Artigos dos bispos

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Dom Diamantino Prata de Carvalho
Bispo Emérito da Campanha (MG)

 

Para além da diversidade cultural e até mesmo folclórica por detrás dos festejos juninos, estes embalados pelas tradições vinculadas ao popular São João, somos convidados pela Igreja a debruçarmo-nos com solene e grande alegria sobre a Natividade de São João Batista, à luz do Evangelho de Lucas 1,57-66.80, o qual descreve tamanho acontecimento. 

 Enriquecidos por tão bela narrativa, apoiados nos escritos dos santos Padres, a Natividade de São João Batista não só causa admiração pelo conhecimento dos sagrados mistérios, senão pela meditação impetrada a partir dos mesmos, meditação esta que, ultrapassando gerações, produz efeitos espirituais profundamente vivos e pertinentes ao tempo presente, bem como ao vindouro da Igreja e de cada filho seu. 

Sob a auspiciosa sabedoria de Santo Agostinho, podemos contemplar tal Solenidade em uma perspectiva sumamente cristocêntrica, uma vez que o mesmo, partindo de João Batista, nos leva até Cristo e sua Igreja; isto considerando a eloquente afirmação de que “João nasce de uma anciã estéril; Cristo nasce de uma jovem virgem”. 

Último dos profetas da Antiga Aliança, João é a síntese de todo percorrido do Povo de Israel até os tempos da plenitude com a esperada vinda do Messias. Síntese não só por sua sabedoria expressada aos quatro cantos, apontando o Cordeiro, mas síntese também por que resume um tempo antes de Cristo marcado por vãos lampejos de certeza rumo à verdadeira Esperança. 

A estéril de que nos fala Agostinho, Isabel, representa as antigas investidas do Povo de Israel, muitas vezes calcadas em erros e corações endurecidos, incapazes do Amor, mais tarde engendrado do seio de Maria Santíssima. Povo que ao corromper-se pela ganância e vãs ambições, tornou-se por demais estéril e distante do projeto de Deus. Povo que se vê renovado, por dom e graça de Deus, mediante o mistério mais sublime na história da humanidade. 

A encarnação de Cristo, Mistério por excelência, traduz-se assim como a fonte mais pura e bela da reconciliação e restauração plena do povo de Deus, que outrora tropeçava em sua dureza de coração, mas que agora firma seus passos naqu’Ele que é verdadeiramente o Caminho, a Verdade e a Vida. Tal mistério, pelos desígnios do Altíssimo, exigiu antes o anúncio feito por João, voz que clamava no deserto, pavimentando os corações daqueles que porventura se deixavam guiar pelas veredas dos Céus.  

Se João, pois, resumia a jornada de Israel antes de Cristo, Cristo por sua vez introduz uma nova era na história da Salvação. Sinal de contradição, na contramão dos malfeitores que usurpavam do poder religioso e do prestígio reservado aos santos sacerdotes, Jesus introduz renovada Esperança, superando a estéril Aliança, não a abolindo, mas dando-lhe pleno cumprimento. Nosso Senhor elege para o mundo e a partir deste a Senhora que, diferente da estéril, apresenta-se agora virgem, pura, reluzente, repleta de força e vigor para a geração de uma nova humanidade. 

Assim Maria Santíssima traduz a Igreja, novo podo de Deus, que já não se restringe a um punhado de fiéis errantes, mas sim a uma vasta gama de povos e nações que, ainda hoje, abandonando suas estéreis verdades, dedicam-se à Verdade que é Cristo; que escutando a voz do precursor, dedicam-se a seguir o Caminho, comungando do Santo Sacrifício, do Cordeiro de Deus que de uma vez por todas tira o Pecado do Mundo, e o refaz para jamais jazer no erro, na escuridão. 

A exemplo do precursor, renovados pela profecia que nos liberta de toda escravidão, possamos anunciar com esmero e convicção o mesmo Cristo de ontem, hoje e sempre, perpetuando este reinado de amor e esperança, que rompendo a estéril tristeza da humanidade, a eleva à fértil alegria do novo que nos anuncia Cristo e sua Igreja para toda a eternidade. 

