Artigos dos bispos

Dom Pedro  Cipollini
Bispo de Santo André (SP)

 

A Campanha da Fraternidade é uma iniciativa da Igreja Católica e este ano traz como tema “Fraternidade e Moradia”. Mais que oportuno refletir sobre a questão da moradia. O lema desta CF: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), mostra o fundamento bíblico a partir do qual a Igreja propõe a reflexão sobre este tema.  

A Câmara Municipal de Santo André votou e aprovou a Lei N. 10.888 de 14/11/1015 que instituiu o “Dia Municipal de Abertura da Campanha da Fraternidade”. O objetivo é conscientizar e promover ações que transformem a realidade. É preciso conscientizar, a partir da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja.  Jesus se identifica com tantas pessoas que sofrem a falta de moradia (cf. Mt 25,31). A Igreja quer seguir seus passos. 

Terra, teto, trabalho para todos, este é o projeto para a dignidade da pessoa humana, desejo de Deus, para que todos tenham vida e vida plena (cf. Jo 10,10). Moradia não pode ser reduzida a mercadoria. É uma necessidade essencial para o desenvolvimento humano integral.  

Surge a pergunta: por que a Igreja se preocupa com este tema que parece mais social ou político que espiritual? De fato, moradia é algo bem concreto. Ao passo que a missão da Igreja é uma  missão religiosa (cf. Vat II – GS 42). Porém desta mesma missão religiosa decorrem luzes e forças, que auxiliam a organização da sociedade em vista do bem comum, da prática da Lei de Deus e da realização da pessoa humana em sociedade. 

É neste sentido que Dom Helder Câmara dizia: “Se meu irmão tem fome é um problema material dele, mas o que eu faço diante da fome de meu irmão é um problema espiritual meu”. Porque serei julgado pela lei do amor, no fim da vida. 

Neste tempo de quaresma a Igreja exorta os fiéis a rezarem, jejuarem e dar esmolas. Porém, dar esmola é pouco, deve-se ter consciência que a conversão é não só pessoal, mas comunitária e social. A penitência que transforma, portanto, não é somente uma atitude interna e individual, mas também externa e social (cf.  papa Leão XIV in Dilexit te n. 94). 

Por isso no Brasil desde 1954, a Igreja propõe a Campanha da Fraternidade como itinerário para viver a Quaresma com coerência.  É bom que perguntemos: “Por que estão sem casa os moradores de rua? No Brasil são mais de 300.000 sobrevivendo nas ruas, sendo que seis milhões de famílias necessitam moradia. O problema de moradia está ligado à terra. No Brasil a posse de terra sempre foi privilégio dos ricos, mentalidade iníqua que persiste. 

O poder econômico é excludente. Para ele a cidade é um negócio, não lugar de convivência e interação entre pessoas. Ele dificulta as ações em favor dos sem teto e as políticas públicas que possibilitem casa para todos. Agravando tudo isto, temos a especulação imobiliária favorecida visando  lucro a todo custo. Os sem teto acabam empurrados para as ruas, os morros, beira de rios e aqui entre nós áreas de preservação ambiental. 

Moradia para todos é um direito garantido pela Constituição Federal (cf. Art. 6), e é a porta de entrada para todos os outros direitos da cidade e cidadania. Moradia é vida! Não podemos nos esquecer que a casa é o lugar da família: é o lar! 

Lembremos o nascimento de Jesus em Belém. O Filho de Deus veio morar entre nós. Não havia lugar para ele, não havia uma casa para receber Maria e José. Jesus teve que nascer em uma gruta no meio de animais, na beira da cidade.  

Esta dura realidade de nosso Senhor, que entra no mundo e nasce sem teto, além de nos questionar, é um convite para nos empenharmos, a fim de que todos tenham casa em um país tão grande como o nosso,  no qual não falta terra mas justiça. 

 

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)

 

Diante das alarmantes estatísticas de feminicídio e outras violências contra as mulheres no Brasil, é importante ecoar sempre mais as vozes que buscam superar essa vergonhosa realidade.   De modo especial no contexto do Dia Internacional da Mulher, a Igreja Católica amplia a sua própria voz para exaltar a beleza da dignidade de cada mulher, investindo sempre mais para que a sociedade não tolere as agressões cotidianamente registradas: a singularidade das mulheres, de sua missão na sociedade, não pode ser atingida por violências e extermínios.  As vidas e as dignidades feridas vitimam as mulheres e toda a sociedade, pois as mulheres guardam dons capazes de ajudar o mundo a sair da decadência. No cristianismo, a mulher tem um estatuto especial de dignidade: é destinada a fazer parte de sua estrutura viva e transformadora. As possibilidades de conquista de um novo tempo, oferecidas pela singularidade feminina, ainda precisam ser adequadamente reconhecidas, para que haja sempre mais respeito às mulheres e seja possível construir nova realidade.  

