{"id":10693,"date":"2008-06-23T00:00:00","date_gmt":"2008-06-23T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/os-indios-nao-precisam-mais-deixar-de-ser-indios-para-serem-brasileiros\/"},"modified":"2008-06-23T00:00:00","modified_gmt":"2008-06-23T03:00:00","slug":"os-indios-nao-precisam-mais-deixar-de-ser-indios-para-serem-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/os-indios-nao-precisam-mais-deixar-de-ser-indios-para-serem-brasileiros\/","title":{"rendered":"&#8216;Os \u00edndios n\u00e3o precisam mais deixar de ser \u00edndios para serem brasileiros&#8217;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Entrevista especial com Aloir Pacini<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\" \/>\u201cAs pessoas confundem as coisas. N\u00e3o acreditam que os \u00edndios s\u00e3o sujeitos de sua hist\u00f3ria, tomam iniciativas no sentido de garantir seus direitos. S\u00e3o   <!--more-->  os pr\u00f3prios \u00edndios que gritam alto nos diferentes lugares pelos seus direitos.\u201d A opini\u00e3o \u00e9 do antrop\u00f3logo e padre jesu\u00edta Aloir Pacini, em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao falar sobre os dilemas culturais dos povos ind\u00edgenas, ele ressalta a import\u00e2ncia de corrigir a vis\u00e3o dos \u00edndios como \u201cmenores, crian\u00e7as que devem ser tuteladas\u201d. No conv\u00edvio que teve com os \u00edndios, Pacini afirma perceber que eles tomam as suas decis\u00f5es e continuam mantendo-as, mesmo que contr\u00e1rias ao pensamento do mission\u00e1rio que trabalha com eles. E, sobre a viol\u00eancia contra os \u00edndios, ele constata: \u201cH\u00e1 uma consci\u00eancia culpada na sociedade brasileira de que \u2018roubamos\u2019 os \u00edndios e isso leva as pessoas a quererem resolver os problemas \u2018na bala\u2019, porque pensam n\u00e3o ser poss\u00edvel por meios legais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aloir Pacini , possui gradua\u00e7\u00e3o em Filosofia, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e em Teologia, pela Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia, e mestrado em Antropologia Social, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, \u00e9 professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).<\/p>\n<h1 style=\"text-align: justify\">Confira a entrevista.<\/h1>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>IHU On-Line &#8211; Na sua opini\u00e3o, como os \u00edndios s\u00e3o vistos no imagin\u00e1rio social brasileiro? Qual \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o da m\u00eddia para a constru\u00e7\u00e3o da imagem social que o \u00edndio possui hoje no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aloir Pacini &#8211; Conv\u00e9m inicialmente colocar que a palavra \u00edndio \u00e9 uma atribui\u00e7\u00e3o que n\u00f3s damos para um conjunto de popula\u00e7\u00f5es aut\u00f3ctones das Am\u00e9ricas. Eles n\u00e3o se diziam \u00edndios antes de n\u00f3s assim os chamarmos. Eles se autodenominam Rikbaktsa, Kis\u00eadj\u00ea, Enawene Nawe&#8230; As vis\u00f5es sobre os \u00edndios se polarizam em duas posi\u00e7\u00f5es que se dividem entre os que idealizam romanticamente os \u00edndios e os que os demonizam. O saudoso Pe. Adalberto de Holanda Pereira, que veio do Nordeste do Brasil e passou boa parte de sua vida no Mato Grosso pesquisando os mitos dos povos com quem os jesu\u00edtas trabalhavam, repetia sempre que os \u00edndios t\u00eam pecado original. S\u00e3o seres humanos como n\u00f3s. Na verdade, ele queria chamar a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que os povos ind\u00edgenas s\u00e3o gente, possuem culturas diferentes, mas participam de uma mesma humanidade. Em geral, o imagin\u00e1rio brasileiro sobre os \u00edndios \u00e9 de coloc\u00e1-los numa redoma (puros e imaculados), uma esp\u00e9cie de zool\u00f3gico para podermos olh\u00e1-los nas suas diferen\u00e7as como se elas fossem naturais, n\u00e3o constru\u00eddas socialmente. O ex\u00f3tico \u00e9 o que chama a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por isso, os meios de comunica\u00e7\u00e3o social