{"id":1000286,"date":"2026-05-25T09:00:11","date_gmt":"2026-05-25T12:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=1000286"},"modified":"2026-05-25T09:00:11","modified_gmt":"2026-05-25T12:00:11","slug":"a-primeira-enciclica-de-leao-xiv-a-ia-deve-servir-a-humanidade-nao-ao-poder-de-poucos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-primeira-enciclica-de-leao-xiv-a-ia-deve-servir-a-humanidade-nao-ao-poder-de-poucos\/","title":{"rendered":"A primeira enc\u00edclica de Le\u00e3o XIV: a IA deve servir \u00e0 humanidade, n\u00e3o ao poder de poucos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA magn\u00edfica humanidade criada por Deus encontra-se hoje diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/leo-xiv\/pt\/encyclicals\/documents\/20260515-magnifica-humanitas.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">primeira enc\u00edclica de Le\u00e3o XIV &#8211; Magnifica humanitas, \u201csobre a salvaguarda da pessoa humana na era da intelig\u00eancia artificial\u201d<\/a> &#8211; resume suas raz\u00f5es fundamentais e seu objetivo. Publicada hoje, segunda-feira, 25 de maio, foi assinada pelo Pont\u00edfice no \u00faltimo dia 15 de maio, no 135\u00ba anivers\u00e1rio da promulga\u00e7\u00e3o da Rerum novarum de Le\u00e3o XIII. E de seu predecessor, o Papa Prevost recolheu a heran\u00e7a, escrevendo uma enc\u00edclica social que aborda um dos principais desafios da \u00e9poca contempor\u00e2nea: a intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dividida em cinco cap\u00edtulos, Magnifica humanitas parte de um pressuposto: a tecnologia n\u00e3o \u00e9 uma \u201cfor\u00e7a antag\u00f4nica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa\u201d (4), nem \u201cum mal em si mesma\u201d (9). No entanto, ela \u201cn\u00e3o \u00e9 neutra, pois assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam\u201d. Da\u00ed, o apelo do Pont\u00edfice para \u201cconstruir o bem\u201d e \u201cpermanecer humanos\u201d, seguindo a l\u00f3gica da corresponsabilidade corajosa e da comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>Acesse (<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/leo-xiv\/pt\/encyclicals\/documents\/20260515-magnifica-humanitas.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>) na \u00edntegra.<\/p>\n<p>Veja o lan\u00e7amento na \u00edntegra:<\/p>\n<div class=\"ast-oembed-container\" style=\"height: 100%;\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Presenta\u00e7\u00e3o da Carta Enc\u00edclica \u201cMagnifica Humanitas\u201d, 25 de maio de 2026 \u2013 Papa Le\u00e3o XIV\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/C631uadEVok?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A Doutrina Social da Igreja<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro cap\u00edtulo &#8211; Um pensamento din\u00e2mico fiel ao Evangelho \u2013 repercorre a Doutrina Social da Igreja (DSI) no magist\u00e9rio recente e no Conc\u00edlio Vaticano II, destacando \u201co seu car\u00e1ter din\u00e2mico\u201d (17). Longe de ser \u201cum manual de princ\u00edpios e normas a serem aplicados\u201d, a DSI \u00e9 antes uma \u201cteologia da comunh\u00e3o na hist\u00f3ria\u201d (27) que orienta a leitura dos acontecimentos \u00e0 luz do Evangelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No segundo cap\u00edtulo, Le\u00e3o XIV enumera os Fundamentos e princ\u00edpios da Doutrina Social da Igreja: entre os primeiros, inclui a dignidade da pessoa, criada \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus; a inviolabilidade dos direitos humanos, entre os quais o direito \u00e0 vida \u201cdesde a concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao seu fim natural\u201d; o reconhecimento dos direitos das minorias, com especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, para que sejam verdadeiramente ouvidas e valorizadas (57).