Artigos dos bispos

Dom Carmo João Rhoden
Bispo Emérito de Taubaté (SP) 

 

Dia do Trabalhador. 01/05/2026. São José Operário (Mt 13,54-58). 

Texto Referencial: E diziam “de onde lhe vem essa sabedoria e esses milagres?”. 

Não é ele o filho do carpinteiro? (Mt 13 54-55). 

 

A Igreja ensina que o domingo é o dia do Senhor: É preciso santificá-lo pela oração, participação da Eucaristia, visita os mais necessitados (idosos, doentes, abandonados etc.). Mas durante os dias da semana, somos convocados para o trabalho. Devemos pela pelas nossas atividades continuar a obra do criador, que tudo fez para nós. Cabe-nos, cuidar desta obra, defendendo-a e cultivando-a. Todos os nascituros, têm direito de ver o que vemos e de usufruir do que usufruímos. Por isso, devemos trabalhar sem prejudicar a natureza. 

Deus mandou que trabalhássemos e assim ganhássemos o pão de cada dia. O trabalho enobrece a pessoa humana. Não é coisa de escravo ou de pobres. São Paulo deixa claro: Quem não trabalha que também não coma. Deu de entender? É preciso então ocupar bem o tempo se o fizéssemos, não haveria tanta maldade, (malandragem) roubos e fome. O demônio também teria menos atividade. Não por nada diziam os antigos “o diabo te encontre sempre ocupado, pois ao contrário, ele te ocupa”. 

São José Operário. O criador, trabalhou criando o universo. Nós devemos mantê-lo viável e dele usufruir pelo trabalho e lazer. Por isso, a liturgia do dia, nos apresenta São José – o carpinteiro – como patrono do mundo do trabalho. Até recorda Jesus, como filho e colaborador do carpinteiro (Jesus) de fato, não só evangelizou e fez sinais e (milagres) mas trabalhou. Deu-nos exemplo. 

Inspirando-nos em São José, trabalhemos para a maior glória de Deus, para realizar nossa parte da obra da criação e ganharmos assim o pão de cada dia. Trabalhar honestamente e não perder tempo, também é virtude. É viver, realizando nossa vocação e nossa missão. 

São José Operário rogai por nós, para que não falte trabalho para ninguém. 

 

 

Dom Zanoni Demettino Castro
Arcebispo de Feira de Santana (BA)

 

Após dez dias de encontro fraterno, vivência e convivência, oração e partilha, retornamos da 62ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, realizada em Aparecida, São Paulo, com o coração cheio de alegria e graça. Foi um tempo fecundo, marcado por intensos momentos de reflexão, discernimento e comunhão episcopal.

Neste contexto, aprovamos as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, expressão da palavra oficial dos Bispos, como sucessores dos Apóstolos. Trata-se de uma orientação que brota da escuta do Espírito e do povo de Deus, iluminada pelo espírito do Concílio Vaticano II e enriquecida pelo magistério das Conferências Episcopais da América Latina — de Medellín a Aparecida. É uma palavra encarnada, próxima do povo, fiel ao Evangelho de Jesus Cristo e atenta aos sinais do nosso tempo.

Essa escuta nos levou, mais uma vez, a reconhecer a realidade histórica e social do nosso povo, profundamente marcada pela presença e pela contribuição do povo negro. Sua dignidade, tantas vezes ferida ao longo da história, continua a clamar por justiça, reconhecimento e inclusão. Não podemos anunciar o Evangelho sem escutar esse clamor.

Num clima de escuta fraterna e espírito sinodal, tive a graça de apresentar aos irmãos bispos o Do umento da Pastoral Afro-Brasileira. Trata-se de um texto que nasce do chão das comunidades, fruto de um longo caminho de escuta, discernimento e compromisso com a vida e a dignidade do povo afrodescendente em nosso país. Ele dialoga com o Magistério da Igreja e responde aos desafios atuais, em sintonia com a consciência internacional que reconhece a escravidão e o tráfico transatlântico como graves crimes contra a humanidade.

Recordei, naquela ocasião, algo fundamental: pastoral é o nome que a Igreja dá ao cuidado com o povo. É o zelo apostólico, especialmente para com os pobres e abandonados. Pastoral é, em sua essência, a própria evangelização em sentido pleno. É fidelidade à missão que Jesus confiou à sua Igreja: “Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos” (cf. Mt 28,19-20).

Neste horizonte, a Pastoral Afro-Brasileira não é algo paralelo ou opcional. Ela é expressão concreta do pastoreio de Jesus na história. É a presença da Igreja junto ao povo negro, reconhecendo sua dignidade, valorizando sua cultura de matriz africana e assumindo, com coragem evangélica, o compromisso de superar as marcas históricas do racismo e da exclusão.

O Documento agora está nas mãos de cada bispo. O chamamos de “documento mártir”, no sentido mais eclesial do termo: um texto que se coloca em caminho, aberto ao discernimento da Igreja. Ele será lido, rezado, acolhido e enriquecido por todos, para que possa amadurecer e, oportunamente, tornar-se Documento Oficial da CNBB, tão esperado pela comunidade afrodescendente.

Este é o caminho sinodal que estamos vivendo: caminhar juntos, escutar nos mutuamente e discernir à luz do Espírito. Não se trata apenas de produzir textos, mas de gerar processos de conversão pastoral, capazes de transformar nossas comunidades em sinais vivos do Reino de Deus.