fazem quest\u00e3o de mostrar os \u00edndios com os estere\u00f3tipos que s\u00e3o cocares, arco-e-flecha, casas de palha, sem roupa e assim por diante. Mas tamb\u00e9m parte da m\u00eddia, muitas vezes comprometida com os interesses da explora\u00e7\u00e3o das riquezas dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas, a exibi\u00e7\u00e3o do \u00edndio \u201ccorrompido, perambulando pelas cidades, b\u00eabado, que deixa os filhos morrendo desnutridos porque troca a sexta b\u00e1sica por pinga&#8230;\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o mostram a complexidade das rela\u00e7\u00f5es dos \u00edndios com a sociedade envolvente! A quest\u00e3o \u00e9 encontrar o equil\u00edbrio das posi\u00e7\u00f5es e compreender o que levou as pessoas a chegarem onde est\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>IHU On-Line &#8211; O senhor acredita na simbiose pac\u00edfica e harm\u00f4nica de valores entre a cultura do \u00edndio e do \u201chomem branco\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aloir Pacini &#8211; De forma alguma. Entre pessoas diferentes, sempre existem tens\u00f5es quando se encontram. No n\u00edvel cultural, as coisas parecem acontecer de forma mais tranq\u00fcila, pois os di\u00e1logos culturais est\u00e3o acontecendo desde que os portugueses aportaram por aqui. Mas n\u00e3o \u00e9 algo pac\u00edfico, e nem simbiose. Os \u00edndios mostram sua cultura atrav\u00e9s de alguns sinais diacr\u00edticos, mas tamb\u00e9m a sua cultura est\u00e1 na maneira de se relacionar com a natureza, de migrar. Por exemplo, os Guarani, que est\u00e3o em busca da terra sem males e est\u00e3o se espalhando pelas cidades do Sul do Brasil, o seu territ\u00f3rio tradicional que agora est\u00e1 ocupado pela nossa sociedade. Eles fazem isso culturalmente, e as pessoas os olham com estranheza pela condi\u00e7\u00e3o em que vivem. Mas o dif\u00edcil mesmo \u00e9 que as pessoas de culturas diferentes est\u00e3o tamb\u00e9m interessadas em tomar os \u201cbens\u201d ind\u00edgenas e o Estado do Brasil cresceu sobre os territ\u00f3rios dos povos ind\u00edgenas. Ainda hoje, as Terras Ind\u00edgenas s\u00e3o patrim\u00f4nio da Uni\u00e3o. Os conflitos maiores com a nossa sociedade surgem quando os \u00edndios pedem \u00e0 Funai demarca\u00e7\u00e3o de seu territ\u00f3rio tradicional para terem o usufruto do que est\u00e1 na florestas e rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o as caracter\u00edsticas culturais do \u00edndio nos contextos urbanos? Um \u00edndio pode usufruir da tecnologia contempor\u00e2nea sem deixar de ser \u00edndio, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aloir Pacini \u2013 Certamente, ningu\u00e9m deixa de ser \u00edndio porque usa celular ou anda na cidade. Como eu n\u00e3o me tornei um Rikbaktsa nos dois anos em que estive com eles, mas aprendi muito com esta conviv\u00eancia! Os \u00edndios est\u00e3o a\u00ed, bem perto de n\u00f3s. O censo de 2000 assustou-nos porque cerca de 50% dos que se disseram \u00edndios est\u00e3o na cidade. Em Porto Alegre e Campo Grande, por exemplo, os \u00edndios formam aldeias em contextos urbanos. Outros exemplos s\u00e3o cidades formadas com grande parcela de sua popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena (Manaus e S\u00e3o Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, ou Porto Esperidi\u00e3o, no Mato Grosso).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As tradi\u00e7\u00f5es culturais como as nossas s\u00e3o constru\u00eddas socialmente, s\u00e3o din\u00e2micas e se modificam no processo hist\u00f3rico. Por isso, n\u00e3o vamos ver os Guarani e Kaingang sem roupa andando por Porto Alegre, mas o modo de se organizarem e de pensarem \u00e9 diferente. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 reconhece como \u00edndio no Brasil quem assim se diz, \u00e9 reconhecido pelos seus pares e vive em comunidade. Em Porto Alegre e S\u00e3o Leopoldo, os sinais vis\u00edveis desta diferen\u00e7a aparecem primeiro nas l\u00ednguas e nos balaios (v\u00e3fy), para os Kaingang, e nas esculturas zoomorfas em madeira (bichinhos) dos Guarani. Mas eles s\u00e3o mais do parecem!