{"id":10638,"date":"2008-09-26T00:00:00","date_gmt":"2008-09-26T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/sao-paulo-estava-em-comunhao-com-demais-apostolos\/"},"modified":"2008-09-26T00:00:00","modified_gmt":"2008-09-26T03:00:00","slug":"sao-paulo-estava-em-comunhao-com-demais-apostolos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/sao-paulo-estava-em-comunhao-com-demais-apostolos\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Paulo estava em comunh\u00e3o com demais ap\u00f3stolos"},"content":{"rendered":"<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s:<br \/>Hoje eu gostaria de falar sobre a rela\u00e7\u00e3o entre S\u00e3o Paulo e os ap\u00f3stolos que o precederam no seguimento de Jesus. Esta rela\u00e7\u00e3o sempre esteve marcada por um<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">profundo respeito e pela franqueza que em Paulo derivava da defesa da verdade do Evangelho. Ainda que ele fosse praticamente contempor\u00e2neo de Jesus de Nazar\u00e9, nunca teve a oportunidade de encontr\u00e1-lo durante sua vida p\u00fablica. Por isso, ap\u00f3s o deslumbramento no caminho de Damasco, ele advertiu a necessidade de consultar os primeiros disc\u00edpulos do Mestre, que Ele tinha escolhido para que levassem o Evangelho at\u00e9 os confins do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na Carta aos G\u00e1latas, Paulo desenvolve um importante informe sobre os contatos mantidos com alguns dos Doze: antes de tudo com Pedro, que havia sido escolhido como Kephas, palavra aramaica que significa \u00abrocha\u00bb, sobre a que se estava edificando a Igreja (cf. G\u00e1l 1, 18), com Tiago, \u00abirm\u00e3o do Senhor\u00bb (cf. G\u00e1l 1, 19), e com Jo\u00e3o (cf. G\u00e1l 2, 9): Paulo n\u00e3o hesita em reconhec\u00ea-los como as \u00abcolunas\u00bb da Igreja. Particularmente significativo \u00e9 o encontro com Cefas (Pedro), que aconteceu em Jerusal\u00e9m: Paulo ficou com ele 15 dias para \u00abconsult\u00e1-lo\u00bb (cf. G\u00e1l 1, 19), isto \u00e9, para informar-se sobre a vida terrena do Ressuscitado, que o havia \u00abpego\u00bb no caminho de Damasco e estava transformando sua exist\u00eancia de forma radical: de perseguidor da Igreja de Deus, ele tinha chegado a ser evangelizador da f\u00e9 no Messias crucificado e Filho de Deus, que no passado tinham tentado destruir (cf. G\u00e1l 1, 23).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Que tipo de informa\u00e7\u00e3o Paulo obteve sobre Jesus nos tr\u00eas anos ap\u00f3s o encontro de Damasco? Na 1\u00aa Carta aos Cor\u00edntios, podemos encontrar duas passagens que Paulo havia conhecido em Jerusal\u00e9m e que j\u00e1 haviam sido formuladas como elementos centrais da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, tradi\u00e7\u00e3o constitutiva. Ele as transmite verbalmente, assim como as havia recebido, com uma f\u00f3rmula muito solene: \u00abEu vos transmito aquilo que recebi\u00bb. Ele insiste, portanto, na fidelidade a tudo o que ele mesmo recebeu e que fielmente transmite aos novos crist\u00e3os. S\u00e3o elementos constitutivos e concernem \u00e0 Eucaristia e \u00e0 Ressurrei\u00e7\u00e3o; trata-se de textos j\u00e1 formulados por volta do ano 30. Chegamos assim \u00e0 morte, sepultura no seio da terra e \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus (cf. 1 Cor 15, 3-4). Consideremos uma e outra: as palavras de Jesus na \u00daltima Ceia (cf. 1 Cor 11, 23-25), para Paulo, s\u00e3o realmente o centro da vida da Igreja: a Igreja \u00e9 edificada a partir desse centro, sendo assim ela mesma. Al\u00e9m desse centro eucar\u00edstico, do qual a Igreja volta sempre a nascer \u2013 