Artigos dos bispos

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Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS) 

 

Entre as grandes celebrações da Igreja, poucas possuem um significado tão profundo quanto a Solenidade de São Pedro e São Paulo. O Prefácio da Missa deste dia resume com admirável beleza, o lugar singular que ambos ocupam na vida da Igreja: Pedro foi o primeiro a proclamar a fé; Paulo, o mestre que a anunciou aos povos. Pedro reuniu os primeiros discípulos vindos de Israel; Paulo levou o Evangelho até os confins do mundo. Distintos em seus caminhos e dons, tornaram-se um só testemunho de Cristo. 

Pedro era pescador. Homem simples, impulsivo, marcado por generosidades e fragilidades. Foi ele quem, em nome dos discípulos, professou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Sobre essa fé, Cristo edificou sua Igreja. Paulo, por sua vez, era homem culto, cidadão romano, profundo conhecedor das Escrituras. De perseguidor dos cristãos, tornou-se ardoroso anunciador do Evangelho após encontrar-se com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco. 

A Igreja não celebra dois homens iguais. Celebra dois santos profundamente diferentes. Um representa a estabilidade da rocha; o outro, o dinamismo da missão. Um guarda a unidade; o outro abre caminhos. Um confirma os irmãos na fé; o outro atravessa mares e fronteiras para anunciar Cristo. No entanto, ambos encontraram sua verdadeira identidade não em suas qualidades pessoais, mas na experiência transformadora do encontro e do amor ao Senhor. 

Num tempo em que tantas diferenças se transformam em divisões, Pedro e Paulo recordam que a unidade não exige uniformidade. A Igreja é rica justamente porque reúne diversos carismas, sensibilidades, culturas e vocações. A comunhão nasce quando todos reconhecem que Cristo é maior do que nossas preferências e opiniões e projetos pessoais. 

Os dois apóstolos terminaram seus dias em Roma, derramando o próprio sangue pelo Evangelho. Aquilo que começou de maneira tão diferente encontrou sua plenitude no mesmo testemunho de fé. A mesma cidade acolheu seus martírios; a mesma Igreja conserva sua memória; o mesmo amor a Cristo sustentou sua fidelidade até o fim. 

Pedro nos ensina a permanecer firmes. Paulo nos ensina a partir em missão. Juntos, recordam à Igreja de todos os tempos que a fé precisa de raízes profundas e de horizontes amplos. A rocha e o caminho, a unidade e a missão, a permanência e a saída missionária: eis o legado dos dois grandes apóstolos, que continuam a fortalecer a Igreja com sua intercessão e a inspirar os discípulos de Cristo pelo testemunho de suas vidas. 

 

Dom Diamantino Prata de Carvalho
Bispo Emérito da Campanha (MG)

 

Para além da diversidade cultural e até mesmo folclórica por detrás dos festejos juninos, estes embalados pelas tradições vinculadas ao popular São João, somos convidados pela Igreja a debruçarmo-nos com solene e grande alegria sobre a Natividade de São João Batista, à luz do Evangelho de Lucas 1,57-66.80, o qual descreve tamanho acontecimento. 

 Enriquecidos por tão bela narrativa, apoiados nos escritos dos santos Padres, a Natividade de São João Batista não só causa admiração pelo conhecimento dos sagrados mistérios, senão pela meditação impetrada a partir dos mesmos, meditação esta que, ultrapassando gerações, produz efeitos espirituais profundamente vivos e pertinentes ao tempo presente, bem como ao vindouro da Igreja e de cada filho seu. 

Sob a auspiciosa sabedoria de Santo Agostinho, podemos contemplar tal Solenidade em uma perspectiva sumamente cristocêntrica, uma vez que o mesmo, partindo de João Batista, nos leva até Cristo e sua Igreja; isto considerando a eloquente afirmação de que “João nasce de uma anciã estéril; Cristo nasce de uma jovem virgem”. 

Último dos profetas da Antiga Aliança, João é a síntese de todo percorrido do Povo de Israel até os tempos da plenitude com a esperada vinda do Messias. Síntese não só por sua sabedoria expressada aos quatro cantos, apontando o Cordeiro, mas síntese também por que resume um tempo antes de Cristo marcado por vãos lampejos de certeza rumo à verdadeira Esperança. 

A estéril de que nos fala Agostinho, Isabel, representa as antigas investidas do Povo de Israel, muitas vezes calcadas em erros e corações endurecidos, incapazes do Amor, mais tarde engendrado do seio de Maria Santíssima. Povo que ao corromper-se pela ganância e vãs ambições, tornou-se por demais estéril e distante do projeto de Deus. Povo que se vê renovado, por dom e graça de Deus, mediante o mistério mais sublime na história da humanidade. 

A encarnação de Cristo, Mistério por excelência, traduz-se assim como a fonte mais pura e bela da reconciliação e restauração plena do povo de Deus, que outrora tropeçava em sua dureza de coração, mas que agora firma seus passos naqu’Ele que é verdadeiramente o Caminho, a Verdade e a Vida. Tal mistério, pelos desígnios do Altíssimo, exigiu antes o anúncio feito por João, voz que clamava no deserto, pavimentando os corações daqueles que porventura se deixavam guiar pelas veredas dos Céus.  

