{"id":1000667,"date":"2026-06-02T11:51:24","date_gmt":"2026-06-02T14:51:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=1000667"},"modified":"2026-06-02T11:52:16","modified_gmt":"2026-06-02T14:52:16","slug":"a-trindade-que-habita-em-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-trindade-que-habita-em-nos\/","title":{"rendered":"A\u00a0Trindade\u00a0que habita\u00a0em n\u00f3s\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<br \/>\n<span style=\"font-size: 16px;\" data-contrast=\"auto\">Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)<\/span><span style=\"font-size: 16px;\" data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:3,&quot;335551620&quot;:3}\">\u00a0<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Procuramos Deus saindo\u00a0em expedi\u00e7\u00e3o, armamos\u00a0acampamento nos\u00a0p\u00edncaros\u00a0das abstra\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas, vasculhamos\u00a0o\u00a0c\u00e9u\u00a0em busca de uma presen\u00e7a transcendente,\u00a0e,\u00a0no fim,\u00a0descobrimos, com aquela\u00a0combina\u00e7\u00e3o\u00a0de espanto e reconhecimento que s\u00f3 os grandes paradoxos produzem, que o objeto da busca morava dentro\u00a0de n\u00f3s desde\u00a0o princ\u00edpio.\u00a0Essa \u00e9\u00a0a estrutura interna do mist\u00e9rio que chamamos de Sant\u00edssima Trindade.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">As\u00a0grandes verdades raramente chegam de uma vez.\u00a0O seu modo habitual \u00e9\u00a0como\u00a0a\u00a0claridade difusa\u00a0do lusco-fusco, depois o contorno das coisas, depois a luz que torna tudo vis\u00edvel. Assim foi com Deus,\u00a0porque o amor exige tempo.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O Antigo Testamento \u00e9 o grande cen\u00e1rio do Deus Criador.\u00a0Tudo o que Ele fala,\u00a0existe. H\u00e1 uma\u00a0presen\u00e7a\u00a0no Sinai,\u00a0nas pragas\u00a0do Egito,\u00a0na justi\u00e7a que pesa e n\u00e3o cede.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Mas os profetas\u00a0aprimoram essa\u00a0rela\u00e7\u00e3o. Os\u00e9ias\u00a0enxerga\u00a0Deus como um marido tra\u00eddo que insiste em recuperar a esposa infiel. Isa\u00edas ouve uma voz que pergunta\u00a0se\u00a0\u201cuma m\u00e3e\u00a0pode\u00a0esquecer o filho que amamentou?\u201d e,\u00a0antes que se responda, acrescenta que mesmo que ela esque\u00e7a, Deus n\u00e3o\u00a0se\u00a0esquecer\u00e1. Jeremias\u00a0intui\u00a0que por tr\u00e1s das amea\u00e7as do Senhor h\u00e1 uma nostalgia intensa, uma saudade do povo amado. O Criador\u00a0n\u00e3o \u00e9 a indiferen\u00e7a, mas\u00a0fidelidade de quem fez uma promessa e a cumprir\u00e1.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Na conclus\u00e3o desta sabedoria alcan\u00e7amos o entendimento de que\u00a0o fundamento do real \u00e9 pessoal. O universo n\u00e3o emergiu de um princ\u00edpio\u00a0mec\u00e2nico, mas de um querer. H\u00e1 algu\u00e9m antes de tudo,\u00a0e esse algu\u00e9m criou\u00a0mais\u00a0por\u00a0amor\u00a0que\u00a0por necessidade.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O Novo Testamento\u00a0escandaliza com a\u00a0Encarna\u00e7\u00e3o. A ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9, em certo sentido, coerente com o Deus do Antigo Testamento, com\u00a0um Deus que faz existir o que n\u00e3o existia\u00a0e\u00a0pode muito bem fazer existir de novo o que havia cessado de existir. Mas que esse mesmo Deus se fa\u00e7a carne, que aprenda a andar e a falar, que tenha fome e sono e amigos e inimigos,\u00a0\u00e9\u00a0abissal.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A teologia chama a isso de\u00a0<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">kenosis,<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">\u00a0o esvaziamento\u00a0do Filho de Deus que deixa de lado a gl\u00f3ria para vir habitar entre n\u00f3s. Mas a palavra\u00a0\u201cesvaziamento\u201d\u00a0ainda precise ser completada.\u00a0O amor que finalmente pode ser visto parece mais adequado para o mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Jesus de Nazar\u00e9 chora diante do t\u00famulo de L\u00e1zaro. Esta cena perturba\u00a0os te\u00f3logos durante s\u00e9culos.\u00a0O\u00a0Filho de Deus, que vai ressuscitar o morto,\u00a0para\u00a0antes de faz\u00ea-lo e chora. Por qu\u00ea?\u00a0Porque ele amava L\u00e1zaro. Porque a morte \u00e9 ainda uma ofensa ao amor, mesmo quando o amor vai desfazer\u00a0o mal. Porque um Deus que n\u00e3o chorasse diante da dor humana seria uma abstra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o um Pai.