{"id":10757,"date":"2009-10-06T00:00:00","date_gmt":"2009-10-06T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-igreja-e-a-nova-realidade-da-africa-que-nao-e-a-mendiga-do-mundo\/"},"modified":"2009-10-06T00:00:00","modified_gmt":"2009-10-06T03:00:00","slug":"a-igreja-e-a-nova-realidade-da-africa-que-nao-e-a-mendiga-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-igreja-e-a-nova-realidade-da-africa-que-nao-e-a-mendiga-do-mundo\/","title":{"rendered":"A Igreja e a nova realidade da \u00c1frica, que n\u00e3o \u00e9 a mendiga do mundo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">&#8220;Quando se fala de cultura africana, \u00e9 preciso estar atento, porque o discurso sobre a autenticidade africana corre o risco de revelar uma constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">passadista. A cultura africana hoje \u00e9 mais moderna do que as representa\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-folcl\u00f3ricas ou tradicionais, feitas por europeus ou africanos.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A opini\u00e3o \u00e9 do te\u00f3logo italiano Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Eg\u00eddio, em artigo para o jornal Corriere della Sera, 05-10-2009. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de Mois\u00e9s Sbardelotto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iniciou-se o S\u00ednodo dos bispos para a \u00c1frica. Depois da viagem de Bento XVI ao Camar\u00f5es e \u00e0 Angola em mar\u00e7o passado, a Igreja convoca agora os seus Estados gerais sobre o &#8220;continente doente&#8221;. L\u00e1, o catolicismo conheceu um crescimento imponente no s\u00e9culo XIX. Os cat\u00f3licos passaram de menos de dois milh\u00f5es em 1900 para mais de 160 milh\u00f5es hoje. O tempo do colonialismo foi tamb\u00e9m o de um intenso per\u00edodo mission\u00e1rio. A Igreja n\u00e3o foi embora do continente seguindo as pot\u00eancias coloniais. Desde os anos 50, africanizou os seus quadros, assumindo um rosto africano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por\u00e9m, conheceu graves dificuldades e persegui\u00e7\u00f5es. N\u00e3o s\u00f3 os cat\u00f3licos. O patriarca ortodoxo da Eti\u00f3pia, Paulos (convidado para falar no S\u00ednodo), conheceu a dura repress\u00e3o do ditador Menghistu, que o prendeu e assassinou tantos religiosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nos anos 90, a Igreja na \u00c1frica teve um papel central nas transi\u00e7\u00f5es da ditadura para a democracia. Grandes figuras cat\u00f3licas se impuseram desde o fim da independ\u00eancia, como o senegal\u00eas Senghor (um dos poucos l\u00edderes do seu tempo que deixou o poder espontaneamente) ou o presidente Nyerere da Tanz\u00e2nia. E hoje? O catolicismo \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o de passagem, mesmo continuando a ser um dos maiores recursos humanos da \u00c1frica.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Mas em que sentido?<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">A Igreja \u00e9 desafiada pela vitalidade do Isl\u00e3, \u00e0s vezes radical. Mas tamb\u00e9m por uma mensagem crist\u00e3 alternativa: Igrejas livres e seitas prop\u00f5em um cristianismo quente, milagroso, sentimental. Bento XVI falou sobre os riscos do &#8220;fundamentalismo religioso, misturado com interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos&#8221;: &#8220;Grupos que se remetem a diversas perten\u00e7as religiosas \u2013 disse ele ontem \u2013 est\u00e3o se difundindo no continente africano; fazem-no em nome de Deus [&#8230;] ensinando e praticando n\u00e3o o amor e o respeito \u00e0 liberdade, mas a intoler\u00e2ncia e a viol\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Igreja ressente-se pela diminui\u00e7\u00e3o e pelo envelhecimento dos mission\u00e1rios do Ocidente. Na \u00c1frica, as igrejas cat\u00f3licas est\u00e3o sempre cheias, mas em alguns pa\u00edses o catolicismo tem uma posi\u00e7\u00e3o menos central do que ontem e \u00e9 sumamente desafiado pelo pluralismo religioso e cultural. S\u00e3o problemas claros para Bento XVI, que, no ano sacerdotal, olha com aten\u00e7\u00e3o para os 34 mil padres africanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A \u00c1frica conta com padres jovens, corajosos, generosos, mas \u00e0s vezes tentados pelo exerc\u00edcio de um &#8220;poder&#8221; clerical. N\u00e3o se pode