{"id":1002814,"date":"2026-07-20T08:48:52","date_gmt":"2026-07-20T11:48:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=1002814"},"modified":"2026-07-20T08:49:35","modified_gmt":"2026-07-20T11:49:35","slug":"a-paciencia-de-deus-e-a-forca-silenciosa-do-reino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-paciencia-de-deus-e-a-forca-silenciosa-do-reino\/","title":{"rendered":"A paci\u00eancia de Deus e a for\u00e7a silenciosa do Reino"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Cardeal Orani Jo\u00e3o Tempesta<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 com o cora\u00e7\u00e3o cheio de gratid\u00e3o que me dirijo a cada um, aqui do Rio de Janeiro, cidade que Deus habita e que tanto amo, para partilhar a Palavra que a Igreja nos oferece neste 16\u00ba Domingo do Tempo Comum. Que alegria poder, mais uma vez, se sentar \u00e0 mesa da Palavra com o Povo de Deus disperso por tantos lugares!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liturgia de hoje nos convida a contemplar dois mist\u00e9rios centrais da nossa f\u00e9: a paci\u00eancia misericordiosa de Deus e a for\u00e7a discreta, mas invenc\u00edvel, do seu Reino. S\u00e3o ensinamentos que tocam profundamente a vida de cada fam\u00edlia, de cada comunidade, de cada pessoa que carrega em si a semente do bem, mas tamb\u00e9m as fragilidades pr\u00f3prias da nossa condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A miseric\u00f3rdia como marca da for\u00e7a de Deus. A primeira leitura \u2013 Sb 12,13.16-19 \u2013 apresenta-nos uma imagem bel\u00edssima da natureza de Deus. O texto afirma que a for\u00e7a divina \u00e9 o princ\u00edpio da sua justi\u00e7a, e que justamente por ser onipotente, Deus pode se dar ao luxo de ser indulgente com todos n\u00f3s. Isso \u00e9 algo que precisamos meditar com aten\u00e7\u00e3o: n\u00e3o \u00e9 a fraqueza que gera a miseric\u00f3rdia, mas a verdadeira for\u00e7a. S\u00f3 quem tem dom\u00ednio total pode escolher, livremente, exercer clem\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quantas vezes pensamos o contr\u00e1rio em nossa vida cotidiana! Julgamos que ser rigoroso, cortante, implac\u00e1vel \u00e9 sinal de firmeza. Mas o livro da Sabedoria nos ensina exatamente o oposto: Deus, que tudo pode, prefere nos governar com grande miseric\u00f3rdia. E h\u00e1 uma frase que considero uma das mais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">consoladoras de toda a Escritura, quando o texto afirma que Deus deu a seus filhos a confortadora esperan\u00e7a de que concede o perd\u00e3o aos pecadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o \u00e9 permissividade com o mal. \u00c9, antes, um convite para que tamb\u00e9m n\u00f3s sejamos humanos, misericordiosos, capazes de compreender as fragilidades do pr\u00f3ximo antes de condenar. O salmo responsorial refor\u00e7a essa mesma verdade quando canta, no Sl 85(86),5-6.9-10.15-16, que o Senhor \u00e9 bom e clemente, cheio de amor, paci\u00eancia e perd\u00e3o. Que belo retrato do cora\u00e7\u00e3o de Deus revelado a n\u00f3s!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Esp\u00edrito que intercede pela nossa fraqueza: Na segunda leitura, extra\u00edda de Rm 8,26-27, S\u00e3o Paulo nos oferece um dos ensinamentos mais tocantes sobre a ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3. O ap\u00f3stolo reconhece algo que todos n\u00f3s j\u00e1 experimentamos: muitas vezes n\u00e3o sabemos o que pedir, nem como pedir a Deus. Diante das dores da vida, das incertezas do futuro, dos sil\u00eancios que \u00e0s vezes parecem t\u00e3o longos, a nossa ora\u00e7\u00e3o fica travada, gemida, incompleta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 justamente a\u00ed que a f\u00e9 crist\u00e3 revela sua beleza mais profunda: n\u00e3o estamos sozinhos nessa luta. O pr\u00f3prio Esp\u00edrito Santo intercede por n\u00f3s, com gemidos inef\u00e1veis, diante do Pai que penetra o \u00edntimo dos cora\u00e7\u00f5es. Que consolo maior poderia haver do que saber que, mesmo quando n\u00e3o conseguimos formular nossas pr\u00f3prias s\u00faplicas, o Esp\u00edrito de Deus j\u00e1 est\u00e1 trabalhando dentro de n\u00f3s, transformando nossa fraqueza em oferenda agrad\u00e1vel ao Pai?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso nos convida a uma vida de maior confian\u00e7a e menor ansiedade na ora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o precisamos ter sempre as palavras certas. Basta o cora\u00e7\u00e3o aberto, dispon\u00edvel, disposto a escutar aquilo que S\u00e3o Paulo chama de gemidos inef\u00e1veis, que o Esp\u00edrito conhece e transforma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O joio e o trigo: a paci\u00eancia divina diante do mist\u00e9rio do mal: O Evangelho segundo Mt 13,24-43 nos apresenta a par\u00e1bola que talvez melhor sintetize toda a mensagem deste domingo. Jesus fala de um homem que semeou boa semente em seu campo, mas durante a noite, enquanto todos dormiam, o inimigo veio e semeou joio junto ao trigo. Quando os empregados percebem a mistura, querem arrancar imediatamente as plantas ruins. Mas o dono do campo responde com uma sabedoria que nos