Nesse contexto contaminado por atos de violência e desrespeito às mulheres, ignora-se a fundamental contribuição feminina para a família, instituições variadas e toda a sociedade. Pela voz do apóstolo Paulo, escrevendo aos Gálatas, é preciso, pois, escutar a voz da Igreja, que proclama: “Ao chegar à plenitude dos tempos, Deus enviou o seu filho, nascido de uma mulher”. A mulher encontra-se, pois no coração do evento salvífico. Homem e mulher alicerçam-se na mesma pedra angular. Homem e mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus. Por isso, a vocação dialogal é constitutiva da condição de cada homem e mulher, possibilitando a ambos alcançar crescimento e bem exercer a missão de reger o mundo. Qualquer comprometimento dessa dimensão dialogal entre homem e mulher gera perdas irreparáveis, configurando preconceitos, discriminações e exclusões autoritárias, segregacionistas.  

Na antropologia bíblica, a mulher é essencial também na constituição da identidade de cada homem. Homem e mulher são, pois, igualmente dignos, imagem e semelhança de Deus, ao mesmo tempo que expressam uma unidade na comunidade humana, sinal de comunhão interpessoal. Na unidade dos dois, ensina a Igreja, o homem e a mulher são chamados, desde o início, não só a existir um ao lado do outro, ou juntos, mas também a existir reciprocamente um para o outro. Em razão do pecado, veio a perturbação da relação original entre o homem e a mulher, desvirtuando a grandeza e a importância de cada um. O pecado que contamina a humanidade configura uma ruptura e uma constante ameaça à unidade entre os dois. Não se pode, pois, admitir relação de domínio entre homem e mulher, por comprometer a estabilidade da igualdade fundamental. Ferir essa igualdade é banir a mulher da sociedade.  

Atenção seja dada quando, na atualidade, são realizadas deliberações sobre os direitos da mulher, no amplo contexto dos direitos humanos. Trata-se de horizonte que não pode permitir relativizações, para não agravar ainda mais os cenários de violência que ameaçam as mulheres, objetificando-as para consumo, manipulando-as. Há, pois, de se considerar sempre e melhor a feminilidade, a sua grandeza, reconhecendo a sua essencialidade para o bem de toda civilização. Nesse sentido, a sociedade deve investir em caminhos para que a mulher seja cada vez mais protagonista, buscando vencer o machismo. Assim, equilibrar a relação entre homens e mulheres no contexto social, para adequadamente articular singularidades, curar patologias que produzem violências.  

O respeito à dignidade da mulher cria a oportunidade para uma nova ordem alicerçada no amor. Trata-se de uma urgência, considerados os muitos descompassos da contemporaneidade. A ordem do amor tem na mulher um especial protagonismo, indispensável nas reconstruções civilizatórias. A mulher, portanto, desempenha um papel singular que não pode ser destruído, violentado ou tratado com indiferença. A feminilidade tem competências singulares na prática e no ensinamento do amor. Essas competências se expressam em diferentes contextos culturais, pelas singularidades biológicas, espirituais e psíquicas de cada mulher. A Igreja ensina que a dignidade da mulher está intimamente ligada ao amor: ao amor que ela recebe por sua feminilidade e ao amor que ela doa. As mulheres são paradigma para sustentar a grande força que gera equilíbrio na humanidade. Ecoem as vozes que buscam construir novos tempos a partir da superação de violências que as ameaçam. A sociedade possa avançar sempre no respeito à mulher, caminho para experimentar o amor e aprender a amar. 

  

 

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

 

 

Neste tempo da Quaresma em que a Igreja no Brasil reflete sobre o grave desafio da moradia, assistimos atônitos, tantas moradias sendo arrastadas pelas águas ou simplesmente se desmoronando em morros e encostas, especialmente na Zona da Mata Mineira. Lamentamos profundamente as várias perdas humanas, os incontáveis danos materiais causados e as sérias consequências ecológicas sofridas. A fúria das águas tragava tudo que vinha pela frente. 

É triste pensar no choro das mães que perderam seus filhos, na desolação de filhos que perderam seus pais, na dor de pessoas que perderam suas famílias inteiras… Prestamos nossa profunda solidariedade a esses nossos irmãos e irmãs que buscam consolo na esperança que não decepciona! Também nos consternamos com vítimas que viram seus bens sendo levados pela correnteza dos rios que voltavam a seus cursos de outrora, invadindo ruas e avenidas… As enchentes desfaziam economias de uma vida inteira e sonhos que foram se edificando ao longo de décadas… 

Os avisos de fortes temporais foram, certamente, emitidos pelos órgãos responsáveis, orientando as pessoas a deixarem suas moradias. O testemunho de Osvaldo Moraes sobre o desastre na Zona da Mata Mineira ilustra, com eloquência, essa triste realidade: “o que adianta uma pessoa que mora em área de risco receber um aviso de chuva intensa se ela não tem para onde ir ou não sabe o que fazer?”. Falta de alternativa e de sérias políticas públicas geram catástrofes anunciadas. 