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os Guarani possuem uma religiosidade intensa, podem passar horas cantando e rezando mesmo nas ruas da cidade, uma religiosidade que acompanha quem adquire um de seus objetos. J\u00e1 os Kaingang, que pertencem ao tronco ling\u00fc\u00edstico J\u00ea, possuem uma organiza\u00e7\u00e3o cosmol\u00f3gica em metades, marcam sua cultura nos espa\u00e7os geogr\u00e1ficos e esfor\u00e7am-se para ter um dom\u00ednio de toda a cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>IHU On-Line &#8211; Como se d\u00e1 a transforma\u00e7\u00e3o dos \u00edndios de objetos para sujeitos da hist\u00f3ria? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aloir Pacini &#8211; Eles sempre, de alguma forma, constru\u00edram sua hist\u00f3ria. Infelizmente, foram envolvidos com a nossa hist\u00f3ria desde que viemos para c\u00e1 e fomos construindo o Brasil sem respeit\u00e1-los. Os portugueses tinham uma convic\u00e7\u00e3o incr\u00edvel de que eles eram a civiliza\u00e7\u00e3o e os \u00edndios eram selvagens e por isso podiam espoli\u00e1-los de muitas formas. Quando n\u00e3o cediam, era quest\u00e3o de declar\u00e1-los inimigos da Coroa e guerrear contra eles. Os \u00edndios \u201cmansos\u201d eram, dependendo do ponto de vista, aliados ou traidores. Na sua maioria, morreram com as doen\u00e7as trazidas da Europa, verdadeiras epidemias grassaram nas aldeias. Os \u00edndios fugiam de um lugar para o outro levando a peste negra, var\u00edola, varicela, gripe, mal\u00e1ria. As alian\u00e7as que os ind\u00edgenas faziam como a Confedera\u00e7\u00e3o dos Tamoios eram formas de agir diante do mundo que se apresentava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje, os povos ind\u00edgenas se organizam em ONGs e atuam na estrutura de Governo, assumindo tamb\u00e9m cargos pol\u00edticos. Mas eles est\u00e3o sendo sujeitos da hist\u00f3ria mesmo \u00e9 onde vivem, interagindo com as pessoas, valorizando os seus pares dentro das aldeias e defendendo seus direitos numa vis\u00e3o do Brasil enquanto pluri\u00e9tnico e multicultural, que marcou a nossa Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988. Os \u00edndios n\u00e3o precisam mais deixar de ser \u00edndios para serem brasileiros. Eles contribuem na constru\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o brasileira na sua diversidade, com o que s\u00e3o tradicionalmente e participando das inst\u00e2ncias pol\u00edticas locais, estaduais e federais como cidad\u00e3os deste Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>IHU On-Line &#8211; O que fazer para que a sociedade valorize e respeite a cultura ind\u00edgena?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aloir Pacini &#8211; A sociedade brasileira tem dentro de si uma sensa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima de que somos um pouco \u00edndio. As crian\u00e7as, na Semana dos Povos Ind\u00edgenas, em abril, fazem quest\u00e3o de se pintarem e dan\u00e7arem como os \u00edndios. Isso \u00e9 uma forma de valorizar o diferente. Outra forma \u00e9 estudar estes povos para compreend\u00ea-los melhor, para n\u00e3o impor o nosso modo de ser. Mas dif\u00edcil \u00e9 respeitar sua cultura, garantindo seus direitos tradicionais ao territ\u00f3rio, aos meios que tradicionalmente tinham para viver. N\u00f3s achamos que, porque eles t\u00eam muita terra, podemos tom\u00e1-la porque assim fizemos nos \u00faltimos 500 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 como se olh\u00e1ssemos para o vizinho que tem mais do que n\u00f3s e tiv\u00e9ssemos o \u201cdireito de pegar\u201d s\u00f3 pelo fato dele ter mais do que n\u00f3s. Pior: o mais dram\u00e1tico \u00e9 que pensamos que podemos tirar deles porque s\u00e3o etnicamente diferentes de n\u00f3s e s\u00e3o como crian\u00e7as. Isso vem da maneira como os pr\u00f3prios \u00edndios historicamente nos acolheram oferecendo-nos o que eles tinham de melhor. Assim foi com os Rikbaktsa. J\u00e1 na primeira vez que fui estar com eles, logo ofereciam chicha e, nos banquetes, era eu quem deveria receber o melhor peda\u00e7o de carne, no caso uma cabe\u00e7a de macaco cozida dentro do mingau de castanha brasileira ralada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o as principais contribui\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia ind\u00edgena para o Brasil e para o mundo do conhecimento ocidental do \u201chomem branco\u201d atual?