{"id":1000812,"date":"2026-06-08T05:50:14","date_gmt":"2026-06-08T08:50:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=1000812"},"modified":"2026-06-08T09:11:54","modified_gmt":"2026-06-08T12:11:54","slug":"dom-anuar-o-coracao-que-guarda-e-o-santo-que-proclama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/dom-anuar-o-coracao-que-guarda-e-o-santo-que-proclama\/","title":{"rendered":"O cora\u00e7\u00e3o que guarda e o Santo que proclama"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Anuar Battisti<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo Em\u00e9rito de Maring\u00e1 (PR)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Maria, M\u00e3e de Jesus, e Ant\u00f4nio de Lisboa: dois cora\u00e7\u00f5es abertos \u00e0 Palavra<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liturgia do dia 13 de junho nos coloca diante de dois testemunhos que se iluminam mutuamente. Celebramos o Imaculado Cora\u00e7\u00e3o de Maria, aquele cora\u00e7\u00e3o que, como nos diz o Evangelho de Lucas, &#8220;conservava todas estas coisas&#8221; (Lc 2,51). E celebramos tamb\u00e9m Santo Ant\u00f4nio de Lisboa, o pregador que transformou a Palavra guardada em Palavra proclamada. Maria guarda. Ant\u00f4nio anuncia. E entre os dois, h\u00e1 uma continuidade que n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia: \u00e9 o Esp\u00edrito que age.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Evangelho de hoje \u2013 Lc 2,41-52 \u2013 nos apresenta uma cena familiar e ao mesmo tempo desconcertante. Jos\u00e9 e Maria perdem Jesus durante tr\u00eas dias. Quando o encontram no Templo, sentado entre os mestres, a resposta do menino os deixa sem compreens\u00e3o: &#8220;N\u00e3o sabeis que devo estar na casa de meu Pai?&#8221; (Lc 2,49). A rea\u00e7\u00e3o de Maria n\u00e3o \u00e9 de orgulho nem de esc\u00e2ndalo. \u00c9 de sil\u00eancio interior. Ela &#8220;conservava no cora\u00e7\u00e3o todas estas coisas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guardar no cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 esquecer. \u00c9 deixar amadurecer. \u00c9 ter a humildade de reconhecer que nem tudo se compreende de imediato, mas que Deus est\u00e1 agindo, mesmo quando a situa\u00e7\u00e3o parece fugir ao controle.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ant\u00f4nio aprendeu com Maria a guardar antes de proclamar. Fernando, que mais tarde tomaria o nome de Ant\u00f4nio, passou anos em sil\u00eancio. Primeiro nos agostinianos de S\u00e3o Vicente, depois em Coimbra, onde por oito anos se dedicou ao estudo das Escrituras e da teologia. Eram anos de forma\u00e7\u00e3o, de escuta, de guardar. Como Maria, ele deixou a Palavra habitar nele antes de sair a proclam\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isa\u00edas \u2013 Is 61,9-11 \u2013 j\u00e1 anunciava essa l\u00f3gica quando dizia: &#8220;Assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Senhor Deus far\u00e1 germinar a justi\u00e7a&#8221; (Is 61,11). A semente precisa do solo. A Palavra precisa de um cora\u00e7\u00e3o que a acolha. Maria foi esse solo. Ant\u00f4nio tamb\u00e9m foi. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o dom de Ant\u00f4nio como pregador se revelou justamente quando ele n\u00e3o havia se preparado para falar. Em Forl\u00ec, em setembro de 1222, ningu\u00e9m queria improvisar o serm\u00e3o. Ant\u00f4nio tomou a palavra, e o que saiu n\u00e3o era improviso: era o fruto de anos de sil\u00eancio, de ora\u00e7\u00e3o, de medita\u00e7\u00e3o. O cora\u00e7\u00e3o cheio transborda. Quem guarda bem, anuncia com verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 sem caridade \u00e9 uma f\u00e9 morta, Bento XVI, ao citar Ant\u00f4nio, nos deixou uma frase que resume toda a espiritualidade deste santo: &#8220;A caridade \u00e9 a alma da f\u00e9, torna-a viva; sem amor, a f\u00e9 morre.