Artigos dos bispos

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

Ao longo do tempo do Advento somos convidados a nos preparar bem para o Natal do Senhor por meio da Novena de Natal. O tempo litúrgico do Advento inicia-se nas vésperas do domingo, dia 30 de novembro, e vai até a tarde da quarta-feira, dia 24 de dezembro. Podemos realizar a Novena de Natal ao longo de todo o Advento; podemos reunir familiares, amigos e a comunidade para rezá-la uma ou duas vezes por semana, de modo que ela se encerre até a tarde do dia 24 de dezembro, véspera de Natal; ou ainda podemos rezá-la em nove dias seguidos. 

A Novena de Natal pode ser realizada também nos nove dias que antecedem o Natal, ou seja, iniciando no dia 16 e concluindo no dia 24 de dezembro. O importante é nos prepararmos bem para acolher o Menino Jesus que chegará no Natal. O principal é a vida, e por isso, a confissão. Para entrarmos no clima natalino não precisamos encher a casa de luzes, Papai Noel ou muitos enfeites. Tudo isso é bonito, mas não é o essencial. A maneira correta de nos prepararmos para o Natal é montar o presépio — colocando o Menino Jesus na manjedoura somente na noite do dia 24 —, montar a coroa do Advento e, a cada celebração da novena, acender as velas conforme avançam as semanas do Advento, além de rezar fielmente a Novena de Natal. 

Precisamos ensinar aos nossos filhos e netos o verdadeiro sentido do Natal, que não se resume a enfeites, presentes e Papai Noel, mas sim a celebrar o nascimento de Jesus. É claro que podemos trocar presentes, confraternizar e nos alegrar uns com os outros, mas sem esquecer o principal motivo de estarmos reunidos: o nascimento do Menino Jesus. Esse é o sentido da Novena de Natal, pois, ao rezá-la, compreenderemos profundamente o verdadeiro significado espiritual do Natal. 

A Novena de Natal pode ser realizada em todo o tempo do Advento, a partir de 30 de novembro, ou no período entre 16 e 24 de dezembro, os nove dias que antecedem o Natal. Outra possibilidade é escolher nove dias de dezembro para rezá-la consecutivamente. Ao longo da Novena e do Advento somos convidados a experimentar a mesma expectativa que envolvia São José e Nossa Senhora ao aguardarem o Senhor que viria. A partir da noite do dia 24, somos tomados por grande alegria, do mesmo modo que São José, Nossa Senhora e todo o povo de Israel. 

Somos convidados a realizar a novena em família, ou reunir grupos de amigos, vizinhos e comunidade para rezarem juntos. Normalmente, as paróquias fazem a abertura e o encerramento da Novena de Natal nas igrejas, e, nos demais dias, cada grupo é convidado a rezar em casa. Alguns grupos, porém, preferem realizá-la todos os dias na própria igreja. A Igreja sempre nos convida a realizar novenas antes das festas dos santos ou das grandes solenidades; com o Natal não é diferente: trata-se de uma forma de nos prepararmos melhor espiritualmente. Ao realizar a Novena de Natal, em particular, preparamos o nosso coração e a nossa casa para a chegada do Messias, que é o verdadeiro sentido da celebração. 

O Natal é, sobretudo, crer na esperança — esperança em dias melhores, em tempos de paz, sem guerras, em que as pessoas se amem mais. Celebrar o Natal é acreditar que Deus nos ama e enviou o seu Filho ao mundo para renovar toda a humanidade. Na Festa da Sagrada Família deste ano encerraremos o Jubileu da Esperança, no qual recordamos os 2025 anos do nascimento de Jesus. Por isso, vivamos essa esperança no dia a dia e confiemos na misericórdia do Senhor, que nunca falha. Peçamos a Deus tempos de paz para a nossa terra. O cristão é aquele que não perde a esperança, que alimenta a sua fé e acredita sempre que dias melhores virão. Que o próximo ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, 2026, seja cheio de paz e nos encontre com a esperança renovada. 

Normalmente, no encerramento da Novena de Natal que acontece nas paróquias, somos convidados a ofertar um gesto concreto, que pode ser 1 kg de alimento para compor a cesta básica de famílias carentes, produtos de limpeza ou algum outro item necessário à paróquia. O encerramento costuma ocorrer no final de semana entre os dias 20 e 21 de dezembro, ou ainda entre os dias 22 e 23 de dezembro, que este ano caem em segunda e terça-feira. 

As paróquias pedem esse gesto concreto porque o Natal só tem sentido quando estendemos a mão ao próximo. Do mesmo modo que em nossa casa teremos o melhor à mesa, é preciso que também na mesa do outro haja o necessário. A esperança em um mundo melhor começa na atitude de cada um de nós. 

