Artigos dos bispos

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz 
Bispo de Campos (RJ)

 

Num mundo fechado e sem horizontes marcado por conflitos, desigualdades e descarte de pessoas, irrompe de forma inesperada como graça e surpresa, a reviravolta da vida,  a vitória do amor e doação plena que nos reconcilia e restaura definitivamente. Jesus que veio morar entre nós, revelando o rostro do Pai amoroso e compassivo e o Reino da fraternidade e justiça para todas as pessoas, foi ressuscitado. Quiseram apagar sua memória e eliminá-lo, mas o Deus conosco, o Filho e enviado do Pai, venceu a morte e todas as suas artimanhas e potências, tornando-a como diz Francisco de Assis nossa Irmã. 

O mundo não está mais condenado a ser do príncipe das trevas e do poder dominação, mas o senhorio do Ressuscitado abriu caminhos de esperança e  de libertação, fazendo aliança eterna com os pequenos e humildes, que lideram a humanidade nova que possuirá a Terra, trazendo justiça, paz e amor a todas as pessoas e criaturas.  

O futuro da promessa já começou, o aguilhão da morte foi extinto, o que permanece são estertores do mundo passado que teimam em desaparecer, e são retidos pelo egoísmo e a soberba.  

No entanto no olhar e nos corações do Povo da Vida, da Comunidade de amor e esperança que Cristo reuniu e em todos os homens e mulheres de boa vontade brilha a luz da graça e da filiação divina, da alegria de uma comunhão e irmandade que já partilha os bens celestiais da Nova Criação.  

Com a Páscoa de Jesus, a paz se torna possível e realizável, a reconciliação e a solidariedade fraterna e a condivisão dos bens da Terra, sinais efetivos da vitória do Reino em toda a Criação.  

As armas da destruição serão enterradas e esquecidas como uma lembrança maldita do ódio e da inimizade que nos sufocava e oprimia, tornando-nos escravos e  tristes instrumentos das guerras.  

Desponta com o esplendor da ressurreição uma esperança inabalável que nos torna em testemunhas entusiastas e luminosas da Boa Nova que tudo transforma e preenche de um sentido pleno. Somos consanguíneos e concorpóreos do Ressuscitado, chamados a com Ele renovar todas as coisas, trazendo o Sopro da Vida que não termina. Cheios de luz e ternura Pascal abraçamos a todas as pessoas e criaturas como nossas irmãs, celebrando com todas elas o banquete do Reino, com o Cordeiro Vencedor, Feliz e Santa Páscoa! 

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

 

 

O grande compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), dentre inumeráveis e belíssimas composições, deixou-nos uma solene interpretação da Paixão de Jesus Cristo segundo João, intitulada simplesmente Johannespassion. O grande músico compôs sua obra à base dos capítulos 18 e 19 do IV Evangelho, extraídos da tradução luterana, introduzindo textos poéticos, em forma de comentários, de Barthold Heinrich Brockes, contidos no hinário luterano. A estreia da obra se deu em grande estilo na igreja de São Nicolau, em Leipzig, na Sexta-feira Santa, 07 de Abril de 1724. 

Além da orquestra, coro e vozes principais, tenor, baixo, soprano e contralto, Bach acrescentou um grande coral para interpretar a participação do povo na trágica narrativa da Paixão de Jesus Cristo. Este exuberante conjunto musical manifesta a grandiosidade do ato cantado em estilo barroco. A musicalidade daí emanada transporta o ouvinte a uma profunda reflexão e espiritualidade. Os textos poéticos, intercalados nas perícopes do IV Evangelho, ajudam nesta reflexão e fazem resplandecer a beleza da narrativa joanina. Apresentaremos, a seguir, três destes textos de Brockes. 

O primeiro deles precede a perícope de Jo 18,1-14. Trata-se de um intróito a toda a narrativa que se segue. Em grande estilo, o coro brada: “Senhor, nosso Redentor, a cuja glória em toda a terra é senhora, mostra-nos, através da tua paixão, que tu, verdadeiro Filho de Deus, por todos os tempos, até na maior humilhação, foste glorificado”. Trata-se de um “aperitivo” ao que se vai ouvir e assistir a seguir: o drama da Paixão, desde o Jardim do Getsêmani, até o Jardim do Gólgota. 

Bem mais à frente, após a apresentação da ária número 30 “Tudo está consumado!”, entra a narrativa do tenor a anunciar “e inclinando a cabeça, entregou o Espírito”. Daí tem início a segunda referência que desejamos apresentar, comentando a morte de Jesus. Dirigindo-se ao crucificado, o baixo lhe interroga, em magnífico monólogo: “Meu amado Salvador, deixa que te pergunte: agora que foste crucificado e disseste ‘Tudo está consumado!’, sou eu livre da morte? Posso, pelo teu sofrimento e morte, herdar o reino dos céus? Todo o mundo foi salvo? Certo, tu não podes responder-me por causa de tuas dores, mas inclina a cabeça e diga em silêncio: ‘Sim’”. E o coro entoa, em grande estilo, com arranjos variados: Consumatum est! 

