Artigos dos bispos

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba (MG)

 

A construção da verdadeira fraternidade entre as pessoas depende, e muito, de envolvimento e cultivo dos laços de afeto, de solidariedade e de amor ao próximo. Para isto é necessário superar as diferenças existentes no campo das ideologias e de uma sociedade que exclui, portanto, injusta. Supõe cuidado e proximidade dos mais vulneráveis para assim promover uma cultura da paz. 

Praticar a fraternidade depende da ousadia das pessoas, e da sabedoria, que vem de Deus. É escolher fazer o bem ou fazer o mal, amar ou desprezar o outro, ou ficar numa atitude de ostracismo, indiferente no espaço de convivência. Não foi esta a prática de Jesus, que incomodava quem convivia com ele. Jesus manifestava apreço pelas pessoas, de modo especial com os mais sofridos e desprezados. 

Construir a fraternidade é envolver e cultivar laços de afeto, solidariedade e amor ao próximo, superando diferenças ideológicas e culturais para criar uma sociedade mais justa e inclusiva. Envolve o diálogo, a partilha, o perdão e o compromisso comum com o bem-estar coletivo, frequentemente manifestado em ações concretas de cuidado com os mais vulneráveis e na promoção da cultura da paz.  

A prática da fraternidade é feita por opção livre, sabendo que isto é uma identificação com a sabedoria divina. Portanto, é sábio todo aquele que faz escolha, com bom senso e ama o próximo, pois, é sabedoria que vem de Deus, que quer que tenhamos vida humana na fraternidade. Neste contexto está o sentido da existência de uma comunidade cristã, onde há calor humano na convivência. 

 A construção da fraternidade depende muito de abertura à vontade de Deus e é uma importante missão diante de uma cultura com profundas marcas de individualismo. O fechamento, isto é, a falta de discernimento da razão, provoca isolamento, que é um fato natural e generalizado do distanciamento. Assim se torna impossível a construção de uma sociedade fraterna e local de solidariedade. 

A fraternidade comunitária é espaço propício para o encontro com Deus. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles” (Mt 18,20). Significa, que as agressões e as palavras ofensivas impedem o diálogo, desorganizam e dificultam a harmonia comunitária e levam ao distanciamento de Jesus Cristo. Fica então difícil a construção da fraternidade. 

 

 

Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)

 

Nós estaremos prestes a iniciar a Quaresma e ligado a este tempo propicio de vida e de conversão aprofundaremos o tema da Campanha da Fraternidade 2026 que versará sobre a Moradia e o seu Lema será: “Ele veio morar entre nós”(Jo 1,14). O tema e o lema condizem muito com a nossa realidade devido à objetividade de toda a população ter uma moradia digna. É dever próprio do Estado dar as condições com políticas públicas para que as pessoas tenham acesso à moradia e a Igreja colabora nesta missão possibilitando vida nova em Jesus Cristo, porque Ele se encarnou em nossa realidade.  

A especificação do Objetivo Geral

A Campanha da Fraternidade 2026 (CF) possui como objetivo geral a necessidade de promover tendo como base a Boa-Nova do Reino de Deus e num espírito de conversão quaresmal, a moradia digna não só como prioridade, mas como direito, em unidade com os demais bens e serviços essenciais a toda a população1. A ação da CF é dada na vida da sociedade e também na vida eclesial, possibilitando a evangelização, a Boa-Nova para enaltecer o Reino de Deus pela vida das pessoas com uma moradia condizente, digna.  

A oração da CF 2026

Ela merece uma consideração a ser aprofundada, porque a nossa vida de cristãos e de cristãs tem como base a oração em vista de uma ação caritativa. Ela dirige-se a Deus Pai que enviou o seu Filho, Jesus Cristo porque Ele veio morar entre nós, ensinando-nos o valor da dignidade humana. Há um agradecimento a Deus por muitas pessoas e grupos na comunidade e na sociedade que sob o impulso do Espírito Santo estão empenhadas em prol da moradia digna para todas as pessoas. A oração impulsiona a um pedido de conversão para que construamos uma sociedade mais justa e fraterna, com terra, teto e trabalho para todas as pessoas para que um dia tenhamos com a graça de unidade com Deus, habitar na casa do Céu, amém2. 

O surgimento da CF 2026

O texto-base apresenta um relato no surgimento da Campanha da Fraternidade em 1962. Ela surgiu em Nísia Floresta, Rio Grande do Norte, por iniciativa de Dom Eugênio de Araújo Sales, como Bispo Auxiliar de Natal e sendo responsável na época pelo Secretariado Nacional da Ação Social, e tendo como colaboradores os sacerdotes Edmundo Nelson Leising, Hilário Pandolfo e Alfred Schneider. Foi toda uma organização pastoral e comunitária que possibilitou a Campanha da Fraternidade, a adesão de outras dioceses e em 1964 havia a primeira CF Nacional com a devida coleta em vista da evangelização3 

A metodologia do texto-base

Ela segue a metodologia percebida há décadas nos documentos eclesiais a partir do ver a realidade da moradia no Brasil: o iluminar. Ele veio morar entre nós (Jo 1,14); o agir: a construção de casas e nelas habitarão. O fato é que a moradia é uma mercadoria muito importante para as pessoas, porque ninguém vive sem moradia. Pensemos nas milhares de pessoas em situação de rua, onde não tem um lar para viver. A realidade é que uma boa parte da população brasileira não tem renda suficiente para obter um financiamento e logo comprar uma moradia no mercado imobiliário privado e não tendo também políticas públicas de habitação4. Para a superação desta constatação será preciso um bom trabalho comunitário, social, em vista de moradia adequada ou digna para todas as pessoas.  

