Artigos dos bispos

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Dom Vilson Dias de Oliveira
Bispo Emérito de Limeira (SP)

A cada ano, a Santa Sé, na pessoa do Santo Padre o Papa Leão XIV, apresenta ao mundo uma mensagem para o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, celebrado em 26 de julho, quando se recorda os avós de Jesus, Joaquim e Ana, pais de Maria Santíssima. Este ano, centrada na promessa divina de preservação e memória, com o lema «Eu nunca te esquecerei», a mensagem ganha contornos inéditos quando confrontada com o perfil dos avós do século XXI.

Longe do estereótipo tradicional da figura de cabelos brancos na cadeira de balanço, tricotando ou contando histórias de tempos remotos, os novos avós são homens e mulheres hiperconectados, inseridos no mercado de trabalho, praticantes de atividades físicas e com rotinas sociais intensas. Muitos, inclusive, rejeitam o próprio rótulo de “avô” ou “avó”, enxergando no termo uma associação imediata à caducidade ou a um envelhecimento que não sentem ou não recusam sentir. Como, então, a palavra da Igreja sobre o esquecimento e a solidão pode dialogar com uma geração que parece estar no auge de sua produtividade e jovialidade?

O receio de ser chamado de “vovô” ou “vovó” reflete uma dor cultural mais profunda: o pavor de ser empurrado para a margem. Em uma cultura que hipervaloriza a juventude estética e funcional, aceitar o título de avô é, para muitos, aceitar a entrada na “fase do esquecimento”. O Papa Leão XIV, que inclusive é conhecido por cultivar hobbies esportivos, dialoga com esse fenômeno ao desarmar a equação que iguala envelhecer a perder o valor. Razão para tal é o fato de que a dignidade não depende da estampa de juventude. A fé cristã lembra que a dignidade humana não se esvai com a chegada das rugas, mas tampouco precisa ser mascarada por uma busca obsessiva pela juventude eterna.

Quando um homem ou uma mulher nega sua condição de avô ou avó para fugir do estigma da velhice, ambos correm o risco de se esquecer do seu papel insubstituível na vida dos netos e das gerações que os seguem. Desde aí, podemos notar um paradoxo silencioso na vida dos novos avós. Por estarem em plena atividade muitos vivem uma rotina tão fragmentada quanto a de seus filhos. Aqui, a reflexão sobre o esquecimento ganha duas vias opostas: o esquecimento sofrido e o esquecimento praticado.

Mesmo ativos, estes avós podem ser “esquecidos” emocionalmente pela família, que assume que eles não precisam de ajuda ou que estão sempre muito ocupados para estar com os netos. Por outro lado, pressionados pelo estilo de vida moderno, os próprios avós correm o risco de “esquecer” a doação gratuita de tempo, priorizando compromissos absortos em detrimento da presença afetuosa na vida dos netos. Neste sentido, a mensagem pontifícia atua como um convite ao reequilíbrio: a modernidade e a independência não devem anular a ternura do convívio inter-geracional.

Os avós de hoje possuem uma oportunidade histórica. Por dominarem a linguagem do presente, a tecnologia, a dinâmica das redes e os novos arranjos sociais, eles têm a capacidade singular de se conectar com a linguagem dos netos, mantendo-se ao mesmo tempo como âncoras de valores éticos e afeto seguro. Vista desta maneira, a avoidade é um presente, não um rótulo de finitude. Ser avô ou avó não significa estar no “fim da linha”, mas sim ter a oportunidade de amar de um jeito novo, com mais maturidade, menos afoiteza. Ao interagir com os netos, seja jogando um videogame, praticando um esporte ou conversando com empatia sobre os dilemas atuais, os avós modernos estão garantindo que, quando o tempo avançar e a fragilidade física chegar, eles serão lembrados não como figuras distantes, mas como companheiros para a vida.

O apelo do Santo Padre para não esquecer os idosos conversa com os novos avós não para enquadrá-los em um molde antigo, mas para convocá-los a uma missão viva. Seja usando tênis de corrida ou jeans, chamem-se de “vovô”, “vovó”, “nono”, “nona”, pelo próprio nome ou por um apelido carinhoso, o que importa para

a teologia do cuidado é o vínculo. A promessa divina de jamais esquecer cada um de nós ganha corpo quando essa nova geração de avós decide usar sua energia, modernidade e vitalidade para ser, na vida dos netos, a presença inesquecível de um amor que acolhe, ensina e permanece.

Deixemos, portanto, investidas pejorativas em torno aos avós, e favoreçamos aos avós de nossos tempos um espaço real de escuta, reconhecimento e acolhida, respeitando e reconhecendo o valor e o mérito da ancianidade, sua distinção, mas sem fazer desta um nicho empoeirado onde só cabe uma avoidade obsoleta, vazia e quase insignificante. Que possamos nos atualizar como sociedade e seguir vendo nos nossos avós, pessoas de expertise capazes de nos situar no imenso emaranhado do mundo atual, cujo horizonte anseia pelo brilho incomparável daqueles que estão mais adiantados nesta caminhada sempre nova, caminhada dura, mas sempre bela, que se renova e se perpetua, mostrando que jamais o ciclo termina, antes se aprimora, se reinicia.