tamb\u00e9m para toda a teologia de Paulo, para todo o seu pensamento \u2013, estas palavras t\u00eam um not\u00e1vel impacto sobre a rela\u00e7\u00e3o pessoal de Paulo com Jesus. Por um lado, elas testemunham que a Eucaristia ilumina a maldi\u00e7\u00e3o da cruz, convertendo-a em b\u00ean\u00e7\u00e3o (cf. G\u00e1l 3, 13-14); e por outro, explicam o alcance da pr\u00f3pria morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. Em sua Carta, o \u00abpor v\u00f3s\u00bb da institui\u00e7\u00e3o se converte no \u00abpor mim\u00bb (G\u00e1l 2, 20), personalizado, sabendo que nesse \u00abv\u00f3s\u00bb ele mesmo era conhecido e amado por Jesus e, por outro lado, \u00abpor todos\u00bb (2 Cor 5, 14): este \u00abpor v\u00f3s\u00bb se converte em \u00abpor mim\u00bb e \u00abpela Igreja\u00bb (Ef 5, 25), isto \u00e9, tamb\u00e9m \u00abpor todos\u00bb do sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio da cruz (cf. Rm 3, 25). Por e na Eucaristia, a Igreja se edifica e se reconhece como \u00abCorpo de Cristo\u00bb (1 Cor 12, 27), alimentado cada dia pela for\u00e7a do Esp\u00edrito do Ressuscitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O outro texto, sobre a Ressurrei\u00e7\u00e3o, transmite-nos novamente a mesma f\u00f3rmula de fidelidade. S\u00e3o Paulo escreve: \u00abEu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado, e ressurgiu ao terceiro dia, segundo as Escrituras; apareceu a Cefas, e em seguida aos Doze\u00bb (1 Cor 15, 3-5). Tamb\u00e9m nesta tradi\u00e7\u00e3o transmitida a Paulo, ele volta a mencionar a express\u00e3o \u00abpor nossos pecados\u00bb, que sublinha o dom que Jesus fez de si mesmo ao Pai, para libertar-nos do pecado e da morte. Desse dom de si mesmo, Paulo extrai as express\u00f5es mais comoventes e fascinantes da nossa rela\u00e7\u00e3o com Cristo: \u00abAquele que n\u00e3o conheceu o pecado, Deus o fez pecado por n\u00f3s, para que nele n\u00f3s nos torn\u00e1ssemos justi\u00e7a de Deus\u00bb (2 Cor 5, 21); \u00abV\u00f3s conheceis a bondade de nosso Senhor Jesus Cristo. Sendo rico, fez-se pobre por v\u00f3s, a fim de vos enriquecer por sua pobreza\u00bb (2 Cor 8, 9). Vale a pena lembrar do coment\u00e1rio com o qual o ent\u00e3o monge agostiniano Martinho Lutero acompanhava estas express\u00f5es paradoxais de Paulo: \u00abEste \u00e9 o grandioso mist\u00e9rio da gra\u00e7a divina com rela\u00e7\u00e3o aos pecadores: por uma admir\u00e1vel troca, nossos pecados j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o nossos, mas de Cristo, e a justi\u00e7a de Cristo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 de Cristo, mas nossa\u00bb (Coment\u00e1rio aos Salmos, 1513-1515). E assim fomos salvos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No kerygma original (an\u00fancio), transmitido oralmente, vale a pena destacar o uso do verbo \u00ab\u00e9 ressuscitado\u00bb ao inv\u00e9s de \u00abressuscitou\u00bb, que teria sido mais l\u00f3gico utilizar, em continuidade com o \u00abmorreu\u00bb e \u00abfoi sepultado\u00bb. A forma verbal \u00ab\u00e9 ressuscitado\u00bb foi escolhida para sublinhar que a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo incide at\u00e9 o presente da exist\u00eancia dos crentes: podemos traduzi-la por \u00ab\u00e9 ressuscitado e continua vivo\u00bb na Eucaristia e na Igreja. Assim, toda a Escritura d\u00e1 testemunho da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, porque \u2013 como escreveu Hugo de S\u00e3o V\u00edtor \u2013 \u00abtoda a divina Escritura constitui um \u00fanico livro, e este livro \u00e9 Cristo, porque toda a Escritura fala de Cristo e encontra em Cristo seu cumprimento\u00bb (De arca Noe, 