Não podemos celebrar o Natal sem olhar para as necessidades daqueles que estão à nossa volta. Jesus nasceu pobre e humilde, numa manjedoura, e ao longo da vida ensinou-nos o desapego dos bens materiais e a busca contínua do bem maior, que é Deus. Aprendamos com Jesus e encontremos Deus naqueles que mais sofrem, estendendo-lhes a mão, sobretudo agora, no tempo de Natal. 

A Novena de Natal é também uma oportunidade de fazermos uma “catequese” em nossa casa ou na casa de parentes, amigos e vizinhos. É ocasião para reunir aqueles que estão afastados dos caminhos de Deus e convidá-los a retornar ao seio da Igreja. Ao rezarmos a Novena na casa dos vizinhos — especialmente daqueles que sabemos que não frequentam a paróquia — podemos levar a programação com os horários de missa, confissões, sacramentos e celebrações de fim de ano, convidando-os a retornar, quem sabe já nas celebrações natalinas. A Novena de Natal pode ser missionária, pois a missão consiste em ir ao encontro do outro. 

Durante os nove dias da Novena, somos convidados a seguir os passos de Maria e José até o nascimento de Jesus. Podemos contemplar o quanto caminharam e os desafios que enfrentaram para que Maria pudesse dar à luz o Salvador. E, ainda assim, tiveram de fazê-lo numa estrebaria, pois não havia lugar na hospedaria. Caminhemos com eles e aprendamos o que significa obedecer a Deus. 

Que possamos rezar a Novena de Natal cheios de fé e esperança, aguardando o Senhor que virá, aproveitando este tempo marcado pela vigilância e pela oração. Que Deus nos abençoe e nos conceda muitas bênçãos do céu durante a novena que iremos realizar. E que o Menino Deus nasça em cada lar, trazendo-nos a esperança de dias melhores. Amém.  

 

Dom José Gislon
Bispo de Caxias do Sul (RS)

 

 

Estimados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! Estamos iniciando o tempo do Advento e as quatro semanas que antecedem o Natal são de preparação, com uma intensa vida de oração e meditação para revivermos na fé o nascimento do Senhor Jesus, o Filho de Deus. Ele veio assumir, numa forma humilde e singela, a natureza humana, dentro do projeto de amor do Pai, de redimir a humanidade ferida pela dor do pecado.  

O Advento é esse tempo de preparação para participarmos da Festa do Natal. Mas, a nossa preocupação não deveria ser, em primeiro lugar, com o nosso exterior, e sim com o nosso interior. Às vezes, manifestamos uma exagerada preocupação em iluminar a casa e o jardim, o que é muito bonito e naturalmente contribui para lembrar que “Jesus é a luz do mundo”. Mas corremos o risco de deixar na escuridão o nosso coração, porque temos medo de abrir suas portas e janelas para que entrem a luz do amor, da paz, da esperança, da justiça e da caridade, que nos fazem ver o “rosto” do menino que nasceu em Belém no rosto das crianças, dos jovens e dos idosos que vivem em situações de exclusão e abandono, na nossa realidade social. 

O tempo de Advento é para ser vivido na espera e esperança, para celebrar a festa do Natal. Ele faz sonhar as crianças, mas também faz aflorar nos nossos corações de adultos recordações que marcaram a nossa vida de infância, no contexto familiar e comunitário. Mas o Advento também é um tempo privilegiado para tornarmos a ter grandes sonhos sobre a nossa vida, sobre o mundo e sobre a história humana. O sonho, quando é alimentado pela palavra de Deus, não é o lugar dos saudosismos ou dos idealismos, mas aquele onde a providência de Deus se faz concreta, histórica e possível; onde o projeto de amor de Deus encontra espaço no nosso coração e nos envolve numa corrente do bem, como construtores e promotores de paz, da justiça e da caridade, como “peregrinos de esperança”. 

Permita-me fazer a você uma pergunta? Qual é o gesto de amor que você vai fazer neste tempo do Advento, que fala da presença do Senhor na sua vida? O seu gesto de amor e caridade pode fazer a diferença na vida de uma ou de muitas pessoas. Você pode, através do teu gesto de amor e caridade, ajudar a manter viva a mensagem de amor, de paz e esperança do Santo Natal. 

