{"id":1000644,"date":"2026-06-02T09:19:11","date_gmt":"2026-06-02T12:19:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=1000644"},"modified":"2026-06-02T09:20:23","modified_gmt":"2026-06-02T12:20:23","slug":"critica-da-religiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/critica-da-religiao\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica da religi\u00e3o\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\" data-ccp-border-bottom=\"0px none #000000\" data-ccp-padding-bottom=\"0px\" data-ccp-border-between=\"0px none #000000\" data-ccp-padding-between=\"0px\"><strong>Dom Geraldo dos Reis Maia\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>Bispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-ccp-border-between=\"0px none #000000\" data-ccp-padding-between=\"0px\"><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240,&quot;335572071&quot;:0,&quot;335572072&quot;:0,&quot;335572073&quot;:4278190080,&quot;335572075&quot;:0,&quot;335572076&quot;:0,&quot;335572077&quot;:4278190080,&quot;335572079&quot;:0,&quot;335572080&quot;:0,&quot;335572081&quot;:4278190080,&quot;335572083&quot;:0,&quot;335572084&quot;:0,&quot;335572085&quot;:4278190080,&quot;335572087&quot;:0,&quot;335572088&quot;:0,&quot;335572089&quot;:4278190080,&quot;469789798&quot;:&quot;nil&quot;,&quot;469789802&quot;:&quot;nil&quot;,&quot;469789806&quot;:&quot;nil&quot;,&quot;469789810&quot;:&quot;nil&quot;,&quot;469789814&quot;:&quot;nil&quot;}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A cr\u00edtica da religi\u00e3o sempre teve seu espa\u00e7o na hist\u00f3ria do Ocidente. Na Antiguidade crist\u00e3, a cr\u00edtica assumiu caracter\u00edsticas de terr\u00edveis persegui\u00e7\u00f5es, derramando o sangue de milhares de m\u00e1rtires. J\u00e1 na Idade M\u00e9dia, o cristianismo consolidou-se como hegemonia religiosa. Na Modernidade, assistimos ao retorno da cr\u00edtica, a partir da virada antropoc\u00eantrica. O S\u00e9culo das Luzes procurou tirar o ser humano das supostas trevas do per\u00edodo medieval. A heteronomia de Deus passa a ser superada pela autonomia humana. O ser humano volta a ser \u201ca medida de todas as coisas\u201d, como j\u00e1 haviam apregoado os sofistas.\u00a0J\u00e1 na P\u00f3s-modernidade, a religi\u00e3o \u00e9 deslocada para outra vertente: vem sendo submetida, cada vez mais intensamente, ao sentimentalismo.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Dentro daquele clima de Iluminismo, caracter\u00edstico da Modernidade, os protagonistas da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa detectaram na religi\u00e3o a legitima\u00e7\u00e3o do regime feudal e absolutista. Para implantar os ideais de\u00a0<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">liberdade, igualdade e fraternidade<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, iniciava-se um longo processo de seculariza\u00e7\u00e3o, dr\u00e1stico no seu in\u00edcio e sistem\u00e1tico, em seguida, com as invas\u00f5es napole\u00f4nicas. Fazia-se necess\u00e1rio instaurar a nova sociedade burguesa, na contram\u00e3o da sociedade feudal e mon\u00e1rquica. Alguns chegaram a preconizar o fim da hist\u00f3ria&#8230;<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A cr\u00edtica \u00e0 religi\u00e3o teve seu auge com tr\u00eas grandes expoentes: Marx, Nietzsche e Freud, chamados por Paul Ricoeur de \u201cMestres da suspeita\u201d. Seguindo os passos de Feuerbach, para quem Deus n\u00e3o passaria de uma proje\u00e7\u00e3o do melhor de si que o ser humano n\u00e3o teria sido capaz de realizar, Marx constatou que a religi\u00e3o exercia a fun\u00e7\u00e3o de um alucin\u00f3geno para manter o estado de domina\u00e7\u00e3o da sociedade burguesa. Da\u00ed, prop\u00f4s a supress\u00e3o da religi\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o para o surgimento da nova ordem socioecon\u00f4mica comunista. Seus seguidores, que procuraram instalar o comunismo real, buscaram viabilizar as palavras do mestre.