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aloir Pacini \u2013 Organizei, na 56\u00aa Reuni\u00e3o da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia na UFMT, uma \u00e1rea de atividades que foi bem concorrida: SBPC e a Ci\u00eancia Ind\u00edgena. Foi a ci\u00eancia ind\u00edgena que desenvolveu a maioria dos produtos agr\u00edcolas que consumimos hoje no Brasil e no mundo, como o milho, o tomate, os diferentes tipos de tub\u00e9rculos, as in\u00fameras qualidades de mandioca e batata. Tamb\u00e9m recebemos os conhecimentos sobre plantas medicinais, muitos rem\u00e9dios farmac\u00eauticos que usamos est\u00e3o baseados nos conhecimentos que recebemos dos xam\u00e3s ind\u00edgenas e poder\u00edamos fazer um relat\u00f3rio imenso destas contribui\u00e7\u00f5es. Mas quero aqui chamar a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que cada uma das 220 etnias que existem no Brasil, com cerca de 160 l\u00ednguas, possui uma riqueza enorme de conhecimentos, de elabora\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia humana que se mostra t\u00e3o diversa no planeta terra. As cosmologias que foram sendo elaboradas durante mil\u00eanios foram traduzidas em organiza\u00e7\u00f5es sociais e culturais e em rituais t\u00e3o intensos, que envolvem as suas comunidades nas quais tive oportunidades \u00fanicas de participar. Estas s\u00e3o as contribui\u00e7\u00f5es maiores para a constru\u00e7\u00e3o do Brasil. Cada etnia ind\u00edgena \u00e9 incomensur\u00e1vel, \u00e9 parte do Brasil, um Brasil de cara nova, etnicamente m\u00faltiplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>IHU On-Line &#8211; Como o senhor avalia a pol\u00edtica de demarca\u00e7\u00e3o de terras para os \u00edndios e a postura da FUNAI? Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o sobre o que vem ocorrendo em Raposa Serra do Sol?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aloir Pacini &#8211; Aqui est\u00e1 a ponta de um iceberg. As coisas n\u00e3o come\u00e7aram com as declara\u00e7\u00f5es do Comandante Militar da Amaz\u00f4nia, General Augusto Heleno para O Globo, quando criticou duramente o governo, dizendo que a Terra Ind\u00edgena Raposa Serra do Sol, em Roraima, demarcada por FHC em 1998 e homologada por Lula em 2005, constitui uma amea\u00e7a \u00e0 soberania nacional. Seguiu o chefe do Estado Maior do Leste, general M\u00e1rio Madureira, que apontou o \u201crisco\u201d de os \u00edndios solicitarem a separa\u00e7\u00e3o dessas terras do Brasil, como em Kosovo, coisa de quem n\u00e3o tem o que fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O coronel Jarbas Passarinho disse que Raposa Serra do Sol \u00e9 uma \u201cfronteira viva\u201d, ocupada por fazendas produtivas, que sua demarca\u00e7\u00e3o amea\u00e7a a integridade nacional. Aqui est\u00e1 o problema: a id\u00e9ia disseminada entre os brasileiros \u00e9 de que \u00edndio \u00e9 pregui\u00e7oso e n\u00e3o produtivo. Precisamos pegar suas terras para produzir, no caso, arroz. Essa pol\u00eamica pegou fogo porque mexeu com a intui\u00e7\u00e3o nacional de que a Amaz\u00f4nia j\u00e1 foi vendida para o capital estrangeiro n\u00e3o pelos \u00edndios, mas como propriedades privadas em nome de \u201claranjas\u201d. Foram muitos anos de luta dos Macuxi para conseguirem demarcar suas terras. Alguns poucos arrozeiros conseguiram cooptar alguns Macuxi, que trabalhavam para eles, para serem \u201cbucha de canh\u00e3o\u201d, por isso resistem, armados, a uma ordem judicial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O pr\u00f3prio Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a opera\u00e7\u00e3o de retirada dos grileiros, ocupantes ilegais da Terra Ind\u00edgena Raposa Serra do Sol, e assim estimula os grupos que reagem