{"id":1003240,"date":"2026-07-29T09:51:42","date_gmt":"2026-07-29T12:51:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=1003240"},"modified":"2026-07-29T09:52:37","modified_gmt":"2026-07-29T12:52:37","slug":"o-convite-ao-banquete-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-convite-ao-banquete-da-vida\/","title":{"rendered":"O convite ao banquete da vida"},"content":{"rendered":"<div>\n<div><strong>Dom Antonio Carlos Rossi Keller<\/strong><\/div>\n<p><strong>Bispo de Frederico Westphalen (RS)\u00a0<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>18.\u00ba Domingo do Tempo Comum Ciclo A<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liturgia do 18.\u00ba Domingo do Tempo Comum, no Ano A, coloca-nos diante de um dos temas mais centrais da f\u00e9 crist\u00e3: o convite gratuito de Deus para o banquete da vida plena. As leituras formam um conjunto harmonioso que nos fala de fome e de fartura, de sede e de \u00e1gua viva, de solid\u00e3o e de comunh\u00e3o, de amea\u00e7as e de um amor que nada pode vencer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira leitura, tirada do final do \u201cLivro da Consola\u00e7\u00e3o\u201d de Isa\u00edas (caps. 40-55), ressoa como um grito de esperan\u00e7a dirigido aos exilados da Babil\u00f4nia. \u201cTodos v\u00f3s que tendes sede, vinde \u00e0 nascente das \u00e1guas\u2026 Vinde e comprai, sem dinheiro e sem despesa, vinho e leite.\u201d Deus n\u00e3o se dirige apenas aos que t\u00eam recursos; dirige-se especialmente aos que n\u00e3o t\u00eam nada. O convite \u00e9 gratuito. O profeta interroga o povo: \u201cPorque gastais o vosso dinheiro naquilo que n\u00e3o alimenta e o vosso trabalho naquilo que n\u00e3o sacia?\u201d A pergunta permanece atual. Quantas vezes gastamos tempo, energia e vida atr\u00e1s de coisas que n\u00e3o matam a nossa sede mais profunda? Isa\u00edas anuncia uma alian\u00e7a eterna, fundada nas \u201cgra\u00e7as prometidas a David\u201d. Trata-se de um novo \u00eaxodo: sair da terra da escravid\u00e3o (a Babil\u00f4nia, mas tamb\u00e9m as nossas escravid\u00f5es interiores) e dirigir-se \u00e0 Jerusal\u00e9m nova, onde Deus prepara a mesa da vida abundante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Salmo responsorial (Sl 144\/145) responde a este convite com confian\u00e7a serena: \u201cAbris, Senhor, as vossas m\u00e3os e saciais a nossa fome.\u201d O Senhor \u00e9 clemente e compassivo; todos t\u00eam os olhos postos n\u2019Ele e, a seu tempo, recebem o alimento. A imagem das m\u00e3os abertas de Deus \u00e9 profundamente consoladora. N\u00e3o se trata de um Deus distante ou exigente, mas de um Pai que se inclina para saciar generosamente toda a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda leitura, de Romanos 8, eleva o olhar para a dimens\u00e3o mais radical desta certeza. Paulo pergunta com for\u00e7a ret\u00f3rica: \u201cQuem poder\u00e1 separar-nos do amor de Cristo?\u201d Enumera depois as realidades mais tem\u00edveis \u2014 tribula\u00e7\u00e3o, ang\u00fastia, persegui\u00e7\u00e3o, fome, nudez, perigo, espada \u2014 e conclui que, em tudo isto, \u201csomos vencedores, gra\u00e7as \u00c0quele que nos amou\u201d. Nem a morte nem a vida, nem anjos nem potestades, nem o presente nem o futuro poder\u00e3o separar-nos do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus. Esta p\u00e1gina \u00e9 um hino \u00e0 seguran\u00e7a absoluta do crist\u00e3o. O amor de Deus n\u00e3o \u00e9 um sentimento passageiro; \u00e9 a for\u00e7a mais real e definitiva da hist\u00f3ria. Por isso o crente pode enfrentar as dificuldades sem medo de ser abandonado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Evangelho traz este mist\u00e9rio para o concreto da vida de Jesus. Depois de saber da morte de Jo\u00e3o Batista, Jesus retira-se para um lugar deserto. Mas as multid\u00f5es seguem-no. Ao desembarcar, \u201cviu uma grande multid\u00e3o e, cheio de compaix\u00e3o, curou os seus doentes\u201d. Quando chega a tarde, os disc\u00edpulos sugerem que se despe\u00e7a a gente para irem comprar comida. Jesus responde: \u201cDai-lhes v\u00f3s de comer.\u201d Eles apresentam o pouco que t\u00eam: cinco p\u00e3es e dois peixes. Jesus toma-os, ergue os olhos ao c\u00e9u, pronuncia a b\u00ean\u00e7\u00e3o, parte e d\u00e1 aos disc\u00edpulos, que os distribuem. Todos comem e ficam saciados; sobram doze cestos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este milagre \u00e9, ao mesmo tempo, sinal e antecipa\u00e7\u00e3o. Jesus revela-se como o novo Mois\u00e9s que alimenta o povo no deserto, mas sobretudo como Aquele que oferece o verdadeiro p\u00e3o que desce do c\u00e9u. A<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es prefigura a Eucaristia: o gesto de tomar, benzer, partir e dar \u00e9 o mesmo que Jesus far\u00e1 na \u00daltima Ceia. Na Eucaristia, o pouco que somos e temos, quando colocado nas m\u00e3os de Cristo, torna-se abund\u00e2ncia para a multid\u00e3o. O milagre acontece n\u00e3o apesar da pobreza dos disc\u00edpulos, mas precisamente a partir dela. A l\u00f3gica do Reino \u00e9 a partilha, n\u00e3o a acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liturgia deste domingo desafia-nos em v\u00e1rios n\u00edveis. Em primeiro lugar, convida-nos a reconhecer a nossa fome mais profunda \u2014 a fome de sentido, de amor, de eternidade \u2014 e a n\u00e3o a confundir com as fomes secund\u00e1rias que o mundo tenta saciar com miragens. Em segundo lugar, lembra-nos que Deus oferece o banquete de gra\u00e7a, mas pede a nossa disponibilidade: \u00e9 preciso \u201cvir\u201d, \u201cescutar\u201d, \u201cdesinstalar-se\u201d. Em terceiro lugar, mostra que a resposta a esta oferta passa pela partilha. O \u201cdai-lhes v\u00f3s de comer\u201d continua a ressoar na Igreja. A Eucaristia que celebramos n\u00e3o pode ficar confinada ao templo; deve tornar-se vida partilhada, p\u00e3o partido pelos pobres, gesto de compaix\u00e3o concreta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, a liturgia assegura-nos que nada \u2014 absolutamente nada \u2014 pode separar-nos deste amor que se faz p\u00e3o e se faz presen\u00e7a. Mesmo quando a noite parece longa e os recursos escassos, as m\u00e3os de Deus continuam abertas e o amor de Cristo permanece vitorioso. Nesta certeza, somos convidados a sentar-nos \u00e0 mesa, a deixar-nos saciar e a tornar-nos, por nossa vez, p\u00e3o para os outros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Antonio Carlos Rossi Keller Bispo de Frederico Westphalen (RS)\u00a0 18.\u00ba Domingo do Tempo Comum Ciclo A A liturgia do 18.\u00ba Domingo do Tempo Comum, no Ano A, coloca-nos diante de um dos temas mais centrais da f\u00e9 crist\u00e3: o convite gratuito de Deus para o banquete da vida plena. 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