{"id":10381,"date":"2009-09-26T00:00:00","date_gmt":"2009-09-26T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/ambiente-cultural-e-religioso-de-sao-paul\/"},"modified":"2009-09-26T00:00:00","modified_gmt":"2009-09-26T03:00:00","slug":"ambiente-cultural-e-religioso-de-sao-paul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/ambiente-cultural-e-religioso-de-sao-paul\/","title":{"rendered":"Ambiente Cultural e Religioso de S\u00e3o Paul"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje quero come\u00e7ar um novo ciclo de catequeses dedicado ao grande ap\u00f3stolo S\u00e3o Paulo. A ele, como sabeis, est\u00e1 consagrado este ano que vai da festa lit\u00fargica<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">dos santos Pedro e Paulo, de 29 de junho de 2008, at\u00e9 a mesma data em 2009. O ap\u00f3stolo Paulo, figura excelsa, quase inimit\u00e1vel, mas sempre estimulante, \u00e9-nos apresentado como um exemplo de total entrega ao Senhor e \u00e0 sua Igreja, assim como de grande abertura \u00e0 humanidade e \u00e0s suas culturas. Vale a pena, portanto, que lhe dediquemos um lugar particular, n\u00e3o s\u00f3 em nossa venera\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m que nos esforcemos por compreender o que ele pode dizer tamb\u00e9m a n\u00f3s, crist\u00e3os de hoje. Em nosso primeiro encontro, consideraremos o ambiente no qual ele viveu e atuou. Um tema assim pareceria que nos remonta muito atr\u00e1s, dado que temos de introduzir-nos no mundo de dois mil anos atr\u00e1s. E, contudo, isso \u00e9 verdade s\u00f3 em apar\u00eancia e parcialmente, pois poderemos constatar que, desde diferentes aspectos, o contexto s\u00f3cio-cultural de hoje n\u00e3o \u00e9 muito diferente ao de ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um fator prim\u00e1rio e fundamental que se deve ter presente est\u00e1 constitu\u00eddo pela rela\u00e7\u00e3o entre o ambiente no qual nasce e se desenvolve Paulo e o contexto global no qual sucessivamente se integra. Ele procede de uma cultura sumamente precisa e circunscrita, certamente minorit\u00e1ria, a do povo de Israel e de sua tradi\u00e7\u00e3o. No mundo antigo, e particularmente dentro do imp\u00e9rio romano, como nos ensinam os especialistas, os judeus deviam ser cerca de 10% da popula\u00e7\u00e3o total. Aqui, em Roma, sua porcentagem em meados do s\u00e9culo I era ainda menor, alcan\u00e7ando um m\u00e1ximo de 3% dos habitantes da cidade. Suas cren\u00e7as e seu estilo de vida, como acontece ainda hoje, diferenciavam-nos claramente do ambiente circunstante. Isso podia ter dois resultados: ou a ridiculariza\u00e7\u00e3o, que poderia levar \u00e0 intoler\u00e2ncia, ou a admira\u00e7\u00e3o, que se expressava em formas de simpatia, como no caso dos \u00abtemerosos de Deus\u00bb o dos \u00abpros\u00e9litos\u00bb, pag\u00e3os que se associavam \u00e0 sinagoga e compartilhavam a f\u00e9 no Deus de Israel. Como exemplos concretos dessa dupla atitude podemos citar, por um lado, o duro ju\u00edzo de um orador, como C\u00edcero, que desprezava sua religi\u00e3o e inclusive a cidade de Jerusal\u00e9m (cf. Pro Flacco, 66-60), e, por outra, a atitude da mulher de Nero, Pop\u00e9ia, recordada por Fl\u00e1vio Josefo como \u00absimpatizante\u00bb dos judeus (cf. Antiguidades judaicas 20, 195. 252; Vida 16), sem esquecer que Julio C\u00e9sar lhes havia reconhecido oficialmente direitos particulares, que s\u00e3o referidos pelo mencionado historiador judeu Fl\u00e1vio Josefo (cf. ibidem, 14, 200-216). O que \u00e9 seguro \u00e9 que o n\u00famero dos judeus, tal como continua acontecendo hoje, era muito superior fora da terra de Israel, ou seja, na di\u00e1spora, no territ\u00f3rio que os demais chamavam de Palestina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o surpreende, portanto, que o pr\u00f3prio Paulo seja objeto deste duplo e contrastante ju\u00edzo do qual falei. H\u00e1 algo