Diante de uma sociedade marcada por tantas feridas — desigualdades, preconceitos, violências — a Igreja é chamada a ser presença samaritana, promotora da dignidade humana e construtora de fraternidade. Isso exige de nós coragem, humildade e fidelidade ao Evangelho.

Que o Espírito Santo nos conduza neste caminho. E que possamos ser, no coração do mundo, uma Igreja que escuta, acolhe e serve, especialmente os irmãos e irmãs que mais sofrem as consequências da exclusão e da injustiça.

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo 
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)

 

Os bispos da Igreja Católica no Brasil concluem, hoje, a sua 62ªAssembleia Geral, com a tarefa missionária de consolidar, cada vez mais, a Igreja como “Tenda do Encontro”. No horizonte inspirador da riqueza bimilenar da Igreja, os bispos consolidam as Diretrizes Gerais para a Evangelização no Brasil, com tônica forte na ação missionária, para continuamente qualificar o serviço dedicado às realidades plurais de um país com dimensões continentais. O foco principal é evangelizar anunciando Jesus Cristo, razão primeira e insubstituível da missão, a partir do que define a Igreja sinodal, isto é, de comunhão e participação, com força mística e profética, sustentada pela Palavra e pelos Sacramentos; em comunidades de discípulos missionários, fiel à evangélica opção preferencial pelos pobres, a caminho da plenitude do Reino de Deus. Longe de proselitismos, a Igreja, querida por Jesus, é envolvida por uma espiritualidade que engaja o ser humano em experiências qualificadoras da cidadania civil, com incidências fortes e transformadoras na sociedade, sem perder jamais o que é singular à cidadania do Reino de Deus.  

 

No conjunto de riquezas e experiências, reflexões e debates, discernimentos e decisões sobre variados temas, de interesse interno e na configuração da presença pública da Igreja Católica, a Assembleia Geral definiu as Diretrizes Gerais para a Evangelização no Brasil, mirando os dias vindouros. Trata-se de tarefa essencial e estruturante, que ocorre a partir da rica Tradição da Igreja, em seus mais de dois mil anos, também no horizonte dos sólidos ensinamentos do Concílio Vaticano II e, na contemporaneidade, acolhendo as considerações conclusivas do percurso sinodal iniciado a partir de convocação do saudoso Papa Francisco. Oportuno lembrar que o percurso do Sínodo convocou a Igreja do mundo inteiro a promover amplos processos de escuta e, assim, construir novos caminhos para fortalecer, sempre mais, a comunhão e a participação, consolidando continuamente a ação missionária. Justamente o Sínodo sobre a Sinodalidade inspira a Igreja Católica a ser uma Tenda sempre aberta.  

 

As mais recentes Diretrizes Gerais para a Evangelização no Brasil expressam esta premissa: a Igreja Católica é Tenda sempre aberta, capaz de ampliar a escuta e o acolhimento, sustentada por estacas firmes na fé diante dos desafios atuais.  Ao aprovar as novas diretrizes, os bispos respondem ao convite do Papa Leão XIV:  pôr em prática, em cada Igreja local, as conclusões do Sínodo e, desse modo, consolidar práticas pastorais capazes de oferecer respostas às rápidas e muitas mudanças sociais, religiosas e culturais no mundo contemporâneo. Portanto, a lucidez é o acolhimento da necessidade de rever métodos do anúncio do Evangelho de Jesus Cristo, a transmissão da fé e o necessário fortalecimento do sentido de pertença à Igreja Católica. Nesta mesma direção, incluem-se as preocupações com o “grito” da Terra, a casa comum, e o clamor dos pobres, urgindo da comunidade dos discípulos de Jesus uma postura mais coerente e audaz, em conformidade com os ensinamentos do Mestre.  Todos os discípulos de Jesus são chamados a protagonizar novos processos transformadores, em corresponsável compromisso diante das urgências de preservação dos recursos naturais, do respeito à dignidade humana e da promoção da paz. Para bem viver esse compromisso pastoral, a Igreja no Brasil se percebe como tenda do encontro, uma imagem forte apontando na direção de se compreender os sinais dos tempos. Tenda é lugar do acolhimento de todos para que façam a experiência consoladora de acolher os valores e os sinais do Reino de Deus.  

 

Importante é compreender que a tenda é especialmente acolhedora para os pequenos, abrigo dos estrangeiros, dos expatriados, dos miseráveis. Efetivamente aberta a todos os homens e mulheres de boa vontade, aos carentes de um novo rumo em suas vidas. Tenda do encontro com Jesus, abrigo seguro em meio às tempestades da vida. A tenda lembra também a condição de peregrinos: todos que passam por este mundo são peregrinos. Não permanecem definitivamente nele. Cada peregrino é chamado a aprender lições enquanto caminha, desenvolvendo projetos que promovam a vida e dão rumos novos à sociedade. Com suas Diretrizes Gerais para a Evangelização, considerando-se Tenda do Encontro, a Igreja reafirma a sua missão de servidora do Evangelho junto ao povo, escola e promotora da vida em todas as suas etapas.  

 

Cabe, agora, conhecer e aplicar as Diretrizes aprovadas pelos bispos do Brasil, compromisso de renovar as relações e os processos internos na Igreja, segundo a tônica da comunhão e da participação, contribuindo com um mundo mais justo e solidário, meta da cidadania civil e do Reino de Deus. Discípulos e discípulas de Jesus, “mãos à obra”! O desafio é grande, mas a esperança é ainda maior. A fé é o grande tesouro, a graça de Deus é inesgotável, assim ensina a Igreja – a Tenda do Encontro.