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">\u00c9 inaceit\u00e1vel subjugar uma na\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto aos princ\u00edpios da DSC, Le\u00e3o XIV aponta cinco: o primeiro \u00e9 o bem comum, \u201cforma social da dignidade reconhecida a cada um\u201d (59). Em um ponto, o Papa \u00e9 particularmente firme: \u201cA promo\u00e7\u00e3o do bem comum nunca pode ser separada do respeito ao direito dos povos de existir, de preservar sua identidade e de contribuir com sua originalidade para a fam\u00edlia das na\u00e7\u00f5es\u201d. Consequentemente, \u201cqualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma na\u00e7\u00e3o \u00e9 gravemente imoral e, portanto, inaceit\u00e1vel\u201d (64).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A tecnologia n\u00e3o deve estar nas m\u00e3os de poucos<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo princ\u00edpio diz respeito \u00e0 destina\u00e7\u00e3o universal dos bens: a\u00ed e em outros pontos da enc\u00edclica, Le\u00e3o XIV insiste na necessidade de que as tecnologias n\u00e3o se concentrem nas m\u00e3os de poucos, alimentando a disparidade entre os inclu\u00eddos e os exclu\u00eddos da revolu\u00e7\u00e3o digital (67). Da\u00ed decorrem o terceiro e o quarto princ\u00edpios, a saber, a subsidiariedade (68) \u2013 que exige a supera\u00e7\u00e3o do paternalismo e do assistencialismo em favor da corresponsabilidade \u2013 e a solidariedade (73), \u201cprinc\u00edpio e virtude\u201d que se op\u00f5e \u00e0 indiferen\u00e7a.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A justi\u00e7a social<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O quinto princ\u00edpio da DSC \u00e9 a justi\u00e7a social: na era digital, ela deve garantir a todos um acesso equitativo \u00e0s oportunidades, proteger os mais vulner\u00e1veis, combater o \u00f3dio e a desinforma\u00e7\u00e3o e submeter o uso das tecnologias ao controle p\u00fablico. Le\u00e3o XIV aponta os migrantes como um \u201cteste decisivo\u201d nesse campo: a maneira como a sociedade os trata demonstra \u201cse a ideia de justi\u00e7a \u00e9 guiada pelo medo ou pela fraternidade\u201d. Da\u00ed, o apelo tanto para salvaguardar \u201co direito \u00e0 esperan\u00e7a\u201d daqueles que s\u00e3o for\u00e7ados a partir, garantindo-lhes vias seguras e legais, acolhimento digno e integra\u00e7\u00e3o; quanto para promover \u201co direito de permanecer\u201d de cada um em sua terra, em paz e seguran\u00e7a, enfrentando \u201cas causas profundas\u201d das migra\u00e7\u00f5es (81). O Pont\u00edfice entende que os cinco princ\u00edpios acima mencionados se dirigem tamb\u00e9m \u00e0 Igreja, chamada a \u201cum exame de consci\u00eancia\u201d, a ouvir as \u201cv\u00edtimas de abusos espirituais, econ\u00f4micos, institucionais, sexuais, de poder e de consci\u00eancia\u201d, pois isso \u201c\u00e9 parte integrante de um caminho de justi\u00e7a, que compreende o reconhecimento do dano, a repara\u00e7\u00e3o justa e a preven\u00e7\u00e3o\u201d (89).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Um c\u00f3digo \u00e9tico para a IA<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terceiro cap\u00edtulo \u2013\u00a0T\u00e9cnica e dom\u00ednio. A grandeza da pessoa humana diante das promessas da IA\u00a0\u2013 ressalta que \u00e9 preciso abordar a IA com cautela, mantendo clareza sobre as responsabilidades em todas as suas etapas (accountability) e apostando em pol\u00edticas e marcos jur\u00eddicos adequados, vigil\u00e2ncia independente e educa\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios. Acima de tudo, \u00e9 necess\u00e1rio um c\u00f3digo \u00e9tico submetido a crit\u00e9rios de justi\u00e7a social compartilhada, pois \u201cn\u00e3o serve uma IA mais moral se essa moral for decidida por poucos\u201d (107). Sem deixar de lado o impacto ambiental das novas tecnologias, que exigem grandes quantidades de energia e \u00e1gua, afetando a Cria\u00e7\u00e3o (101).