&#8221; Essa senten\u00e7a n\u00e3o \u00e9 apenas uma bela imagem. \u00c9 um diagn\u00f3stico e um programa de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria viveu isso de forma radical. Ela n\u00e3o apenas acreditou no anjo. Ela foi \u00e0 casa de Isabel. Ela ficou ao p\u00e9 da cruz. Ela estava no cen\u00e1culo no dia de Pentecostes. O cora\u00e7\u00e3o imaculado de Maria n\u00e3o \u00e9 um cora\u00e7\u00e3o fechado em si mesmo. \u00c9 um cora\u00e7\u00e3o que ama, que serve, que acompanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ant\u00f4nio tamb\u00e9m n\u00e3o ficou fechado em suas celas de estudo. Ele foi ao povo. Ele atendeu confiss\u00f5es por horas a fio. Ele enfrentou heresias n\u00e3o com arrog\u00e2ncia, mas com a for\u00e7a de quem conhece a verdade e a ama. A multid\u00e3o que se reunia em torno dele em P\u00e1dua n\u00e3o era atra\u00edda por um acad\u00eamico frio, mas por um homem que tinha o cora\u00e7\u00e3o cheio de Deus e de compaix\u00e3o pelas pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00e2ntico de Ana, que hoje rezamos no Salmo, proclama que &#8220;o Senhor ergue do p\u00f3 o homem fraco, do lixo ele retira o indigente, para faz\u00ea-los assentar-se com os nobres&#8221; (1Sm 2,8). Esse \u00e9 o Deus de Maria. Esse \u00e9 o Deus de Ant\u00f4nio. Um Deus que n\u00e3o despreza os pequenos, mas os levanta. Uma f\u00e9 que n\u00e3o se fecha na doutrina, mas que desce at\u00e9 o ch\u00e3o onde as pessoas vivem e sofrem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caminhar no Senhor com o cora\u00e7\u00e3o aberto. Irm\u00e3os e irm\u00e3s, o que estes dois testemunhos nos pedem hoje? Primeiro, que aprendamos a guardar. Nem tudo precisa ser respondido de imediato. Nem toda d\u00favida precisa ser resolvida na hora. Maria nos ensina que h\u00e1 uma sabedoria no sil\u00eancio interior, no deixar que Deus trabalhe dentro de n\u00f3s antes de sairmos a agir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo, que o que guardamos precisa um dia ser dado. Ant\u00f4nio passou anos em forma\u00e7\u00e3o, mas chegou o momento em que a Palavra guardada precisava ser proclamada. O cora\u00e7\u00e3o que guarda n\u00e3o \u00e9 um cofre. \u00c9 um jardim, como diz Isa\u00edas. O jardim existe para dar fruto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terceiro, que a caridade \u00e9 o crit\u00e9rio de tudo. A f\u00e9 que n\u00e3o se torna amor ao pr\u00f3ximo, aten\u00e7\u00e3o ao fraco, presen\u00e7a junto ao que sofre, n\u00e3o \u00e9 ainda a f\u00e9 plena que o Evangelho prop\u00f5e. Maria foi ao encontro de Isabel. Ant\u00f4nio foi ao encontro dos pecadores. N\u00f3s somos chamados ao encontro de quem est\u00e1 ao nosso redor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, 13 de junho, dia em que Ant\u00f4nio exalou o \u00faltimo suspiro murmurando &#8220;Eu vejo o meu Senhor&#8221;, a Igreja nos convida a olhar para esses dois cora\u00e7\u00f5es: o de Maria, que guardou, e o de Ant\u00f4nio, que proclamou. E nos pergunta: o que voc\u00ea tem guardado no cora\u00e7\u00e3o? E o que voc\u00ea tem feito com isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que o Senhor nos conceda cora\u00e7\u00f5es como o de Maria: capazes de guardar com fidelidade. E cora\u00e7\u00f5es como o de Ant\u00f4nio: capazes de dar o que receberam, com caridade, com coragem e com alegria. Caminhai no Senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Anuar Battisti Arcebispo Em\u00e9rito de Maring\u00e1 (PR) &nbsp; &nbsp; Maria, M\u00e3e de Jesus, e Ant\u00f4nio de Lisboa: dois cora\u00e7\u00f5es abertos \u00e0 Palavra A liturgia do dia 13 de junho nos coloca diante de dois testemunhos que se iluminam mutuamente. 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