Artigos dos bispos
Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)
A liturgia da Quinta-feira Santa é um convite a aprofundar concretamente no mistério da Paixão de Cristo, já que quem deseja segui-lo deve sentar-se à sua mesa e, com o máximo recolhimento, ser espectador de tudo o que aconteceu na noite em que iam entregá-lo.
E, por outro lado, o mesmo Senhor Jesus nos dá um testemunho idôneo da vocação ao serviço do mundo e da Igreja que temos todos os fiéis, quando decide lavar os pés dos seus discípulos. Esta é a tarde que faz memória da Ceia Pascal de Jesus. Aquilo que o Senhor realizou durante toda a vida e consumou na cruz – isto é, sua entrega de amor total ao Pai, por nós –, Ele quis nos deixar nos gestos, nas palavras e nos símbolos da Ceia que celebrou com os seus. Naquela mesa santa do Cenáculo, estava já presente, em símbolos e gestos, a entrega amorosa do Calvário. É isto que celebramos neste momento sagrado, momento de saudade, de aconchego e de despedida. Era em família que os judeus celebravam o banquete pascal… Jesus celebrou com seus discípulos, conosco, sua família: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”, até o extremo de entregar a vida, pois “não há maior prova de amor que entregar a vida pelos amigos” (Jo 15,13).
O Evangelho de São João apresenta a Jesus “sabendo que o Pai pôs tudo em suas mãos, que vinha de Deus e a Deus retornava”, mas que, diante de cada homem, sente tal amor que, assim como fez com os discípulos, se ajoelha e lava os seus pés, como gesto inquietante de uma acolhida inalcançável.
Esta é a tarde que faz memória da Ceia Pascal de Jesus. Aquilo que o Senhor realizou durante toda a vida e consumou na cruz – isto é, sua entrega de amor total ao Pai, por nós –, Ele quis nos deixar nos gestos, nas palavras e nos símbolos da Ceia que celebrou com os seus. Naquela mesa santa do Cenáculo, estava já presente, em símbolos e gestos, a entrega amorosa do Calvário. É isto que celebramos neste momento sagrado, momento de saudade, de aconchego e de despedida. Era em família que os judeus celebravam o banquete pascal… Jesus celebrou com seus discípulos, conosco, sua família: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”, até o extremo de entregar a vida, pois “não há maior prova de amor que entregar a vida pelos amigos” (Jo 15,13).
Antes de ser entregue, Cristo se entrega como alimento. Entretanto, nesta Ceia, o Senhor Jesus celebra sua morte: o que fez, o fez como anúncio profético e oferecimento antecipado e real da sua morte antes da sua Paixão. Por isso, “quando comemos deste pão e bebemos deste cálice, proclamamos a morte do Senhor até que ele volte” (1Cor 11,26).
São Paulo completa a representação, lembrando a todas as comunidades cristãs o que ele mesmo recebeu: que, naquela memorável noite, a entrega de Cristo chegou a fazer-se sacramento permanente em um pão e em um vinho que se convertem em alimento, seu Corpo e seu Sangue, para todos os que queiram recordá-lo e esperar sua vinda no final dos tempos, ficando assim instituída a Eucaristia.
A Santa Missa é, então, a celebração da Ceia do Senhor, na qual Jesus, um dia como hoje, na véspera da sua paixão, “enquanto ceava com seus discípulos tomou pão…” (Mt 26,26). Ele quis que, como em sua última Ceia, seus discípulos se reunissem e se recordassem d’Ele, abençoando o pão e o vinho: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19).
Ele deixou-se ficar no pão e no vinho transfigurados pelo seu Espírito Santo, como sacramento do seu Corpo e Sangue, imolado e ressuscitado para ser nossa oferta ao Pai, nosso alimento no caminho e nosso penhor de ressurreição e vida eterna. Quanta gratidão, quanto reconhecimento devem brotar do nosso coração! Seu Corpo por nós imolado, seu Sangue por nós derramado, Jesus por nós entregue – sacramento de um amor eterno, de uma entrega sem fim, de uma presença perene! Comungar hoje do Corpo e do Sangue do Senhor é não somente unir-se a Ele, mas estar disposto a ir com Ele até a cruz e a morte! Não façamos como Pedro, que prometeu, mas não cumpriu e negou o Senhor! “O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo?” (1Cor 10,16). Que grande mistério, esta união de vida e de morte com o nosso Senhor pela Eucaristia! Não reneguemos, na vida e nas ações, aquele que hoje nos convida à sua mesa e conosco celebra a sua Páscoa!