certo: o car\u00e1ter particular da cultura e da religi\u00e3o judaica encontrava tranquilamente seu lugar dentro de uma institui\u00e7\u00e3o que tudo penetrava, como o Imp\u00e9rio Romano. Mais dif\u00edcil e sofrida ser\u00e1 a posi\u00e7\u00e3o do grupo daqueles, judeus ou gentios, que aderir\u00e3o com f\u00e9 \u00e0 pessoa de Jesus de Nazar\u00e9, na medida em que se diferenciar\u00e3o tanto do juda\u00edsmo como do paganismo imperantes. Em todo caso, dois fatores favoreceram o compromisso de Paulo. O primeiro foi a cultura grega, ou melhor, helenista, que depois de Alexandre Magno havia se convertido em patrim\u00f4nio comum ao menos no Mediterr\u00e2neo oriental e no Oriente M\u00e9dio, ainda que integrando em si muitos elementos das culturas de povos tradicionalmente considerados como b\u00e1rbaros. Um escritor da \u00e9poca afirma que Alexandre \u00abordenou que todos considerassem como p\u00e1tria todo o ec\u00fameno&#8230; e que o grego e o b\u00e1rbaro deixassem de matar-se\u00bb (Plutarco, De Alexandri Magni fortuna aut virtute, \u00a7\u00a7 6.8). O segundo fator foi a estrutura pol\u00edtico-administrativa do imp\u00e9rio romano, que garantia paz e estabilidade, desde Bretanha ate o sul do Egito, unificando um territ\u00f3rio de dimens\u00f5es como nunca antes se havia visto. Neste espa\u00e7o era poss\u00edvel mover-se com suficiente liberdade e seguran\u00e7a, desfrutando, entre outras coisas, de um sistema extraordin\u00e1rio de estradas, e encontrando em cada ponto de chegada caracter\u00edsticas culturais b\u00e1sicas que, sem estar em detrimento dos valores locais, representavam um tecido comum de unifica\u00e7\u00e3o super partes, at\u00e9 o ponto de que o fil\u00f3sofo judeu F\u00edlon de Alexandria, contempor\u00e2neo do pr\u00f3prio Paulo, elogiava o imperador Augusto porque \u00abuniu em harmonia todos os povos selvagens &#8230; convertendo-se em guardi\u00e3o da paz\u00bb (Legatio ad Caium, \u00a7\u00a7 146-147).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A vis\u00e3o universalista t\u00edpica da personalidade de S\u00e3o Paulo, ao menos do Paulo crist\u00e3o que surgiu ap\u00f3s a queda no caminho de Damasco, deve certamente seu impulso b\u00e1sico \u00e0 f\u00e9 em Jesus Cristo, enquanto a figura do Ressuscitado supera todo particularismo. De fato, para o ap\u00f3stolo, \u00abj\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 judeu nem grego; nem escravo nem livre; nem homem nem mulher, j\u00e1 que todos v\u00f3s sois um em Cristo Jesus\u00bb (G\u00e1latas 3, 28). No entanto, a situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cultural de seu tempo e ambiente tamb\u00e9m influ\u00edram em suas op\u00e7\u00f5es e compromisso. Algu\u00e9m definiu Paulo como \u00abhomem de tr\u00eas culturas\u00bb, levando em conta sua origem judaica, seu idioma grego e sua prerrogativa de \u00abcivis romanus\u00bb, como testemunha tamb\u00e9m o nome de origem latina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Deve-se recordar em particular a filosofia est\u00f3ica, que era dominante no tempo de Paulo e que influenciou, ainda que de maneira marginal, inclusive o cristianismo. Neste sentido, n\u00e3o podemos deixar de mencionar alguns nomes de fil\u00f3sofos est\u00f3icos como os iniciadores Zen\u00e3o e Cleantes, e depois os dos mais pr\u00f3ximos cronologicamente de Paulo, como S\u00eaneca, Mus\u00f4nio e Epicteto: neles se encontram valores elevad\u00edssimos de humanidade e de sabedoria, que ser\u00e3o acolhidos naturalmente pelo cristianismo. Como escreve acertadamente um especialista na mat\u00e9ria, \u00aba Stoa&#8230; anunciou um novo ideal, que certamente impunha deveres ao homem para com seus semelhantes, mas ao mesmo tempo o libertava de todos os la\u00e7os f\u00edsicos e nacionais e fazia dele um ser puramente espiritual\u00bb (M. Pohlenz, La Stoa, I, Firenze 1978, p\u00e1g. 565). Basta pensar, por