Dom Carmo João Rhoden
Bispo Emérito de Taubaté (SP)

 

 

Dia dos Avós 26/07/26 (Mt 13, 44-52)

Texto referencial: “Compreendestes tudo isso? Eles responderam “sim” então Jesus acrescentou: ‘Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”. (Mt 13, 51-52)

Tendo o domingo, dia 26/07 dos dias dos santos São Joaquim e Sant’Ana, não podemos, nem devemos esquecermos de nossos queridos avós. No passado cuidaram de seus filhos, agora, muitas vezes ainda dos netos. Mostram assim sua experiencia, o afeto pela vida e pela família. São geralmente, uma grande benção, mormente, para os lares cristãos.

Os tempos, no entanto, mudaram. E como! O que vemos hoje em dia, nem sempre, é confortador. Exagerando, talvez, um pouco, podemos afirmar e muitos casais colocam suas crianças (filhos) nas creches e os idosos (pais ou avós) nos asilos, ou casas de repouso… não seria as vezes eufemismo? Na Europa, vi muito desta realidade. Não faltam aos idosos coisas, como tv e assistência social, mas não poucas vezes o essencial: carinho e gratidão dos filhos e netos, lhes chega a faltar. Esquecem-se de que um dia serão ou menos poderão ser idosos também. Aliás, o mundo está envelhecendo, ou melhor se tornando idoso, ancião. Os países europeus que o digam.

Precisamos de novos Joaquins e Sat’Anas hoje. Aliás, urgentemente. 3.1 Os que estão a caminho precisam aprender a envelhecer, ou tornar-se anciãos. Isso é necessário e arte também, quando não até virtude.

Parabéns avós, muitos e belos anos de vida com saúde e alegria, no aconchego das famílias, que ajudaram a formar. Que então aos já “experientes” na caminhada da vida não lhes falte o sorriso das crianças, o idealismo dos adolescentes e jovens, nem a proteção dos defensores de seus direitos ou a proteção dos encarregados de suas necessidades.

Possam então todas as crianças e adolescentes terem – mesmo sendo muito diferente nossos tempos – avós como São Joaquim e Sant’Ana. Haveria então menos uso de drogas nas ruas, quando não nas escolas, e mais participação responsável na vida das comunidades. Parabéns, avós!

 

 

 

Dom José Gislon
Bispo de Caxias do Sul (RS)

 

Estimados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! No dia 26 de julho, recordamos os VI Dia Mundial dos Avós e dos Idosos. Com o coração agradecido, quero felicitá-los, manifestando a minha gratidão a Deus por todos os avós e os idosos presentes na nossa Diocese. Vocês são o testemunho vivo da nossa história, marcada pela fé, coragem e perseverança, mas também pela superação dos desafios enfrentados no desenvolvimento da nossa região. Hoje, a sociedade como um todo colhe os benefícios do vosso trabalho árduo, feito com dedicação, cansaço e empenho. Vocês testemunham no presente os valores da vida familiar, pois souberam, à luz do amor e da fé, constituir comunidades e trabalhar os conflitos por um ideal maior, em que estava presente a família, sua unidade e seus valores.  

Mesmo com tantas mudanças que acabaram deteriorando os valores, que davam um norte e apontavam um horizonte para a sociedade, vocês nos enchem de esperança em relação ao futuro, porque nos transmitem a confiança de que os problemas e os conflitos fazem parte da vida, mas não são maiores do que a vida. Eles vêm e vão, mas a vida segue seu destino, e cada um de nós continua percorrendo seu caminho e escrevendo a sua história, criando laços afetivos através de sorrisos e abraços, na família e na comunidade. 

Na sua mensagem para este dia, o nosso Papa Leão XIV recorda que, muitas vezes, os nossos queridos avós e idosos infelizmente podem ter a “dolorosa sensação de serem esquecidos, por aqueles que deveriam expressar gratidão por fazerem parte da história de suas vidas”. Mas “o amor de Deus, pelo contrário, não esquece ninguém, se oferece como um ato de justiça e uma resposta ao anonimato, no qual, com demasiada frequência, a vida humana acaba por perder-se. Sobre a existência de muitos idosos, em particular, parece estender-se um véu que esbate as feições dos rostos e relega ao esquecimento. É o que acontece nas casas onde reina a solidão, e também naqueles asilos onde a singularidade de cada pessoa corre o risco de ser reduzida ao número da sua cama ou à sua patologia”. 

Portanto, “a celebração do Dia Mundial dos Avós e dos Idosos é uma oportunidade para redescobrir que a Igreja é chamada a ser mãe de todos e que é sempre possível, em qualquer idade, descobrir-se filhos e filhas de Deus. Que este dia seja, portanto, um estímulo para todos, em particular para os mais jovens, retomarem o bom hábito de visitar os seus avós, os idosos da família e também aqueles que não recebem nenhuma visita… Fazei com que as palavras do profeta Isaías “Eu nunca te esquecerei” (Is 49, 15), assumam a forma de um encontro terno e afetuoso”. “Numa época que tende a acelerar e a fragmentar, a carne humana continua a pedir para ser cuidada e reconhecida, por mãos capazes de ternura, por mentes atentas e por palavras bondosas. A cultura digital multiplica as conexões e oferece novas possibilidades de encontro; no entanto, o coração humano conserva uma necessidade inalienável de proximidade” (Magnifica humanitas239). 

Na vida, sempre podemos aprender com os nossos avós e os idosos, mestres formados na escola do tempo, que guardam na memória a história da vida, da família e da comunidade.