Depois de mais de dois mil anos, a mensagem de paz, de amor, de solidariedade e de esperança do Natal continua tocando o coração de muitas crianças e adultos. Diante da alegria e do encanto de uma criança com os símbolos do Natal, nós, adultos, somos levados a refletir sobre as pequenas e belas coisas da vida que fomos perdendo no caminho que percorremos. O significado do Natal pode ter ficado na memória de um passado distante ou, quem sabe, fomos abandonando sua mensagem, deixando-a agonizar à margem da nossa vida, na medida em que os nossos passos e o tempo nos levaram para a realidade dos adultos. Perdemos o encanto de contemplar o brilho das estrelas, de contar pequenas estórias e falar das coisas do coração, que fazem bem à nossa vida, à nossa alma, nos enchem de esperança e ainda nos fazem sonhar, sem deixar de amar quem está ao nosso lado, porque alguém veio de muito longe para nos amar e falar do amor de Deus por nós. Não de um amor pequeno, mesquinho e egoísta, mas de um amor que tem a imensidão do universo e o sentido da eternidade, e está ao alcance dos corações dos “peregrinos de esperança”, que percorrem as estradas deste mundo, mas tem como “meta” a casa do Pai. 

 

 

 Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)

 

O Advento chega sempre como quem acende uma vela no escuro. De repente, a pequena chama abre espaço na noite e revela que há algo mais: um caminho, uma promessa, um horizonte que insiste em nascer. Em um mundo fatigado por urgências, distrações e um presente que muitas vezes parece repetir-se sem sentido, o Advento é a estação espiritual que nos devolve a coragem de esperar — não de braços cruzados, mas com o coração aceso. 

A liturgia deste tempo recorda que a fé cristã não é memória de um passado remoto, mas vigília pelo Cristo que vem. A Igreja convida-nos a entrar num tempo em que o futuro de Deus se torna urgente, quase palpável. A cada ano, a comunidade cristã repete com os primeiros discípulos: “Vem, Senhor!” – não como devoção ingênua, mas como confissão madura de que a criação inteira geme e sofre à espera de plenitude. O Advento, por isso, não celebra apenas o nascimento de Jesus em Belém; ele reacende em nós a esperança obstinada de sua vinda gloriosa, quando toda lágrima será enxugada e a justiça terá a última palavra. 

Entre ruídos do mundo e a casa interior 

No fundo, este tempo é uma provocação. A pergunta que ressoa, delicada e firme, é: ainda sabemos esperar? Entre telas luminosas, rotinas aceleradas e uma avalanche de informações, corremos o risco de perder a interioridade — aquela casa silenciosa onde Deus costuma falar. O Advento devolve-nos essa morada interior. Ensina que a verdadeira preparação acontece quando voltamos ao coração, onde o Espírito mantém viva a inquietação dos que buscam o Senhor como a aurora. 

Os antigos Padres afirmavam que o cristão é aquele que permanece vigilante, “sabendo que o Senhor vem”. Mas, para muitos, o Advento tornou-se apenas prólogo do Natal, uma espécie de cenário decorativo antes das festas. O texto que inspira esta reflexão denuncia esse perigo: a regressão simplória que reduz o Mistério à lembrança de um bebê na manjedoura. Quando isso acontece, empobrece-se a esperança cristã e perde-se a força transformadora deste tempo. O Advento não celebra apenas o Deus que veio — celebra o Deus que virá e que já vem hoje, misteriosamente, em cada gesto de justiça, em cada recomeço, em cada partilha. 

Há uma tensão bonita neste tempo: caminhamos “pela fé e não pela visão”. A salvação já foi inaugurada, mas ainda não chegou em sua plenitude. Vivemos entre o “já” e o “ainda não”, sustentados por uma esperança que não decepciona. Por isso, o Advento é o tempo dos que não desistem de acreditar que Deus reserva ao mundo um futuro de luz; tempo dos que lutam por dignidade, enfrentam a violência e caminham com os pobres à espera do dia em que a verdade brilhará como sol sem ocaso. 

Vigiar, discernir e manter a chama acesa 

Teilhard de Chardin perguntava: “Cristãos, que fizemos da espera do Senhor?” O Advento devolve atualidade a essa pergunta. Ele convoca-nos a manter acesa, sobre a terra, a chama do desejo. Ensina-nos a reconhecer os sinais discretos da chegada de Deus: um perdão concedido, uma reconciliação que parecia improvável, uma comunidade que reza e trabalha pela paz. A vinda do Senhor acontece onde há gestos de ternura, onde vidas feridas encontram cuidado, onde a justiça floresce mesmo em meio ao frio da noite. 

Celebrar o Advento é ousar acreditar que Deus vem ao nosso encontro — não apenas no final dos tempos, mas já agora, no entrelaçar da história humana com a história da graça. É permitir que a promessa do Reino reoriente nossas escolhas, desperte nossa solidariedade e renove nossa missão. É caminhar com o coração atento, como vigias que pressentem a aurora antes que ela apareça. 

Que este Advento reacenda em nós a chama do desejo de Deus. Que se abram nossos olhos para perceber sua passagem. Que despertemos para a urgência de sua vinda. E que nossa vida inteira se transforme em oração antiga e sempre nova: 

“Vem, Senhor Jesus!”