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR) 

Dentre os muitos aspectos das festividades do mês de junho, um que seguramente ocupa o centro da tradição popular é o fogo incandescente na noite de São João. A tradicional “Fogueira de São João”, acendida em meio aos terreiros Brasil afora, aquece não só os transeuntes que passam em seu entorno, como também o coração daqueles que, estimulados pelas canções ao toque das sanfonas e de outros tantos instrumentos, fazem ressoar uníssonos a beleza do canto do sertão. 

Todavia, mais que uma ocasião de festa em torno às chamas, as fogueiras acendidas têm suas origens para além dos festivais a modas soltas. A fogueira de São João é, antes de tudo, um dos símbolos mais potentes das festas juninas, carregando significados que unem a fé cristã a antigas tradições. O elemento fogo atua como uma fonte entre o sagrado, a natureza em seus ciclos e a própria vida comunitária. Para além disto, o fogo carrega um chamado mais profundo que por vezes é quase esquecido, haja vista o propósito cristão que deve primar como a essência do distinto festejo. 

Distraídos com a singeleza do João menino que tem junto a si o dócil cordeiro e impulsionados pelo calor da emoção das grandes festas, muitos esquecem do sinal que a vida de João Batista representa na Sagrada Tradição, desde sua natividade, solenemente celebrada, ao seu martírio, cuja dor repercute na dor de tantos outros massacrados pelo poder tirano. E como dileto sinal, apregoado com veemência pelo Precursor, o fogo assume renovado sentido incandescendo não apenas os olhos do corpo, mas também os do espírito, aquecendo não apenas os corpos enrijecidos pelo frio da roça, mas também o coração espiritual do fiel e da comunidade que comemora. 

“Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu […] Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3,16). Nessa afirmação, o Precursor não apenas define os limites da própria missão, mas abre caminho para a novidade absoluta de Cristo. A água de João purifica o exterior e prepara o arrependimento; o fogo de Jesus penetra as entranhas, consome o pecado e transforma a própria natureza humana. Justamente aí a piedade popular cristã encontra a forma de perpetuar essa transição por meio do acender da fogueira de São João.  

Tal fogueira se desvela como uma metáfora: ela é luz que brilha na escuridão da noite, mas não possui luz própria para se sobrepor ao brilho abundante da luz do dia; ela se consome para apontar o caminho, enquanto anuncia o Sol Nascente que ao fim da noite fria desponta majestoso, como o belo esposo do quarto nupcial, como o valente guerreiro triunfante em seu caminho, traduzindo assim, em elementos simples, a mensagem e o mensageiro, o Cristo anunciado e aquele que com a vida o anunciara, selando com o sangue o romper de uma aurora que até hoje não vê seu fim, antes a perpetuar como o dia da sempiterna e feliz ressureição. 

De tal modo, João Batista distingue-se como a última labareda da Antiga Aliança, o fogo profético que no auge de toda profecia prepara os corações, ardendo, consumindo, mas sem jamais extinguir, antes a fortificar o que o Pecado viera a oprimir. Tais mistérios torne, pois, convictos, os cristãos do tempo presente, para que o batismo de fogo predito por João e concretizado com Cristo em Pentecostes, esteja perenemente a aquecer os filhos e filhas de Deus nas gélidas noites de sua infeliz preponderância, rompendo a partir daí, pela luz divina, as trevas de todo erro e engano.  

Que ao redor das fogueiras acendidas neste nosso Brasil seja partilhada não somente a alegria que revigora a dura lida, mas sobretudo a Esperança que, fruto de tão importante Batismo, regenera e revigora pelo fogo de Cristo a chama acendida não por homens, nem com lenhas de quaisquer campos, mas por Cristo, que do madeiro da Cruz segue sedento por vibrar para sempre em nossos corações.  