Renovo, neste dia de instituição da Eucaristia e do sacerdócio ministerial, o convite do amado Papa Leão XIV para que rezemos pelos sacerdotes em crise. Faço um apelo para que, neste mês, em nossa Arquidiocese, façamos uma campanha de orações em favor dos padres que estão em crise, dos que estão privados de seu ministério e por todos os padres que sofrem todo tipo de doença, enfermidade ou perseguição. Acompanhemo-los com a nossa oração fervorosa!
Aproveito o ensejo para cumprimentar todos os padres, em suas comunidades, para que continuem sendo o bom odor de Cristo, o Bom Pastor, que dá a sua vida pelas suas ovelhas, e que manifestem o amor, a misericórdia e a compaixão do Mestre que nos chama e envia em missão!
Faço o convite: para que, nestes dias, celebremos estes santos mistérios pascais com piedade, espírito de adoração profunda e sincera gratidão para com Aquele que, por nós, quis entregar-se às mãos dos malfeitores e sofrer o suplício da cruz. Não fiquemos indiferentes, não sejamos frios: tudo quanto celebraremos foi por nós que o Senhor instituiu e para nossa salvação que realizou! E que, pela Páscoa deste 2026, Ele se digne conduzir-nos à Páscoa eterna.
Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
Nesta noite santíssima, a Igreja entra no Cenáculo com passos reverentes. O Senhor está às vésperas da paixão.
A cruz já projeta sua sombra comprida e a fraqueza dos discípulos já se anuncia. O mundo prepara-se para ferir o Cordeiro. E, nesse limiar de dor, Cristo realiza um dos atos mais altos e mansos de seu amor ao entrega-se em alimento, em presença que não mais abandonará os seus.
A Quinta-feira Santa é a noite da intimidade divina. O Filho de Deus parte o pão, ergue o cálice e profere palavras que não cessarão de ecoar na vida da Igreja. “Isto é o meu corpo, que é dado por vós.” Este cálice é o meu sangue. E, ao ordenar que façamos isto em sua memória, abre para o futuro um caminho sacramental pelo qual sua entrega permanecerá viva até o fim do mundo.
São Paulo, escrevendo aos coríntios, recebeu e transmitiu esse núcleo da fé. O Apóstolo nos legou a tradição viva que brota do Senhor.
A fé católica reconheceu nesta noite o realismo soberano da presença de Cristo. O pão e o vinho oferecidos pelo Senhor é eficaz e realiza o que diz. Quando Ele pronuncia sobre o pão: “Isto é o meu corpo”, e sobre o cálice: “Este é o cálice do meu sangue”, estamos diante da força criadora do Verbo encarnado. Aquele que chamou o universo à existência por sua palavra, que nesta noite faz do pão e do vinho sacramento verdadeiro de seu Corpo e de seu Sangue.
A grande luz da Quinta-feira Santa nos ensina que Cristo não quis apenas passar pelo mundo, quis ficar nele. A Eucaristia é o excesso de amor pelo qual o Senhor vence a distância, atravessa os séculos e se faz contemporâneo de cada geração de discípulos e discípulas.
Por isso, a Eucaristia está no coração da Igreja como o seu tesouro mais precioso. Nela se conserva uma presença, o próprio Cristo. A Igreja vive da Eucaristia porque vive de Cristo. E Cristo, na Eucaristia, continua a oferecê-la ao Pai, a uni-la ao seu sacrifício e a nutrir-lhe os passos em meio às dificuldades do tempo.
A Quinta-feira Santa revela que a Igreja não nasceu da nostalgia dos discípulos, nem de um esforço humano para manter acesa a memória de Jesus. A Igreja nasce de um gesto do próprio Cristo. É Ele quem a funda, reúne e mantém.
A Igreja é una porque uno é o seu fundador, uno é o pão da vida que a alimenta; una porque é a presença real de Cristo que a sustenta. Sua unidade é uma graça cristológica que procede de Cristo e retorna a Cristo.
Nesta noite, vê-se também a razão pela qual a Igreja confessa sua identidade singular. Ela o faz porque reconhece, em sua própria vida, os sinais permanentes da ação do Senhor. Foi fundada por Cristo e guarda em seu coração a presença real e perpétua de Cristo na Eucaristia.
O Cenáculo, unido à cruz e à manhã da ressurreição, é mais que um episódio comovente da origem cristã. É princípio. É instituição. É vontade divina em ato. O Senhor escolhe os apóstolos, dá-lhes parte em sua missão, faz deles testemunhas e ministros de seus mistérios. A Igreja, portanto, não se explica por si mesma.
Explica-se por Cristo. Seu fundamento não está na oscilação da história, mas no querer do Redentor.
