Artigos dos bispos

Dom Antônio de Assis Ribeiro
Bispo de Macapá (AP)

 

 

“São José, proteja nossas Casas, abençoe nossos Lares!” 

As palavras “casas” e “lares” no tema da Festividade de São José de Macapá, neste ano, fazem referência à sintonia com o tema da Campanha da Fraternidade 2026: Fraternidade e Moradia.   

No Evangelho de Mateus, José é apresentado como um forte protetor da família e, consequentemente, zeloso cuidador do lar da Sagrada Família de Nazaré.  

O texto base da CF nos recorda que o Brasil tem um grande déficit habitacional, mas ao mesmo tempo, ficamos chocados com o alto índice de violência familiar. Isso significa que não nos basta termos assegurada a boa casa para morar, mas é urgente a conversão das moradias em autênticos lares.  

O processo de transformação da estrutura habitacional num lar, pressupõe um sério investimento na promoção das relações humanas. Não basta que os governos cubram os déficits habitacionais construindo enormes condomínios, mas é imprescindível que se leve em conta, a permanente necessidade do investimento na educação moral para que, desde cedo, cada cidadão possa assimilar valores éticos, tais como o amor, a justiça, a verdade, a paz, a solidariedade, o respeito, a honestidade. São aspirações universais que evidenciam a consciência da beleza da dignidade humana e nos capacitam para a serena e pacífica convivência respeitosa.  

Isso deve começar na família! Ela é a primeira instituição promotora dos valores humanos e do exercício das virtudes. Todavia, só acontece na estrutura habitacional, quando ela se torna um lar. Assim como a casa, também o lar é uma construção que exige vontade, decisão, consciência do sentido da vida e da beleza da família. Em primeiro lugar a promoção do lar depende de pais sensíveis, educadores, afetivos e capazes de testemunhar um alto nível de relacionamento entre si, que educam seus filhos com seus bons exemplos de afeto, escuta, carinho, cuidado, perdão, delicadeza. Todos foram corresponsáveis por essa tarefa na família de Nazaré! Era nesse ambiente que o menino Jesus crescia integralmente (cf. Lc 2,52). 

O tema da festividade de São José deste ano é uma prece, que pede a Deus, por intercessão do esposo de Maria, que Deus proteja as nossas casas, o lugar onde habitamos e abençoe os nossos lares. Diante de tantas más notícias sobre a questão habitacional, como desabamentos, enchentes, incêndios, arrombamentos, invasões, suplicamos a intercessão de São José para que nossas moradias sejam protegidas e mais seguras, uma vez que milhões de pessoas no Brasil vivem em situação de vulnerabilidade habitacional. 

Queremos também que São José abençoe os nossos lares. Se a casa é uma estrutura física, o lar é constituído pela relação das pessoas que vivem debaixo do mesmo teto. Infelizmente nem sempre todas as moradias, constituem um harmonioso lar. O lar é o bem-estar das relações entre as pessoas que vivem juntas.  

São José, com seu profundo senso de justiça (cf. Mt 1,19), capacidade de discernimento (cf. Mt 1,20) e oração, nos educa para a obediência a vontade de Deus (cf. Mt 1,15). Ele que foi o primeiro a se preocupar para que um estábulo de animais fosse transformado em moradia, também é o mesmo que intercede a Deus para que em nossa sociedade, toda moradia, em todos os contextos, haja um verdadeiro lar, onde as pessoas, sejam sensíveis, se queiram bem, se acolham, se respeitem, se perdoem, cuidem umas das outras; onde as pessoas se exercitem na paciência, na solidariedade, no diálogo.  

O espírito de iniciativa de José em prol da defesa da sua família (cf. Mt 2,13-21) e a serena correspondência de Maria, nos indicam que só teremos verdadeiros lares onde houver senso de corresponsabilidade, unidade, prontidão e delicadeza entre todos os membros da família. Somos todos corresponsáveis pela qualificação das relações dentro da família. 