 

 

 Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

 

 

Reunimo-nos nesta solenidade em torno do altar não como uma comunidade local isolada, focada unicamente nas próprias necessidades, mas como membros vivos do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja Católica Apostólica Romana. A liturgia e a vida da Igreja nos convidam a realizar um gesto concreto de amor, comunhão e solidariedade: a coleta do Óbolo de São Pedro. Muitos ouvem esse nome e imaginam tratar-se de um imposto eclesiástico, de uma taxa obrigatória ou de uma simples arrecadação financeira para cobrir despesas burocráticas do Vaticano. No entanto, o Óbolo de São Pedro carrega um significado teológico e espiritual profundíssimo que remonta às raízes da nossa fé. Ele representa a união inquebrável de cada católico com o Sucessor de Pedro e o nosso compromisso ativo com as necessidades dos mais pobres e das igrejas que sofrem perseguição e miséria em todo o mundo. 

Para compreendermos a raiz e a beleza dessa tradição, precisamos abrir os Atos dos Apóstolos (At 4,32-35) e observar com atenção como a primeira geração de cristãos vivia. São Lucas relata com clareza que “a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma”. Eles não consideravam suas propriedades como algo exclusivamente seu. Movidos pelo fogo do Espírito Santo e pela urgência do Evangelho, eles vendiam terras e casas e depositavam o valor arrecadado aos pés dos apóstolos. Observem a força desse gesto. Eles não distribuíam o dinheiro de forma autônoma, isolada ou desordenada. Eles entregavam os recursos à autoridade apostólica, para que Pedro e os outros apóstolos administrassem e distribuíssem conforme a necessidade de cada um, garantindo que não houvesse necessitados entre eles. O Óbolo de São Pedro prolonga exatamente essa dinâmica da Igreja primitiva nos dias de hoje. Quando depositamos a nossa oferta nesta coleta, nós estamos, em espírito, colocando os nossos bens aos pés do sucessor de Pedro, o Papa, confiando na sua paternidade espiritual para socorrer as feridas abertas da humanidade. 

A palavra “óbolo” significa originalmente uma moeda de pequeno valor. Esse nome nos remete diretamente a uma lição evangélica essencial que Jesus Cristo nos deixou. O Evangelho de São Marcos (Mc 12,41-44) nos relata o momento exato em que Jesus se senta diante do cofre do Templo e observa as pessoas depositando as suas ofertas. Muitos ricos depositavam grandes quantias e faziam questão de demonstrar o seu poderio econômico, mas tiravam daquilo que lhes sobrava. O sacrifício deles era ilusório. De repente, aproxima-se uma viúva pobre. Ela deposita duas pequenas moedas, que valiam muito pouco financeiramente. Jesus imediatamente chama os seus discípulos e profere um ensinamento que subverte de forma radical a lógica da matemática humana: “Esta pobre viúva deu mais do que todos os outros. Pois todos deram do que lhes sobrava; ela, porém, da sua pobreza, deu tudo o que possuía, tudo o que tinha para viver”. 

Cristo nos ensina que o céu não mede a quantidade do dinheiro, mas mede a quantidade do amor e o tamanho do sacrifício. A viúva entregou a sua própria subsistência nas mãos de Deus. Ela confiou cegamente que o Senhor providenciaria o seu sustento. O Óbolo de São Pedro baseia-se exatamente nessa oferta corajosa da viúva. A Igreja não exige de você cifras exorbitantes que destruam o orçamento da sua família. A Igreja convida você a dar algo que lhe custe, algo que represente um verdadeiro ato de amor e de desapego. Um pequeno sacrifício feito por milhões de católicos em todo o mundo transforma-se em um oceano de misericórdia capaz de lavar a dor de multidões. O Apóstolo Paulo nos ensina na Segunda Carta aos Coríntios (2Cor 9,7): “Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria”. Não oferte com tristeza, nem entregue o seu óbolo como quem paga uma fatura. Oferte com a alegria genuína de quem sabe que participa diretamente da missão salvífica de Cristo. 

