{"id":1002387,"date":"2026-07-14T11:17:18","date_gmt":"2026-07-14T14:17:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=1002387"},"modified":"2026-07-14T13:12:42","modified_gmt":"2026-07-14T16:12:42","slug":"verdade-e-beleza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/verdade-e-beleza\/","title":{"rendered":"Verdade\u00a0e\u00a0beleza\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom\u00a0Geraldo\u00a0dos\u00a0Reis\u00a0Maia<br \/>\nBispo\u00a0de\u00a0Ara\u00e7ua\u00ed (MG)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:1,&quot;335551620&quot;:1,&quot;335559685&quot;:0,&quot;335559737&quot;:0,&quot;335559738&quot;:247}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe um nexo entre verdade e beleza? A Filosofia Grega j\u00e1 relacionava a tr\u00edade: beleza, verdade e bondade. Essa concep\u00e7\u00e3o levou pensadores a buscar a harmonia est\u00e9tica, o conhecimento verdadeiro e a virtude moral como via para se chegar \u00e0 boa vida. Esse pensamento foi assim condensado pelo Papa Le\u00e3o XIV: \u201cO desejo do bem, da beleza, da verdade est\u00e1 enraizado no \u2018DNA da humanidade\u2019\u201d. (Discurso, 07\/06\/2026). Para S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, todo ser \u00e9 bom, verdadeiro e belo na medida em que participa do Ser em si, que \u00e9 Deus. Esses tr\u00eas transcendentais do ser se atraem na completude do ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santo Agostinho ensinava que n\u00e3o amamos sen\u00e3o o que \u00e9 belo (cf. De musica, VI, 13, 38; Confessiones, IV, 13, 20). Mais recentemente, o Papa Francisco nos falou sobre a Via pulchritudinis (a via da beleza) como caminho para recuperar a estima da beleza e poder chegar ao cora\u00e7\u00e3o do homem, fazendo resplandecer nele a verdade e a bondade. E advertiu para o risco de fomentar \u201cum relativismo est\u00e9tico\u201d que pode obscurecer o v\u00ednculo indivis\u00edvel entre verdade, bondade e beleza (Evangelii gaudium, 167). Numa cultura em que se estetiza tudo, o risco de uma dicotomia da beleza com a verdade \u00e9 consider\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco alertou os artistas para que estivessem atentos a \u201cescapar ao poder sugestivo daquela suposta beleza artificial e superficial, que hoje se difunde, e que \u00e9 muitas vezes c\u00famplice dos mecanismos econ\u00f4micos geradores de desigualdades. Aquela beleza n\u00e3o atrai, porque \u00e9 uma beleza que nasce morta. N\u00e3o h\u00e1 vida ali, n\u00e3o atrai. \u00c9 uma falsa beleza, cosm\u00e9tica, uma maquiagem que esconde em vez de revelar\u201d (Discurso aos Artistas, 23\/06\/2023). A cultura do esteticismo, com o aux\u00edlio da tecnologia, cria essas belezas cosm\u00e9ticas, desvinculadas da dura realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grande escritor russo F. Dostoi\u00e9vski abordou essa tem\u00e1tica em sua memor\u00e1vel obra \u201cO Idiota\u201d. Ali nos deparamos com um di\u00e1logo inesquec\u00edvel. Disse Ippolit: \u201cPr\u00edncipe, \u00e9 verdade que o senhor disse uma vez que a \u2018beleza\u2019 salvar\u00e1 o mundo? Senhores \u2013 gritou alto para todos \u2013, o pr\u00edncipe afirma que a beleza salvar\u00e1 o mundo! (&#8230;) Qual \u00e9 a beleza que vai salvar o mundo?\u201d (Ed. Presen\u00e7a, p. 396). O pr\u00edncipe a que se refere Ippolit \u00e9 Lev Nikol\u00e1evitch M\u00edchkin, protagonista da obra, que encarna a figura de O Idiota.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00edncipe, tal qual Jesus diante da pergunta de Pilatos \u2013 \u201co que \u00e9 a verdade?\u201d (Jo 18,38) \u2013, nada responde a Ippolit sobre que beleza salvar\u00e1 o mundo. Ele vai ao encontro de um jovem de 18 anos que agonizava. Ali permanece, cheio de compaix\u00e3o e amor, at\u00e9 ele morrer. Com isso, quis dizer que a beleza \u00e9 aquilo que nos conduz ao amor solid\u00e1rio diante da dor do outro, que nos interpela. O mundo ser\u00e1 salvo hoje e sempre enquanto houver essa atitude: o amor solid\u00e1rio, caracter\u00edstica mais profunda do ser humano. P\u00e1ginas \u00e0 frente segue a descri\u00e7\u00e3o do impacto causado pelo quadro do \u201cCristo Morto\u201d, de Hans Hosbein (1521).