2, 8). Se S\u00e3o Ambr\u00f3sio de Mil\u00e3o pode dizer que \u00abna Escritura lemos Cristo\u00bb, \u00e9 porque a Igreja das origens releu todas as Escrituras de Israel partindo e voltando a Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A men\u00e7\u00e3o das apari\u00e7\u00f5es do Ressuscitado a Cefas, aos Doze, a mais de 500 irm\u00e3os e a Tiago conclui com a refer\u00eancia \u00e0 apari\u00e7\u00e3o pessoal, recebida por Paulo no caminho de Damasco: \u00abE, por \u00faltimo de todos, apareceu tamb\u00e9m a mim, como a um abortivo\u00bb (1 Cor 15, 8). Devido a que ele perseguiu a Igreja de Deus, nesta confiss\u00e3o ele expressa sua indignidade de ser considerado ap\u00f3stolo, no mesmo n\u00edvel daqueles que o precederam; mas a gra\u00e7a que Deus lhe deu n\u00e3o foi in\u00fatil (1 Cor 15, 10). Portanto, a afirma\u00e7\u00e3o prepotente da gra\u00e7a divina une Paulo \u00e0s primeiras testemunhas da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo: \u00abPortanto, seja eu ou sejam eles, assim pregamos, e assim crestes\u00bb (1 Cor 15, 11). \u00c9 importante a identidade e a unicidade do an\u00fancio do Evangelho: tanto eles como eu pregamos a mesma f\u00e9, o mesmo Evangelho de Jesus Cristo morto e ressuscitado que se entrega na Sant\u00edssima Eucaristia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A import\u00e2ncia que ele confere \u00e0 Tradi\u00e7\u00e3o viva da igreja, que transmite \u00e0s suas comunidades, demonstra qu\u00e3o equivocada est\u00e1 a vis\u00e3o daqueles que atribuem a Paulo a inven\u00e7\u00e3o do cristianismo: antes de proclamar o evangelho de Jesus Cristo, ele o encontrou no caminho de Damasco e o conheceu na Igreja, observando sua vida nos Doze e naqueles que o haviam seguido pelos caminhos da Galil\u00e9ia. Nas pr\u00f3ximas catequeses, teremos a oportunidade de aprofundar nas contribui\u00e7\u00f5es que Paulo ofereceu \u00e0 Igreja das origens; mas a miss\u00e3o recebida por parte do Ressuscitado referente \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o dos gentios precisa ser confirmada e garantida por aqueles que deram as m\u00e3os a ele e a Barnab\u00e9, em sinal de aprova\u00e7\u00e3o do seu apostolado e da sua evangeliza\u00e7\u00e3o, e de acolhida na \u00fanica comunh\u00e3o da Igreja de Cristo (cf G\u00e1l 2, 9). Compreende-se, ent\u00e3o, que a express\u00e3o \u00abMuito embora tenhamos considerado Cristo de um modo humano, agora j\u00e1 n\u00e3o o julgamos assim\u00bb (2 Cor 5, 16) n\u00e3o significa que sua exist\u00eancia terrena tenha uma escassa relev\u00e2ncia para o nosso amadurecimento na f\u00e9, mas que, desde o momento da Ressurrei\u00e7\u00e3o, transforma nossa forma de nos relacionarmos com Ele. Ele \u00e9, ao mesmo tempo, o Filho de Deus, \u00abdescendente de Davi quanto \u00e0 carne, que, segundo o Esp\u00edrito de santidade, foi estabelecido Filho de Deus no poder por sua ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos\u00bb, como recordar\u00e1 Paulo no come\u00e7o da Carta aos Romanos (1, 3-4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quanto mais procurarmos seguir os passos de Jesus de Nazar\u00e9 pelos caminhos da Galil\u00e9ia, mais poderemos compreender que Ele tomou sobre si a nossa humanidade, compartilhando-a em tudo, exceto no pecado. Nossa f\u00e9 n\u00e3o nasce de um mito, nem de uma id\u00e9ia, mas do encontro com o Ressuscitado, na vida da Igreja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s:Hoje eu gostaria de falar sobre a rela\u00e7\u00e3o entre S\u00e3o Paulo e os ap\u00f3stolos que o precederam no seguimento de Jesus. 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