Artigos dos bispos

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Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

Estamos em tempo de férias escolares. Algumas escolas já iniciaram o período de férias nesta semana, sobretudo as particulares, enquanto as redes municipais e estaduais entrarão em férias nos inícios de julho de 2026. Soma-se a isso o clima da Copa do Mundo, que envolve a todos e contribui para esse ambiente de descanso e lazer. 

O período de férias no meio do ano dura, em média, cerca de um mês, diferentemente das férias de fim de ano, que se estendem por aproximadamente dois meses. Essas férias do meio do ano servem para dar um respiro, fazer uma pausa e restaurar as forças para o segundo semestre que se aproxima. 

Nesse período de férias escolares das crianças, muitos pais também aproveitam para tirar férias juntamente com os filhos. Realizam passeios, visitam parentes e viajam. Muitas vezes, os pais dividem as férias ao longo do ano para aproveitar um tempo com os filhos em julho e em janeiro, sobretudo quando eles ainda são pequenos. 

É claro que nós, como cristãos católicos, tiramos férias da escola, do trabalho e de outros afazeres, mas não podemos tirar férias de Deus. Ou seja, devemos preservar, ao menos, a participação na Santa Missa dominical, que é um preceito para nós, católicos. Além disso, mesmo estando de férias, devemos procurar reservar alguns momentos do dia para a oração, pedindo e agradecendo ao Senhor, inclusive pela oportunidade de descansar e estar com a família. 

Se forem viajar para o interior, para outro local do Estado do Rio de Janeiro ou mesmo para outra região do país, procurem informar-se com vizinhos, parentes ou conhecidos sobre onde há uma Igreja Católica, para que, ao menos aos domingos, possam participar da Santa Missa. Os pais são os primeiros catequistas dos filhos, e a família é a Igreja doméstica. Por isso, cabe aos pais transmitir aos filhos os verdadeiros valores, sobretudo aqueles relacionados à fé. Os filhos seguirão o exemplo dos pais. Ao verem os pais rezando e participando da Missa, mesmo durante uma viagem, terão maior facilidade para fazer o mesmo no futuro. 

São os pais os principais responsáveis por transmitir a fé aos filhos. Eles não aprenderão os fundamentos da vida cristã na escola, na rua ou em qualquer outro ambiente, mas, antes de tudo, em casa e, consequentemente, na Igreja. Por isso, não tiramos férias de Jesus nem da Igreja; tiramos férias da escola e do trabalho. Não nos esqueçamos de Deus, pois Ele nunca se esquece de nós nem tira férias do cuidado por cada um de seus filhos. 

Algumas famílias optam por não viajar, seja por questões econômicas, seja por comodidade. Nesses casos, procurem participar da Santa Missa, especialmente aos domingos, em sua comunidade. Ao longo da semana, enquanto estiverem de férias, reservem um tempo para rezar o terço, meditar a Palavra de Deus e partilhar um pouco da vida com os filhos, netos ou afilhados, já que durante o restante do ano a rotina costuma ser muito corrida. Aproveitem também para desligar a televisão, o rádio e o celular por alguns instantes, fazendo silêncio para escutar a voz do Senhor. 

Muitas vezes, nas férias, preferimos acordar mais tarde, sobretudo as crianças. Passamos mais tempo diante da televisão, do celular, do videogame ou do computador. Também aproveitamos para organizar a casa, arrumar armários ou realizar tarefas que não conseguimos fazer durante o ano. No entanto, não nos esqueçamos de reservar, entre uma atividade e outra, entre um programa de televisão e outro ou entre um momento e outro no celular, alguns minutos para rezar e agradecer a Deus. Quem sabe seja também uma oportunidade para participar da Santa Missa durante a semana, e não apenas aos domingos. Talvez pela manhã, quando as crianças acordarem, ou à tarde, após o almoço, seja possível reservar um tempo para a oração. É justamente colocando Deus também no período de férias que pedimos a sua bênção sobre o segundo semestre que se aproxima. 

