítimas de colonizações que exploraram à exaustão a sua dignidade e os seus recursos. Os jogadores que representaram esses países mostraram galhardia, autêntico patriotismo, mesmo não usufruindo de quantias de dinheiro astronômicas e vergonhosas: um acúmulo desmedido de riquezas que tem servido, inclusive, para efetivar narrativas que se valem do nome de Deus para gerar manipulação. As nações mais pobres que disputaram com dignidade a Copa têm muito a ensinar àqueles que somente almejam acumular riquezas e, consequentemente, não “dão conta do recado”: frustram a expectativa de multidões de torcedores, ancoram-se em uma compreensão torta sobre o que significa a bênção de Deus, para justificar a vida luxuosa, a busca pelo reconhecimento social por meio dos bens que consegue acumular.  

Por falta de preparo humanístico, de um adequado sentido pátrio, rifa-se o compromisso de lutar com “fibra” e garantir desempenhos dignos de vitória, não apenas pelo fato de vencer uma partida de futebol, mas por buscar realizar bem o que é essencial à própria profissão. Essa fragilidade agrava-se pela sedução das grandes empresas que promovem verdadeira escravização da imagem e da reputação pessoal. Assim, o esporte perde seu lustro e sua propriedade de congregação fraterna. Apesar disso, a Copa mostrou torcidas apaixonadas, movidas pela força de corações patrióticos e admiradores da arte própria do futebol. Muitas vezes, torcidas diferentes ocupando o mesmo espaço comprovaram que diferenças não significam inimizades ou justificam a perseguição de adversários, mas oportunidade de crescimento e novas conquistas. A alegria apaixonada dos torcedores nos estádios tem uma distância enorme da manipulação e redução do esporte ao preço de passes e a salários astronômicos mensais.  

A valorização pessoal enjaulada na sedução de se ganhar muito, mais e sempre mais, não inspira as atuais e novas gerações a conquistar uma envergadura social relevante, a riqueza maior. Felizmente, existem exceções: atletas que recebem altos salários, mas buscam comprovar a sua grandeza por outros caminhos, sem querer demonstrar poder pela ostentação. Estrelas com notável envergadura moral. São aqueles poucos que alimentam a postura ética de não se deixar instrumentalizar, não se colocam a serviço de apostas que iludem para simplesmente enriquecer oligarquias. Um tema que merece ser rediscutido na sociedade e contar com a ajuda séria de instituições legislativas, para que sejam tomados rumos novos. Essas novas direções devem ser descobertas com investimentos educacionais capazes de colocar em curso uma profunda reformulação cultural, de modo a mobilizar cidadãos para a necessidade de se construir cada vez mais cenários de igualdade, superando exclusões.  

A Copa termina, mas permanece no horizonte o desafio de enfrentar autoritarismos, como os que se expressam nas interferências governamentais inoportunas, acatadas, certamente, por medo de retaliação ou por conivências interesseiras, sobretudo do ponto de vista econômico. O horizonte sedutor do dinheiro compromete o genuíno sentido de amor à pátria. Passa-se a valorizar mais os recursos bilionários no bolso de poucos, em detrimento da qualidade educacional, da promoção e amparo aos bens culturais, a tudo que se relacione ao bem comum. Todas as instituições, e não somente o universo que se dedica ao esporte, têm nos ecos da Copa um itinerário de redimensionamento, para reavaliar posturas, funcionamentos e rumos. O principal torneio de futebol, em sua edição com maior número de seleções, marcante pela expressiva presença de torcedores, realização em três países, deve continuar a reverberar, mesmo após a sua conclusão. Assim, as derrotas dentro de campo podem trazer lições essenciais a uma reação, dentro e fora das quatro linhas. Ainda mais importante: os ecos da Copa tenham incidência na vida social, inspirando caminhos para que sejam superados os preconceitos, a idolatria ao dinheiro, os autoritarismos, males que impedem o mundo de ser mais justo, fraterno e solidário.