Artigos dos bispos

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR) 

 

Continuamos, nesta terceira etapa do “caminho do advento”, a preparar a vinda do Senhor. Chamado “domingo Gaudete”, este terceiro domingo do advento convida-nos à alegria: a vinda do Senhor aproxima-se; a nossa libertação está cada vez mais perto. 

Na primeira leitura um profeta anónimo anuncia aos habitantes de Judá, exilados na Babilônia, que estão a acabar os anos de tristeza e que vão finalmente chegar os tempos novos da alegria e da esperança. Porquê? Porque Deus “aí está para fazer justiça”. Ele vai intervir na história, vai salvar Judá do cativeiro, vai abrir uma estrada no deserto para que o seu Povo, em procissão triunfal, possa regressar a Sião. Deus nunca desiste dos seus queridos filhos. 

No Evangelho, o próprio Jesus define a missão que o Pai lhe confiou quando o enviou ao encontro dos homens: dar vista aos cegos e tirá-los da escuridão onde se afundam, libertar os coxos de tudo aquilo que os impede de caminhar, curar os leprosos e reintegrá-los na família de Deus, abrir os ouvidos dos surdos que vivem fechados no seu mundo autossuficiente, devolver a vida àqueles que se sentem às portas da morte, anunciar aos pobres a “Boa Notícia” do amor de Deus. Com Jesus, o Reino de Deus chegou à vida e à história dos homens. 

Na segunda leitura um tal Tiago, que se apresenta como “servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo”, avisa os pobres, vítimas das prepotências dos poderosos, que o Senhor, o “juiz” dos homens, está a chegar para fazer justiça. A sua vinda irá libertá-los da opressão a que têm estado sujeitos. Enquanto esperam, os pobres devem colocar a sua confiança em Deus e continuar a percorrer, com fidelidade e sem desânimo, o seu caminho que têm à frente. 

Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)

 

Quando chegam os primeiros dias do Advento, minha memória sempre retorna àquela cena doméstica que marcou a minha infância: meu pai começando a preparar o material para o presépio. Era quase um ritual. Enquanto minha mãe cuidava da árvore, que nós chamávamos de “pinheirinho” meu pai assumia a missão de transformar um canto da sala da casa numa pequena Belém. E ele fazia isso de modo pedagógico, envolvendo os filhos na construção da gruta, como quem ensina um ofício sagrado. 

Lembro-me do cuidado dele ao tingir a serragem que seria a grama do presépio, espalhando os tons de verde para dar mais vida ao cenário. Depois, vinham os papéis pintados à mão, pacientemente amassados e moldados, para parecerem pedras reais. A gruta se erguia devagar, entre risos, poeira colorida, pincéis, cola e aquela expectativa que só as crianças conhecem. Meu pai também cuidava das luzes, porque – como ele dizia – a manjedoura precisava brilhar, mas brilhar com humildade. 

Meu pai partiu cedo. Mas, até hoje, nos dias que antecedem o Natal, é como se suas mãos continuassem ali, ensinando, orientando, construindo. Essa memória não é apenas lembrança; é formação. Foi ali, naquele presépio simples, que aprendi que a fé se transmite pelos olhos, pelas mãos, pelo convívio, pelo amor concreto de uma família que prepara o coração para o Natal. Montar o presépio era mais que montar um cenário: era aprender a viver o Nascimento de Jesus Cristo. 

O presépio como escola de fé 

É nesse espírito que o Papa Francisco escreveu a carta apostólica Admirabile Signum, recordando ao mundo a importância de manter viva essa tradição. Segundo ele, o presépio é um “sinal admirável”, capaz de reacender a memória da fé e tocar o coração. O presépio nos educa porque fala através dos símbolos e desperta aquela ternura que nos aproxima de Deus. 

De fato, montar o presépio hoje é um gesto contracultural. Em meio à pressa, ao consumo exacerbado e à superficialidade das imagens, o presépio nos obriga a parar e contemplar. Ele devolve profundidade ao Natal, lembrando que o centro da festa não é a árvore iluminada nem os presentes, mas o Deus que se faz pequeno numa manjedoura. O presépio é uma miniatura da humildade divina — um Evangelho moldado em figuras simples. 

Cada peça carrega significados que atravessam gerações. Os pastores representam os pobres e esquecidos que Deus coloca em primeiro lugar. Os Magos lembram a universalidade da fé, que abraça todos os povos. A luz discreta nos conta que a esperança não entra no mundo com estrondo, mas com suavidade. A gruta evoca nossas próprias sombras, que Cristo vem iluminar. E no centro, sempre, o Menino – tão frágil que cabe no colo, tão grande que sustenta o mundo. 

Tradição que se torna missão 

Por isso, montar o presépio é também criar memória espiritual. É oferecer às crianças — como fez meu pai — a herança de uma fé concreta, vivida, encarnada. O presépio instalado na casa se torna catequese visual: fala de proximidade, simplicidade, humildade e amor. 