Agindo dessa forma, daremos um novo significado às nossas férias e às férias de nossa família, vivendo-as verdadeiramente como cristãos. Será também uma oportunidade de tornar as crianças pequenas missionárias. Quando retornarem às aulas, poderão contar aos colegas que, além dos passeios e momentos de lazer, também rezavam em família, meditavam a Palavra de Deus e participavam da Santa Missa. Assim, poderão incentivar outras crianças a fazerem o mesmo. 

Inclusive os diáconos, padres, seminaristas, religiosos e religiosas que tiram férias em julho ou em janeiro podem, naturalmente, viajar, descansar e estar com suas famílias, mas sem se esquecer de Deus e da oração. Para os religiosos, a participação na Santa Missa é diária, assim como os demais momentos de oração, como as Laudes, as Vésperas e a meditação da Palavra de Deus. Normalmente, iniciam o dia rezando as Laudes e participando ou celebrando a Santa Missa, aproveitando depois o restante do dia para o descanso, sem deixar de concluir a jornada com a oração das Vésperas. Portanto, como já dissemos, nunca tiramos férias de Deus, mas apenas das demais obrigações, pois é Ele quem conduz também o nosso descanso. 

Os religiosos conhecem bem as suas obrigações, mesmo durante as férias. Desde o seminário, os seminaristas aprendem a importância da oração e que ela jamais deve ser deixada de lado, mesmo nos períodos de descanso. Após a ordenação diaconal e, posteriormente, a sacerdotal, esse compromisso permanece. A celebração diária da Santa Missa continua sendo parte essencial da vida do sacerdote, inclusive durante as férias. 

Infelizmente, nos dias de hoje, percebemos que existem dificuldades cada vez maiores para tratar da religião em alguns ambientes escolares. Entretanto, é plenamente possível ensinar em casa aos filhos a importância da fé e da vivência católica. Eles poderão testemunhar esses valores também entre os colegas quando retornarem das férias. Se ensinarmos nossos filhos e netos a cultivarem o gosto pela oração, eles não desejarão rezar apenas durante as férias, mas pedirão, ao longo de todo o ano, que pais e avós interrompam por alguns instantes suas atividades para rezarem juntos. 

Portanto, meus irmãos, aproveitemos as férias para descansar e renovar as forças para o semestre que se aproxima. Mas que sejam férias verdadeiramente cristãs, nas quais, além do descanso, não nos esqueçamos da oração. Lembremo-nos sempre de que Deus nunca tira férias de nós; por isso, também não devemos tirar férias d’Ele. Aproveitemos esse tempo para aprofundar a nossa fé, ler algum documento da Igreja e, se as crianças frequentam a catequese, revisar com elas aquilo que aprenderam ao longo do semestre. Também seria muito proveitoso separar alguns filmes sobre a vida dos santos para que toda a família possa assisti-los reunida. Nada é melhor do que colocar, no centro das férias, o crescimento espiritual das famílias, especialmente das crianças. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo  de Campos ( RJ) 

 

Acompanhando a Copa Mundial de Futebol da FIFA, gostaria de compartilhar esta historinha criada pelo Pe Anthony de Mello, que nos trás alguns aspectos e valores esquecidos no atual certame.  

Mostra Jesus acompanhando com interesse um jogo de futebol e de repente um time faz um gol, e ele se levanta e festeja. Depois de certo tempo o outro time rival faz um gol e empata e ele também se levanta e festeja. Quem estava a seu lado pergunta afinal por quem você torce ? Jesus responde: vim ver o jogo e apreciar a arte de todos os jogadores não me importa quem ganhe, mas a alegria dos que jogam e a beleza do esporte.  

Nunca deveríamos esquecer que todo esporte tem por finalidade melhorar e tornar mais plenas as pessoas, e não apenas um resultado. O futebol sem essa mística esportiva humanizadora, pode tornar-se uma guerra, um fator de rivalidade e divisão, e uma forma de escravizar os jogadores e alienar os espectadores, como acontecia em Roma nas lutas de gladiadores e certas formas de luta “livre” de hoje.  

Não reparamos as vezes que detrás de uma camiseta existe um povo, uma história que devemos incorporar e também acolher no respeito e na fraternidade universal como faziam os gregos nas olimpíadas.  