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Desarmar a IA<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso \u201cdesarmar a IA\u201d \u2013 prossegue Le\u00e3o XIV \u2013 para subtra\u00ed-la \u00e0 l\u00f3gica da competi\u00e7\u00e3o militar, econ\u00f4mica e cognitiva; para romper a equival\u00eancia entre poder t\u00e9cnico e direito de governar; para subtra\u00ed-la aos monop\u00f3lios e impedir que domine o humano. Amplo espa\u00e7o \u00e9 dedicado \u00e0 cr\u00edtica do\u00a0transumanismo\u00a0e do\u00a0p\u00f3s-humanismo, que interpretam o progresso como a supera\u00e7\u00e3o dos limites do humano. Em vez disso, o limite n\u00e3o \u00e9 um defeito a ser eliminado, mas uma dimens\u00e3o constitutiva da pessoa, pois \u00e9 na fragilidade e na finitude que amadurecem a rela\u00e7\u00e3o e a abertura a Deus e ao outro. Fazer a tecnologia crescer eliminando os limites do humano significa, portanto, fazer o cora\u00e7\u00e3o regredir. Magn\u00edfica e, ainda assim, ferida, a humanidade \u201cn\u00e3o deve ser substitu\u00edda nem superada\u201d. A tecnologia pode aliviar seus sofrimentos e abrir-lhe novas possibilidades, mas n\u00e3o deve neg\u00e1-la naquilo que lhe \u00e9 pr\u00f3prio: \u201ca capacidade de rela\u00e7\u00e3o e de amor\u201d (126). Diante da IA, a verdadeira alternativa n\u00e3o est\u00e1 entre o entusiasmo e o medo, mas entre duas formas de construir o progresso: a servi\u00e7o da pessoa e dos povos ou das l\u00f3gicas do poder (129).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Uma ecologia da comunica\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">No quarto cap\u00edtulo \u2013\u00a0Preservar o humano na transforma\u00e7\u00e3o. Verdade, trabalho, liberdade\u00a0\u2013, a enc\u00edclica defende uma \u201cecologia da comunica\u00e7\u00e3o\u201d baseada na verdade. O Papa pede transpar\u00eancia nos crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o de conte\u00fados, prote\u00e7\u00e3o dos dados pessoais, um jornalismo s\u00e9rio fundamentado na argumenta\u00e7\u00e3o e na verifica\u00e7\u00e3o, uma nova consci\u00eancia no uso \u201ccorreto e cr\u00edtico\u201d da IA e a integra\u00e7\u00e3o dos conhecimentos. Uma comunica\u00e7\u00e3o transparente e leal \u00e9 exigida tamb\u00e9m da Igreja, sobretudo nos casos de injusti\u00e7as e abusos. \u00c9 fundamental tamb\u00e9m o apelo a uma alian\u00e7a educativa renovada, para que nos jovens n\u00e3o se apague \u201co desejo de fazer perguntas\u201d por causa de m\u00e1quinas perfeitas que fazem parecer in\u00fatil o pensamento humano (140). Le\u00e3o XIV pede ainda que se aposte na escola como lugar onde se aprende a \u201cbuscar e amar a verdade\u201d (147).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A dignidade do trabalho<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u201cquarta revolu\u00e7\u00e3o industrial\u201d representada pela transi\u00e7\u00e3o digital, o Pont\u00edfice ressalta ent\u00e3o a import\u00e2ncia de proteger a dignidade do trabalho, projetando sistemas centrados na pessoa e n\u00e3o apenas no desempenho. A tecnologia pode certamente aliviar o homem de tarefas pesadas ou repetitivas, mas n\u00e3o deve levar ao desemprego em nome da redu\u00e7\u00e3o de custos e do aumento do lucro. Nesse sentido, espera-se tamb\u00e9m uma renova\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es sindicais.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Paz e desenvolvimento<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Pont\u00edfice destaca, em seguida, a necessidade de superar o PIB como par\u00e2metro do grau de desenvolvimento de um pa\u00eds, apostando, em vez disso, na dignidade do trabalho, na prosperidade compartilhada, na redu\u00e7\u00e3o das desigualdades e na preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente. A finan\u00e7a pela finan\u00e7a \u00e9, de fato, diferente da finan\u00e7a para o desenvolvimento (159-160). E, seguindo os passos de S\u00e3o Paulo VI, destaca-se a interdepend\u00eancia entre paz e desenvolvimento, almejando uma coopera\u00e7\u00e3o internacional capaz de definir estrat\u00e9gias comuns, sobretudo em favor dos pa\u00edses e dos grupos mais vulner\u00e1veis, pois a prosperidade contribui para a paz \u201csomente se for difundida, inclusiva e sustent\u00e1vel\u201d (163). \u00c9 forte, ainda, a refer\u00eancia \u00e0 fam\u00edlia, fundada na uni\u00e3o est\u00e1vel entre um homem e uma mulher: ela \u00e9 \u201cbem social prim\u00e1rio\u201d, \u201cc\u00e9lula fundamental e insubstitu\u00edvel de toda organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria\u201d (165), que deve ser apoiada tamb\u00e9m por meio de pol\u00edticas do trabalho em favor da estabilidade e de ritmos humanos, para assim proteger a capacidade social de \u201cconstruir o futuro\u201d.