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Nietzsche prop\u00f4s a realiza\u00e7\u00e3o da \u201cvontade de poder ser\u201d, inaugurando um novo voluntarismo para promover a ra\u00e7a humana a uma realidade superior: \u201co super-homem\u201d. Na sua vis\u00e3o, o ser humano precisaria passar por tr\u00eas est\u00e1gios, conforme sua met\u00e1fora: de camelo, tornar-se le\u00e3o e, depois, tornar-se crian\u00e7a. Isto significa deixar de ser o portador de uma carga excessiva de preceitos moral\u00edsticos para tornar-se um valente contestador e promover um novo sentido de humaniza\u00e7\u00e3o do ser humano.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Freud interpretou os segredos do submundo da libido, escondidos nas profundezas do inconsciente,\u00a0e constatou que o ser humano seria mais feliz e realizado se concretizasse todos os seus prazeres. Para tanto, teria que superar o sentimento religioso que exerce fun\u00e7\u00e3o reguladora do agir humano. Foi al\u00e9m, definindo Deus como a proje\u00e7\u00e3o daquilo que o ser humano n\u00e3o conseguiu ser e realizar.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A cr\u00edtica da religi\u00e3o acabou por chegar \u00e0 nega\u00e7\u00e3o de Deus. Mas que ideia de Deus esses pensadores tinham? Certamente uma ideia deturpada, muito distante da verdadeira realidade de Deus. Era uma concep\u00e7\u00e3o de Deus a partir de vis\u00f5es pr\u00f3prias. No entanto, essas ideias encontraram espa\u00e7o f\u00e9rtil e se difundiram. Ca\u00eda-se no eclipse de Deus e, na sua esteira, no eclipse do humano. Eis o tempo da sociedade secularizada! Tempo de ate\u00edsmo, indiferentismo religioso, relativismo e niilismo. \u201cSe Deus n\u00e3o existe, tudo \u00e9 permitido\u201d, preconizou Dostoievski.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Sentimos as consequ\u00eancias deste longo processo hist\u00f3rico, sob a forma de uma crescente seculariza\u00e7\u00e3o, que traz consigo um grande indiferentismo. Neste horizonte surge novo fen\u00f4meno: o retorno do sagrado ou a \u201crevanche da religi\u00e3o\u201d, como alguns o denominam, nestes tempos de p\u00f3s-modernidade. Trata-se de uma forte rea\u00e7\u00e3o do sentimento religioso depois de todas essas cr\u00edticas. A religi\u00e3o ressurge\u00a0das cinzas com caracter\u00edsticas diferenciadas, mesclando sentimentalismo, pragmatismo e neoconservadorismo.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">N\u00e3o basta apresentar p\u00e3o e circo ou paliativos que causam del\u00edrios. Muito menos se enveredar pelos caminhos da religi\u00e3o unida a interesses politiqueiros, com um projeto de poder, que gera polariza\u00e7\u00f5es e divis\u00f5es. \u00c9 preciso ter muito discernimento, neste momento hist\u00f3rico, para apresentar uma proposta concreta e eficaz de evangeliza\u00e7\u00e3o que d\u00ea conta de convencer o ser humano p\u00f3s-moderno sobre a gra\u00e7a e as implica\u00e7\u00f5es da salva\u00e7\u00e3o em Jesus Cristo, seguindo a inspira\u00e7\u00e3o do Evangelho.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Religi\u00e3o \u00e9 \u201c<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">re-ligare<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">\u201d, ligar novamente o ser humano consigo mesmo, com o mundo criado e com o ser divino, em busca da harmonia do Para\u00edso perdido. Por isso, \u00e9 preciso voltar a Jesus. Ele \u00e9 o humano divino que revelou o que \u00e9 ser humano ao pr\u00f3prio homem e manifestou-lhe sua sublime voca\u00e7\u00e3o, como nos ensina a\u00a0<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Gaudium et Spes<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, 22. \u00c9 nele que entendemos o que somos e o que podemos ser como pessoa criada \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, que \u00e9 amor. Ele veio \u201cpara que todos tenham vida e vida em abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10,10). E nos ensinou o caminho a seguir: \u201cBuscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justi\u00e7a, e todas essas coisas vos ser\u00e3o dadas em acr\u00e9scimo\u201d (Mt 6,33).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Geraldo dos Reis Maia\u00a0 Bispo de Ara\u00e7ua\u00ed (MG) \u00a0 A cr\u00edtica da religi\u00e3o sempre teve seu espa\u00e7o na hist\u00f3ria do Ocidente. 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