generalizar, mas o estilo do poder, t\u00edpico das sociedades africanas, pode contagiar bispos e padres. Essa situa\u00e7\u00e3o tem uma reca\u00edda nos leigos cat\u00f3licos. As grandes figuras de &#8220;leigos&#8221; (Nyerere ou Senghor) est\u00e3o em decl\u00ednio. Na \u00c1frica, os leigos (e as religiosas), decisivos na vida da Igreja, s\u00e3o muitas vezes s\u00f3 os colaboradores dos padres. V\u00ea-se isso pela aus\u00eancia dos cat\u00f3licos em muitas classes dirigentes. O S\u00ednodo africano dar\u00e1 vitalidade \u00e0 Igreja no continente em todos os seus componentes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Papa Ratzinger prop\u00f4s, desde cedo, n\u00e3o ajustamentos estruturais, mas a &#8220;alta medida da vida crist\u00e3, isto \u00e9, a santidade&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Diante dos bispos, abre-se o cen\u00e1rio das guerras, das pandemias e da pobreza do continente. Mas a \u00c1frica n\u00e3o \u00e9 toda &#8220;negra&#8221;. Apesar das crises, ela retorna ao centro do interesse mundial. V\u00ea-se isso pela pol\u00edtica ativa da China. Em um encontro recente, promovido pela Funda\u00e7\u00e3o Banco di Sicilia e pela Ambrosetti, revelou-se como a \u00c1frica \u00e9 uma grande oportunidade para as empresas europeias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Trinta e tr\u00eas pa\u00edses africanos j\u00e1 crescem de um ponto de vista econ\u00f4mico. Est\u00e1 emergindo uma nova gera\u00e7\u00e3o jovem, pronta para aproveitar as ocasi\u00f5es da globaliza\u00e7\u00e3o, com um horizonte cultural diferente do tradicional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando se fala de cultura africana, \u00e9 preciso estar atento, porque o discurso sobre a autenticidade africana corre o risco de revelar uma constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e passadista. A cultura africana hoje \u00e9 mais moderna do que as representa\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-folcl\u00f3ricas ou tradicionais, feitas por europeus ou africanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A compreens\u00e3o da \u00c1frica deve ser mais articulada do que aquela compreens\u00e3o dolorosa, mas simplificada, do tempo das ditaduras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A sociedade, que se complexificou, n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o naturalmente religiosa como tanto se disse. Se grandes massas ainda est\u00e3o suspensas entre passado e futuro, muitos africanos deram um salto para frente. Pela rapidez das mudan\u00e7as, talvez os bispos cat\u00f3licos dever\u00e3o ler a realidade e n\u00e3o confiar em estere\u00f3tipos, para entender melhor o mundo dos seus fi\u00e9is. O Papa deu exemplo disso ao falar de for\u00e7a atrativa do &#8220;materialismo pr\u00e1tico&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Persistem graves situa\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria, guerra e doen\u00e7as. A cura da Aids precisa de importantes recursos. A \u00c1frica, sozinha, n\u00e3o ir\u00e1 conseguir. Ela precisa de ajuda, de investimento, de inser\u00e7\u00e3o na rede mundial. Por\u00e9m, ela pode dar muito em todos os n\u00edveis. N\u00e3o \u00e9 a mendiga do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 significativo que, no ano da crise econ\u00f4mica, a Igreja coloque a \u00c1frica no centro: &#8220;A \u00c1frica representa um imenso pulm\u00e3o espiritual para uma humanidade que parece em crise de f\u00e9 e de esperan\u00e7a&#8221;, disse o Papa. Mas esse pulm\u00e3o pode adoecer. Os bispos cat\u00f3licos n\u00e3o podem gerir s\u00f3 um grande patrim\u00f4nio religioso, mas sim ir em profundidade e arriscar o caminho do futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Fonte: IHU<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Quando se fala de cultura africana, \u00e9 preciso estar atento, porque o discurso sobre a autenticidade africana corre o risco de revelar uma constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/10757"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=10757"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/10757\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=10757"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=10757"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=10757"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}