{"id":1002824,"date":"2026-07-20T09:00:06","date_gmt":"2026-07-20T12:00:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=1002824"},"modified":"2026-07-20T09:56:49","modified_gmt":"2026-07-20T12:56:49","slug":"o-joio-e-o-trigo-o-discernimento-e-a-tolerancia-que-vem-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-joio-e-o-trigo-o-discernimento-e-a-tolerancia-que-vem-de-deus\/","title":{"rendered":"O joio e o trigo: o discernimento e a toler\u00e2ncia que vem de Deus!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Ant\u00f4nio Carlos Altieri<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo Em\u00e9rito de Passo Fundo (RS)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Se no domingo passado a Par\u00e1bola do Semeador nos levou a refletir sobre a receptividade dos nossos cora\u00e7\u00f5es aos cuidados de Deus, hoje, ao avan\u00e7armos para o XVI Domingo do Tempo Comum (Mt 13,24-43), Jesus nos coloca diante de um mist\u00e9rio ainda mais intrigante e cotidiano: a Par\u00e1bola do Trigo e do Joio. Para quem vive a rotina de um hospital, essa passagem b\u00edblica ganha contornos de uma realidade impressionante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se fecharmos os olhos e pensarmos no &#8220;campo&#8221; onde o trigo e o joio crescem juntos, n\u00e3o precisamos ir longe. Esse campo \u00e9 o pr\u00f3prio ambiente hospitalar. Ali, no sil\u00eancio das enfermarias e na correria dos prontos-socorros, a vida e a fragilidade humana dividem o mesmo espa\u00e7o, lado a lado, em uma conviv\u00eancia por vezes desconfort\u00e1vel, mas profundamente reveladora. O joio, na par\u00e1bola, \u00e9 aquela semente inimiga plantada na calada da noite. No hospital, o joio n\u00e3o \u00e9 uma pessoa, mas sim as realidades sombrias que tentam sufocar a esperan\u00e7a: a doen\u00e7a e o sofrimento que aparecem sem pedir licen\u00e7a, muitas vezes alterando os planos de uma vida inteira; o cansa\u00e7o das v\u00e1rias tentativas sem \u00eaxito que amea\u00e7a a sensibilidade das equipes de sa\u00fade, tentando transformar o cuidado humano em mera tarefa burocr\u00e1tica ou assistencial; a revolta, o medo e a imediatez que sussurram no ouvido dos familiares e pacientes, gerando incompreens\u00e3o e conflito com aqueles que est\u00e3o ali para ajudar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao olharmos para esse cen\u00e1rio, a nossa primeira rea\u00e7\u00e3o humana, imediatista e cheia de boas inten\u00e7\u00f5es \u00e9 a mesma dos servos da par\u00e1bola: &#8220;Senhor, queres que vamos arrancar o joio?&#8221;. Diante do sofrimento, queremos respostas r\u00e1pidas, queremos eliminar a dor imediatamente, extirpar a ang\u00fastia a todo custo, julgar quem est\u00e1 impaciente e separar, de forma cir\u00fargica, os &#8220;bons&#8221; dos &#8220;maus&#8221;. Mas a resposta do Divino Mestre \u00e9 um aceno a uma esperan\u00e7a que est\u00e1 para al\u00e9m da compreens\u00e3o humana: &#8220;N\u00e3o! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis tamb\u00e9m o trigo. Deixai crescer um e outro at\u00e9 a colheita!&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ambiente hospitalar, essa ordem de Jesus \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o de pura sabedoria cl\u00ednica e espiritual. O trigo e o joio se parecem muito em sua fase inicial. Na pr\u00e1tica m\u00e9dica e humana, a linha que separa a dor do desespero \u00e9 incrivelmente t\u00eanue. Se um enfermeiro ou m\u00e9dico decide &#8220;arrancar o joio&#8221;, respondendo \u00e0 rispidez de um familiar com frieza, ou rotulando um paciente dif\u00edcil como &#8220;rebelde&#8221;, ele corre o risco de desconsiderar tamb\u00e9m o trigo. Por tr\u00e1s daquela aparente irrita\u00e7\u00e3o, existe uma pessoa ferida, apavorada e at\u00e9 mesmo desacreditada, face \u00e0 perda irrevers\u00edvel de quem ama. Nesta trama, o desafio de fazer-se fiel aos des\u00edgnios de Deus \u00e9 elevado ao extremo, colocando \u00e0 prova os fundamentos da