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A \u201carquitetura da visibilidade\u201d<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, a quest\u00e3o da liberdade humana: numa \u00e9poca em que as plataformas digitais s\u00e3o projetadas para capturar o tempo dos usu\u00e1rios e explorar suas fragilidades, \u00e9 preciso fortalecer a liberdade interior de cada um, enfrentando tamb\u00e9m o risco do controle social decorrente da coleta massiva de dados e do uso de sistemas algor\u00edtmicos. Perfilar, prever e orientar comportamentos, de fato, \u00e9 \u201cum novo poder\u201d (171) que corre o risco de discriminar os mais fracos. O Papa deplora, em particular, a \u201carquitetura da visibilidade\u201d que amplifica apenas o que \u00e9 vis\u00edvel, moldando as opini\u00f5es.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Novas formas de escravid\u00e3o e novo colonialismo<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A IA tamb\u00e9m gera novas formas de escravid\u00e3o, como a dos \u201ccorpos marcados, mutilados, consumidos\u201d (173) daqueles que trabalham na extra\u00e7\u00e3o das \u201cterras raras\u201d necess\u00e1rias \u00e0 tecnologia. Portanto, a luta contra as novas formas de escravid\u00e3o \u00e9 outro \u201cteste decisivo para o discernimento \u00e9tico\u201d da transforma\u00e7\u00e3o digital. Le\u00e3o XIV ressalta que \u201ca Igreja renova sua firme condena\u00e7\u00e3o contra toda forma de escravid\u00e3o, tr\u00e1fico e mercantiliza\u00e7\u00e3o de pessoas\u201d. Ao mesmo tempo, o Papa pede \u201csinceramente perd\u00e3o\u201d pelo atraso com que a Igreja, no passado, condenou \u201co flagelo da escravid\u00e3o\u201d (174-176). A enc\u00edclica tamb\u00e9m faz refer\u00eancia \u00e0s \u201cnovas terras raras do poder\u201d, ou seja, as informa\u00e7\u00f5es vitais \u2013 por exemplo, sobre sa\u00fade e demografia \u2013 utilizadas para orientar estrat\u00e9gias econ\u00f4micas: trata-se de uma face in\u00e9dita do colonialismo que transforma vidas pessoais em informa\u00e7\u00f5es explor\u00e1veis, tornando o ambiente digital um \u201cespa\u00e7o de preda\u00e7\u00e3o\u201d (178-179).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Superar a teoria da \u201cguerra justa\u201d<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">No quinto cap\u00edtulo \u2014\u00a0A cultura do poder e a civiliza\u00e7\u00e3o do amor\u00a0\u2014, Le\u00e3o XIV volta seu olhar para a guerra: \u201cA revolu\u00e7\u00e3o digital est\u00e1 modificando a gram\u00e1tica dos conflitos\u201d e, sem uma abordagem \u00e9tica, as decis\u00f5es sobre a vida e a morte das pessoas ser\u00e3o cada vez mais impessoais, com o recurso \u00e0 for\u00e7a considerado uma \u201cop\u00e7\u00e3o imediata e vi\u00e1vel\u201d (182-183). Na base de tudo est\u00e1 uma \u201ccultura do poder\u201d que normaliza a guerra e a reabilita como \u201cinstrumento de pol\u00edtica internacional\u201d, favorecendo o rearmamento. Sobre a opini\u00e3o p\u00fablica pesam hoje tamb\u00e9m as narrativas midi\u00e1ticas polarizadoras, bem como \u201cuma preocupante perda de mem\u00f3ria hist\u00f3rica\u201d que priva de uma vis\u00e3o de longo prazo (191). Consequentemente, hoje a paz n\u00e3o \u00e9 mais entendida como uma tarefa a ser assumida, mas como um intervalo entre os conflitos. Por isso, Le\u00e3o XIV reitera que \u2013 sem preju\u00edzo do direito \u00e0 leg\u00edtima defesa no sentido mais estrito \u2013 \u00e9 preciso superar a teoria da \u201cguerra justa\u201d, promovendo, em vez disso, o di\u00e1logo, a diplomacia e o perd\u00e3o (192).