O mundo atual sangra através de inúmeras feridas, e muitas delas não aparecem nos noticiários. Nós assistimos diariamente ao rastro de destruição deixado por guerras implacáveis, desastres naturais e secas severas. O Papa, como pastor universal que recebeu de Cristo as chaves do Reino e o mandato de apascentar as ovelhas, escuta o clamor dos que sofrem em lugares esquecidos pelas grandes potências. Ele recebe os apelos de dioceses na África que não possuem recursos mínimos para formar os seus seminaristas. Ele ouve o choro de cristãos no Oriente Médio que perdem suas casas, suas famílias e suas vidas simplesmente porque se recusam a renegar o nome de Jesus Cristo. Ele acolhe as vítimas de terremotos e inundações que perdem absolutamente tudo da noite para o dia. O Santo Padre não pode responder a essas tragédias gigantescas apenas com discursos diplomáticos ou palavras de consolo. Ele responde com ações concretas, enviando ajuda humanitária urgente, financiando a construção de hospitais, mantendo orfanatos e reerguendo escolas. 

No entanto, o Papa só consegue estender as mãos aos mais pobres porque a Igreja inteira sustenta os seus braços. O Óbolo de São Pedro forma o fundo de caridade pessoal do Sucessor de Pedro. Ao participarmos dessa coleta com o nosso suor e com o fruto do nosso trabalho, nós nos tornamos as mãos do Papa tocando a carne sofredora de Cristo nos nossos irmãos mais distantes e desamparados. Além do socorro direto às vítimas das tragédias globais, esta coleta possui uma finalidade vital para a estrutura da Igreja: ela ajuda a sustentar as instituições que auxiliam o Papa na sua árdua missão de guiar o rebanho católico. O Santo Padre precisa de dicastérios, tribunais e nunciaturas apostólicas para levar a voz do Evangelho a todos os cantos da terra, para defender a vida humana desde a concepção até a morte natural e para lutar pela dignidade da família contra as ideologias do nosso tempo. Sustentar o ministério do Sucessor de Pedro significa fortalecer a voz da verdade no mundo. Quando a sociedade laicista tenta silenciar a Igreja e apagar a moral cristã, a nossa generosidade garante que a barca de Pedro continue navegando com firmeza, ensinando a doutrina de Cristo sem ceder às pressões covardes do mundo secularizado. 

Nós vivemos em uma cultura doente que nos empurra constantemente para o egoísmo, para o individualismo e para o consumismo. O mundo grita a plenos pulmões que precisamos acumular, guardar e reter riquezas para garantir uma falsa segurança futura. O Evangelho, pelo contrário, nos garante com autoridade divina que a verdadeira segurança não reside nos bens materiais que acumulamos nos bancos, mas na caridade viva que praticamos na terra. Tudo o que retemos de forma egoísta para nós mesmos, um dia perece. Tudo o que entregamos a Deus, através das mãos calejadas dos pobres, transforma-se imediatamente em um tesouro inesgotável no céu, onde a traça não corrói e o ladrão não rouba. 

Neste domingo, Jesus desafia a nossa fé e nos convida a vencer o medo da escassez. Ele nos chama a ampliar a nossa visão e a enxergar além das paredes confortáveis da nossa própria paróquia. Ao contribuirmos com o Óbolo de São Pedro, nós reafirmamos a nossa identidade católica e a nossa obediência filial. Nós declaramos publicamente, através do nosso bolso, que reconhecemos no Bispo de Roma a pedra sobre a qual Cristo edificou a Sua Igreja invencível. Nós dizemos ao Santo Padre, através do nosso óbolo: “Santidade, o senhor não carrega essa cruz sozinho. Nós caminhamos com o senhor, nós rezamos pelo senhor e nós dividimos o nosso pão com os miseráveis que o senhor abraça”. 

Aproximemo-nos dessa coleta com o coração largo, livre e generoso daquela viúva do Evangelho. Sejamos generosos em colaborar com a solicitude pastoral do amado Papa Leão XIV. Não fechemos as mãos diante da dor excruciante do mundo. Que cada pequena moeda, cada sacrifício oculto, cada renúncia invisível se transforme no fogo da caridade concreta. Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, e os gloriosos apóstolos Pedro e Paulo intercedam pelas nossas famílias e recompensem cem vezes mais, com graças espirituais e materiais, cada ato de generosidade que praticarmos hoje. Confiemos de forma absoluta na providência de Deus, abracem a missão da nossa amada Igreja Universal e ajudem o Sucessor de Pedro a espalhar a luz libertadora de Cristo em meio às trevas da humanidade.