Ele veio morar entre nós(Jo 1,14)

Este é o Lema que norteará toda CF 2026 e ao longo do ano. Jesus assumiu a realidade humana, igual a nós em tudo menos o pecado. Ele também necessitou de um lar, de uma moradia para crescer como pessoa humana e como Filho de Deus na terra. Desta forma percebemos nós a importância de uma moradia para o crescimento humano, relacional entre pessoas, pais, avós, filhos e filhas, parentes para uma boa convivência em vista do crescimento do Reino de Deus aqui, agora e um dia na eternidade. 

A fomentação de moradia digna

A Igreja estimulará a fomentação de construção de moradias dignas para as pessoas mais necessitadas. Esta missão é parte de políticas públicas dos governos que estão em nossa frente. Um dos objetivos específicos da CF 2026 é justamente o empenho para efetivar leis e viabilizar políticas públicas de moradia nas esferas sociais e políticas5 

O tempo da quaresma convida-nos a conversão pessoal, comunitária, social e com Deus. Nós assumamos bem a Quaresma em preparação à Páscoa do Senhor e à CF 2026 possibilitando uma vida conforme o Evangelho do Senhor, de ajuda e amor às pessoas que passam por dificuldades em ter moradia digna.  

Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo (RS)

Jesus, logo após ensinar o caminho da vida feliz ou bem-aventurada, afirma que ser cristão é ser sal da terra e luz do mundo (Isaías 58,7-10, Salmo 111, 1 Coríntios 2,1-5 e Mateus 5,13-16). Duas imagens que ressaltam o testemunho da vida de serviço ao mundo. É neste serviço que se concretiza a identidade do cristão: luz e sal da terra, como o próprio Cristo o foi. 

A primeira imagem usada por Jesus para definir a identidade do discípulo é o sal. O sal é familiar em todas as culturas. Sempre foi usado para dar sabor à comida e conservar os alimentos. Na cultura bíblica o sal também significava sabedoria. Nas línguas latinas os vocábulos sabor, saber, sabedoria pertencem à mesma raiz semântica. 

O sal sendo um protagonista peculiar na culinária, se torna um símbolo muito interessante e rico para expressar a missão do seguidor de Jesus no meio da sociedade. O sal na comida fica invisível, mas sua ausência não pode ser dissimulada. O sal dissolve-se completamente nos alimentos e lhes dá sabor. Essa é sua condição: passar despercebido, mas atuar eficazmente. 

É uma bela maneira de descrever a tarefa do cristão: ser sal da terra, sal humilde, derretido, saboroso, que atua desde dentro, que não se nota, mas é indispensável. Jesus adverte: “ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos?” Quimicamente é impossível o sal perder o sabor. O sal não pode não salgar. O risco está no discípulo de Cristo que pode perder a capacidade de dar sabor de amor, esperança, fraternidade e paz ao mundo. 

A segunda imagem usada para descrever a identidade do cristão é “ser luz do mundo”. O simbolismo da luz percorre toda a Escritura. No primeiro dia da criação Deus disse: “Haja luz, e houve luz” (Gn 1,3); no caminho do êxodo uma coluna de fogo guiou o povo de Deus pelo deserto; o messias anunciado pelos profetas será uma luz. Cristo de apresenta a si mesmo como: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, não caminha na escuridão, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). 

Quem crê em Jesus se converte em luz para si e para os outros. Assim como o sal não pode não salgar, do mesmo modo a luz não pode não iluminar. Na celebração do batismo o Círio Pascal, símbolo do Cristo ressuscitado, é apresentado ao neobatizado e lhe é dito: “Recebe a luz de Cristo”. A seguir se acende nele a vela, seguida da exortação: “Querida criança, foste iluminada por Cristo para te tornares luz do mundo. Com a ajuda de teus pais e padrinhos caminha como filho(a) da luz”. 

Como cristãos podemos nos tornar insossos e colocar a luz debaixo de uma vasilha, como alertou Jesus. O profeta Isaías e a Carta de Paulo ao Coríntios apontam duas tentações que desvirtuam a identidade do cristão. A primeira é reduzir a vida cristã a práticas religiosas. Por isso, o profeta Isaías ressalta a importância e o efeito da caridade. “Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à tua frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá”. O Catecismo da Igreja Católica ensina que identidade do católico se manifesta: na profissão da fé; na celebração dos mistérios da fé, principalmente os sacramentos; na vivência dos mandamentos e na retidão moral; e na vida de oração.  

A segunda tentação é querer ser cristão segundo a mentalidade humana, isto é, querer ser sal e luz de forma ostensiva, agressiva, com marketing, com eficácia e produtividade. São Paulo, depois de alguns fracassos pessoais, aprendeu a lição. Quando vai evangelizar em Corinto age de conforme o ensinamento de Jesus: “Quando fui à vossa cidade anunciar-vos o mistério de Deus, não recorri a uma linguagem elevada ou ao prestígio da sabedoria humana. Pois, entre vós, não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado. Aliás, eu estive junto de vós, com fraqueza e receio, e muito tremor. Também minha palavra não tinha nada dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus, e não na sabedoria dos homens”.