Cristo, porém, não se limitou a fundá-la, mas permaneceu nela. E esta permanência atinge na Eucaristia seu ponto mais alto. Ele está com sua Igreja em sua palavra anunciada, em sua caridade vivida, em seus pobres e sofredores, no coração dos que creem. Mas está de modo eminente, real, substancial e duradouro no Santíssimo Sacramento do altar. A Quinta-feira Santa é a noite em que a Igreja se prosternou pela primeira vez diante desse mistério que jamais a deixaria órfã. Desde então, toda vez que o altar é preparado, toda vez que o pão é consagrado, toda vez que o cálice é elevado, o mundo recebe novamente a consolação de que o Senhor não nos abandonou.
A sucessão apostólica, por sua vez, manifesta que esta permanência não foi deixada à mercê da confusão dos tempos. O mandato “fazei isto” não foi lançado ao vento. Foi confiado aos apóstolos e, por eles, transmitido àqueles que lhes sucederam.
O que a Igreja celebra hoje não vem de uma invenção tardia, nem de uma elaboração devocional acumulada ao longo dos séculos. Vem do Senhor, através da continuidade apostólica. Na sucessão dos bispos, em comunhão com Pedro, a Igreja reconhece a continuidade visível daquela corrente invisível de graça que brotou do Cenáculo. Assim, a mesma Eucaristia instituída por Cristo atravessa o tempo sem perder nada.
A Quinta-feira Santa é, portanto, a noite em que a Igreja contempla ao mesmo tempo seu nascimento, sua unidade e sua missão. Ela se reconhece à luz da Eucaristia e, entende a partir dela sua beleza e sua responsabilidade.
Nesta noite santa, a fé da Igreja não pode ser outra, senão que o Senhor ficou conosco no Pão consagrado, no Cálice da nova aliança, no ministério apostólico transmitido; na una, santa, católica e apostólica Igreja, ficou conosco. E porque ficou, a esperança não morreu; a fé não vacilou; a história não se fechou.
A Quinta-feira Santa é a noite em que a eternidade se assentou à mesa, e, desde então, o mundo nunca mais se sentiu abandonado.
Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ)
Num mundo fechado e sem horizontes marcado por conflitos, desigualdades e descarte de pessoas, irrompe de forma inesperada como graça e surpresa, a reviravolta da vida, a vitória do amor e doação plena que nos reconcilia e restaura definitivamente. Jesus que veio morar entre nós, revelando o rostro do Pai amoroso e compassivo e o Reino da fraternidade e justiça para todas as pessoas, foi ressuscitado. Quiseram apagar sua memória e eliminá-lo, mas o Deus conosco, o Filho e enviado do Pai, venceu a morte e todas as suas artimanhas e potências, tornando-a como diz Francisco de Assis nossa Irmã.
O mundo não está mais condenado a ser do príncipe das trevas e do poder dominação, mas o senhorio do Ressuscitado abriu caminhos de esperança e de libertação, fazendo aliança eterna com os pequenos e humildes, que lideram a humanidade nova que possuirá a Terra, trazendo justiça, paz e amor a todas as pessoas e criaturas.
O futuro da promessa já começou, o aguilhão da morte foi extinto, o que permanece são estertores do mundo passado que teimam em desaparecer, e são retidos pelo egoísmo e a soberba.
No entanto no olhar e nos corações do Povo da Vida, da Comunidade de amor e esperança que Cristo reuniu e em todos os homens e mulheres de boa vontade brilha a luz da graça e da filiação divina, da alegria de uma comunhão e irmandade que já partilha os bens celestiais da Nova Criação.
Com a Páscoa de Jesus, a paz se torna possível e realizável, a reconciliação e a solidariedade fraterna e a condivisão dos bens da Terra, sinais efetivos da vitória do Reino em toda a Criação.
As armas da destruição serão enterradas e esquecidas como uma lembrança maldita do ódio e da inimizade que nos sufocava e oprimia, tornando-nos escravos e tristes instrumentos das guerras.
Desponta com o esplendor da ressurreição uma esperança inabalável que nos torna em testemunhas entusiastas e luminosas da Boa Nova que tudo transforma e preenche de um sentido pleno. Somos consanguíneos e concorpóreos do Ressuscitado, chamados a com Ele renovar todas as coisas, trazendo o Sopro da Vida que não termina. Cheios de luz e ternura Pascal abraçamos a todas as pessoas e criaturas como nossas irmãs, celebrando com todas elas o banquete do Reino, com o Cordeiro Vencedor, Feliz e Santa Páscoa!
O grupo revisitou os objetivos do projeto, os indicadores dos impactos previstos e a evolução da execução no último ano. As ações viabilizam a articulação, incidência política e formação das Pastorais Sociais, além do fortalecimento da mobilização social em torno das pautas prioritRead More
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