{"id":10684,"date":"2009-09-11T00:00:00","date_gmt":"2009-09-11T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/agulha-e-linha\/"},"modified":"2009-09-11T00:00:00","modified_gmt":"2009-09-11T03:00:00","slug":"agulha-e-linha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/agulha-e-linha\/","title":{"rendered":"Agulha e linha"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Um conto dos padres do deserto diz que certo monge, vendo a morte chegar, pediu aos seus companheiros que lhe trouxessem a chave do c\u00e9u: queria morrer agarrado a ela. Um companheiro saiu correndo e lhe trouxe a B\u00edblia, mas n\u00e3o era isso que o agonizante queria. Outro teve a id\u00e9ia de trazer a chave do sacr\u00e1rio, tamb\u00e9m n\u00e3o deu certo. Foi ent\u00e3o que algu\u00e9m que conhecia melhor o doente foi buscar agulha e linha. Agarrado a esses objetos prosaicos, o irm\u00e3o passou mais tranq\u00fcilo para a vida eterna. Era o alfaiate da comunidade: sua chave para o c\u00e9u era a atividade di\u00e1ria, carinhosamente realizada para servir aos seus irm\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A historinha nos leva a entender que o trabalho cotidiano do monge foi a sua verdadeira chave para entrar no c\u00e9u. Com certeza ele tamb\u00e9m devia ter rezado muito, meditado bastante, talvez jejuado nos dias certos, e cultivado algumas dezenas de outras virtudes. No entanto ele sabia muito bem que tudo dependia de como ele havia exercido o seu maior servi\u00e7o na comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O caminho da santidade pode passar por momentos extraordin\u00e1rios, gestos de hero\u00edsmo, fa\u00e7anhas memor\u00e1veis; por\u00e9m passa, em primeiro lugar, por aquilo que fazemos bem ou mal no dia a dia. Todos n\u00f3s reconhecemos que, em nossa vida, \u00e9 muito mais pesado o dever cotidiano do que alguns momentos de esfor\u00e7o, dif\u00edceis sim, mas passageiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 por isso que Jo\u00e3o Batista, o precursor, deu respostas diferentes para os diversos grupos de pessoas que lhe perguntavam: \u201cO que devemos fazer?\u201d Todos deviam partilhar o que estava sobrando de suas roupas e de sua comida. A solidariedade com os necessitados e carentes \u00e9 o primeiro passo para iniciar uma nova vida. Sem desprendimento n\u00e3o h\u00e1 verdadeira convers\u00e3o. Depois o profeta do deserto apontou escolhas diferentes para os cobradores de impostos, que extorquiam o povo, e para os soldados que deviam aproveitar demasiadamente da sua for\u00e7a e das suas armas. Significa que cada um deles, naquele tempo, como tamb\u00e9m n\u00f3s, hoje, devemos encontrar o nosso pr\u00f3prio caminho de convers\u00e3o, a partir do lugar onde estamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No entanto, n\u00f3s adoramos apontar onde os outros deveriam mudar e o qu\u00ea deveriam fazer para dar certo. Mais uma vez \u00e9 muito mais f\u00e1cil criticar os outros, ou declarar como nos comportar\u00edamos se estiv\u00e9ssemos no lugar deles, do que come\u00e7ar a corrigir e a melhorar a nossa pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os exemplos n\u00e3o faltam. Muitos sabem perfeitamente o que eles fariam se fossem o presidente ou o governador. No entanto poderiam come\u00e7ar a cuidar melhor das suas fam\u00edlias e dos seus neg\u00f3cios. Mal conseguem administrar os seus lares; o que fariam se tivessem maior responsabilidade? N\u00e3o muito diferente acontece na Igreja tamb\u00e9m. Quem nunca quis dar conselhos ao padre, ao bispo e ao papa? Com toda raz\u00e3o, talvez, mas nem sempre quem distribui senten\u00e7as aplica os mesmos crit\u00e9rios para si mesmo. Com isso n\u00e3o quero dizer que n\u00e3o podemos mais falar ou criticar. Ao contr\u00e1rio, a corre\u00e7\u00e3o fraterna \u00e9 evang\u00e9lica e salutar entre amigos e irm\u00e3os. Quando, por\u00e9m, a cr\u00edtica \u00e9 est\u00e9ril, ou \u00e9 a descarga de m\u00e1goas, invejas e frustra\u00e7\u00f5es, ela n\u00e3o serve nem para quem a recebe e nem para quem a dispara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De acordo com nossas responsabilidades, cada um de n\u00f3s tem muito a melhorar, simplesmente procurando cumprir bem o que se sup\u00f5e seja o seu dever, ou, ao menos, o seu trabalho cotidiano. Assim os pais poderiam caprichar mais na educa\u00e7\u00e3o dos seus filhos. Os educadores deveriam ensinar mais humanidade e amor \u00e0 vida pr\u00f3pria e a dos outros. Quem julga, deveria julgar com justi\u00e7a. Quem administra, faz\u00ea-lo com mais honestidade e lisura. Quem comunica, buscar a verdade e n\u00e3o o seu pr\u00f3prio interesse. Quem deve evangelizar tamb\u00e9m deveria faz\u00ea-lo com alegria, entusiasmo e compet\u00eancia, deixando de lado outras preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Todos precisamos nos agarrar mesmo \u00e0s agulhas e \u00e0s linhas de nossas vidas. Fazer bem o que est\u00e1 ao nosso alcance, no dia a dia, sempre ser\u00e1 a melhor chave para entrar no Reino do C\u00e9u. Se isso ainda nos interessa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um conto dos padres do deserto diz que certo monge, vendo a morte chegar, pediu aos seus companheiros que lhe trouxessem a chave do c\u00e9u: queria morrer agarrado a ela. Um companheiro saiu correndo e lhe trouxe a B\u00edblia, mas n\u00e3o era isso que o agonizante queria. 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