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, Dostoi\u00e9vski havia contemplado essa obra de arte quando visitara Basileia, na Su\u00ed\u00e7a, e passa a descrever o quadro. \u201cA pintura n\u00e3o era grande coisa em termos art\u00edsticos, mas mergulhou-me numa estranha inquieta\u00e7\u00e3o. Nesse quadro est\u00e1 pintado um Cristo que acabaram de tirar da cruz. Parece que os pintores t\u00eam o h\u00e1bito de representar Cristo, tanto crucificado como tirado da cruz, sempre com um toque de beleza no rosto; mesmo nos momentos de sofrimento mais terr\u00edvel, acham que devem conservar-lhe a beleza\u201d. O relato continua, e vem a afirma\u00e7\u00e3o de que naquela pintura n\u00e3o havia o m\u00ednimo de beleza. E segue a descri\u00e7\u00e3o dos sinais da crueldade no corpo representado pelo artista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E continua a narrativa da obra: \u201c\u00c9 estranho que, quando olhamos para este cad\u00e1ver de homem torturado, surge uma pergunta especial e curiosa: se um cad\u00e1ver assim (&#8230;) foi visto por todos os seus disc\u00edpulos, pelos principais futuros ap\u00f3stolos dele, pelas mulheres que tinham f\u00e9 nele e o adoravam, como foi poss\u00edvel que acreditassem, \u00e0 vista deste cad\u00e1ver, que este m\u00e1rtir ia ressuscitar? Com este quadro parece estar expressa precisamente a no\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a obscura, descarada e eternamente sem sentido a que tudo fica submisso\u201d. A pintura em quest\u00e3o trata-se de uma esp\u00e9cie de ant\u00edtese da beleza: a beleza de quem foi fiel at\u00e9 o fim, sofreu os tormentos mais cru\u00e9is por amor \u00e0 humanidade. \u00c9 precisamente esta a beleza que salva o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdadeira beleza que salva o mundo est\u00e1 vinculada ao senso \u00e9tico. N\u00e3o se trata de um esteticismo puro. A sensibilidade art\u00edstica e profundamente humana consegue perceber uma beleza no corpo torturado \u201cde uma pessoa que sofreu infinitamente, ainda antes da crucifica\u00e7\u00e3o, feridas, torturas, espancamentos por parte dos guardas e do povo (&#8230;). Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que h\u00e1 ainda muita vida, muito calor, no rosto de um homem que acabaram de tirar da cruz: o cad\u00e1ver ainda n\u00e3o teve tempo de tornar-se r\u00edgido, no rosto do morto ainda transparece o sofrimento, como que sentido no pr\u00f3prio instante (&#8230;)\u201d (id., p. 421).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se pode tolerar a dicotomia entre o \u00e9tico, o verdadeiro e o bom. A \u201cbeleza cosm\u00e9tica\u201d, desvinculada da verdade e da bondade fica fadada \u00e0 inautenticidade. Ela \u00e9 pl\u00e1stica, artificial, fora da realidade. A beleza do Cristo de Hosbein n\u00e3o condiz com a beleza de um esteticismo convencional, mas est\u00e1 vinculada \u00e0 verdade e \u00e0 bondade. \u00c9 essa beleza que somos chamados a cultivar nos espa\u00e7os de nossa exist\u00eancia: Uma beleza que vai ao encontro do outro que nos interpela, assim como Deus se apequenou, humilhou-se, \u201cquenotizou-se\u201d para assumir em tudo a condi\u00e7\u00e3o humana (cf. Filp 2,5-11) e nos apontar o horizonte da voca\u00e7\u00e3o humana, a verdadeira humaniza\u00e7\u00e3o do ser humano (cf. GS, 22). \u00c9 essa beleza que salva o mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom\u00a0Geraldo\u00a0dos\u00a0Reis\u00a0Maia Bispo\u00a0de\u00a0Ara\u00e7ua\u00ed (MG) \u00a0 Existe um nexo entre verdade e beleza? A Filosofia Grega j\u00e1 relacionava a tr\u00edade: beleza, verdade e bondade. 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