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Nenhum algoritmo torna a guerra moralmente aceit\u00e1vel<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Prevost n\u00e3o deixa de deplorar o crescimento da ind\u00fastria b\u00e9lica, a corrida aos armamentos nucleares e o surgimento de novos atores armados \u2013 entre os quais os jihadistas \u2013 que visam perpetuar os conflitos como fonte de poder e de renda. \u00c9 clara, ainda, a advert\u00eancia contra o uso de armas ligadas \u00e0 IA, pois \u201cn\u00e3o existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceit\u00e1vel\u201d. S\u00e3o necess\u00e1rias restri\u00e7\u00f5es \u00e9ticas rigorosas, compartilhadas internacionalmente, baseadas na responsabilidade pessoal e na prote\u00e7\u00e3o dos civis, pois \u201ctoda tecnologia que facilita atacar sem ver o rosto do outro abaixa o limiar moral do conflito\u201d (199).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A crise do multilateralismo<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cultura do poder decorre tamb\u00e9m da crise do multilateralismo e do surgimento de um \u201cmultipolarismo desordenado e conflituoso\u201d (201). A for\u00e7a do direito \u00e9 substitu\u00edda pelo direito do mais forte; as l\u00f3gicas do poder prevalecem sobre a constru\u00e7\u00e3o da paz e as institui\u00e7\u00f5es criadas para zelar pelo destino comum dos povos est\u00e3o agora enfraquecidas. A esse respeito, o Papa deseja para a ONU \u201creformas profundas\u201d que superem a atual crise de valores em favor do bem comum (226).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A civiliza\u00e7\u00e3o do amor<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O crist\u00e3o \u00e9 chamado a responder \u00e0 cultura do poder construindo \u201ca civiliza\u00e7\u00e3o do amor\u201d e escolhendo entre alimentar a l\u00f3gica da for\u00e7a ou zelar pela paz. O Papa aponta cinco \u201ccaminhos de responsabilidade\u201d: desarmar as palavras dizendo a verdade; construir a paz na justi\u00e7a; assumir o olhar das v\u00edtimas tomando posi\u00e7\u00e3o, pois h\u00e1 conflitos em que \u201cn\u00e3o \u00e9 justo permanecer neutro\u201d; cultivar \u201cum saud\u00e1vel realismo\u201d que busque caminhos de paz vi\u00e1veis com os fatos, n\u00e3o apenas com palavras. Por fim, relan\u00e7ar o di\u00e1logo, passando de uma cultura do poder para uma cultura da negocia\u00e7\u00e3o. \u00c9 decisivo tamb\u00e9m \u201co di\u00e1logo entre as religi\u00f5es\u201d, portador de uma mensagem de paz: \u201cQuem usa o nome de Deus para legitimar o terrorismo, a viol\u00eancia ou a guerra trai o seu rosto\u201d \u00e9 a advert\u00eancia de Le\u00e3o XIV (223).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A magn\u00edfica humanidade<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao concluir a carta, o Pont\u00edfice convida os fi\u00e9is a viver as novas tecnologias \u00e0 luz do Evangelho, seguindo \u201cum itiner\u00e1rio de vida crist\u00e3 s\u00f3brio e exigente\u201d. Para que, mesmo na era da IA, todos possam testemunhar \u201ca beleza de uma magn\u00edfica humanidade habitada por Deus\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre><strong>Por Isabella Piro \u2013 Vatican News<\/strong><\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira enc\u00edclica de Le\u00e3o XIV &#8211; Magnifica humanitas, \u201csobre a salvaguarda da pessoa humana na era da intelig\u00eancia artificial\u201d &#8211; resume suas raz\u00f5es fundamentais e seu objetivo. Publicada hoje, segunda-feira, 25 de maio, foi assinada pelo Pont\u00edfice no \u00faltimo dia 15 de maio, no 135\u00ba anivers\u00e1rio da promulga\u00e7\u00e3o da Rerum novarum de Le\u00e3o XIII<\/p>\n","protected":false},"author":138,"featured_media":1000289,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[1840,1851],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/1000286"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/138"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=1000286"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/1000286\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1000291,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/1000286\/revisions\/1000291"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/1000289"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=1000286"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=1000286"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=1000286"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}