José nos educa para a serenidade da relação com os outros nos momentos turbulentos (cf. Mt 2,14), assim reagiu quando percebeu que sua família estava ameaçada; imediatamente, de noite levantou-se e buscou um lugar seguro para viver (cf. Mt 2,14-21). São José nos educa para a preventividade e para a firmeza de ânimo nos momentos de crise para que não caiamos no desespero e nem no desânimo quando somos ameaçados.  

São José, reconhecemos a necessidade de termos boas moradias e de pacíficos lares, por isso, considerando o clima de vulnerabilidade e de ameaças em que vivemos, te suplicamos com fé: “proteja nossas Casas, abençoe nossos lares!”. Amém! 

 

 

 

 

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)

 

A Campanha da Fraternidade 2026 convida-nos a compreender a casa não como mera construção material, mas como realidade profundamente existencial. A moradia ultrapassa a função de abrigo físico: é espaço de interioridade, memória e sonho. Para aprofundar essa dimensão, a reflexão do filósofo francês Gaston Bachelard (1884–1962), especialmente em A Poética do Espaço, oferece contribuição significativa. 

Bachelard afirma que a casa é “nosso canto do mundo”. Ela constitui o primeiro universo do ser humano, o lugar onde a vida íntima se enraíza e a imaginação encontra abrigo. Antes de ser objeto arquitetônico, a casa é realidade vivida. É nela que a memória se organiza, os afetos se sedimentam e os sonhos ganham forma. A moradia protege não apenas o corpo, mas também o sonhador. 

O filósofo desenvolve uma verdadeira fenomenologia da intimidade. Cada espaço doméstico possui valor simbólico e dialoga com dimensões da vida interior: o sótão evoca clareza e racionalidade; o porão remete às profundezas do inconsciente; o quarto sugere recolhimento; cantos e armários simbolizam refúgio e proteção. A casa torna-se, assim, uma “topoanálise”, isto é, um espaço que revela as camadas mais profundas da pessoa e se converte em espelho da alma. 

A moradia é também lugar privilegiado da memória. As lembranças mais marcantes da infância estão ligadas aos espaços habitados. Mesmo quando deixamos a casa de outrora, ela permanece viva em nós. Habitamos não apenas casas reais, mas também casas lembradas. Nesse vínculo entre espaço e memória, a identidade se consolida e a continuidade da própria história se mantém. 

Por isso, a estabilidade proporcionada pela moradia favorece o enraizamento existencial. É no ambiente protegido do lar que a pessoa pode recolher-se, imaginar e projetar o futuro. Quando essa estabilidade falta, a experiência de viver torna-se fragmentada. A insegurança habitacional não compromete apenas as condições materiais; atinge a própria continuidade da vida interior. A carência de moradia digna não é somente questão econômica, mas também simbólica e existencial. Quem vive em constante precariedade perde mais do que proteção física: perde o espaço onde a interioridade se organiza e a esperança amadurece. 

A exclusão habitacional representa a ruptura desse “canto do mundo”, isto é, do lugar onde se pode sonhar, recordar e projetar o futuro. A imaginação necessita de abrigo, e a vida interior exige estabilidade. Em situações de rua ou em moradias marcadas pela insegurança constante, a possibilidade de cultivar memórias duradouras e alimentar esperanças torna-se gravemente comprometida. 

À luz de A Poética do Espaço, podemos afirmar: a casa é realidade existencial. Onde há moradia digna, abre-se a possibilidade de enraizamento, memória e esperança; onde ela falta, a própria experiência humana se fragiliza. 

Essa reflexão encontra sua plenitude no mistério da Encarnação. Ao assumir a condição humana, Deus não assume apenas um corpo, mas também um espaço concreto de vida. Jesus cresce numa casa real, partilha a vida doméstica e aprende no interior de um lar. A casa de Nazaré torna-se sinal eloquente da dignidade do habitar humano. O cotidiano simples da vida doméstica integra o próprio desígnio da salvação. 

Promover a moradia digna, portanto, é muito mais que oferecer abrigo físico. É garantir que cada pessoa e cada família disponham de um espaço onde a memória floresça, os sonhos amadureçam e a identidade se consolide. Proteger o direito à casa é proteger a própria vida interior. 