f\u00e9, da esperan\u00e7a e da caridade de qualquer crist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fim de fortalecer mais e mais a din\u00e2mica do Reino, Jesus faz uso das belas imagens do gr\u00e3o de mostarda e do fermento na massa. Na complexidade do contexto hospitalar, onde decis\u00f5es s\u00e3o tomadas com base em or\u00e7amentos, tecnologias, recursos e estat\u00edsticas, as a\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">de maior valor espiritual e humano costumam vir em segundo plano. Mas para aqueles que cultivam as sementes do Evangelho a din\u00e2mica se inverte: a pressa pelo \u201cgiro de leitos\u201d ou a \u00e2nsia por dar altas a mais e mais pacientes, visando novas admiss\u00f5es, d\u00e3o lugar a atitudes que superam a l\u00f3gica mecanicista presente em muitos profissionais, a considerar o gr\u00e3o de mostarda representado pelo copo de \u00e1gua oferecido com calma ao acompanhante exausto, o fermento no tom de voz suave do m\u00e9dico que d\u00e1 uma not\u00edcia dif\u00edcil, transformando o desespero de uma fam\u00edlia inteira em uma aceita\u00e7\u00e3o serena e unida. Em tais atitudes, que apesar de simples carregam em si a riqueza da Caridade, concretiza-se o Reino de Deus, que na contram\u00e3o do Mundo, imp\u00f5e-se como rem\u00e9dio de salva\u00e7\u00e3o pela esperan\u00e7a renovadora da f\u00e9 em Deus e na pr\u00f3pria humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Irm\u00e3os, sabemos que esses pequenos gestos n\u00e3o anulam a exist\u00eancia da doen\u00e7a ou da morte (o joio do mundo), mas levedam o ambiente nas suas v\u00e1rias camadas, modificam a perspectiva sobre o sofrimento em seus v\u00e1rios sentidos, e fazem com que a dignidade humana cres\u00e7a e se torne uma \u00e1rvore frondosa, onde o paciente encontra abrigo e sombra para descansar sua alma cansada. Que embasados pela liturgia deste domingo alcancemos desarmar os nossos cora\u00e7\u00f5es julgadores e impacientes. Que o Senhor conceda \u00e0s nossas equipes de sa\u00fade e a cada um de n\u00f3s a gra\u00e7a do discernimento e da toler\u00e2ncia, de modo que saibamos conviver com as nossas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es e as do pr\u00f3ximo, sem perder a f\u00e9 na colheita final, e que, no momento certo, quando o Divino M\u00e9dico fizer a colheita, todo o sofrimento seja consumido pelo fogo do seu amor, e tudo o que em n\u00f3s for trigo brilhe como o sol no Seu Reino eterno. Am\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Ant\u00f4nio Carlos Altieri Arcebispo Em\u00e9rito de Passo Fundo (RS) Se no domingo passado a Par\u00e1bola do Semeador nos levou a refletir sobre a receptividade dos nossos cora\u00e7\u00f5es aos cuidados de Deus, hoje, ao avan\u00e7armos para o XVI Domingo do Tempo Comum (Mt 13,24-43), Jesus nos coloca diante de um mist\u00e9rio ainda mais intrigante e &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-joio-e-o-trigo-o-discernimento-e-a-tolerancia-que-vem-de-deus\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">O joio e o trigo: o discernimento e a toler\u00e2ncia que vem de Deus!<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":126,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"rs_blank_template":"","rs_page_bg_color":"","slide_template_v7":"","site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758,1837],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/1002824"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/126"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=1002824"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/1002824\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1002826,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/1002824\/revisions\/1002826"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=1002824"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=1002824"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=1002824"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}