{"id":10680,"date":"2008-10-03T00:00:00","date_gmt":"2008-10-03T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/crise-alimentar-mercado-e-debate-ideologico\/"},"modified":"2008-10-03T00:00:00","modified_gmt":"2008-10-03T03:00:00","slug":"crise-alimentar-mercado-e-debate-ideologico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/crise-alimentar-mercado-e-debate-ideologico\/","title":{"rendered":"Crise alimentar, mercado e debate ideol\u00f3gico"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\" \/>De repente, fomos surpreendidos por not\u00edcias sobre a falta de alimentos no mundo. Ap\u00f3s trinta anos de relativa estabilidade nos pre\u00e7os, uma s\u00fabita   <!--more-->  eleva\u00e7\u00e3o gera protestos de popula\u00e7\u00f5es esfomeadas no Haiti, Indon\u00e9sia e v\u00e1rios pa\u00edses da \u00c1frica. Quando tudo parecia estar se ajustando no panorama do com\u00e9rcio mundial \u2013 onde a China \u00e9 a f\u00e1brica, a \u00cdndia o escrit\u00f3rio, e o Brasil a fazenda \u2013 assistimos a uma crise alimentar que, segundo o Banco Mundial, custar\u00e1 500 milh\u00f5es de d\u00f3lares em ajuda emergencial aos famintos. De fato, os pre\u00e7os subiram enormemente nos dois \u00faltimos anos, e os analistas apontam diversos fatores que se somaram para gerar esse aumento. Dois s\u00e3o de ordem f\u00edsica: o crescimento econ\u00f4mico da \u00c1sia, cujas popula\u00e7\u00f5es se urbanizam, diversificam sua dieta e aumentam a demanda, e a utiliza\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os para a produ\u00e7\u00e3o de agrocombust\u00edveis. Outros dois s\u00e3o de ordem financeira: o aumento de pre\u00e7o dos fertilizantes e a entrada massi\u00e7a dos fundos de investimento no mercado futuro de alimentos, para se protegerem contra as perdas financeiras do mercado imobili\u00e1rio dos EUA. Embora agravada por fatores clim\u00e1ticos localizados, trata-se indiscutivelmente de uma crise provocada pelo mercado e n\u00e3o por m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es do clima, guerras ou doen\u00e7as, que sempre foram as grandes causadoras da fome em grande escala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa novidade de uma pen\u00faria alimentar causada pelos pr\u00f3prios mecanismos do mercado deveria provocar uma reflex\u00e3o mais alentada do que a rea\u00e7\u00e3o dos economistas afirmando que a crise ser\u00e1 superada pelo pr\u00f3prio mercado auto-regulado. Para eles, a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de pre\u00e7os incentivar\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o e trar\u00e1 um novo equil\u00edbrio entre oferta e demanda. Isso implicar\u00e1 tamb\u00e9m maior explora\u00e7\u00e3o da terra (desmatamento) e das \u00e1guas (irriga\u00e7\u00e3o), e portanto o agravamento dos problemas ecol\u00f3gicos \u2013 mas este n\u00e3o \u00e9 um problema de economistas, para quem o mercado ser a institui\u00e7\u00e3o reguladora da economia \u00e9 t\u00e3o natural quanto ser a fam\u00edlia a institui\u00e7\u00e3o reguladora da sexualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para quem se atreve a olhar um pouco mais longe, por\u00e9m, numa perspectiva hist\u00f3rica e cr\u00edtica, a crise atual pode ser uma rica fonte de ensinamentos sobre a realidade atual. \u00c9 o que desejo mostrar neste pequeno artigo, inspirado num estudo cl\u00e1ssico de hist\u00f3ria social e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E. Thompson(1) fez um pormenorizado estudo das revoltas populares contra o pre\u00e7o do trigo, na Inglaterra do s\u00e9culo 18. Nesse estudo, o Autor mostra como a doutrina do \u201cjusto pre\u00e7o\u201d foi sendo substitu\u00edda pela doutrina do \u201clivre-mercado\u201d que \u00e9 a base do capitalismo moderno, num longo processo que vai desde o s\u00e9culo 16 at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo 19. No sistema tradicional, a compra e venda de cereais e outros g\u00eaneros aliment\u00edcios, nas cidades