exemplo, na doutrina do universo, entendido como um grande corpo harmonioso e, portanto, na doutrina da igualdade entre todos os homens sem distin\u00e7\u00f5es sociais, na igualdade, ao menos em teoria, entre o homem e a mulher, e no ideal da sobriedade, da justa medida, e desse dom\u00ednio de si mesmo para evitar todo excesso. Quando Paulo escreve aos Filipenses \u00abtudo o que h\u00e1 de verdadeiro, de nobre, de justo, de puro, de am\u00e1vel, de honr\u00e1vel, tudo o que for virtude e coisa digna de elogio, tudo isso levai-o em conta\u00bb (Filipenses 4, 8), n\u00e3o faz mais que retomar uma concep\u00e7\u00e3o estritamente humanista, pr\u00f3pria da sabedoria filos\u00f3fica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na \u00e9poca de S\u00e3o Paulo, acontecia tamb\u00e9m uma crise da religi\u00e3o tradicional, ao menos em seus aspectos mitol\u00f3gicos e inclusive c\u00edvicos. Depois de que Lucr\u00e9cio, j\u00e1 um s\u00e9culo antes, sentenciara polemicamente que \u00aba religi\u00e3o provocou tantas m\u00e1s a\u00e7\u00f5es\u00bb (De rerum natura, 1, 101), um fil\u00f3sofo como S\u00eaneca, superando todo ritualismo exterior, ensinava que \u00abDeus est\u00e1 perto de ti, est\u00e1 contigo, est\u00e1 dentro de ti\u00bb (Cartas a Luc\u00edlio, 41,1). Do mesmo modo, quando Paulo se dirige a um audit\u00f3rio de fil\u00f3sofos epicuristas e est\u00f3icos no Are\u00f3pago de Atenas, diz textualmente que \u00abDeus&#8230; n\u00e3o habita em santu\u00e1rios fabricados por m\u00e3os humanas&#8230;, pois nele vivemos, nos movemos e existimos\u00bb (Atos dos Ap\u00f3stolos 17, 24.28). Deste modo, ele se faz certamente eco da f\u00e9 judaica em um Deus que n\u00e3o pode ser representado em termos antropom\u00f3rficos, mas se p\u00f5e tamb\u00e9m em uma longitude de onda religiosa que seus ouvintes conheciam bem. Tamb\u00e9m temos de levar em considera\u00e7\u00e3o o fato de que muitos dos cultos pag\u00e3os prescindiam dos templos oficiais da cidade e se desenvolviam em lugares privados que favoreciam a iniciativa dos adeptos. Portanto, n\u00e3o surpreendia que tamb\u00e9m as reuni\u00f5es crist\u00e3s (as ekklesiai), como testemunham sobretudo as cartas de S\u00e3o Paulo, acontecessem em casas privadas. Naquela \u00e9poca, por outro lado, n\u00e3o existia ainda nenhum edif\u00edcio p\u00fablico. Portanto, as reuni\u00f5es dos crist\u00e3os deviam ser vistas pelos contempor\u00e2neos como uma simples varia\u00e7\u00e3o dessa pr\u00e1tica religiosa mais \u00edntima. De qualquer forma, as diferen\u00e7as entre os cultos pag\u00e3os e o culto crist\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o de pouca import\u00e2ncia e afetam tanto a consci\u00eancia da identidade dos participantes como a participa\u00e7\u00e3o em comum de homens e mulheres, a celebra\u00e7\u00e3o da \u00abceia do Senhor\u00bb e a leitura das Escrituras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em resumo: ao relembrar o ambiente cultural do s\u00e9culo I da era crist\u00e3, fica claro que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender adequadamente S\u00e3o Paulo sem situ\u00e1-lo no contexto tanto judeu como pag\u00e3o de seu tempo. Deste modo, sua figura adquire uma profundidade hist\u00f3rica e ideal, demonstrando elementos compartilhados e originais com rela\u00e7\u00e3o ao ambiente. Mas tudo isso \u00e9 igualmente v\u00e1lido para o cristianismo em geral, do qual o ap\u00f3stolo Paulo \u00e9 um paradigma de primeiro plano, de quem todos temos ainda tanto que aprender e este \u00e9 o objetivo do Ano Paulino: aprender de S\u00e3o Paulo a f\u00e9, aprender dele quem \u00e9 Cristo, aprender, em definitivo, o caminho para uma vida reta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s: Hoje quero come\u00e7ar um novo ciclo de catequeses dedicado ao grande ap\u00f3stolo S\u00e3o Paulo. 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