com viol\u00eancia contra a lei quando ela fere seus interesses. O Globo desinforma em manchetes que os \u00edndios querem decepar o Brasil, como se deixar de plantar arroz na Terra Ind\u00edgena implicasse em n\u00e3o plantar em outros lugares: \u201cdesestabiliza\u00e7\u00e3o da agricultura local\u201d. Importante aqui \u00e9 saber que o governo \u201cn\u00e3o deu terras\u201d aos \u00edndios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Foi a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 que reconheceu o direito dos Macuxi usufru\u00edrem dos territ\u00f3rios que ocupam tradicionalmente. Trata-se de uma pol\u00edtica de Estado. As terras ind\u00edgenas s\u00e3o propriedade da Uni\u00e3o, e existem bases militares dentro das terras ind\u00edgenas de faixa de fronteira. Por que o usufruto pelos \u00edndios de terras que ocupam milenarmente amea\u00e7aria a soberania nacional? Os Macuxi, como os Xavante e todos os \u00edndios no Brasil se sentem brasileiros, amam o Brasil e o defender\u00e3o, armados com arco-e-flecha se preciso for.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>IHU On-Line &#8211; Na sua opini\u00e3o, o trabalho de registro e preserva\u00e7\u00e3o da cultura ind\u00edgena est\u00e1 sendo bem feito no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aloir Pacini &#8211; A arte material ind\u00edgena foi sempre cobi\u00e7ada e levada para os diferentes museus, mas ela foi confeccionada dentro de um contexto. \u00c9 a vida do povo que precisa ser conhecida para compreender o sentido de cada artefato. Muitas destas cole\u00e7\u00f5es de artefatos precisam ser completadas e outras iniciadas. As universidades t\u00eam produzido muito material a respeito dos povos ind\u00edgenas, especialmente os departamentos de antropologia e os museus. Mas, em geral, este conhecimento fica restrito ao campus. O Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (IPHAN) est\u00e1 fazendo um esfor\u00e7o de registro do patrim\u00f4nio imaterial e a\u00ed entram tamb\u00e9m as festas e rituais que os povos ind\u00edgenas realizam. Participei no Minist\u00e9rio da Cultura de um Grupo de Trabalho da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural que pensa a inclus\u00e3o das culturas ind\u00edgenas nos programas de incentivo cultural deste Minist\u00e9rio e criamos o Pr\u00eamio Culturas Ind\u00edgenas que, na Edi\u00e7\u00e3o \u00c2ngelo Creta, 2006, premiou 80 a\u00e7\u00f5es culturais com R$ 15.000,00.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Acompanhei especificamente, no final do ano passado, a Aldeia Vila Nova Barbeicho, dos Chiquitano, na apresenta\u00e7\u00e3o da sua cer\u00e2mica tradicional para a edi\u00e7\u00e3o Xic\u00e3o Xucuru, do pr\u00eamio 2007. Ser\u00e3o premiadas 100 iniciativas culturais ind\u00edgenas e eles est\u00e3o com esperan\u00e7a de conseguir o pr\u00eamio agora. N\u00e3o conseguiram o pr\u00eamio anteriormente por causa da dificuldade de registro do processo de confec\u00e7\u00e3o das cer\u00e2micas. Esta parece ser, como outras tantas, uma forma de incentivo para os diferentes povos, mas existe ainda muito trabalho a ser feito em termos de pesquisas e de registros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>IHU On-Line &#8211; Como o senhor define a espiritualidade e a m\u00edstica das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e como se relacionam, nesse aspecto, com as cren\u00e7as crist\u00e3s do \u201chomem branco\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aloir Pacini &#8211; Penso que as pessoas verdadeiramente religiosas tenham uma sensibilidade para perceber a grandiosidade da maneira dos outros religiosos se expressarem. O di\u00e1logo inter-religioso \u00e9 algo que est\u00e1 na ordem do dia. As diferentes tradi\u00e7\u00f5es religiosas trazem contribui\u00e7\u00f5es valiosas para a compreens\u00e3o de n\u00f3s mesmos enquanto seres humanos que remetem suas vidas a um transcendente, mas tamb\u00e9m contribui\u00e7\u00f5es para a compreens\u00e3o deste mundo que nos transcende. Os povos ind\u00edgenas possuem religi\u00f5es que est\u00e3o inseridas dentro