Se João, pois, resumia a jornada de Israel antes de Cristo, Cristo por sua vez introduz uma nova era na história da Salvação. Sinal de contradição, na contramão dos malfeitores que usurpavam do poder religioso e do prestígio reservado aos santos sacerdotes, Jesus introduz renovada Esperança, superando a estéril Aliança, não a abolindo, mas dando-lhe pleno cumprimento. Nosso Senhor elege para o mundo e a partir deste a Senhora que, diferente da estéril, apresenta-se agora virgem, pura, reluzente, repleta de força e vigor para a geração de uma nova humanidade. 

Assim Maria Santíssima traduz a Igreja, novo podo de Deus, que já não se restringe a um punhado de fiéis errantes, mas sim a uma vasta gama de povos e nações que, ainda hoje, abandonando suas estéreis verdades, dedicam-se à Verdade que é Cristo; que escutando a voz do precursor, dedicam-se a seguir o Caminho, comungando do Santo Sacrifício, do Cordeiro de Deus que de uma vez por todas tira o Pecado do Mundo, e o refaz para jamais jazer no erro, na escuridão. 

A exemplo do precursor, renovados pela profecia que nos liberta de toda escravidão, possamos anunciar com esmero e convicção o mesmo Cristo de ontem, hoje e sempre, perpetuando este reinado de amor e esperança, que rompendo a estéril tristeza da humanidade, a eleva à fértil alegria do novo que nos anuncia Cristo e sua Igreja para toda a eternidade. 

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR) 

Dentre os muitos aspectos das festividades do mês de junho, um que seguramente ocupa o centro da tradição popular é o fogo incandescente na noite de São João. A tradicional “Fogueira de São João”, acendida em meio aos terreiros Brasil afora, aquece não só os transeuntes que passam em seu entorno, como também o coração daqueles que, estimulados pelas canções ao toque das sanfonas e de outros tantos instrumentos, fazem ressoar uníssonos a beleza do canto do sertão. 

Todavia, mais que uma ocasião de festa em torno às chamas, as fogueiras acendidas têm suas origens para além dos festivais a modas soltas. A fogueira de São João é, antes de tudo, um dos símbolos mais potentes das festas juninas, carregando significados que unem a fé cristã a antigas tradições. O elemento fogo atua como uma fonte entre o sagrado, a natureza em seus ciclos e a própria vida comunitária. Para além disto, o fogo carrega um chamado mais profundo que por vezes é quase esquecido, haja vista o propósito cristão que deve primar como a essência do distinto festejo. 

Distraídos com a singeleza do João menino que tem junto a si o dócil cordeiro e impulsionados pelo calor da emoção das grandes festas, muitos esquecem do sinal que a vida de João Batista representa na Sagrada Tradição, desde sua natividade, solenemente celebrada, ao seu martírio, cuja dor repercute na dor de tantos outros massacrados pelo poder tirano. E como dileto sinal, apregoado com veemência pelo Precursor, o fogo assume renovado sentido incandescendo não apenas os olhos do corpo, mas também os do espírito, aquecendo não apenas os corpos enrijecidos pelo frio da roça, mas também o coração espiritual do fiel e da comunidade que comemora. 

“Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu […] Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3,16). Nessa afirmação, o Precursor não apenas define os limites da própria missão, mas abre caminho para a novidade absoluta de Cristo. A água de João purifica o exterior e prepara o arrependimento; o fogo de Jesus penetra as entranhas, consome o pecado e transforma a própria natureza humana. Justamente aí a piedade popular cristã encontra a forma de perpetuar essa transição por meio do acender da fogueira de São João.  

Tal fogueira se desvela como uma metáfora: ela é luz que brilha na escuridão da noite, mas não possui luz própria para se sobrepor ao brilho abundante da luz do dia; ela se consome para apontar o caminho, enquanto anuncia o Sol Nascente que ao fim da noite fria desponta majestoso, como o belo esposo do quarto nupcial, como o valente guerreiro triunfante em seu caminho, traduzindo assim, em elementos simples, a mensagem e o mensageiro, o Cristo anunciado e aquele que com a vida o anunciara, selando com o sangue o romper de uma aurora que até hoje não vê seu fim, antes a perpetuar como o dia da sempiterna e feliz ressureição. 

De tal modo, João Batista distingue-se como a última labareda da Antiga Aliança, o fogo profético que no auge de toda profecia prepara os corações, ardendo, consumindo, mas sem jamais extinguir, antes a fortificar o que o Pecado viera a oprimir. Tais mistérios torne, pois, convictos, os cristãos do tempo presente, para que o batismo de fogo predito por João e concretizado com Cristo em Pentecostes, esteja perenemente a aquecer os filhos e filhas de Deus nas gélidas noites de sua infeliz preponderância, rompendo a partir daí, pela luz divina, as trevas de todo erro e engano.  

Que ao redor das fogueiras acendidas neste nosso Brasil seja partilhada não somente a alegria que revigora a dura lida, mas sobretudo a Esperança que, fruto de tão importante Batismo, regenera e revigora pelo fogo de Cristo a chama acendida não por homens, nem com lenhas de quaisquer campos, mas por Cristo, que do madeiro da Cruz segue sedento por vibrar para sempre em nossos corações.