Por fim, a última referência que aqui trago é do gran finale da apresentação. Após a recitação do último texto joanino, 19,38-42, o coro entoa uma espécie de réquiem, embalando o descanso do Senhor. Daí entra o coral, que assume a voz de todo o povo, aclamando em oração: “Ah, Senhor, deixa que os teus doces anjos, no último instante da vida, portem ao seio de Abraão o meu espírito; que o corpo, na sua câmara, bem docemente, sem pena e tormento, repouse até o dia novíssimo. Então, acorda-me da morte, que os meus olhos possam contemplar-te na plena glória, ó Filho de Deus, meu Salvador e trono de graça! Senhor Jesus Cristo, ouve-me: eu desejo louvar-te eternamente!” 

A obra retrata a teologia própria que emana de um tempo e uma espiritualidade específicos: o barroco. Mesmo não sendo uma teologia atual, à luz do Concílio Vaticano II, a beleza poética dos comentários de Brockes, alinhavados ao texto joanino, e à riqueza da música de Bach nos fazem vislumbrar a beleza da arte inspirada no cristianismo, que, por sua parte, manifesta a beleza da salvação da humanidade. Dostoievski tinha razão: é a beleza que salva o mundo. Não se trata de uma beleza que segue padrões de visibilidade. Trata-se de uma beleza que une estética com a ética, corpo desfigurado que remete à oblação incondicional à humanidade. 

A Palavra de Deus, unida à arte, nos apresenta esta beleza singular: Deus que passa pela experiência da paixão e morte para gerar vida e vida em abundância (Jo 10,10). Vida que se extingue para gerar vida nova. É o grão de trigo semeado na terra. Se morre, produzirá muito fruto (cf. Jo 12,24). É essa experiência de morte e vida de um Deus apaixonado pela humanidade que celebramos nos dias da Semana Maior de nossa fé cristã, a Semana Santa. Preparemo-nos para nos deparar com a beleza, não somente de nossas liturgias e religiosidade popular, mas da vida doada para a salvação do mundo! 

Não basta ficar somente na admiração da celebração. É preciso unir a fé com a vida. É preciso trazer a celebração para o nosso cotidiano e observar que a Paixão de Jesus continua na Paixão do mundo. É preciso constatar que Jesus continua a ser incompreendido, injuriado e humilhado hoje. Quem procura seguir Jesus nos seus ensinamentos, como seus verdadeiros discípulos-missionários, segue na direção da cruz, acaba bebendo o mesmo cálice de sua paixão e morte (cf. 20,20-28). Os fiéis seguidores do Senhor não conseguem encontrá-lo hoje, nos irmãos e irmãs que sofrem, e ficar indiferentes. Mesmo perseguidos e exterminados, eles poderão ouvir do Rei-Pastor que separa as ovelhas dos cabritos: 

“Vinde, benditos de meu Pai. Recebei em herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo, pois eu estava com fome, e me destes de comer; estava com sede, e me destes de beber; eu era forasteiro, e me recebestes em casa; estava nu, e me vestistes; doente, e cuidastes de mim; na prisão, e viestes até mim. (…) Em verdade, vos digo: todas as vezes que fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,34b-36.40b). 

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba (MG)

 

Após a morte de Jesus na cruz e o seu sepultamento, foram à sepultura e a encontraram vazia. Ouviram falar que o corpo, ali depositado, tinha sido roubado. O vazio, por si, não comprovava que ele tinha ressuscitado. Reinou uma desconfiança e incerteza sobre o anúncio antigo de que Jesus ressuscitaria. A comprovação só veio depois, quando começaram as aparições entre os primeiros cristãos. 

A morte é desafio para todo ser humano. Mas, nela está o sentido da vida, porque ela não termina na sepultura. A dignidade da pessoa ultrapassa os limites da vida terrena. É a Ressurreição de Cristo que dá a dimensão de eternidade ao humano, aquilo que consolida o sentido real da fé. Então, a fé em Deus tem identidade que vai além da esfera e dos limites humanos. 

A Páscoa, para quem a vivencia, deve causar um novo estilo de vida, de busca de coisas novas, principalmente daquelas voltadas para o alto, que não é destruído pelas maldades do tempo. Assim sendo, é possível também dar sentido novo às coisas do cotidiano. Aí está o sentido da ecologia, do valor que deve ser dado às realidades criadas para a realização e o bem de toda a humanidade. 

O Projeto da Páscoa, fundamentado nos preceitos contidos nos Mandamentos, é a saída da escravidão, do peso da vida impura, ou passagem do mal para construir o bem e a possibilidade de vida digna para todos. Só Deus é capaz de tirar o mundo da situação de decadência, com seus limites e impossibilidades. Portanto, é um programa de libertação, ao saber que um mundo diferente é possível. 

A história do povo de Deus foi sim um caminho de salvação. Pode-se entender salvação e libertação apenas das imposições e arbitrariedades apresentadas pelo mundo, mas também um despojamento e via de eternidade, de encontro com ele. Isto supõe construir uma fé pascal, de quem olha para a cruz, a morte de Cristo e sua ressurreição como alvo de vida nova. 

A Pascoa da Ressurreição de Jesus é um fato de recriação da nova humanidade, que motiva sensivelmente a fé, a prática da caridade e desperta a esperança. Só Deus consegue preencher o vazio do coração das pessoas, como aconteceu na vida dos apóstolos, ao encontrar o sepulcro vazio. Mas Jesus vai ao encontro deles e os possibilita a abrir os olhos e enxergar o novo que chega.