de todo o conjunto sociocultural que lhes \u00e9 pr\u00f3prio. Por isso, s\u00e3o preciosidades que devem ser consideradas no di\u00e1logo que nos enriquece enquanto crist\u00e3os tamb\u00e9m. Por exemplo, Auca Rikbaktsa disse para o Pe. Jo\u00e3o Dornstauder, que eles tamb\u00e9m tinham \u201cCristo\u201d logo depois de ele ter conseguido pacificar a guerra contra os seringueiros em 30 de julho de 1957. Provavelmente, associou o personagem da hist\u00f3ria judaica-crist\u00e3 com um her\u00f3i civilizador da tradi\u00e7\u00e3o Rikbaktsa. Mas ali j\u00e1 come\u00e7ou um di\u00e1logo religioso que continua at\u00e9 hoje com o Pe. Balduino Loebens que j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1 com eles h\u00e1 cerca de 40 anos. A m\u00edstica ind\u00edgena, em geral, possui uma rela\u00e7\u00e3o religiosa com os seres da natureza porque s\u00e3o esp\u00edritos, possuem ag\u00eancia e interagem com o ser humano, algo semelhante ao que S\u00e3o Francisco de Assis percebeu quando tratava tudo como irm\u00e3o e irm\u00e3. Por isso, Jo\u00e3o Paulo II foi ali rezar pela paz com os representantes das outras religi\u00f5es do mundo. Os di\u00e1logos religiosos s\u00e3o gostosos, nos enriquecem, permitem que cres\u00e7amos como gente e nos tornemos melhores. N\u00e3o se dialoga com o mesmo porque n\u00e3o ter\u00edamos o que falar, s\u00f3 com os diferentes \u00e9 que podemos entrar em di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>IHU On-Line &#8211; Como \u00e9 a quest\u00e3o das amea\u00e7as de grupos historicamente contr\u00e1rios aos povos ind\u00edgenas aos mission\u00e1rios que trabalham com os \u00edndios?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aloir Pacini &#8211; Este assunto espinhoso \u00e9 complicado. As pessoas confundem as coisas. Pensam que quem trabalha com os \u00edndios tem \u201cdom\u00ednio\u201d sobre eles. Isso porque n\u00e3o acreditam que os \u00edndios s\u00e3o sujeitos de sua hist\u00f3ria e tomam iniciativas, no sentido de garantir seus direitos. Esta vis\u00e3o dos \u00edndios como menores, crian\u00e7as que devem ser tutelados, \u00e9 heran\u00e7a das Miss\u00f5es e do Marechal Candido Rondon, criador do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios. Percebo que os \u00edndios tomam as suas decis\u00f5es, muitas vezes sem que os que est\u00e3o trabalhando com eles o saibam, outras vezes acontecem di\u00e1logos e os \u00edndios continuam mantendo suas decis\u00f5es, mesmo que contr\u00e1rias ao pensamento do mission\u00e1rio. Quem trabalha com os \u00edndios \u00e9 amea\u00e7ado porque entram em jogo quest\u00f5es s\u00e9rias de riquezas minerais, madeira, invas\u00e3o e arrendamento de terras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 uma consci\u00eancia culpada na sociedade brasileira de que \u201croubamos\u201d os \u00edndios, e isso leva as pessoas a quererem resolver os problemas \u201cna bala\u201d, porque pensam n\u00e3o ser poss\u00edvel por meios legais. Por exemplo, as terras tradicionais dos Chiquitano, na fronteira com a Bol\u00edvia, foram tomadas por fazendeiros, muitos deles pol\u00edticos que n\u00e3o possuem t\u00edtulos leg\u00edtimos das terras. Nestes casos, uma ilus\u00e3o de solu\u00e7\u00e3o \u00e9 amea\u00e7ar quem poderia falar algo contr\u00e1rio a estes interesses porque sempre existir\u00e3o profetas, sejam eles mission\u00e1rios ou n\u00e3o. Assim pensam que amea\u00e7ar o Pe. Balduino Loebens, o Pe. Isidoro Salom\u00e3o ou o Pe. Fel\u00edcio Fritsch resolve alguma coisa, mas a hist\u00f3ria mostra que os martirizados, como o Pe. Jo\u00e3o Bosco Burnier ou o Ir. Vicente Ca\u00f1as, refor\u00e7aram a luta dos \u00edndios. Falo de ilus\u00e3o porque n\u00e3o s\u00e3o os mission\u00e1rios que amea\u00e7am as pretens\u00f5es de usurpa\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas, mas s\u00e3o os pr\u00f3prios \u00edndios que gritam alto nos diferentes lugares pelos seus direitos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista especial com Aloir Pacini \u201cAs pessoas confundem as coisas. 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