A casa não é apenas construção; é intimidade estruturada. É lugar onde o ser humano encontra abrigo para o corpo e para a imaginação. Onde existe moradia digna, a esperança pode enraizar-se. Onde ela falta, a experiência humana torna-se vulnerável e fragmentada. 

Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO) 

 

Às mulheres, maioria da humanidade, que ainda não ocupam plenamente os espaços que ajudam a sustentar todos os dias. Este é um dado que incomoda e, justamente por isso, precisa ser repetido que, em muitas partes do mundo, e também entre nós, a presença feminina continua mais visível no esforço do que no reconhecimento, mais constante no cuidado do que na decisão. 

Os avanços são reais, preciosos, irreversíveis. Mas conquistas formais não encerram processos. Há desigualdades que se deslocam de lugar, violências que mudam de nome, invisibilidades que se refinam. O caminho da dignidade feminina não está interrompido, mas também não está concluído. 

Basta olhar com atenção para perceber que as mulheres são maioria nas comunidades de fé, maioria nas salas de aula da educação básica, maioria entre aqueles que sustentam o cotidiano das famílias. No entanto, essa presença abundante não se traduz em participação proporcional nos espaços de decisão, de formulação e de reconhecimento público.  

Celebrar o Dia da Mulher como caminho ainda a ser feito exige superar dois empobrecimentos frequentes. O primeiro é o da indiferença confortável, que supõe que tudo já está resolvido. O segundo é o da polarização estéril, que transforma a justa busca por dignidade em campo de antagonismos permanentes. O futuro pede mais fineza espiritual e mais inteligência histórica. Pede a coragem de reconhecer feridas e a sabedoria de construir soluções. 

Sigamos, então, não apenas na descrição das feridas, mas na coragem de imaginar caminhos de cura, pois, a maturidade de uma sociedade mede-se também pela qualidade de suas soluções. 

Durante muito tempo, contentamo-nos em afirmar o direito das mulheres de concorrer, de participar, de estar presentes. Esse foi um passo necessário, e continua sendo um marco importante. Mas o direito de competir, por si só, não corrige desigualdades estruturais que se sedimentaram ao longo de séculos. 

Se a humanidade é composta, em sua maioria, por mulheres, torna-se razoável perguntar se nossas estruturas de poder refletem essa realidade ou se ainda carregam, por inércia social, um desenho que já não corresponde ao mundo que desejamos? 

Nesse horizonte, ganha força a ideia de uma via mais equilibrada para o exercício do poder público. Não apenas garantir o direito de concorrer, mas criar condições reais para que a presença feminina se torne estrutural e estável. Fala-se, com crescente seriedade, da reserva de metade dos espaços de representação no legislativo, no judiciário, nos altos cargos de gestão pública reservadas às mulheres como expressão concreta de corresponsabilidade humana. 

A experiência cristã oferece uma chave preciosa. Nos evangelhos, a presença das mulheres não aparece como concessão tardia, mas como parte constitutiva do caminho de Jesus. Elas acompanham, sustentam, permanecem. Estão aos pés da cruz quando muitos se dispersam. Estão diante do sepulcro quando a esperança é suspensa. Estão no cenáculo quando a Igreja nasce. 

Quando olhamos novamente para Maria Madalena, vemos, além da primeira testemunha da Ressurreição, uma mulher a quem foi confiada à missão de anunciar que Jesus estava vivo. Quando contemplamos Maria de Nazaré, percebemos que o sim mais decisivo deste mundo foi pronunciado por uma mulher. 

Nada disso foi acidental. O Dia da Mulher, portanto, não é apenas memória social ou reconhecimento civil. Ele pode tornar-se também um exame de consciência coletivo para corrigir caminhos que ainda confundem presença com protagonismo e colaboração com participação real? 

O 8 de março, celebrado, convida-nos a passar de uma cultura de concessões para uma cultura de corresponsabilidade; de uma presença tolerada para uma participação estrutural; de uma igualdade proclamada para uma igualdade cuidadosamente construída. 

O caminho ainda está diante de nós e precisamos percorrê-lo com inteligência institucional, sensibilidade e firme compromisso com a dignidade de todas as mulheres, a parte melhor de nossa humanidade.