inglesas era regulada pelo costume cujo s\u00edmbolo era o toque dos sinos. Os produtores (camponeses) chegavam cedo \u00e0 pra\u00e7a do mercado, mas s\u00f3 podiam iniciar as opera\u00e7\u00f5es de venda ap\u00f3s o toque do sino, quando os moradores da cidade adquiriam o necess\u00e1rio para seu consumo. Atendidos os moradores, tocava novamente o sino e os comerciantes, donos de moinho e padeiros locais entravam no mercado como compradores. S\u00f3 mais tarde, ap\u00f3s o novo toque dos sinos, comerciantes de fora podiam comprar as mercadorias que tivessem sobrado. Ficava assim assegurado o abastecimento da popula\u00e7\u00e3o local s\u00f3 sendo exportados os excedentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os grandes negociantes, por\u00e9m, ganharam peso pol\u00edtico cada vez maior e isso resultou em decretos reais suprimindo os empecilhos legais \u00e0 sua participa\u00e7\u00e3o nas opera\u00e7\u00f5es de compra e venda. Mas a oposi\u00e7\u00e3o de movimentos sociais dos trabalhadores pobres, apoiados na tradi\u00e7\u00e3o local, impede \u2013 inclusive pela for\u00e7a f\u00edsica \u2013 que tais decretos sejam aplicados. A\u00ed se d\u00e1 um longo e acalorado debate ideol\u00f3gico entre os defensores do \u201cpaternalismo\u201d na economia e os \u201cliberais\u201d, entre os quais se destaca Adam Smith, que com sua obra A riqueza das na\u00e7\u00f5es (1776) inaugura a moderna economia pol\u00edtica. Ao iniciar-se o s\u00e9culo 19, as guerras na Europa contra Napole\u00e3o d\u00e3o ao governo as raz\u00f5es que ele precisava para abolir toda regula\u00e7\u00e3o do mercado, consagrando ent\u00e3o a vit\u00f3ria ideol\u00f3gica do liberalismo e assegurando o funcionamento do mercado autorregulado. Da\u00ed em diante, a hist\u00f3ria \u00e9 conhecida: o mercado se expande continuamente, incorporando novos contingentes da popula\u00e7\u00e3o, at\u00e9 sua completa mundializa\u00e7\u00e3o no final do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A atual crise de alimentos pode ent\u00e3o trazer muitos ensinamentos sobre o funcionamento do mercado, que nos dois \u00faltimos s\u00e9culos tem sido a institui\u00e7\u00e3o fundamental das sociedades modernas e p\u00f3s-modernas (que n\u00e3o por acaso se autointitulam \u201csociedades de mercado\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 evidente que o mercado incentiva \u2013 como nenhum outro sistema at\u00e9 hoje inventado \u2013 a produ\u00e7\u00e3o e o consumo de bens e servi\u00e7os. O PIB mundial, hoje estimado em US$45 trilh\u00f5es, \u00e9 o melhor indicador dessa capacidade de produzir riqueza. (Se fosse dividido pela popula\u00e7\u00e3o mundial, cada fam\u00edlia de quatro pessoas teria hoje uma renda bruta mensal de R$3.750). Mas \u00e9 tamb\u00e9m evidente que o mercado, por fundar-se na competi\u00e7\u00e3o, beneficia os fortes e prejudica os fracos. A menos que se submeta a um poder maior que o controle, ele tende a agravar as desigualdades sociais. Isto j\u00e1 foi percebido no s\u00e9culo 19, resultando, no s\u00e9culo 20, em pol\u00edticas de interven\u00e7\u00e3o do Estado: o socialismo e o Estado de bem-estar dos pa\u00edses de capitalismo avan\u00e7ado. O fim da guerra-fria, por\u00e9m, favoreceu a vit\u00f3ria ideol\u00f3gica do neoliberalismo e, com ele, a desregulamenta\u00e7\u00e3o externa do mercado. No caso dos alimentos, essa vit\u00f3ria se deu quando a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio \u2013 e n\u00e3o a FAO (organismo da ONU para a regular a Agricultura e os Alimentos) \u2013 \u00e9 incumbida de regular sua distribui\u00e7\u00e3o em escala mundial. Tratados como uma mercadoria entre outras, os alimentos tornam-se objeto de transa\u00e7\u00f5es de compra e venda regidas pela expectativa de lucros. O Estado renuncia assim a seu poder regulador, e limita-se a prestar socorro a pessoas desvalidas, incapazes de assegurar a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia alimentar \u2013 s\u00e3o os