Sempre me lembro de uma copa passada quando um jogador japonês interpelou a um jogador rival por ter trapaceado e fingido uma falta. Se não respeitamos as normas do jogo que mérito tem nossa vitória e estaríamos ensinando de forma errada que vencer é levar vantagem.  

Outro aspecto é a empatia com os jogadores que sofrem por uma lesão ou por ter falhado,  nunca esquecerei do goleiro do Brasil Barboza no mundial de 1950, que ficou arrasado e desconsolado pela derrota na final, culpando-se da derrota. O capitão do time uruguaio deixou de ir a festa para celebrar a vitória para ficar com ele toda a noite para confortá-lo e aliviá-lo. Importa observar também como comportamo-nos no festejo dos gols e no final dos jogos, a alegria deve ser abundante e contagiante mas não precisa de foguetes que causem sofrimento a crianças e adultos autistas ou neurodivergentes e animais domésticos que padecem transtornos e ficam profundamente confusos e estremecidos. Muito menos debochar dos que perderam, ou provocá-los mostrando animosidade agressiva. 

É bonito ver a confraternização de torcedores, a partilha e camaradagem, pois isso gera novas atitudes, desarma os corações, possibilitando que nos olhemos como irmãos que habitam o mesmo planeta, que imitando as crianças brincam juntas, e tornam-se amigas trocando como fazem os atletas as camisetas após o jogo que oportuniza a cultura da paz, do encontro e e da ternura. Deus seja louvado! 

  

Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS) 

 

Entre as grandes celebrações da Igreja, poucas possuem um significado tão profundo quanto a Solenidade de São Pedro e São Paulo. O Prefácio da Missa deste dia resume com admirável beleza, o lugar singular que ambos ocupam na vida da Igreja: Pedro foi o primeiro a proclamar a fé; Paulo, o mestre que a anunciou aos povos. Pedro reuniu os primeiros discípulos vindos de Israel; Paulo levou o Evangelho até os confins do mundo. Distintos em seus caminhos e dons, tornaram-se um só testemunho de Cristo. 

Pedro era pescador. Homem simples, impulsivo, marcado por generosidades e fragilidades. Foi ele quem, em nome dos discípulos, professou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Sobre essa fé, Cristo edificou sua Igreja. Paulo, por sua vez, era homem culto, cidadão romano, profundo conhecedor das Escrituras. De perseguidor dos cristãos, tornou-se ardoroso anunciador do Evangelho após encontrar-se com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco. 

A Igreja não celebra dois homens iguais. Celebra dois santos profundamente diferentes. Um representa a estabilidade da rocha; o outro, o dinamismo da missão. Um guarda a unidade; o outro abre caminhos. Um confirma os irmãos na fé; o outro atravessa mares e fronteiras para anunciar Cristo. No entanto, ambos encontraram sua verdadeira identidade não em suas qualidades pessoais, mas na experiência transformadora do encontro e do amor ao Senhor. 

Num tempo em que tantas diferenças se transformam em divisões, Pedro e Paulo recordam que a unidade não exige uniformidade. A Igreja é rica justamente porque reúne diversos carismas, sensibilidades, culturas e vocações. A comunhão nasce quando todos reconhecem que Cristo é maior do que nossas preferências e opiniões e projetos pessoais. 

Os dois apóstolos terminaram seus dias em Roma, derramando o próprio sangue pelo Evangelho. Aquilo que começou de maneira tão diferente encontrou sua plenitude no mesmo testemunho de fé. A mesma cidade acolheu seus martírios; a mesma Igreja conserva sua memória; o mesmo amor a Cristo sustentou sua fidelidade até o fim. 

Pedro nos ensina a permanecer firmes. Paulo nos ensina a partir em missão. Juntos, recordam à Igreja de todos os tempos que a fé precisa de raízes profundas e de horizontes amplos. A rocha e o caminho, a unidade e a missão, a permanência e a saída missionária: eis o legado dos dois grandes apóstolos, que continuam a fortalecer a Igreja com sua intercessão e a inspirar os discípulos de Cristo pelo testemunho de suas vidas.