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O Novo Testamento \u00e9, no fundo, a hist\u00f3ria de como Deus nos ensinou que a salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, mas uma partilha de\u00a0humanidade,\u00a0de\u00a0morte e\u00a0ressurrei\u00e7\u00e3o. O Filho n\u00e3o salva por decreto, salva por presen\u00e7a.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Pentecostes \u00e9 descrito com imagens\u00a0vibrantes do\u00a0vento impetuoso,\u00a0chamas ardentes, pessoas que falam l\u00ednguas que n\u00e3o aprenderam.\u00a0Um acontecimento que\u00a0n\u00e3o cabe nas categorias\u00a0que temos.\u00a0O Esp\u00edrito\u00a0\u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, o que excede.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Ele\u00a0revela o que estava dentro sem que se\u00a0soub\u00e9ssemos.\u00a0Pois como j\u00e1 tinha sido revelado,\u00a0\u201cEle vos ensinar\u00e1 tudo e vos recordar\u00e1 tudo o que eu vos disse\u201d. \u00c9\u00a0a\u00a0mem\u00f3ria viva de Deus dentro da criatura. \u00c9 aquilo que se abre\u00a0no sil\u00eancio\u00a0e\u00a0sussurra que h\u00e1 mais do que os olhos veem.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">Os m\u00edsticos\u00a0da\u00a0tradi\u00e7\u00e3o\u00a0crist\u00e3,\u00a0Agostinho, Mestre\u00a0Eckhart, Jo\u00e3o da Cruz, Teresa de \u00c1vila,\u00a0chegaram ao mesmo ponto por caminhos diferentes: h\u00e1 um lugar no interior humano que \u00e9 tocado por Deus, e \u00e9 justamente esse lugar o mais\u00a0propriamente\u00a0nosso. N\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre ser plenamente si mesmo e ser habitado pelo Esp\u00edrito. A contradi\u00e7\u00e3o seria n\u00e3o\u00a0s\u00ea-lo.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A\u00a0Trindade, portanto,\u00a0n\u00e3o pode ser lida\u00a0como uma sequ\u00eancia\u00a0como se fosse\u00a0primeiro o Pai, depois o Filho, depois o Esp\u00edrito. Como se fossem tr\u00eas atos de uma pe\u00e7a, tr\u00eas eras de um calend\u00e1rio.\u00a0Os\u00a0tr\u00eas s\u00e3o\u00a0coeternos e\u00a0onde h\u00e1 o Filho h\u00e1 o Pai.\u00a0Onde age o Esp\u00edrito agem os tr\u00eas.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">A revela\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0progressiva\u00a0porque n\u00f3s\u00a0a\u00a0recebemos em sequ\u00eancia,\u00a0n\u00e3o porque Deus existe em sequ\u00eancia.\u00a0\u00c9 como quem l\u00ea um livro e vai entendendo a\u00a0hist\u00f3ria\u00a0\u00e0 medida que as palavras chegam,\u00a0mas\u00a0ela\u00a0sempre esteve inteira na mente de quem a escreveu, da primeira\u00a0\u00e0 \u00faltima\u00a0frase.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-contrast=\"auto\">O que a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o revela, vista de uma s\u00f3 vez, \u00e9 um Deus que \u00e9, na sua pr\u00f3pria vida interior, uma comunh\u00e3o. O Pai que se d\u00e1 ao Filho, o Filho que responde ao Pai, o Esp\u00edrito o amor que circula entre eles;\u00a0e que,\u00a0como todo amor,\u00a0transborda para fora de si.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha Mota Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)\u00a0 \u00a0 Procuramos Deus saindo\u00a0em expedi\u00e7\u00e3o, armamos\u00a0acampamento nos\u00a0p\u00edncaros\u00a0das abstra\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas, vasculhamos\u00a0o\u00a0c\u00e9u\u00a0em busca de uma presen\u00e7a transcendente,\u00a0e,\u00a0no fim,\u00a0descobrimos, com aquela\u00a0combina\u00e7\u00e3o\u00a0de espanto e reconhecimento que s\u00f3 os grandes paradoxos produzem, que o objeto da busca morava dentro\u00a0de n\u00f3s desde\u00a0o princ\u00edpio.\u00a0Essa \u00e9\u00a0a estrutura interna do mist\u00e9rio que &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-trindade-que-habita-em-nos\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">A\u00a0Trindade\u00a0que habita\u00a0em n\u00f3s\u00a0<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":112,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/1000667"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=1000667"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/1000667\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1000669,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/1000667\/revisions\/1000669"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=1000667"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=1000667"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=1000667"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}