programas de tipo \u201cBolsa Fam\u00edlia\u201d e \u201ccestas b\u00e1sicas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Outra defici\u00eancia cong\u00eanita do mercado, percebida em meados do s\u00e9culo 20 e agora cada vez mais clara, \u00e9 sua \u00edndole produtivista. O mercado s\u00f3 alcan\u00e7a o desejado equil\u00edbrio entre oferta e procura, aumentando a produ\u00e7\u00e3o que, por sua vez, gera novas demandas e o avan\u00e7o sobre os recursos naturais da Terra que sabemos serem limitados. Aqui est\u00e1 uma barreira aparentemente insuper\u00e1vel ao crescimento econ\u00f4mico: a menos que a tecnologia chegue a formas inteiramente novas de produ\u00e7\u00e3o, estamos nos aproximando perigosamente da exaust\u00e3o dos recursos naturais. A atual crise do pre\u00e7o dos alimentos \u00e9 reveladora desse limite. Basta pensar, por exemplo, no consumo de carnes e o desgaste que ele provoca ao transformar florestas e vegeta\u00e7\u00e3o do cerrado em pastagens, e por exigir enormes planta\u00e7\u00f5es de soja e milho (que entre outros danos ecol\u00f3gicos consomem grande quantidade de \u00e1gua na irriga\u00e7\u00e3o) para alimentar animais e aves criados em regime de reclus\u00e3o. Como, na l\u00f3gica do mercado, s\u00f3 se reduz a demanda pela eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os \u2013 e n\u00e3o pela mudan\u00e7a de h\u00e1bitos alimentares, como uma dieta menos devastadora dos recursos naturais \u2013 sua \u00fanica sa\u00edda \u00e9 aumentar a produ\u00e7\u00e3o, ainda que isso implique antecipar a crise ecol\u00f3gica que j\u00e1 esta no horizonte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Visto isso, chega-se a conclus\u00e3o que a atual crise de pre\u00e7os de alimentos est\u00e1 pedindo \u00e0s pessoas de boa-vontade uma s\u00e9ria e alentada reflex\u00e3o sobre o sistema de produ\u00e7\u00e3o e consumo baseado no mercado. O pensamento liberal conquistou a vit\u00f3ria no debate ideol\u00f3gico do s\u00e9culo 18, derrotando o \u201cpaternalismo\u201d aben\u00e7oado pela tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, e recuperou-se do rev\u00e9s sofrido no s\u00e9culo 20 (quando os \u00eaxitos do Estado de bem-estar e do planejamento socialista o ofuscaram), mas hoje ele encontra-se sem argumentos convincentes diante da crise ecol\u00f3gica e da desigualdade social por ele agravadas. Neste contexto, faz-se necess\u00e1rio um pensamento rigoroso e cr\u00edtico, que n\u00e3o se contente em propor corre\u00e7\u00f5es ao sistema de mercado, mas busque alternativas econ\u00f4micas vi\u00e1veis para uma popula\u00e7\u00e3o mundial que poder\u00e1 chegar a dez bilh\u00f5es de pessoas. Este \u00e9 um belo desafio aos crist\u00e3os e crist\u00e3s que n\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o temos mais como modelo o \u201cpaternalismo\u201d tradicional, aprendemos as li\u00e7\u00f5es do socialismo do s\u00e9culo 20, e acreditamos que um novo mundo \u00e9 poss\u00edvel \u2013 porque Jesus ressuscitou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">(1) Cfr. Edward P. THOMPSON: \u201cLa economia \u2018moral\u2019 de la multitud en la Inglaterra del siglo XVIII\u201d: Tradici\u00f3n, revuelta y conciencia de clase; Barcelona, Ed. Cr\u00edtica, 1989 [1\u00aa. 1979], p. 62-134.<\/p>\n<h1 style=\"text-align: right\">Pedro Ribeiro de Oliveira<\/h1>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De repente, fomos surpreendidos por not\u00edcias sobre a falta de alimentos no mundo. Ap\u00f3s trinta anos de relativa estabilidade nos pre\u00e7os, uma s\u00fabita<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/10680"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=10680"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/10680\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=10680"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=10680"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=10680"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}