surpreende: deixai crescer um e outro at\u00e9 a colheita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa par\u00e1bola fala diretamente \u00e0 realidade da nossa cidade e da nossa pr\u00f3pria alma. Vivemos numa sociedade onde o bem e o mal convivem lado a lado, \u00e0s vezes t\u00e3o pr\u00f3ximos que fica dif\u00edcil discernir com clareza onde termina um e come\u00e7a outro. E a tenta\u00e7\u00e3o de muitos \u00e9 sempre a mesma: arrancar imediatamente tudo o que parece joio, julgar, condenar, separar de forma apressada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus, por\u00e9m, nos ensina outra l\u00f3gica, a l\u00f3gica da paci\u00eancia divina. Deus sabe que o julgamento definitivo n\u00e3o \u00e9 tarefa nossa, mas dele, e que ele o far\u00e1 no tempo certo, com a justi\u00e7a e a miseric\u00f3rdia que s\u00f3 a ele pertencem. Isso n\u00e3o significa indiferen\u00e7a ao mal, muito menos complac\u00eancia com o pecado. Significa, sim, confiar que a colheita final est\u00e1 nas m\u00e3os de Deus, e que a nossa miss\u00e3o, enquanto isso, \u00e9 continuar semeando o bem com perseveran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pequenez que gera grandeza: O mesmo cap\u00edtulo do Evangelho nos oferece ainda duas outras par\u00e1bolas bel\u00edssimas, a do gr\u00e3o de mostarda e a do fermento. Ambas revelam algo essencial sobre a natureza do Reino de Deus: ele come\u00e7a pequeno, quase invis\u00edvel, mas cresce com uma for\u00e7a silenciosa e transformadora. A menor de todas as sementes se torna \u00e1rvore capaz de abrigar<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">os p\u00e1ssaros do c\u00e9u. Um pouco de fermento \u00e9 suficiente para fazer toda a massa crescer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quantas vezes olhamos para nossos gestos de f\u00e9, nossas pequenas obras de caridade, nossas ora\u00e7\u00f5es discretas, e pensamos que s\u00e3o insignificantes diante dos grandes desafios do mundo! Mas Jesus nos assegura que \u00e9 exatamente assim que o Reino de Deus se manifesta: atrav\u00e9s da fidelidade cotidiana, do amor que se doa em pequenos gestos, da esperan\u00e7a que resiste mesmo quando tudo parece pequeno demais para fazer diferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui no Rio de Janeiro, tantas vezes vejo isso acontecer. Comunidades pequenas, catequistas dedicados, fam\u00edlias simples que semeiam o bem sem alarde, e que, com o tempo, veem florescer frutos de convers\u00e3o e de vida nova que jamais imaginariam poss\u00edveis. \u00c9 a semente de mostarda se transformando em \u00e1rvore. \u00c9 o fermento fazendo crescer toda a massa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um convite \u00e0 esperan\u00e7a e \u00e0 miss\u00e3o: Diante dessa Palavra t\u00e3o rica, quero deixar um convite simples, mas profundo, a cada um de voc\u00eas. Primeiro, que aprendamos a confiar mais na miseric\u00f3rdia de Deus, tanto para conosco mesmos quanto para com os outros, sabendo que ele julga com clem\u00eancia e nos governa com grande considera\u00e7\u00e3o, como nos ensina o Livro da Sabedoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo, que na ora\u00e7\u00e3o encontremos al\u00edvio para as nossas fraquezas, confiando que o Esp\u00edrito Santo intercede por n\u00f3s mesmo quando n\u00e3o sabemos como orar, conforme nos recorda S\u00e3o Paulo aos Romanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terceiro, que tenhamos paci\u00eancia diante do mist\u00e9rio do mal presente no mundo e em n\u00f3s mesmos, sem cair na tenta\u00e7\u00e3o de julgamentos apressados, confiando o desfecho final \u00e0 justi\u00e7a amorosa de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, por fim, que jamais desanimemos diante da pequenez de nossos gestos de f\u00e9, pois \u00e9 justamente das pequenas sementes que nasce a grandeza do Reino de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que Nossa Senhora, mestra na arte da confian\u00e7a silenciosa, e S\u00e3o Bento, patriarca do monaquismo do qual sou filho pela vida cisterciense, nos ajudem a viver com fidelidade estas palavras. Que o Cristo Redentor, que do alto do nosso Corcovado abra\u00e7a esta cidade e cada um de seus filhos, continue derramando sobre todos n\u00f3s a gra\u00e7a da esperan\u00e7a que n\u00e3o decepciona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rezemos para que sejamos, cada dia mais, uma Igreja que semeia esperan\u00e7a onde quer que estejamos, para que todos sejam um, como nos recorda o profeta Jo\u00e3o no cap\u00edtulo dezessete, vers\u00edculo vinte e um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um abra\u00e7o fraterno e uma b\u00ean\u00e7\u00e3o especial para cada um de voc\u00eas e suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cardeal Orani Jo\u00e3o Tempesta Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) \u00c9 com o cora\u00e7\u00e3o cheio de gratid\u00e3o que me dirijo a cada um, aqui do Rio de Janeiro, cidade que Deus habita e que tanto amo, para partilhar a Palavra que a Igreja nos oferece neste 16\u00ba Domingo do Tempo Comum. 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