O Texto-base da Campanha da Fraternidade deste ano, no número 38, nos chama atenção para um fenômeno que incha nossas cidades, até mesmo no interior, em cidades pequenas: o êxodo rural. “As pessoas que vieram do campo jamais foram incluídas na vida urbana em sentido pleno. Foi um modelo de urbanização excludente, sem disponibilizar terra, moradia e infraestrutura urbana para quem chegou, além do baixo salário. 0 seu lugar foi sendo construído por quem chegava. Os mais pobres, que sempre foram a maioria — 70% das cidades são constituídas de pobres —, autoproduziram suas casas nas cidades a partir de relações de solidariedade, sem ter nenhum recurso para isso”. 

O nosso pensamento vai primeiro para a falta de controle urbanístico, definição de plano diretor das cidades e políticas públicas de habitação. De outro lado, é importante observar a importância de fiscalização por parte dos poderes municipais e do Ministério Público. Quase sempre isso não é politicamente correto, pois não traz vantagens políticas para pessoas que se interessam em permanecer no poder, uma vez que contrariariam interesses, além de ter que destinar sérios investimentos financeiros, como desapropriação de imóveis para a construção de novos bairros e moradias dignas. Seja como for, é necessário investir na organização urbanística, elaborar um plano diretor condizente com a realidade do solo e da topografia local e implementar políticas públicas eficientes. 

De outro lado, alarguemos nossa reflexão para além da moradia circunstancial. As intempéries do tempo presente, como aquelas ocorridas no passado recente em Santa Catarina, Porto Alegre, Petrópolis e, agora, na Zona da Mata Mineira, nos fazem pensar na relação moradia e ecologia. O saudoso e querido Papa Francisco sempre nos alertava que “tudo está interligado na Casa Comum”. A natureza manifesta as consequências de tantas intervenções que vêm sendo feitas: poluição, desmatamento, monoculturas, atividades minerárias, canalização de riachos, inchaço das cidades, construções em locais de risco, que antes eram leitos de rios etc. 

O índice pluviométrico vem se descompassando consideravelmente. De um lado, vemos a concentração das chuvas em poucos dias, e até horas intensas, numa só região. Em contrapartida, verificamos secas intensas em outras localidades. É preciso saber diagnosticar esses sinais da natureza e constatar que a nossa Casa Comum está doente. E essa doença é causada por tantas interferências que pessoas e empresas têm feito na natureza, iludidas pela ganância do lucro fácil e do acúmulo de bens materiais. Percebe-se claramente que o desrespeito pela ecologia integral afeta os ecossistemas. 

Assim sendo, provocamos o diálogo entre a temática abordada pela Campanha da Fraternidade deste ano, que é “Fraternidade e Moradia”, com o tema abordado por essa mesma campanha no ano passado “Fraternidade e Ecologia integral”. Os desafios enfrentados hoje em relação à moradia, provocados pela força da natureza, podem ter suas raízes nas agressões que temos infringido à Casa Comum.  

O Texto-base da Campanha de 2025 nos alertava e apontava caminhos com acenos de esperança. E o texto continua atual, chamando-nos à ação. Proponho revisitá-lo com olhar de esperança: “É preciso alimentar um olhar otimista e realista (cf. LD, n. 16-18), convictos de que ainda podemos evitar os piores impactos das mudanças climáticas. Embora o tempo esteja se esgotando, temos um potencial de resistência que nos permite propor e buscar, através de um comprometido processo de conversão, medidas sustentáveis para manter um mínimo de equilíbrio na nossa Casa Comum. Mesmo com a deterioração da nossa relação com a sociedade e a natureza, a Esperança nos move a unir os esforços das ciências ao profetismo da fé, acreditando que, fazendo a experiência dos limites do planeta, poderemos superar o impasse existencial e ambiental em que vivemos” (Texto-base CF/2025, nº 136). 

Por fim, o Texto-base deste ano confirma essa realidade: “A crise ecológica ajudou a perceber que não se pode separar o ambiental e o social, que não há um problema ambiental e outro social, mas um único problema socioambiental. 0 problema da moradia é um problema de ecologia: tanto no que se refere a saneamento, resíduos sólidos, mobilidade, habitações precárias e em áreas de risco etc., quanto no sentido mais amplo e fundamental da natureza como nossa casa comum. É preciso desenvolver políticas de moradia digna e de proteção ambiental” (TB/2026, nº 149).