O Papa Francisco destaca que o presépio toca o coração mesmo de quem não participa da vida da Igreja. Ele revela a ternura de Deus e recorda que a fé cristã nasce da contemplação de um mistério que se entrega. Por isso, o presépio não é apenas tradição; é anúncio. Ele evangeliza porque emociona. Ele ensina porque comove. Ele reúne porque desperta comunhão. E quando as mãos das crianças ajustam a gruta, quando colocam a serragem, quando alinham as figuras, um aprendizado precioso se transmite: o Natal começa no coração. 

Dom Antonio Carlos Rossi Keller

Bispo de Frederico Westphalen (RS)

 O 3º Domingo do Advento, conhecido como Domingo Gaudete — que significa “Alegrai-vos” em latim —, marca um momento de alegria intensa na preparação para o Natal. As vestes litúrgicas podem ser as de cor em tom rosa, simbolizando essa alegria pela proximidade da vinda do Senhor. Neste ano, as leituras enfatizam a esperança transformadora e a paciência confiante, convidando os fiéis a experimentarem uma alegria profunda e autêntica. 

A mensagem central deste domingo é a alegria que brota da certeza da salvação iminente, uma alegria que não é superficial ou passageira, mas enraizada na liberdade humana concedida por Deus. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica (CIC 1730), Deus criou o homem racional e livre, dotado de dignidade para buscar seu Criador espontaneamente e aderir a Ele com amor. Essa liberdade não é mera autonomia arbitrária, mas o poder de escolher o bem (CIC 1731), que nos torna verdadeiramente humanos e imputáveis por nossos atos (CIC 1735). No contexto do Advento, essa liberdade produz uma alegria não enganosa ao ser fundamentada na fé em Cristo, que nos liberta da escravidão do pecado (CIC 1739–1742). Assim, o Domingo Gaudete nos convida a rejubilar não por ilusões mundanas, mas pela graça que nos capacita a viver o bem moral, gerando uma felicidade eterna e autêntica, como a prometida na vinda do Messias. 

Primeira Leitura: Isaías 35,1-6a.10 

Nesta profecia, Isaías descreve a transformação do deserto em um lugar de florescimento e alegria, onde os cegos veem, os surdos ouvem e os oprimidos são libertados. A mensagem é de esperança restauradora: Deus vem para salvar e fortalecer os fracos. Inspirado no Catecismo (CIC 1733), vemos aqui que a verdadeira liberdade surge ao escolher o bem divino, libertando-nos das limitações humanas e produzindo uma alegria fundamentada na fé, não em falsas promessas. Essa visão profética nos lembra que a salvação de Deus nos torna livres para rejubilar, como os resgatados que voltam a Sião com cânticos eternos. 

Segunda Leitura: Tiago 5,7-10 

São Tiago exorta os cristãos à paciência, comparando-a à espera do agricultor pela chuva preciosa, até a vinda do Senhor. Ele alerta contra murmurações e incentiva a perseverança, tendo os profetas como modelo. A liberdade cristã é aperfeiçoada pela graça, que nos liberta do pecado e nos orienta para o amor. Essa paciência não é passividade, mas uma escolha livre que gera alegria autêntica, fundamentada na fé na proximidade do Juiz, evitando julgamentos precipitados e promovendo a unidade fraterna (CIC 1741). 

Evangelho: Mateus 11,2-11 

João Batista, preso, envia discípulos para perguntar a Jesus se Ele é o que virá para a salvação de todos. Jesus responde citando milagres que cumprem as profecias: cegos veem, coxos andam, pobres são evangelizados. Ele elogia João como o maior entre os nascidos de mulher, mas o menor no Reino é maior que ele.  

A liberdade à qual somos chamados atesta que somos imagem de Deus, e aqui vemos Jesus convidando à fé livre, que reconhece os sinais divinos. Essa adesão gera uma alegria não enganosa, mas profunda, pois nos liberta das dúvidas e nos insere no Reino, onde a humildade e a confiança produzem felicidade eterna (CIC 1734). 

Indicações Práticas para Viver o Espírito deste Domingo. 

Para viver o espírito do Domingo Gaudete, inspiremo-nos na liberdade para a qual Deus nos chama, que nos leva a escolhas morais que geram alegria verdadeira.  

De forma bem concreta, podemos começar cultivando a paciência diária, como sugere São Tiago: evitar julgamentos rápidos no trabalho ou na família, optando por diálogos construtivos que libertam das amarras do ressentimento (CIC 1738).  

Dedicar tempo à oração contemplativa, reconhecendo os “milagres” cotidianos, como Jesus no Evangelho, para fortalecer a fé e a liberdade interior (CIC 1742). 

Atuar com caridade: visitar alguém necessitado ou doar bens, exercendo a liberdade de escolher o bem, que nos torna mais livres e alegres.  

Por fim, celebrar a liturgia sempre com alegria, fundamentando nossa participação no acolher a Graça que nos salva do pecado e nos leva à felicidade autêntica na fé.